sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Marcio Fonseca entrevista Leo LIz.


Leo Liz, Aiuruoca, MG. 1987. Fotógrafa e Artista Visual. Integra o Grupo UM. É ativista política e poética. Interessada em fotografia, gravura e outras tecnologias obsoletas.



Leo Liz Lee, vandalismo bucólico
Leo Liz, 2013 técnica mista sobre algodão


Quem é Leo Liz?
Nasci em Airuoca, Minas Gerais em 1987. Levei esta vida de interior até os 16. O que me salvava era a internet comecei a entrar na rede aos 13 quando minha mãe comprou um computador (antes não rolava que a lanhouse era monopolizada pelos meninos machistas viciados em games). Daí comecei a estudar tudo que me interessava pela web: fotografia/imagem, arte, tecnologia, ativismo, política, anarquismo.


Como a arte entrou em sua vida?
Aos 16 saquei que eu precisava de mais espaço que o interior não ia dar conta das minhas questões. Saí de casa, larguei a escola e fui para São Paulo estudar fotografia. Em Sampa, eu morava na casa de umas amigas do movimento glstbt e precisava de um trampo para pagar as contas porque minha família não apoiava muito minhas escolhas. Então pintou a oportunidade de ser assistente de uma fotógrafa artista. Aí eu aprendi muito do bom e do ruim que pode ser o mundo de arte.


Como foi sua formação artística?
Me considero autodidata. Fiz cursos no Senac e outros cursos livres, mas considero que o que eu sei veio muito das conversas e também da internet. Se eu quero saber como fazer algo, sei que tem na internet alguém ou algum site que vai me dar as pistas pra descobrir o caminho a seguir.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Acho que toda genealogia de pensamento que se presa começas nos pré-socráticos. Amo Heráclito e seu devir. Aí você me pergunta se filosofia é arte? Claro que é. É o pensamento pensando a si mesmo, pura arte contemporânea. Ou se preferir rupestre contemporânea.


Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho é a maneira como me relaciono com o mundo. Quero olhar a ruína, o mofo, o que fracassou. Quero as técnicas que sejam obsoletas. Quero ver um caminho além do sucesso-branco-hétero-capitalista. Quero pessoas: falar das pessoas para as pessoas com as pessoas.


O que é o Grupo Um?
O Grupo UM tem sido uma grande oportunidade de troca e aprendizado. O grupo começou em 2003 com uma proposta do Nadam Guerra e Domingos Guimaraens, que lançaram o Manifesto UM, etc (que quiser pode ver mais no site www.grupoum.art.br) Eu entrei no grupo no fim de 2012 com a proposta de um processo coletivo que desembocou nesta exposição Rupestre Contemporâneo que está na Galeria do Ibeu até dia 14 de novembro.


É possível viver de arte no Brasil?
É preciso viver de arte, com arte, para a arte onde quer que você esteja. Sem arte não há vida, há apenas a repetição dos padrões sociais indefinidamente. Viver uma vida com arte que se reinvente em todos sentidos é o meu desafio e o desafio das pessoas que eu quero perto de mim. Quero a reinvenção dos gêneros, das economias, das políticas e só com arte isso é possível.

Qual a importância da sua exposição no IBEU, RJ?
Rupestre contemporâneo – Nadam Guerra e 10 anos de Grupo UM é uma exposição que marca a nova fase do Grupo UM que já tem uma estrada aí nos limites entre as artes.
Esta é minha primeira exposição com o grupo e também a primeira no Rio de Janeiro. É como a minha apresentação para todo um mundo de gente que estou conhecendo. Fico muito feliz de ter sido convidada poder estar participando desta história.
O projeto que eu propus: a composteira de arte teve uma boa repercussão e mais de 50 artistas participaram. Recolhemos mais de 500 obras de arte velhas ou estragadas ou abandonadas o que gerou a maior instalação que eu já fiz. Está tudo no blog: www.composteiradearte.wordpress.com(ou quase tudo que ainda estou postando coisas)


Quais são seus planos para o futuro?
Quero me aprofundar nas técnicas obsoletas de reprodutibilidade da imagem e também me aproximar da pintura e dos pintores. Tem alguma coisa na prática do artista, da artesania da pintura, que me atrai, mas não é a pintura em si. É a paixão do pintor pela pintura. Por isso estou começando uma série chamada "diálogos com uma jovem pintora" em que pretendo pintar quadros a quatro mãos com alguns artistas e documentar nossas conversas.




Composteira de Arte - Leo Liz e Grupo UM na exposição Rupestre
Contemporâneo - Nadam guerra e 10 anos de Grupo UM Galeria do IBEU, RJ.









“Vandalismo bucólico! Melhor pedir perdão que permissão! Leo Liz é Mulher com M maiúsculo. Mais que isso, é pós-mulher. Pós-gênero, pós-número, pós-grau. Nas ruínas de um antigo moinho de cana nos encontramos pela primeira vez. As caixas de som tocavam uma batida forte, as luzes eram psicodélicas, e a energia, trans-mundo. Leo projetava fotografias mofadas com um projetor de slides. Ou melhor, projetava mofo através dos slides. Ou melhor ainda, cobria o mundo com mofo-luz. Ofereci uma mão, ela pegou o braço. Desde então somos unha e carne. E ponho a minha carne no fogo por esta artista firme que sustenta as contradições e que sabe se equivocar. Juntas comemos nossa própria carne. Autoantropofagismo mutante! Senhores do mundo, tremei! Leo Liz não deixará teta sobre pedra.”
Ophélia Patrício Arrabal.




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