quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Marcio Fonseca entrevista Ana Beatriz Britto



 Ana Beatriz Britto é uma profissional que prima pela competência, educação e comportamento ético impecável.




Ana Beatriz, como se deu seu encontro com a arte?
Meu encontro com a arte se deu muito cedo quando eu tinha quinze anos e li um livro "A Necessidade da Arte" de Ernst Fischer. Foi um livro marcante porque o foco do livro era demonstrar como a arte diferencia o homem; é uma necessidade que o homem tem dentro de si e que procura a arte porque o completa.
Viajando descobri as artes visuais através de livros e visitas a museus. Mas, meu interesse se direcionou ao trabalho quando comecei a estudar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage; primeiro com a Viviane Mattesco, depois, anos de aulas com Reynaldo Roels. Por incentivo de artistas da EAV comecei a trabalhar com arte.


 O que é um escritório de arte e qual a diferença para uma galeria?
Um escritório de arte tem o compromisso de divulgar e comercializar as obras dos artistas com os quais trabalha,mas no escritório de arte existe uma liberdade maior do que em uma galeria tanto para o marchand como para os artistas. O   escritório não se compromete a levar os artistas para as feiras nacionais e internacionais e também não tem uma agenda de exposições como uma galeria. Sendo assim, o escritório se dedica mais a venda sem deixar também de poder promover exposições que podem ter diferentes formatos. O escritório não pede exclusividade e trabalha com um número maior de artistas do que uma galeria.
Uma galeria tem um espaço expositivo e uma agenda organizada de exposições.Por conta dessa agenda e da divulgação dos artistas e feiras ,o número de artistas normalmente é menor para que tal função seja exercida de forma satisfatória. A galeria pode pedir exclusividade,normalmente, quando compra obras com regularidade,ou se compromete a organizar exposições.Enfim, a exclusividade pressupõe comprometimentos de cada parte: galerista e artista.
Algumas galerias não pedem exclusividade ou pedem a apenas alguns artistas,não existe um padrão único,depende do entendimento das partes.




As obras comercializadas pelo seu escritório de arte podem ser parceladas?
Sim, o importante é que o interessado em uma obra de arte consiga o meio para adquiri-la. E quem sabe iniciar sua coleção de arte!!!!
Esse é o grande desafio de um marchand; despertar no cliente o desejo de conhecer mais, entender mais e iniciar uma coleção.




Você comercializa vários meios tais como pintura, desenho, gravura, fotografia, objetos e instalações?
Sim, todos esses meios, sendo que a pintura continua com uma certa primazia sobre os outros meios por conta da questão da decoração.A escultura e desenho também são muito procurados e a instalação fica mais restrita; a compra se dá por parte de instituições ou colecionadores. Acredito que a mentalidade está se tornando mais receptiva à instalação, mas existe a questão do espaço,  e nem todo interessado em arte dispõe do espaço para adquirir uma instalação.




Obras em papel sofrem alguma restrição pelo público, sob a  alegação de durabilidade menos?
Algumas vezes,mas não é um impedimento para a maioria.
Quando o cliente realmente encontra o que procura , pode ser papel.Temos excelentes restauradores,sem contar os cuidados que podem ser mantidos.
Pessoalmente, adoro!



E os vídeos há procura?
Não.


 A sua atuação é só na arte contemporânea?
Sim. Considero necessário ter um projeto para seguir, estabelecer metas.Trabalhar com arte moderna e contemporânea é possível,mas penso que seria difícil, pois considero importante o máximo de atenção na atividade que se exerce.


E de que maneira um cliente poderia entrar em contato com seu escritório?
Através do meu email: anabeatrizbritto@gmail.com ou do meu telefone:9989-3786.


Você poderia falar um pouco sobre exclusividade, parcerias e ética no mercado de arte?
A questão da ética é fundamental em qualquer atividade profissional, o mercado de arte é um mercado mais informal do que outros mercados de trabalho, mas de um modo geral, considero que escritórios e galerias estão se profissionalizando cada vez mais.
A questão da exclusividade acontece em algumas galerias e nesse caso tem que ser respeitada, contudo sempre existe a possibilidade de uma venda em parceria. É extremamente comum e pode beneficiar todas as partes.
A ética inclui exatamente respeitar a exclusividade quando existe, e também respeitar os artistas de cada galeria, procurando, no caso de venda de uma obra de artista de outra galeria, em primeiro lugar, o marchand ou galerista, para combinar como poderá se realizar essa venda, atendendo a todas as partes. O importante nesses casos é a realização da venda.

