terça-feira, 12 de novembro de 2013

Marcio Fonseca entrevista Gabriel Petito





Quem é Gabriel Petito?
Estou sempre em busca de algo que me distancie de mim. Mesmo que seja por um instante, pois assim acredito que vou conhecendo cada vez mais. Minha natureza é 8 ou 80, por isso o equilíbrio é algo que me custa tão caro. O contraste das coisas no mundo me fascina. Tenho síndrome das pernas inquietas. Não consigo me desfazer de nada e isso me fez ser um acumulador. Para meus trabalhos isto é ótimo, mas para Mariane, minha mulher é um pesadelo. Tenho dois filhos, o João e o Pedro e existo por causa deles. Me formei em Arquitetura por que na época dei ouvido a algumas cobranças, foi difícil por um tempo, pois achava que tinha perdido tempo. Hoje encaro o conhecimento adquirido como acúmulo de repertório, e isso é ótimo! Morar no interior é uma escolha e um posicionamento, tenho esta tendencia a ser do contra. Ainda vai levar um tempo pra exorcizar meus demônios, mas me considero uma pessoa de sorte pelas escolhas que fiz.

Como a arte entrou em sua vida?
 Ela começou a me cercar desde cedo e com o tempo o cerco foi fechando ainda mais, até que chegou um momento em que me encurralou em um canto e intimou: Ou vai ou Racha!



Como foi sua formação artística?
 Penso que a formação do artista atualmente não depende somente de áreas de conhecimentos muito específicos, como por exemplo um curso de artes em alguma universidade, vejo esta questão mais como um acúmulo de varias situações de vivência e aprendizagem que vão direcionando o artista e seu interesse. No meu caso dei muitas voltas, para enfim decidir que queria seguir em frente com este propósito de ser artista; digo isto como profissão. A partir daí alguns cursos me ajudaram a nortear meu caminho. Dentre eles cito a Especialização em Artes Visuais que fiz na Unicamp e me fez entrar em contato com o universo acadêmico, e os grupos de acompanhamento e discussão de processo artístico, os quais ainda frequento e que são muito importantes, pois estimulam a estar sempre em confronto e aprimoramento do fazer e pensar arte. Resumindo, o processo de formação nunca acaba é uma constante busca. 
 
 
 Que artistas influenciam seu pensamento?
Influências vêm de todos os lados de todas as formas. Em relação ao universo da Arte, acho que todos os artistas que vou conhecendo, de alguma forma me influenciam, porque é dessa forma que o conhecimento se forja e o pensamento é delineado. A influencia a meu ver, é o sintoma do estado de suspensão que se sente ao se deparar com alguns artistas, o último foi Arthur Bispo do Rosário. Mas tem muitos outros também (que me vêm a mente agora), Fernando Marques Penteado, Rauschenberg, Herakut, Wesley Duke Lee, Geraldo de Barros, Marcelo Cidade, Nelson Leirner, Kurt Schwitters, Kaue Garcia, Luciana Camuzzo, Antônio Roseno, Fernanda Chieco, Hebert Gouvea, Gustavo Torrezan, Sylvia Furegatti, Leda Catunda, Dudi Maia Rosa, por aí vai...
 
 
Como você descreve seu trabalho?
Gosto de pensar que minha pesquisa levanta questões que rementem a uma memória de percurso e do processo de formação da identidade do sujeito Pós-Moderno, calcada pela investigação da paisagem urbana por meio de sua desconstrução e fragmentação. Ao gerar estes fragmentos passo à recombina-los e proponho situações de confrontos e relação de valores na construção dos trabalhos. Basicamente meus trabalhos giram em torno da hibridização de linguagens. Desenho, pintura, colagem, assemblagem são as linguagens mais recorrentes, mas procuro a cada trabalho ampliar cada vez mais este horizonte. De uma forma geral, "mistura" seria uma boa palavra para descrever.


É possível viver de arte no Brasil?
Sim. Tem que suar a camisa.


