sábado, 28 de setembro de 2013

Marcio Fonseca entrevista Mauricio Noblat Waissman Noblat W.






Quem é Maurício Noblat Waissman?
Nasci numa família de pai judeu e mãe não judia. Meu pai, Moisés Waissman, era um homem com um grande senso de humor e cultura clássica. Minha mãe, Rosenil Noblat Waissman, é psicanalista e uma mulher de cultura mais eclética, podemos dizer assim. A família sempre teve essa mescla da experiência judaica como estrangeiro unido uma forte ligação com a cultura baiana. Estudei no Colégio Maristas de Salvador. Tenho 38 anos e nasci em Salvador – Bahia. Uso o nome de Noblat W nos trabalhos. Mais conciso.

Como a arte entrou em sua vida?
A arte sempre esteve no ambiente familiar. Minha mãe sempre teve quadros bastante refinados, apesar de não serem nomes conhecidos no mercado. Tentei aos 18 anos a música como caminho, mas não era fluente em mim. Como sempre desenhei desde muito pequeno, comecei a mergulhar com tudo na literatura e desenhar sempre. A literatura marcou bastante meu imaginário visual.

Qual foi sua formação artística?
Fiz oficinas de desenho, pintura, cerâmica e escultura no MAM – BA. Depois de a fotografia digital ter se firmado comecei a fazer cursos de fotografia. Fui assistente de atelier do pintor e fotógrafo Edgar Oliva em Salvador.


Que artista influenciam seu pensamento?
Nas artes plásticas a geração de pintores ingleses como Bacon, Auerbach, Freud, Hockney. Também Balthus, Paula Rego e Hopper. De outro lado, o Neoconcretismo brasileiro, Mira Schendel e outros como Louise Bourgeois, Richard Serra, Klee , Anish Kapoor. Porém, mais me influencia a literatura e a filosofia: Kafka e Giorgio Agamben principalmente. Brueghel, Velásquez e Goya sempre me marcaram. muito também. Algo de Naif é legal também.


Fale sobre os meios utilizados e os assuntos discutidos em seu trabalho.
Comecemos pelos assuntos: basicamente a idéia de labirinto e palco. Esses dois temas se desdobram visualmente em grafismos, figuras, texturas, espaços arquitetônicos que me deixam bastante livre para transitar entre pintura, desenho, gravura, escultura, fotografia e trabalhos tridimensionais, além de ser uma metáfora da linguagem como elemento da vida e abrir um leque para a sátira. Os meios usados são tecidos das mais variadas texturas com objetivo de equilibrar as composições entre linha, cor e luz. Penso mais na forma/e conteúdo do que nos materiais em si. Os meios e materiais( técnica), de algum modo surgem no processo do trabalho. A técnica usada influencia a forma, mas não é a forma. Pode surgir algo intenso com a técnica mais tradicional de uma pincelada, como pode também demandar para atingir a forma o uso de certas técnicas não tradicionais. Sempre penso em forma/ conteúdo primeiro para só depois investigar que técnica será usada. Houve recentemente uma busca pela excentricidade de técnicas que descambou para a técnica pela técnica. Em mim, o que gera o impulso são os limites da própria linguagem( forma) em si mesma, mas não desligada dos questionamentos a elementos do nosso tempo. Tento não me ater apenas ao universo do mundo das artes e do mercado como objeto de ironia também. A vida real é mais rica em nuances.

Como você estuda e se atualiza?
Desenho, desenho e desenho. No mais devorar literatura e se desligar da hemorragia de imagens que nos bombardeiam na internet. Fotografar sempre. Ver o que está sendo exposto tanto de artistas consagrados como seleções de Salões de Artes também é bom, mas sempre filtrando o que interessa.

Que outros fatores contribuem para elaboração de seu trabalho?
Um fator que hoje me intriga é a experiência entre o original e a imagem copiada. A experiência com um original de Van Gogh , Bacon e outros é única, mas a cada dia essa experiência com o objeto, com o original se dilui, pois a grande maioria das pessoas tem acesso às imagens em livros e pela internet. Outro fator que está muito no meu trabalho é o tema de que vivemos uma Idade Média invertida. Em nenhum momento da história tanta informação e conteúdo estiveram à disposição de todos como hoje em dia. Isso, de algum modo, gerou um efeito contrário. Tem-se informação demais e conhecimento de menos. Cada vez mais somos empurrados a sermos rasos e superficiais em diversos assuntos. É uma época de muitas “certezas”, apesar da intensa instabilidade/velocidade em que vivemos. Todos, desde religiosos, cientistas, artistas, psicanalistas até o simplório homem do povo, chegam a um ponto que não mais fazem perguntas e se apegam a suas certezas. Isso é uma angústia de nosso tempo, pois se tem uma ilusão de estarmos numa nova Renascença, numa “era do novo”, mas se olhar com mais atenção veremos que pertencemos a uma época e atmosfera Goyesca. Tento chegar ao ponto que essas sensações se expressem por si nos trabalhos, sem necessitar de grandes explicações sobre ele. Ao menos esse é um objetivo.


O que você pensa sobre o desenvolvimento e do mercado da arte contemporânea em Goiás?
Eu, quando me mudei para Goiás, não imaginava que se estava tendo tamanho movimento na área. Brasília (mesmo não sendo Goiás), Goiânia e Anápolis apresentaram artistas muito versáteis nas exposições que vi por aqui. O mercado está se consolidando como em todo Brasil. Existe certa reticência a investir em arte ainda, mas se deve também a um princípio básico de mercado : oferta e procura. Hoje é muita oferta e muita insegurança acerca do que se insere como contemporâneo ou não e o que tem qualidade ou não. Curadores, colecionadores e potenciais compradores vivem um momento difícil em termos de definir o que tem potência real para se manter e crescer e o que efêmero, datado e raso a médio/longo prazo.


É possível viver de arte no Brasil?
Sim e não. Cada pessoa tem uma história de vida singular. Um grande artista pode ser descoberto pelo mercado precocemente e ter bons contratos, como pode passar boa parte de vida correndo atrás. Para o segundo exemplo, que é maioria, o lance é continuar produzindo e se mantendo com atividades outras até entrar. Por mais apertado que seja o que tem qualidade mesmo uma hora entra e terá o devido reconhecimento. Sempre haverá canastrões que ficam ricos precocemente e não são nada. É o famoso caso do artista que vale mais vivo do que morto, pois tem bons contatos e sorte, claro. O importante é não entrar na “glamorização da rejeição”, querendo reviver o romantismo de um Van Gogh e outros. Nosso tempo é um tempo pragmático. Não há espaço para subjetivar demais o êxito e o fracasso. Tudo é muito rápido e efêmero. Van Gogh viveu em outra época. A competitividade do mundo atual não favorece os neuróticos. Para o mercado de arte um psicótico é mais útil. Pode ser marketeado e bem vendido.
O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Os Salões de Arte são ótimos para estimular os novos artistas produzirem, pensarem e repensarem a produção. O fator mais positivo que vejo nos salões de arte é que hoje temos curadores em número suficiente para discordarem entre si. Quanto mais variedade de percepção entre os curadores melhor para os artistas.


Quais são seus planos para o futuro?
Produzir com fluência algumas idéias suficientes para poderem ser expostas em conjunto. No mais, é tentar não se seduzir pelo fácil e se policiar para filtrar esse excesso de imagens em que vivemos. O mercado... uma hora as coisas rolam.



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