Como você escolhe o grupo de artistas que trabalha?
Quando escolho um artista para convidá-lo a trabalhar no meu escritório, busco alguém que tenha um conhecimento de arte e que esse conhecimento se reflita na sua obra.
E também considero importante o compromisso; que esse artista se dedique “duramente” a sua obra para que seu trabalho não seja meramente um trabalho de “moda”.
A qualidade, o conteúdo, o propósito é o que irá determinar se a obra que o artista produz realmente é uma obra de arte e que esse artista não produz apenas para vender.
A escolha,então, acontece através do pensamento, de um ponto de vista sobre a arte.
Atualmente alguns galeristas procuram curadores para ajudar nessa escolha. Mas,de um modo geral o marchand ou galerista define o perfil da sua galeria refletindo, então uma visão,uma manifestação de idéias.
Afinal,com dizia Leonardo, arte é coisa mental e trabalhar com arte também!!!!!
Sendo assim, cada escritório tem o seu perfil, às vezes acontece uma coincidência de alguns nomes em comum ,mas nada que comprometa a capacidade primeira do marchand em organizar um grupo de artistas que reflita o seu próprio pensamento.






 Você trabalha com algum artista que esteja expondo agora no Rio ou SP?
Sim.
A Rosana Ricalde está expondo na Casa de Cultura Laura Alvim; uma exposição impecável tanto do ponto de vista conceitual como do ponto de vista visual. As obras tem um impacto estético e poético realmente significativos e coerentes com a trajetória da artista. A exposição permanece até 11 de agosto.
Fernanda Leme, artista com trajetória mais recente, mas que vem se inserindo com seriedade no mercado de arte, inaugura dia 08 de agosto de 2013, exposição coletiva no Centro Cultural da Justiça Federal com curadoria de Luiz Ernesto e Bruno Miguel.
E Ricardo Becker inaugura dia 16 de agosto de 2013 nas Cavalariças do Parque Lage as 19 h uma exposição individual; Projeto Ricardo Becker; Cavalariças da Escola de Artes Visuais do Parque Lage,"Espelho Seu”.
A exposição é imperdível pela qualidade do trabalho, pela adequação pertinente da obra ao lugar e pela sua inserção em todo o contexto conceitual da trajetória do artista.  A instalação se  impõe visualmente e se integra ao ambiente ; possibilitando e exigindo uma experiência integral do visitante. A questão da percepção leva o espectador a interagir com a obra.
Certamente, Ricardo Becker se impõe como um nome importante no cenário da arte contemporânea; suas obras se adequam a seu tempo, possuem um discurso que se desenvolve conceitualmente de forma coerente e produz uma variedade de formas que se integram as questões que apresenta e discute. É um artista que valoriza a forma ,mas Ricardo  não abre mão do conteúdo que a forma desvela.






 O que você pensa sobre o mercado de arte no Rio de Janeiro?
Penso que o mercado está mais profissional, que as feiras tiveram um papel muito importante na divulgação do mercado de arte; estimulando o interesse e o surgimento de novas coleções.
Acredito que existe o lugar das galerias e existe o lugar dos escritórios e também de profissionais autônomos. O mercado de arte abrange vários modelos.
E o importante é que cada marchand cumpra o papel de não ser apenas um vendedor, mas de um formador de opinião com capacidade de despertar verdadeiramente o interesse de seus clientes em arte.


Como é a sua relação com os artistas?
É uma relação de parceria, o sucesso depende do programa, da seriedade e da colaboração com os artistas. O êxito tem que ser compartilhado por ambas as partes; a responsabilidade é um vínculo.
É uma relação a ser valorizada, afinal a arte é um valor mais elevado, é uma forma de tocar algo que nos ultrapassa.

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