sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Marcio Fonseca entrevista Roberto Müller.








Quem é Roberto Müller ?
Nasci em São Paulo, capital, em julho de 1964, filho de pai contador e mãe enfermeira; permaneci em São Paulo até os meus 19 anos quando mudei-me para o Rio para estudar Arquitetura e aqui permaneci. Ainda em São Paulo, fiz um curso tecnico de Arquitetura onde formei-me com 16 anos.



Como a arte entrou em sua vida?
Lembro-me de já gostar de ver arte, mas os primeiros contatos mais fecundos deram-se na faculdade onde tive o privilégio de ter aula com Lygia Pape e Nelson Felix entre outros professores. Deste contato com eles nas aulas de plástica, surgiu meu interesse, passei a frequentar todas as exposições da cidade.


Como foi sua formação artística?
Quando criança, já gostava de desenhar, mas do contato com estes artistas na faculdade e através de revistas , acabei indo estudar no Parque Lage, isto no final dos anos 80, era uma época diferente , eramos matriculados em núcleos e tínhamos aulas diariamente, com Daniel Senise, Beatriz Milhazes, Charles Watson e outros, então era como um aprofundamente intenso, inclusive com atividades nos finais de semana, com isto eu frequentava a Escola de Artes Visuais diariamente. Logo depois, fiz vários workshops no Centro Cultural São Paulo, onde tive aulas com Nuno Ramos, Amilcar de Castro, Iole de Freitas entre outros. Deste contato com a Iole acabei tornando seu assistente por cerca de 4 anos, trabalhando em seu ateliê e na montagem de diversas exposições suas. Já recentemente fiz outros cursos no Ateliê da Imagem e retornei ao Parque Lage.
Embora meu contato com a arte ter se dado nesta época, só mais recentemente, em 2010 voltei a produzir de forma mais contundente.



Que artistas influenciam seu pensamento?
Difícil enumerar sem esquecer de alguns, mas creio que de certa forma as obras de Sophie Calle, Chiharu Shiota, Waltercio Caldas e do próprio Nuno Ramos pela diversidade de seu pensamento plástico. Mas outro nome que não posso deixar de citar é o do arquiteto Sergio Bernardes, com quem tive o prazer de trabalhar e ser seu amigo.



Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho desenvolve-se no estabelecimento de relações a partir de observações do cotidiano, algumas vezes a partir de questionamentos sociais e outros fatos, muitas vezes com apoio de imagens; construindo assim objetos onde estas imagens passam a ser coadjuvantes no processo.
Também em diversas obras a presença de textos se faz presente de forma isolada ou em conjunto com a fotografia.


É possível viver de arte no Brasil?
Acredito que sim, através de um trabalho sério e dedicado, mas até chegar exclusivamente a este ponto, pode-se desenvolver outras atividades correlatas à arte.



Que importância para sua carreira teve a exposição individual no CC da Justiça Federal?
Foi uma ótima oportunidade poder apresentar 13 obras , que cobriam 2 anos de produção aqui mesmo no Rio e assim ter a conveniência de um contato próximo com o público no decorrer de toda a mostra.


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Como já falei anteriormente um trabalho serio e dedicado e principalmente colocar o que seria seu objetivo como consequência e assim as coisas acontecerem de forma natural.


Você participou do 45 SAC Piracicaba, qual sua opinião sobre os Salões de Arte? Alguma sugestão para apromorá-los?
Acredito que grande parte dos salões está preso a antigos rótulos; seria mais produtivo que fosse distribuído um valor a todos os participantes de forma a custear o envio das obras, pois certas vezes a inscrição de certas obras são inviabilizadoas por isto.


Como você estuda e se atualiza?
Estou sempre lendo ou pesquisando, além de fazer alguns cursos , assistindo palestras ou workshops especificos.


Você tem uma rotina de trabalho ?
Minha rotina é não ter rotina; mas uma coisa é certa como sou notívago, todo o processo de desenvolvimento das obras se dá pelas madrugadas.


De que maneira um artista poderia ser conhecido além do seu estado?
Acho que através de editais para exposições e salões, o artista pode levar seu trabalho para locais que jamis poderiam ser pensados, assim levei meus trabalhos para individuais em Goiânia , Mato Grosso do Sul e Londrina.


