sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Marcio Fonseca entrevista o artista Adriano Moraes

Conversando sobre Arte entrevista com o artista performático Adriano Moraes, Goiânia.





Quem é Adriano Moraes?
 Adriano Braga de Moraes mora e trabalha em Goiânia, é artista visual e atualmente investiga questões subjetivas num processo diretamente ligado ao corpo e seus significados. Sua investigação propõem reflexões de questões contemporâneas, referente à vida e a morte, à efemeridade, o corpo e a imagem; além de abranger questões conceituais relacionadas ao campo das Artes Visuais. Discute também à intimidade e a subjetividade num contexto atual, pautado numa lógica de consumo. Sua pesquisa é de livre criação em performance e de âmbito experimental, em um processo que une fotografia e vídeo pelo fotógrafo Junior Ribeiro com quem realiza toda a parte de documentação e registro. Por meio de elementos do foro do seu cotidiano, como espelho, e os grãos de feijão traz um processo diretamente ligado à vida e seus significados. Atua também enquanto professor de artes em perspectiva inclusiva em um viés transpsicomotor, no qual desenvolve com crianças, jovens e adultos a ampliação do olhar e sua relação com a vida.

Qual sua formação artística?
Sou formado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás e  em Transpsicomotricidade(ainda em curso) vinculada a UERJ. Meu desejo é de uma formação que vá em direção à três vieses : artista, professor e pesquisador. Para que isso aconteça acho indiscutível a necessidade de uma formação continuada, que não obrigatoriamente esteja relacionada com a academia ou qualquer instituição de ensino formal.
 Estamos sempre em situação de aprendizado, seja para o bem ou para o mal! A minha formação, no entanto esteve relacionada à esses lugares mais institucionais, mas não só. Ela está vinculada também ao meu exercício docente, aprendo a cada dia enquanto ensino, assim como em cada trabalho que realizo e pesquisa que desenvolvo.

Que artistas influenciam em seu pensamento?

No campo das Artes Visuais tenho como influência o trabalho de Lygia Clark, Hélio Oiticica e Flávio de Carvalho. Este último em especial guardo um carinho imenso pelo seu espírito inquieto, controverso e anedótico.

 


    É possível viver de arte no Brasil?

Sim. O mercado, no entanto é algo complexo que possui uma lógica própria que às   pouco tem haver com a lógica da História da Arte e com o circuito mais especializado. Os processos de legitimação também nem sempre andam em consonância com os processos de aprofundamento das pesquisas ou das contribuições da produção de determinado artista.

Não podemos perder de vista que existe muita gente ganhando dinheiro com o circuito da arte.   Muitos artistas à guisa de exemplo, no entanto caem em armadilhas na sua produção ao nortearem suas pesquisas numa tentativa de atenderem a lógica do mercado. Por outro lado, existe o entendimento de arte relacionada apenas ao âmbito espiritual, como se ao artista não devesse existir um retorno que é também financeiro.

Paralelo as questões de mercado, acredito que hoje se encontre mais evidente uma tentativa de escamoteamento de questões relacionadas ao sensível. Existe por trás um projeto que não está interessado na arte no Brasil e nem do Brasil. E esse projeto é um projeto estético-político e também histórico.

 

Como você é remunerado pelas performances?

Geralmente a minha articulação é em direção à instituições públicas o que não envolve uma remuneração financeira. Quando penso, no entanto na remuneração de um trabalho penso em algo que está para além de um valor em dinheiro. A construção da última ação intitulada Olho de Vidro, por exemplo, foi algo que envolveu mais ou menos três meses de trocas de e-mails com a doutora Noeli Batista(UFG) que me ajudou a estruturar todo o plano de ação da performance. Para, além disso, teve a articulação com o curador do museu e a leitura da Bibliografia da Marcia Tiburi(USP) que deu também o nome a performance. Todas essas experiências de diálogo e embates trouxeram à mim aprendizados e retornos imensuráveis.

 


   
Há público para esse tipo de arte?

