segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Marcio Fonseca entrevista Rafael Vogt Maia, SP

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Rafael Vogt Maia




Quem é Rafael Vogt Maia (Rosa)? 
Sou um pesquisador e trabalho hoje, basicamente, com curadorias, palestras sobre arte, e experiências com aquarela e gravações de música para teclado e piano.

Como a arte entrou em sua vida?
Pela voz de minha mãe cantando Sabiá Lá na Gaiola. É como a memória de uma febre ainda pré-verbal, uma primeira melodia que perfaz toda a história de uma vida. Foi uma formação também em conservatório musical e estudos de violoncelo com Zygmunt Kubala. Passamos muitas aulas apenas afinando o instrumento ou ouvindo rádio, particularmente a Escala FM, o kitsch musical. Nos anos em que convivemos fui testemunha da relação do instrumentista com a vida familiar e os desafios técnicos que se apresentariam  incontrolavelmente no processo de aprimoramento físico. Compus minhas primeiras peças nessa época em que parei de estudar o  instrumento e parti para uma outra etapa voltada mais à escuta.

Que artistas influenciam em sua obra?
O artista que mais me influenciou foi Oswald de Andrade, sobre quem escrevi minha dissertação de mestrado na USP. Wesley Duke Lee, com quem estive em algumas ocasiões, também se estabeleceu como uma presença permanente em minha tentativa de pensar as relações entre Brasil e EUA, nos anos de 1960 e 70. Em um desses encontros, eu toquei piano pra ele que me fez uma advertência explícita quanto ao inglês homofônico com que cantava canções do Bob Dylan, o certo era, de fato, cantar em um inglês sem sentido definido entre palavra e som.

Como você descreve seu trabalho? 
Sou um pesquisador. Já fui repórter e foi o momento mais feliz de minha vida profissional, porque isso me permitiu conhecer escritores, artistas , críticos e entrevistá-los. Estive ligado por um bom tempo ao CPT do Antunes Filho, no Círculo de Dramaturgia. Depois, também pesquisei no departamento de teatro de Yale. Experimentei essas liturgias ligadas à teatralidade. Escrevi meu melhor trabalho autoral até aqui nesse limiar.

O material nacional para pintura já tem qualidade suficiente?
Industriais, acredito que, sim. Humanos? Sim, definitivamente. Tudo pode partir de uma nova aproximação com essas especialidades técnicas num processo de experimentação.

Você tem uma excepcional formação acadêmica, você pode descrevê-la e comentá-la?
Sou graduado em Letras e Linguística , fiz meu mestrado sobre a prosa vanguardista de Oswald e um doutorado sobre aproximações entre arte contemporânea e o teatro, com período sanduíche em Yale. Entre 2013 e 2015, fui pesquisador convidado no Yale Theater Studies, do que resultou um vídeo de 30 min intitulado The False Beginners. Atualmente concluo um relatório de posdoc no Departamento de Artes Plásticas da USP.

Que comentários você faria sobre sua formação na Yale University?
Tive muita sorte nesse lugar, conheci colegas dramaturgos e professores como Barbara Hammond, Toni Dorfman e , especialmente, Frederick Lamp, um especialista em teatro africano e dança, na casa de quem vivi em New Haven. Outra pessoa chave em minha relação com essa instituição é Kenneth David Jackson, professor do departamento de Português e Espanhol, o tradutor, nos EUA, do romance-invenção Serafim Ponte Grande, de Oswald, um violoncelista, pai de uma família muito ligada ao Brasil , à literatura de nosso país e à música. Villa-Lobos foi minha ponte com Nova York, algo que está em sua peça NY Skyline, de quem ouvi falar pela primeira, pelo David. Ele escreveu um livro sobre Machado de Assis, publicado não faz muito tempo, lá.

Além de artista você atua como curador e crítico, como você descreve esse trabalho?
É um trabalho ligado ao pensamento e à pesquisa de um processo empreendido pelo outro. Isso vem ressoando no meu processo, psicanalítico e criativo. Hoje eu trabalho mais em uma perspectiva de aproximação com o público, faço visita à museus, palestras sobre temas como "a cor" na arte brasileira, falas sobre obras, processos e pessoas. Tenho trabalhado diariamente com a aquarela, algo que remonta à minha experiência na infância e adolescência com a antroposofia de Rudolf Steiner, na Escola Waldorf, e, naturalmente, ao trabalho de meus pais, que são, a rigor, um casal de artistas que se conheceu e começou a trabalhar na Escola Brasil: , um centro de ensino e experimentação artística curado, a despeito de não haver essa nomenclatura, provavelmente, por José Resende, Frederico Nasser, Carlos Fajardo e Luiz Paulo Baravelli.

Você poderia comentar algo sobre o curso ministrado por você Oficina de crítica e escrita sobre arte? 
Paula Alzugaray e Ricardo Van Steen me apresentaram essa possibilidade para ministrar a oficina em sua casa, no Pacaembu; lá estou conhecendo novos pesquisadores e profissionais de outras áreas, pessoas, de todo modo, bastante envolvidas com a cultura em um momento tão particular de nossa história recente.

Sobre o que versa sua pesquisa no pós doutorado?
Inicialmente, tratava-se de um estudo sobre a teatralidade na obra de Wesley Duke Lee, com base em uma revisão crítica de sua instalação “The Birth Capsule” [A Cápsula do Nascimento], produzida pelo artista em 1969, em Los Angeles, nos EUA. A obra passou por diversas etapas de desenvolvimento, dando continuidade a pesquisas com ambientes como “The Helicóptero” (1969), mas não chegou a ser aberta ao público e debatida criticamente. Entretanto, trata-se de um trabalho que representa um ponto privilegiado no experimentalismo do artista, no qual o mesmo suprimiu processos característicos como a combinação do pictórico com objetos ready made, e sintetiza seus embates com a própria instituição artística. Hoje é sobretudo um relato sobre um período da vida desse artista compreendido, entre 1969 e 1972, em que ele retorna ao Brasil e retomada a prática do retrato.

Quais são seus planos para o futuro?
Sou pai de uma filha de 1 ano e 3 meses, nas horas vagas, preparo uma exposição com vídeos, melodias e aquarelas que realizei entre São Paulo , Nova York e Rio de Janeiro, onde pude participar de um laboratório em torno da obra Delivered in Voices (2015), a convite de Tunga, o artista plástico mais ligado à canção que jamais conheci. 



Aquarelas: Sem título, 2014-2017.









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