Quais são seus planos para o futuro?
Continuar no desenvolvolvimento do meu trabalho e atento a tudo ao meu redor que possam vir a ser frutos para outras obras e preparar-me para as próximas exposições.


O Ministério da Saude não adverte, 2010


Por favor não perturbe, 2010






Ato ou efeito de observar, 2011

Vendo não veem, 2011


Tábula rasa, 2012

Labirinto, 2012

O Fim - A4, 2012
Jóia rara, 2013


Das ruínas e da morte, 2013

Estudo para uma cor, 2013





Roberto Müller.

“Derivações” é um conceito que poderia ser aplicado a diversos modos de produção das obras de arte contemporânea. Roberto Müller cria vínculos com as heranças da pop art e da arte conceitual agora recodificadas. Tais derivações, nas obras de Müller, afirmam que a pop e o conceitualismo deixaram como legado discussões sobre a imagem, os modos de repetição, as estratégias de circulação e as vinculações. No uso da palavra, Roberto Müller observa slogans, poemas, relatos, ativando conceitos que fazem parte do cotidiano das mídias e das cidades ou a declarações mais subjetivadas, advindas do relato. Ao mesmo tempo, temos a criação vinculando imagem e narrativas que antes freqüentavam lugares distintos. “Das ruínas e da morte” parte de fotografias que apresentam construções antigas. A partir da impressão das fotos em ladrilhos, Roberto destrói a cerâmica deflagrando ainda mais a aparência da ruína. Ao lado, um texto que ora pode tratar de um bairro, ora de uma vegetação, por exemplo. Em baixo, uma placa de localização. Nesta mistura, neste jogo de dispositivos, os trabalhos de Roberto Müller presentificam uma espécie de quebra-cabeça, mantendo imagens e legendas em flutuação.

Em “Por favor não perturbe” ou “O Ministério da Saúde não adverte”, o banal das frases - mais do que gastas pela disseminação exaustiva - se apresenta. O ato politicamente correto imposto à indústria de cigarros e a obviedade dos recados para as camareiras nos hotéis são apropriados pelo artista. Para efeito deslocado na relação entre imagem e significação, o artista modifica as fotos, altera a lógica e coloca, por exemplo, nos cigarros, imagens de populações de rua, menores abandonados, carros dispensando fumaças tóxicas. Evidencia-se uma brecha nas políticas públicas, na administração dos problemas sociais. No recado das portas de hotéis, os mendigos. Há nesta manipulação de imagens, uma certa culpabilidade da classe media, fato muito discutido desde os anos 70, quando a divisão entre morro e asfalto, no Rio de Janeiro, precisava ser problematizada. “Mineirinho”,conto clássico de Clarice Lispector, localizava os citados conflitos, mostrando uma narradora preocupara em manter a segurança de seus filhos, mas aterrorizada pela quantidade de tiros disparados pelo policial contra o marginal da época.

Além do interesse em manipular mensagens publicitárias, Roberto Müller também utiliza-se dos modos de produção comuns aos displays e anúncios. Vemos cortes a laser, impressões em metacrilato, acabamentos impecáveis. Esta reificação estética deve ser entendida como escolha conceitual. Hal Foster nos explica que toda critica é passível de reificação do conteúdo a ser criticado. Ou seja, usar os elementos que são de denúncia, na arte, cria uma inevitável estetização daqueles elementos, conferindo-lhes beleza, no mesmo átimo de tempo em que se está produzindo sua destruição. A isto chamamos de herança. A arte contemporânea eclipsa seus referentes, embaçando possíveis localizações históricas. Com isso, vemos pinturas que se utilizam dos gestos expressivos, esculturas abstrato-geométricas, efeitos impressionistas em fotografias. Nas obras de Roberto Müller, os elementos da cultura de massa se apresentam como herança pop, alavancadas na relação entre palavra e significado que fora apresentada na arte conceitual.

Em “Ato ou efeito de observar”, outra seara é aberta., Roberto Müller utiliza-se da definição dicionarizada do significado de observar, mas obstaculiza a leitura, mantendo o escrito coberto por uma placa. Entrevemos o que está dito numa brecha lateral, num intervalo. Tal qual no buraco da fechadura ativado por Duchamp no Etant Donné, aqui o espectador se torna intruso.

