terça-feira, 1 de outubro de 2013

Marcio Fonseca entrevista Alexandre Rato



O artista vive e trabalha em Belo Horizonte e usa escultura, desenho, pintura e grafite.
Cabe agradecer a Érica Brasilense pela colaboração.



Quem é Alexandre Rato?

O nome que está na identidade é Alexandre Rodrigues de Sá , mas meu nome de verdade é Alexandre Rato. De verdade porque carrego esse apelido “rato” desde a infância. Esse apelido se tornou meu nome porque já é diluído no meu ser e carrega toda carga humana, espiritual, psíquica, artística e performática  da minha história. Nunca morei de frente para um mar, mas em frente a um córrego, da infância até poucos anos atrás. Numa região periférica de Santa Luzia, onde os ratos pareciam nossos animais de estimação.  Curiosamente, mesmo sem uma consciência crítica aguda, eu desenhava ratos com pregos na minha rua, produzindo baixos relevos, criando, assim, gravuras que eram “site specifc“ no asfalto, onde os ratos de verdade repousavam por debaixo, nos canais fluviais. Enfim, sou Sagitariano, tenho facilidade em fazer grandes amizades e sustentá-las. Tenho uma relação bonita, sincera e tranquila com minha família, mãe,  duas irmãs, esposa e filha.  Trabalho com artes visuais e arte educação, mas também produzo músicas, poesias, vídeos e outras atividades correlatas por necessidades, lazer, auto conhecimento, protesto e/ou dinheiro.

Como a arte entrou em sua vida?
Pelo nariz. Chegando até os pulmões e se instalando.  No inicio  especialistas e leigos pensaram que era só uma gripe, mas depois foram entender o que sempre suspeitei. Tratava-se de uma doença sem cura.
Você pode não acreditar, mas por volta dos 6 ou 7 anos de idade já respirava e inspirava, todo santo dia, imagens de qualidade próxima às que produzo hoje, pois desenhar sempre foi meu oficio primordial e vital. Para mim, criar imagens sempre foi tão natural como respirar. Por isso, por serem iniciais do meu nome, e por outros diversos motivos, sempre assino “AR”. Hoje prossigo desenhando todos os dias e certamente continuarei até o ultimo respiro que eu der. Quando eu me for, morrerei feliz por um dia ter assinado e respirado esse mesmo “AR” que você também respira comigo.

Qual foi sua formação artística?
No inicio eram as figurinhas que vinham nos chicletes. Depois álbuns, selos, fanzines, quadrinhos, livros, etc. Depois, a rua e cursos livres em centros culturais e escolas de arte livre e gratuitas. Por último, a faculdade de Artes Plásticas da UEMG, a Escola Guignard, onde fiz bacharelado e me especializei em desenho e pintura. Mais tarde, frequentei o curso de Pós-graduação em Artes Plásticas e Contemporaneidades.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Todos que já tive oportunidade de conhecer pessoalmente, e todos que pude ter acesso por meio de mídias, etc. Não me entusiasmo por nenhum artista especificamente, mas sim pelas imagens que muitos produziram. Sinto a influência de toda imagem que passa pela minha retina. Entram como luz, correm pelo meu corpo e se tornam sangue. Circulam do topo da cabeça ao dedinho do pé.  Passo horas procurando, baixando imagens de artistas conhecidos ou não, de tudo quanto é estilo, por puro prazer e por pesquisa. Me alimento disso como se fosse pão.

Arquitetos, desenhistas, poetas, pichadores, fotógrafos, performers, pintores, escultores, designers, da tudo no mesmo pra mim, se criam imagens alimentam minha criatividade.

 

Fale sobre os meios utilizados e os assuntos discutidos em seu trabalho.
Tenho a intenção de ser um artista de múltiplas habilidades, por isso nunca me limito a uma técnica específica. Trabalho na mesma intensidade com materiais nobres ou pobres, ciente de que os suportes são condutores de significados importantes pras obras, assim como seus respectivos títulos. Também gosto de variar as ferramentas, por exemplo, quando quero fazer uma série de nanquim uso bico de pena, palito de fósforo, de dente, de churrasco, pincel, conta gotas, caneta, etc. Esgoto a possibilidade por um ou dois meses e parto pra outras técnicas que podem ser pintura a óleo, têmpera, acrílica com spray, ou tudo junto; entre outras. Quando sinto que é hora de investir em outros materiais parto pra argila, ou bordado, ou arame, ou madeira. Literalmente tudo é matéria pra me expressar graficamente. Ora na bi dimensionalidade, ora na tridimensionalidade.
Para criar minhas imagens, prefiro trabalhar a partir da observação cotidiana dos modelos vivos e dos objetos no entorno, ou trabalhar com criação sem referência alguma. Acredito que pinturas e desenhos feitos a partir de fotografias, por exemplo, são mais duros e inexpressivos, isso porque nosso olho capta muito mais detalhes e subjetividade das cenas, que as lentes das câmeras. Compare os retratos de Lucien Freud com um outro artista que pinta retratos a partir de fotos.  É outro papo: o modelo é vivo de verdade em suas pinturas. Bem, ao menos é assim que vejo; porém, não me aborreceria  se por um acaso algum leitor discordar da minha visão, pelo contrário, acharia digno. Aliás, gosto de me desafiar e me contradizer, e de vez em quando crio a partir de fotografias sem medo de parecer contraditório, mas com intenção de experimentar e buscar uma linguagem diferente das que produzi anteriormente.
Ter coragem, não ficar se repetindo... Esse é meu prazer, crescimento e foco.

