terça-feira, 19 de novembro de 2013

Marcio Fonseca entrevista Rogerio Martins





Quem é Rogerio Della Valle Martins?
Minha infância foi muito boa, com amor dos meus pais, muitos amigos e brincadeiras na rua. Prolonguei ao máximo a minha infância, vivia jogando bola, andando de bicicleta, a rua era o nosso quintal. Estudei em escola pública, lá além de estudar um pouco, eu praticava muito esporte, fui do time de vôlei, de futebol de salão, de basquete e tinha outra atividade que era tocar corneta na banda da escola. Nas férias ia com minha família para a praia em Bertioga e depois para o interior de São Paulo. Meu padrinho trabalhava em uma fazenda pra lá de Araçatuba e todos os anos eu ia pra lá passar as férias. Nadava nos açudes, pescava, andava a cavalo, ajudava a fazer queijo, rachar lenha pro fogão e a cuidar do gado. Viajava com meu pai, de fusquinha, atolava várias vezes na estrada de terra até chegar na fazenda que não tinha luz nem esgoto. Passava horas pescando e andando na mata fechada apreciando a natureza. Subia em uma arvore no meio da mata amarrava uma rede e passava a noite toda sozinho ouvindo os sons da natureza. Era uma aventura maravilhosa. Acredito que esses dois mundos, a infância na rua com os amigos, a prática esportiva e os momentos de isolamento na fazenda, marcaram muito a minha personalidade sou esses dois momentos. As vezes muito infantil e brincalhão, ainda gosto de brincadeiras e jogos, desenhos animados e series de tv. Mas tenho outro lado sério introvertido, adoro ficar quieto na minha só ouvindo e observando. Muitas pessoas me acham muito sério mas depois que me conhecem percebem que sou brincalhão, só que meu humor é sarcástico e não muito popular. Não posso pensar alto.

Tudo na minha vida aconteceu com muito esforço, pouca grana e meio que tardiamente, mas isso não me impediu de realizar meus sonhos. Mudei meu sobrenome recentemente, acrescentei o nome Della Valle em homenagem a minha mãe a Sra.Olga Della Valle. Estudei publicidade e trabalhei para grandes marcas em boas agências de publicidade, quando comecei no desenho queria fazer historias em quadrinhos, consegui depois de muito tempo realizar esse sonho com a criação do Senninha (personagem inspirado em Ayrton Senna). Realizei meu sonho esportivo de participar de uma seleção brasileira. Durante 10 anos fiz parte da seleção de tiro olímpico ganhei medalhas e fui campeão sul-americano. Me tornei professor de uma escola conceituada que é a Panamericana de Arte. E nas artes plásticas embora já exponha desde os anos 90, ainda me considero um jovem artista com muita coisa pra criar e realizar.


Como a arte entrou em sua vida?
Meu pai dizia que eu poderia ser o que quisesse, menos artista e professor.
Que ironia do destino. Mesmo assim sempre tive o incentivo dele e de toda a minha família. Meu pai foi professor de desenho e diretor do Senac de Sorocaba e de Marília, sempre tive material de desenho em casa, prancheta, régua T, tintas e tudo mais. O Sr. Ademar Martins foi projetista, pintava e também esculpia em madeira, fazia carrancas em troncos. Ele ainda faz entalhes e pinta. Meus tios também faziam coisas. Tio Tide Della Valle era um grande marceneiro, um artesão de mão cheia, eu ia na casa dele e ficava impressionado com os móveis e belos objetos com acabamento impecável. Meu tio Guelo Martins mora em Marília e pinta até hoje, seu trabalho sempre foi muito bonito, ele trabalhou muitos anos criando cascatas artificiais é muito conhecido no interior de São Paulo. E meu tio Ari Martins fazia tapeçarias maravilhosas. Todos eles e seus trabalhos impressionavam meus olhos curiosos.
Eu me destacava nas aulas de desenhos na escola e sempre soube que queria trabalhar com desenho, não passei o dilema de muitos adolescentes sobre o que fazer na vida, eu sabia o que queria. Outra ironia é que toda essa segurança do que fazer na vida não se aplica no dia a dia na criação artística. Sou muito seguro dando aulas, mas fazer e julgar o próprio trabalho são coisas muito diferentes. Sou muito critico e isso faz eu achar que nada que faço está bom. Isso me atrapalhou por muitos anos, não produzia por não me achar suficientemente capaz, só recentemente superei esse bloqueio de produzir e mostrar os trabalhos. Muita gente comenta que não conhece o meu trabalho, mas era impossível conhecer ele estava dentro da minha cabeça, agora que estou produzindo esta fluindo com muito menos sofrimento. Pinto rápido, as idéias estavam aprisionadas e agora quero produzir sem parar, mostrar e encarar os resultados bons ou ruins. Quero fazer sem receios e estou trabalhando nisso.