Sim. Existe, no entanto um bloqueio com relação a Performance Arte o que não posso deixar de ressaltar. Muitas pessoas a consideram ainda hoje uma arte menor e muitos nem a consideram arte. Esse bloqueio está diretamente relacionado a uma dimensão de esquecimento do nossos corpos que é também histórico. Desde a pré-alfabetização já temos uma construção de um imaginário pautado na inibição de nossos corpos. A arquitetura da sala de aula, assim como nossas pedagogias e metodologias seguem muitas vezes modelos ainda do século XIX que privilegiam uma experiência que não é do corpo em sua plenitude. O corpo está sentado e em silêncio em nossas salas de aula, o que interessa é o âmbito mental, elegido enquanto estruturante das nossas experiências de aprendizado. No circuito da arte não é muito diferente!

Na minha vivência em "Eu e o pé de feijão" na qual fiquei três dias de olhos fechados enquanto crescia em minha orelha um grão de feijão realizada no MAG tive a oportunidade de estar em contato com um público espontâneo, e foram inúmeras as narrativas ali construídas, mesmo eu em silêncio e deitado numa maca.  


      Que comentários você faria sobre a arte contemporânea em Goiânia?

Goiânia é representada por um significativo grupo de artistas que se dedicam a produção contemporânea de arte em linguagens variadas. Faço um destaque em especial ao artista e professor Carlos Sena que teve efetiva participação na formação desse grupo de artistas enquanto professor na Faculdades de Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás, curador e produtor crítico na cidade. A produção crítica ainda hoje possui poucos colaboradores: Divino Sobral vem apresentando um processo curatorial bastante significativo, assim como  Gilmar Camilo, Agnaldo Coelho, Antonio da Mata e Márcio Pizarro.


Qual sua opinião sobre as recentes discussões sobre nudez, pedofilia em arte?

O que está por trás disso tudo é um projeto político e de poder que tem estado relacionados a tradicionais partidos políticos. Esse projeto político não possui dimensão histórica e apostam na potência do ódio para fragmentar-nos, e nos silenciar. Esse projeto não está preocupados com a arte, com as crianças ou com os nossos corpos!

 

 


   Quais são seus planos futuros?

A minha próxima ação será a performance intitulada Olho de Vidro, inspirada pela leitura do livro "Olho de Vidro" da escritora e filósofa Márcia Tiburi(USP).

 A vivência performática trará o performer durante 30 dias de frente à televisão. O local é o cubo de vidro na lateral do MAG(museu de arte de Goiânia), local que é meio dentro/fora do museu. A performance de longa duração está vinculada ao contexto de comunicação em rede, e por isso intenta ser transmitida no contexto das redes sociais, que ainda em sua maioria apenas replicam conteúdos da televisão, a crítica está para além da caixa de vidro(MAG), que não deixa de ser a caixa, mesmo que desterritorializada. A curadoria é de Antônio da Mata. 


   Outras informações

Adriano Braga de Moraes mora e trabalha em Goiânia, é licenciado em Artes Visuais e atualmente investiga questões subjetivas num processo diretamente ligado ao corpo e seus significados. Sua investigação propõem uma reflexão de questões contemporâneas, referente a vida e a morte, corpo e a imagem. Discute também à intimidade e a subjetividade num contexto atual, pautado numa lógica de consumo. Sua pesquisa é de livre criação em performance e de âmbito experimental, em um processo que é muito mais extenso que aqui se apresenta via portfólio; e une fotografia e vídeo pelo fotógrafo Junior Ribeiro com quem realiza toda a parte de documentação e registro. Por meio de elementos do foro do seu cotidiano, como espelho, e os grãos de feijão traz um processo diretamente ligado à vida e seus significados. O fio condutor por onde desenvolve a maior parte da produção está imbricado com questões que permeiam o cotidiano, assim como dito anteriormente, a vida. Deve-se ressaltar que o que se vislumbra é do âmbito de uma pesquisa poética e política. Inicia seu estudo em 2012 pela Universidade Federal de Goiás na Faculdade de Artes Visuais, Goiânia/ GO. Em 2014 realiza na 31ª Bienal De Arte De São Paulo a primeira performance juntamente com ROGO, no espaço educativo. Também nesse período tem vivências na prática docente e estagia na Galeria da Faculdade de Artes Visuais - FAV. Em 2016 inicia formação(em curso) em Transpsicomotricidade, vinculado a UERJ. No MAG realiza as performance “Eu e o pé de feijão” e “Olho de vidro” com curadoria de Antônio da Mata. No Grande Hotel e no Centro Cultural realiza ações, no último vinculado ao DIGO festival Internacional.