 

Como você estuda e se atualiza?
Através de atividades coletivas com os amigos de profissão. Fazendo residências artísticas, vivências cotidianas ou temporárias, participando de  exposições coletivas... Somente quando entramos em contato com as subjetividades e metodologias alheias é que extrapolamos a nossa.
No momento estou à vontade pra repensar minha formação, principalmente a acadêmica.
Além disso, aprendendo muito nos lugares onde vou ministrar cursos, em periferias, em comunidades longe da área central. Vou com missão de “ensinar” e acabo, invariavelmente, me tornando aluno. Chego com uma proposta, mas escuto as propostas das comunidades e abandono a minha sem pestanejar. Faço apenas um papel de mediador das criatividades coletivas, invertendo a lógica de protagonistas e figurantes que geralmente uma sala de aula tem.
Assim aprendo a bordar com senhoras extremamente habilidosas, a trabalhar com escultores e artesãos que estão escondidos e abafados pelo sistema convencional das artes, mas que são fontes de criatividade puras. São figuras indomesticáveis. Efeitos colaterais dentro do sistema.

Que outros fatores contribuem para elaboração de seu trabalho?
Meu trabalho é a minha atitude diante da vida. Uma performance de infinita duração. Criei um personagem que se tornou eu mesmo, minha verdadeira máscara, que a tempos venho esculpindo ou remodelando. Tudo que faço é exatamente o que estou escolhendo viver. Tornei-me pai recentemente. Minha filha mudou minha visão de mundo. As cores me parecem mais intensas,  as nuances da vida estão mais suaves, meus traços de desenhos e pensamentos estão mais precisos, organizados, simplificados e delicados.
Buscando purificação, verdade e limpeza na minha vida de casado, de pai, de filho, de irmão, de amigo, acabei transbordando também para o papel, tela ou um outro suporte qualquer essa limpeza, que fica perceptível nos meus trabalhos atuais, se comparados com os de dois anos atrás.

 
Qual foi a contribuição da Faculdade de Artes em sua formação?
Devo agradecer profundamente a todos os meus professores e colegas de profissão que estiveram presentes ali comigo, pois uma grande parte do que penso saber é fruto de reflexões feitas com essas pessoas. Não tenho absolutamente nenhuma reclamação a fazer, mesmo por que lamuriar é uma coisa que já nem combina comigo. Foi tudo como um grande 'rolé', numa grande festa. Lá aprendi, além de diversas técnicas que não conhecia, como gravura em metal, litogravura, cerâmica e outras, também aprendi a reconhecer que pra cada figura existe um fundo adequado, e isso serve para tudo na vida. Portanto aprendi na Guignard, em partes, a viver.

 

O que você pensa sobre o desenvolvimento e do mercado da arte contemporânea em Belo Horizonte?
Convenhamos, todos sabemos que em BH a “vaca é magra“ para o mercado da arte contemporânea. Aqui é um terreno fértil para a aparição deste mercado que timidamente vem despontando.  Em contra-partida os artistas estão intensos, fazendo acontecer diversos eventos que envolvem a arte na sua forma mais crua e sincera dentro da atualidade. Tais eventos envolvem sempre uma multiplicidade de atividades que é a própria noção de contemporaneidade que temos, 'sem querer querendo'. Sentimos que uma exposição não se sustenta mais sozinha, tem que ter música, teatro, performance, dança ou qualquer outra manifestação artística para agregar. E vice-versa e versa-vice pra todas as outras atividades artísticas contemporâneas que acontecem de forma espontânea e ardente.
Estamos no caminho certo, ou seja, o caminho das somatórias, da não-negação. E o melhor é que aqui em BH estamos lidando com tudo isso de forma lúdica, poética, brincando de fazer arte, nos divertindo, sem brigas contra o sistema, mas criando um sistema que é como paredes. Adequado para “pendurar nossos quadros”.