Pensar a imagem e sua circulação, as legendas e suas aderências à informação lança o trabalho de Roberto Müller num exercício de dissociação, fazendo da materialidade o objeto precioso, como na série “Jóia rara”. Ainda assim, o endereçamento de tais elementos a produtos, arquiteturas históricas ou às sarjetas das cidades torna-se, cada vez mais, um modo de tratar os dispositivos. Para Foucault, o dispositivo é um jogo de poder servindo para a castração, o controle, a regra. Na arte, pensar os dispositivos é, antes, observar a flutuação de conceitos que perpassa por evidências imagéticas e objetuais. Olhar uma fotografia, observar uma cena na rua, consumir produtos produzem cisões nos sujeitos. Podemos exercitar certa cegueira, deixar-se inerte e inatingível aos anúncios. Ainda assim, há algo inapreensível, como comenta outro filósofo, Giorgio Agamben, no momento em que consumimos as mesmas imagens e giramos em volta da máquina. O jogo que se apresenta na arte trata, então, de um processo ambíguo com mensagens fortemente destinadas a subjetivação em ambientes, cubos brancos, que estimulam o oposto, contribuindo para uma dessubjetivação. Vivemos num tempo impossível de se contar segredos.



Marcelo Campos

CURRICULUM


Roberto Müller

São Paulo, 1964

Vive e trabalha no Rio de Janeiro



Formação


1983-1988 _ Arquitetura Universidade Santa Úrsula, RJ

1988-1989 _ Nucleo de Pintura com Beatriz Milhazes, Daniel Senise, Aluisio Carvão, Katie Van Scherpenberg, Luiz Ernesto, Milton Machado, Charles Watson_ EAV Parque Lage, RJ

1988 _ História da Arte com Viviane Matesco, EAV Parque lage,RJ

1990_ Workshops com Nuno Ramos, Amilcar de Castro e Iole de Freitas, Centro Cultural São Paulo,SP

1990_Workshop com Tunga, Museu de Arte Moderna Rio de Janeiro, RJ

1992-1997_Assistente da artista Iole de Freitas, RJ

2010_Cursos de Fotografia com Cesar Barreto, Claudia Tavares, Leonardo Ramadinha, Thiago Barros, Ateliê da Imagem, RJ

2010_Workshops de Fotografia com Miguel Chikaoka e João Castilho, Paraty em Foco, RJ

2011_ Workshop com Gui Mohalem, Paraty em Foco, RJ

2011-2012_ Grupo Alice com orientação de Brígida Baltar e Pedro Varela, RJ

2012_Arte fora do cubo com Daniela Labra, EAV Parque Lage,RJ

2012_Arte Contemporânea com Marcelo Campos, EAV Parque Lage, RJ

2013_Teoria e Portfolio com Marcelo Campos, Efrain Almeida e Brigida Baltar, EAV Parque Lage,RJ




Exposições Individuais


2013

Urbanidade- Sesc Londrina, Londrina - PR

Derivações- Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro - RJ - Curadoria Marcelo Campos


2012

Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul, MARCO, Campo Grande - MS

Museu de Arte de Goiânia, MAG - GO


2011

Centro Cultural Fase, Petrópolis - RJ



Exposições Coletivas


2013

12ºSalão de Artes Visuais de Guarulhos , Guarulhos - SP

45º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, Piracicaba - SP

12º Salão Nacional de Arte de Jataí, Jataí - GO

4º Salão dos Artistas sem Galeria, - Galeria Zipper e Casa Xiclet, São Paulo - SP


2012

XI Bienal do Recôncavo, São Félix-BA

3º Prêmio Belvedere Paraty de Arte Contemporânea, Paraty-RJ

Salão de Arte de Mato Grosso do Sul, Campo Grande - MS

6B - Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro - RJ

Fio Condutor, Galeria Graphos : Brasil, Rio de Janeiro - RJ

21º Encontro de Artes Plásticas de Atibaia, Atibaia - SP

Mostra Panorama Terra, Centro Cultural Brasil Argentina, Rio de Janeiro - RJ


2011

Assim sem Você, Galeria Oscar Cruz, São Paulo-SP

Desvenda, Museu Murillo de La Greca, SPA das Artes , Recife-PE

36º Salão de Arte de Ribeirão Preto, SP




Prêmios


2012

Prêmio Aquisição Salão de Arte de Mato Grosso do Sul, MARCO, Campo Grande - MS


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