Em “Eu e o pé de Feijão” revisito a história João e o pé de feijão da minha infância, assim como questões de vida e de morte. O mesmo algodão que aparece na orelha enquanto elemento onírico nessa proposta se faz presente também nas cerimonias ocidentais de enterro. A performance tem como intento o acompanhar do desenvolvimento do grão de feijão posto na orelha, buscando algo de uma unidade eu e mundo; o trabalho se encerra com o plantio do grão na terra.O feijão é o que facilmente se descarta, o que quase não se vê devido ao seu diminuto tamanho, mas que traz potência e vida. O olho fechado diz de uma visão que não é biológica, enxergar de olho fechado está relacionado a esse mergulho a uma interioridade e subjetividade que experimento no processo de construção artística. É carregado de outros sentidos também, é importante ressaltar; o fechar dos olhos de uma oração, a situação de transe psíquico, a morte. O registro é realizado por Junior Ribeiro da performance "Eu e o pé de feijão" é realizada no MAG nos dias 18,19,20 de maio com curadoria de Antonio da Mata. A duração da performance de três dias. O grão germinou já no segundo dia e a performance se encerrou com chuva e o plantio do grão.





Na performance intitulada "Semente " é cavado um buraco na terra bruta e é onde se faz leito para deitar em posição fetal. A vala aqui cavada traz a questões relacionadas ao ritual de enterro ocidental, mas a postura do performer em posição fetal traz alusão a uma vida uterina. O olho fechado diz de uma visão que não é biológica, enxergar de olho fechado está relacionado a esse mergulho a uma interioridade e subjetividade que experimento no processo de construção artística. É carregado de outros sentidos também, é importante ressaltar; o fechar dos olhos de uma oração, a situação de transe psíquico, a morte. Esse trabalho foi realizado no Enconstrução Ateliê e tem como produto final tanto a foto como a própria performance. Ambas as proposições( a performance e a foto) intentam refletir com relação à unidade eu e mundo já presente no trabalho previamente apresentado ao MAG "eu e o pé de feijão". A série é composta por 2 fotografias no tamanha de aproximadamente 50 x 70 cm cada.





Em SELF encaro de olho fechado o espelho que traz a silhueta do meu corpo. Recuperando elementos do cotidiano e utilizando meu corpo e a minha imagem, à guisa de exemplo trago metaforizado no espelho o meu estado psicológico e subjetivo(interioridade e exterioridade) e intento discutir questões do âmbito do narcisismo e do individualismo, mas de uma perspectiva crítica, poética e política diante de uma sociedade de consumo, competitiva e individualista, que banaliza tudo – ao mesmo tempo que objetifica tudo com a intenção de transformar em mercadoria, seja nossos corpos, afetos e sentimentos - principalmente esses com baixo teor técnico e tecnológico.O corpo e a autoimagem muitas vezes objetificados, distorcidos pela lógica do consumo, também submetido à ordem de controle da sociedade de consumo e dos poderes autoritários é trazido enquanto elemento da linguagem artística conjugando o corpo aqui diante da indústria cultural e ao circuito de arte, refletindo sobre os processos de construção de subjetividades ou de desubjetivação do sujeito na nossa sociedade, é apresentado tal como um Ready Meade, ou escultura, afastado da sua função cotidiana. Revisito a metáfora do espelho (tanto em “Selfie” como em “Narciso”) sob sua vasta gama simbólica e imagética, confrontando ao meu corpo isolado também para refletir sobre o processo de individualização. O espelho traz meus fantasmas, minhas distorções, guarda a expectativa sobre o que as pessoas projetam em mim. Minha presença física é contrastada pela imagem refletida pelo espelho, como numa “selfie” tão comum em tempos de reprodutividade técnica. Na minha fantasia acredito que na “selfie” que apresento existe uma distância, que é o hiato entre meu corpo e minha imagem. Performance realizada para o Festival Internacional DIGO - Centro Cultural UFG.



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