Como foi sua formação artística?
Além do aprendizado familiar, aos 14 anos pude fazer alguns cursos de arte e de design no Sesc e no Senac, fiz xilogravura, gravura em metal, serigrafia, fotografia e lay-out. Fiz também o curso de desenho artístico na Escola Nacional de Desenho. Mas todos esses cursos eram de técnica pouco se aprendia de composição e criação. Com 14 anos trabalhei como pintor de placas era um jeito de ficar perto das tintas, com 16 fui trabalhar como desenhista em uma empresa de marcas e patentes desenhava as invenções dentro do padrão técnico para o registro de patentes. Aos 18 fui contratado para trabalhar em uma agência de publicidade como ajudante de estúdio e fazia algumas ilustrações. Entrei na faculdade de publicidade e fiz carreira em agencias de design e material promocional. Paralelamente fiz vários cursos de arte na oficina 3 Rios e também freqüentei o ateliê de Carlos Fajardo, foi com ele que aprendi o que é arte. Montei com mais 3 artistas um ateliê na Vila Madalena. Essa turma era muito boa. Fomos chamados de geração 90. Elias Muradi hoje é diretor na Escola Abra, Albano Afonso e Sandra Cinto são artistas contemporâneos muito bem cotados e expõem no exterior. Eu me tornei professor da Panamericana e estou retomando meu caminho como artista plástico.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Muitos artistas me influenciaram e influenciam, estudo história da arte constantemente, todos os dias tento conhecer o trabalho de algum artista, mas prefiro citar aqui os nomes daqueles que eu tive contato mais próximo. Que foram meus professores, o Carlos Fajardo, Paulo Pasta, Nuno Ramos e Leda Catunda, Sergio Romagnholo.
Minha retomada a produção artística teve muita influencia de Valdir Rocha, ele tinha um espaço de arte em São Paulo chamado Pantemporaneo. Lá ele montou várias exposições e promoveu encontros com artistas renomados. Eram bate papos em que o artista convidado falava sobre seu trabalho. Minha função era gravar e editar vídeos sobre esses encontros. Fiz essas gravações durante 2 anos aos sábados. Conheci vários artistas e críticos de arte. O Dr. Jorge Anthonio e Silva, professor e critico de arte, tem me ajudado observando e comentando o meu trabalho. E esse convívio com o Valdir Rocha e os artistas convidados, foi o impulso que eu precisava para voltar a produzir meus trabalhos. Considero o Valdir um padrinho.

Como você descreve seu trabalho? Eu sempre rascunho idéias em livros de registros que aguardam o momento de sua materialização. Vejo muitas imagens, fotografo, registro, junto e coleciono. Esse acumulo intenso de imagens forma uma massa mental que procuro transformar em suportes para a obra visual.
Em minha atual pesquisa busco composições formais e cromáticas saídas dos fenômenos da natureza na forma abstrata. Com isso procuro construir um paralelo poético cujo conteúdo são as emoções humanas, formalizadas em um desafio metafórico expressionista. Pinto com tinta acrílica e uso todo tipo de material, mas tenho paixão pelo óleo. A maioria dos meus trabalhos são óleo sobre tela.
É possível viver de arte no Brasil?
É possível viver de quase tudo no Brasil e a arte não é diferente. Quem é bom e se destaca vai conseguir seu espaço e o dinheiro é consequência. É uma frase pronta que geralmente ouvimos da boca de pessoas bem sucedidas. E eu até que acredito nisso. Só que na arte vejo muita gente boa lutando para conseguir sobreviver, quase todos tem que ter outra atividade, dando aulas ou mesmo em atividades que não são ligadas a arte. No Brasil tudo é possível, mas tudo é muito difícil. Muitos que conseguiram seu lugar ao sol são taxados de sortudos ou que não é merecido. Eu não tenho inveja de ninguém tenho respeito por todo mundo que luta pelas suas profissões ou mesmo para realizar seus sonhos, independente de sucesso comercial ou de critica. Quando a gente se torna professor aprende a respeitar as pessoas e seus trabalhos. Além disso, não sou crítico de arte. O problema é que as artes plásticas não atingem a massa. Nas vernissagens estão sempre as mesmas pessoas, na maioria artistas prestigiando seus colegas. O Caciporé fez uma linda exposição esse ano aqui em São Paulo e lá estavam as mesmas pessoas de sempre. Esse é só um exemplo dentre as ótimas mostras que tivemos. Um absurdo que a população não saia de casa pra ver os grandes artistas que temos. Nem estudantes de arte vão às exposições. A população não vê arte contemporânea fora da Bienal, o povo só da o ar da graça quando temos mostras de clássicos internacionais como Caravaggio, Rodin, Impressionistas. Então é difícil, mas vamos continuar acreditando. Artista é basicamente um sonhador.