É possível viver de arte no Brasil?
Como não é possível viver sem arte, vivemos com ela, por ela, mas nem sempre se vive dela. Eu não fiquei rico mas pondero que eu vivo de arte e artesanato e outras atividades correlatas. Conheço gente que vive bem e outros que sobrevivem dela. Mas também conheço artistas que tem que se virar como podem, trabalhando em outras áreas que nada tem a ver com a arte.
Tem a arte educação, a arte terapia e outras que também ajudam a ganhar um dinheiro de forma mais regular.
Você pode virar galerista, curador, produtor, negociador... No fim terá “dor”! (risos)
Mas também terá prazer e reconhecimento. Os caminhos são muitos, e estamos trabalhando para ampliá-los.

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?

Por falta de organização da minha parte ainda não participei de nenhum salão de arte. Posso estar equivocado, mas cogito que as gerações passadas eram mais dependentes de salões que a minha. Artistas jovens como eu têm criado seus próprios métodos alternativos de se inserirem no mercado, porém eu sou do tipo que não quer quebra total com as tradições, pelo contrario, espero mesmo é somar com todas. Quanto mais melhor. Sou artista de cavalete à moda antiga, inclusive quando quero, faz parte também da minha performance brincar de ser tradicionalista.
Imagino que os salões sejam  eventos positivos e que trazem reconhecimento para quem participa, assim como leilões. De qualquer forma temos que mostrar nossos trabalhos se quisermos vendê-los. Mesmo com toda essa onda da virtualidade, o contato de 1º grau com a obra ainda se faz mais que necessário, pois ver uma pintura ao vivo supera de longe vê-la por foto, e os eventos são lugares para somar ideais, passear, fazer contatos, trocar, negociar.

 
Quais são seus planos para o futuro?
Dominar o “meu mundo” com meia dúzia de planos. Trazer beleza onde houveram jornais que pingaram sangue. Levar flores em lugares ariscos. Limpar mais que sujar. Me ofender menos ainda  com qualquer ideia errada sobre mim. Grafitar freneticamente vários muros  do lado de fora, na rua que é de todos. Pintar murais gigantescos  testando meus limites corporais. Fazer miniaturas como agradecimento pelas pequenas grandes coisas que nos acontecem em forma de milagres, sorte ou méritos. Ser melhor como ser humano pra ser melhor artista. Ganhar um pouco mais de dinheiro pra fazer coisas mais grandiosas pra minha família terrestre, ou seja, meu próximo. Adquirir mais sabedoria pra não ter que depender tanto de dinheiro. Pensar mais serenamente na natureza, e construir belos jardins. Degustar com mais calma as poéticas tragáveis dos amigos artistas. Fazer de tudo para que minha filha seja uma flor perfeita neste jardim que já comecei a construir, que é a própria vida e, no final de tudo, ter gratidão pela existência, simplesmente sendo feliz. Continuar achando tudo ótimo, com o coração aberto, sem forçar achar que a vida é difícil. Simplificar e saber organizar melhor minhas coisas e meu tempo. Respeitar o tempo do outro. Colecionar mais sonhos. Respeitar meus instintos. Perdoar minhas falhas. Perdoar nossas falhas. Ter mais carinho pelos objetos materiais, porém sem apego. Aprender a ser um pouco mais formal pra situações que precisam de formalidade, e me divertir com isso. Não me transformar em um ser humano esnobe em nenhuma hipótese. Observar minha própria ignorância a fim de revertê-la, subvertê-la... Surfar em “diversas ondas”. Entender minha ”onda”. Não ficar de “onda”, nem ir de “pilha”. Não sentir necessidade de explicar minha linguagem, sobretudo minhas gírias.
 


Sob Tapete ou Piso de Cera.

A Gente Vive na Moldura, 2012. 20x25 cm. Aquarela sobre papel.

No Delírio no Inconsciente Bruto de um Desejo, 2013. 15x15 cm. Nanquim sobre papel
 
 


No Corredor dos Mortos Vivos Atravesso com Passo Curto Lento e Silencioso, 2013. 19x14 cm. Nanquim sobre papel.
 
 


Pobre do Homem que se Esconde Atrás do Bigode, 2013. 19x14 cm. Nanquim sobre papel.
 
 


Onde Dormem as Flores,
 
 
Dorme, talvez se refaz, 2013. 10x15 cm. Nanquim sobre papel.
 
 
Meu Coração Deixo que Chore, 2012. 20x30 cm. Óleo sobre tela.
 
 
Traço Linhas com Ausência de Peso, 2013. 250x300 cm. Grafite sobre madeira.
 
 
Olhar que Penetra a Parede, 2012.
 
 
 

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