Você vive e trabalha em Piracicaba, isso é uma vantagem ou desvantagem? Já existe um mercado de arte?Depende. Talvez a desvantagem esteja em estar a margem do que todo mundo chama de "circuito de Arte", ou seja "o lugar onde as coisas acontecem", se eu começar a pensar que para ser artista preciso me preocupar muito mais com minhas relações sociais, do que com meu trabalho. Agora se minha preocupação for no sentido de ter meu trabalho divulgado, existem muitos meios para se colocar o trabalho em circulação apenas sentado na frente do computador. A vantagem, na minha opinião é a sensação de se ter mais liberdade, e não cair em certos vícios e bloqueios que são recorrentes nestes chamados "circuitos".
Não existe mercado significativo em Piracicaba. Existe uma galeria que faz um bom trabalho, fora isto só mercado informal. Porém, existe um Salão de Arte Contemporânea na sua 45ª edição e, nos últimos quatro anos um grupo de artistas tem atuado afim de construir um circuito local, eu faço parte deste grupo. Tem também diversos espaços independentes auto geridos. Essa movimentação se estende para outras cidades que também se articulam, como é o caso de Ribeirão Preto com o Instituto Figueiredo Ferraz, O MARP. Tem a cidade de Campinas com o Instituto de Artes da UNICAMP, o Atelier Aberto, a recém inaugurada Galeria Fernandez e Naday; que após o período de um ano reabriu suas portas novamente com o intuito de agitar o cenário do interior e criar uma interlocução com o "Circuito de Arte" nacional, a qual tenho grande prazer de agradecer por darem um voto de confiança para meu trabalho.
Dessa forma posso dizer que a junção dessas manifestações contribuem para o surgimento de um circuito que se desenrola fora dos grandes eixos e que à sua maneira também reverbera e chama atenção.



Você participa de diversos salões, sendo os últimos o 45º SAC de Piracicaba e o 13º SNAI de Itajaí, qual sua opinião sobre os Salões de Arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Salões e editais são na teoria, o mais próximo que se pode chegar de um processo democrático de inserção no "circuito artístico", uma vez que está aberto a todos que se interessem em participar, mas na prática nem sempre é assim. Eu acho válido apesar de qualquer deficiência que se apresente, eles cumprem seu papel. O aprimoramento dos salões e editais é um processo ainda um pouco lento e deve exigir um comprometimento muito grande daqueles que fazem parte de sua organização, mas já existem alguns modelos que conseguem superar algumas deficiências, como a falta de alguns incentivos, por exemplo: ajuda de custo, que é um grande problema para artistas em início de carreira, interlocução com críticos e curadores, entre outros. Outra maneira é questionar a própria estrutura dos editais; que na maior parte giram em torno da senso comum da exposição no "cubo branco", um bom exemplo deste questionamento é o 13º SNAI, que vem com uma proposta "Extramuros", onde a ideia central é a utilização da cidade como um todo servindo de espaço para experimentação para os artistas.


Como você estuda e se atualiza?
Estudar é uma condição incessável. Pesquisa e produção são situações simultâneas, e no meu caso acontece a todo momento, é a vivência do cotidiano. Fora isso, participo de grupos de formação de repertório e orientação de projetos.

 De que maneira um artista poderia ser conhecido além do seu estado?
O ambiente virtual sem dúvida nenhuma é a melhor forma, pois não há fronteiras, todos estão conectados em um lugar comum. Os Editais e Salões, que também possibilitam esta projeção.


O material para pintura nacional já tem boa qualidade?
Acredito que sim, mas em relação à produtos importados ainda deixa a desejar.


Quais são seus planos para o futuro?
Não há plano. Planos sugerem a ideia de um fim, e a graça é que não existe um fim. A ideia é seguir em frente, propondo problemas, resolvendo-os, problematizando novamente, acertando, errando, tendo dúvidas, achando a saída, se perdendo novamente. Permanecer nesta condição cambaleante que o envolvimento com o trabalho nos proporciona. Não tem volta!
 
 

A desordem pode ser uma nova ordem (da série Emendas), 2013.
 
 


 
 

Livro Preto, Livro de uma página só (Série Emendas), 2013.

 


Nota prática sobre composição1 ( da série Emendas), 2013.
 
 
 
 



Nota prática sobre composição 3 (da série Emendas), 2013.
 
 
 



Vista Instalação, 2013 Galeria Fernandez e Naday, Campinas.
 
 
 





Nota Prática sobre composição 2 (da série Emendas), 2013.
 
 



Fila Indiana (da série Emendas), 2013.
 
 
 



 
Instalação Pintura-Apagamento, 2013- Exposição Alvos Moveis- Atelier Apipa, São Paulo.
 
 
 
 

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