O que você poderia comentar sobre sua individual Foz?
Essa exposição foi uma oportunidade que apareceu de repente, através da Adriana Guidolin, mas foi ótimo assim, porque não tive muito tempo para pensar ou sofrer pensando. Os trabalhos estavam prontos eu já estava produzindo a todo vapor. Conheci Foz do Iguaçu quando fui visitar um tio que trabalhou na construção de Itaipu, fiquei muito impressionado com o que vi e tinha essa vontade de trabalhar com um tema
que transbordasse brasilidade, criei imagens carregadas de energia, com cores compostas e pinceladas dinâmicas. Mas o tema aqui é só o ponto de partida para as composições.Na série "Foz", a força da natureza se expressa no movimento natural da água dos rios e das chuvas. Um pulsar que se abre para fazer seu próprio caminho de violência que, também, acaricia a terra, nela espalhando vida, tornando-se elementos de tensão. Na obra tornam-se cada vez menos reconhecíveis, porque são qualidades de sentimento. Em seu movimento natural, a água destrói para que tudo seja recomposto e reconstruído. Em minha especial afeição e respeito pela natureza encontro a expressão humana.
Você poderia descrever a sua atividade docente e como ela interage com sua carreira?
Dou aulas há mais de 10 anos. Aprendi muito ensinando, não sou um professor acadêmico, sou um artista que virou professor e quando temos a responsabilidade de ensinar a gente aprende a aprender, eu estudo muito, leio pesquiso converso para ter cada vez mais segurança e poder passar minhas experiências para os alunos. Conviver com tantas pessoas diferentes faz a gente crescer, é uma troca muito interessante. Por muitos anos tivemos o Massimo Picchi na direção da Panamericana. Ele me ensinou sobre tudo que diz respeito ao ensino, sobre comunicação visual e também a ter uma postura de motivador e não de crítico. Isso me ajudou a criticar meus trabalhos, mas deixar de ser tão critico comigo mesmo. Com as aulas evolui conceitualmente e tecnicamente, pois nossas aulas são muito práticas.

De que maneira um artista poderia ser conhecido além do seu estado?
Hoje em dia com a internet ficou tudo mais fácil, as redes sociais se bem usadas, são grandes ferramentas de divulgação no Brasil e mundialmente. Faço parte de grupos de artistas da França, Portugal, Espanha, Argentina e dos Estados Unidos.
E temos também os Blogs, conheci o Marcio De Oliveira Fonseca pelo Face e agora estou tendo a oportunidade de escrever para seu Blog.
Outro meio muito eficaz são os salões e editais que tem a vantagem de levar as obras para serem vistas em outros estados e não somente de maneira virtual. Obra de arte não pode ser vista apenas pelo computador.

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Estar produzindo, ser descoberto e descobrir quem acredite nele e principalmente em seu trabalho. Não tenho galeria, mas estou produzindo como nunca, no ano que vem vou tentar ser representado.

Como você estuda e se atualiza?
Tenho uma ótima biblioteca de arte, estou sempre vendo, lendo e relendo meus livros. Também não saio da internet pesquiso muito nos blogs e sites relacionados a arte. Já visitei os grandes museus da Europa e vou ao Masp, MAM, MUBE e Pinacoteca. Dou um jeito de dar uma passadinha nas vernissagens e galerias de São Paulo.

Quais são seus planos para o futuro?
Continuar com minhas aulas e me dedicar mais a minha produção artística. Desenvolvendo uma linguagem própria e consistente. Também vou atender os pedidos do meu amigo o escultor Murilo Sá Toledo para que eu trabalhe mais com o tridimensional.
Quero voltar a me inscrever nos salões e quem sabe ter a oportunidade de ser representado por uma boa galeria.


Para terminar quero agradecer a você Marcio de Oliveira Fonseca pela oportunidade de expor um pouco dos meus pensamentos e ajudar a divulgar meu trabalho. Como falei, na vida é difícil encontrar pessoas que acreditem e valorizem o trabalho de um não famoso. Por isso, que faço questão de sitar os nomes de quem já me ajudou de alguma maneira. Agora você faz parte da minha listinha. Obrigado amigo.


















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