quinta-feira, 4 de julho de 2013

Marcio Fonseca entrevista Raquel Versieux








Quem é Raquel Versieux?
Nasci em Belo Horizonte e morei durante a infância e a adolescência em Sabará, pequena cidade barroca vizinha de BH. Nesse período sempre estudei em BH, bate-volta entre casa e colégio pelas margens do Rio das Velhas. Hoje situo essas viagens diárias, ainda que curtas — podendo acompanhar durante anos as transformações das periferias das duas cidades — como fundamentais para meu entendimento de deslocamento. As viagens eram sempre muito mais divertidas que as aulas, muito mais dinâmicas. Via-se de tudo: rodeio, ciganos, sem-terra, carroça, esgoto, andarilho, enchente, incêndio, moinho;
Já na faculdade estudei 3 anos de Ciências Sociais na UFMG e depois migrei para Artes Visuais na EBA, na mesma Universidade. Fiz intercâmbio por um ano na Bélgica, onde estudei fotografia na La Cambre, voltei e me formei em Desenho. Hoje faço mestrado em Linguagens Visuais na EBA UFRJ.
Já fotografei evento, fiz estágio em uma escavação arqueológica no Museu do Ouro em Sabará e como arte educadora no Inhotim, também trabalhei como assistente para as artistas Sara Ramo e Cinthia Marcelle, em projetos pontuais.



Como foi sua formação artística?
Um dos meus irmãos mais velho é pintor, Leonardo Versieux, e ele sempre pintou. Acho que quando eu nasci ele já pintava e tinha um cantinho no quintal que era o ateliê dele, que eu sempre achei que era meu também. Então começa aí, em casa. Na família tem outros artistas, meu bisavô Aníbal Mattos, que foi um dos fundadores da EBA da UFMG, na época ainda associada à escola de Arquitetura, era também pintor, entre outras tantas atividades. Na minha casa tinha muitos quadros dele, eu lembro de ficar olhando praquilo, tudo paisagem, marina e retrato. Eu ajudava a tirar poeira dos quadros. Sempre ouvia uma história da possível rivalidade entre Aníbal e Guignard e pra entender eu precisava saber o que era arte acadêmica, impressionismo e modernismo — minha mãe me explicava isso. Tem também o Humberto Guimarães, meu primo, que é professor na Escola Guignard, um super desenhista e aquarelista. Ele sempre me dava de presente livros que ele ilustrou e eu achava demais, um encanto pelas imagens impressas.
Lá na EBA tive a sorte de ter professores queridos em momentos decisivos, que me incentivaram e influenciaram: Liliza Mendes, Wanda Tófani, Mabe Bethônico, Patricia Franca, Rodrigo Borges.
Considero ainda um viagem que fiz pra Nova Iorque, pra visitar um outro irmão, quando fiquei por conta de ir a museus e ao máximo de galerias possível. Isso foi em 2007 e ainda não tinha rolado a crise, e era galeria de arte que não acabava, todos os dias tinha 3, 4 ou 10 aberturas num mesmo quarteirão, naqueles galpões do Chelsea. Eu fiquei muito impressionada com isso, com a velocidade das coisas.
Ter participado das atividades do CEIA – Centro de Experimentação e Informação em Arte, coordenado pelo Marco Paulo Rolla e Marcos Hill, também é parte importante da minha formação, pois sempre ofereceram uma passagem entre BH e o mundo e espaço para livre experimentação.
Aprendi muito durante o estágio em arte-educação no Inhotim. A equipe inteira é muito bem treinada e a gente tinha que pesquisar todos os artista da coleção, além de exercitar a mediação com o público.
Em BH, e eu arrisco em MG, não existe um museu de arte com acervo exposto ou coleção permanente, então o Inhotim, que é uma coleção particular, tem cumprido esse papel de formação, de educação pela coleção. Se você for hoje nas escolas de arte vai ver que os alunos novos já estão muito mais por dentro de Arte Contemporânea do que quando eu entrei, houve uma transformação em 8 anos. Porém, gostaria de deixar um alerta para as instituições públicas mineiras: é uma pena perceber que isso está sendo legado à iniciativa privada, e sinto que esse problema infelizmente não é exclusividade de Minas.



Que artistas influenciam seu pensamento?
Sem dúvida o primeiro que me vem é Robert Smithson, compartilho muito o modo como ele descreve o mundo, a entropia das coisas. Depois os minimalistas, acho tudo muito bonito – e acho digno achar bonito - até essa ideologia pureza que eles viviam. Hélio e Lygia, as cartas trocadas por eles, os escritos, a fluidez das coisas e a coerência dos trabalhos. Charles Ray, de como mistura fotografia, escultura e o corpo. Jannis Kounellis, esse eu queria para ser meu avô. Na verdade não tem muita ordem, mas esses aí são os que me emocionam, e tem sempre um novo que aparece. E tenho andado apaixonada com os Renascimentos, assim no plural mesmo, Fra Angelico, Piranesi, Domenico Veneziano, esse tem um jeito de fazer montanha e usar o preto chapado que é incrível, totalmente contemporâneo, e o bom humor do Paolo Ucello.


Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
A internet, o google. Eu sou da geração que viu a internet chegar, a linha do telefone ficava ocupada, lá em casa tinha muita gente, era um problema. Então eu gosto de livro o mesmo tanto que de pdf, vivo a transição disso, aprendi as duas coisas quase ao mesmo tempo. E acho meio mágica, as imagens ali todas guardadas sei lá onde, numas ilhas de HD no meio do pacífico, é muito pra eu entender de forma lógica, então me aproprio de forma fantástica. Tenho usado muita imagem da internet, que considero como uma espécie de câmera, como se estivesse fotografando eu penso numa situação, digito, traduzo pra outras línguas e sempre acho algo muito mais interessante do que imaginei. Tenho uma obra em processo que é feita assim, Flock of birds.



Como você descreve seu trabalho como artista?
A minha prática artística começa em 2006, e desde então me interessou a aproximação entre fotografia e escultura, através de uma constante perseguição e representação de um tema, as erosões e sua possível essência - ou projetos de terra. Nessa de aproximar suportes me permiti aproximar campos do saber, “o artista como produtor”, “como etnógrafo”, como geômetra, como cientista e, por quê não, o artista como artista.
Envolvida academicamente com um retorno à “história da paisagem” e na tentativa de caminhar por uma “paisagem” que fosse mais particular, passei a entender "paisagem como deslocamento”: a terra que escorre, o vento que faz voar areias finas, o tremelique das ondas disfarçado em linha de horizonte rígida, quando muito bruma; a pescaria de memórias que retornam ao presente, o olhar atento às margens de uma estrada em movimento, a chaminé da fábrica; o deslocamento dentro do deslocamento, paisagens engrenadas, a força que faz tudo se mover.
Se tudo está em movimento, em deslocamento, tudo é então paisagem – essa é a minha equação e tento apresentá-la através de imagens. Já extrapolei para além de fotografia e escultura, apareceu vídeo, voltei com o desenho, texto, impressão, imagem roubada, colagem. Não me fecho nem prefiro determinada técnica; por exemplo, ando pensando em música, seria um comentário à nova mpb, se rolar mesmo vai ser um disco, então vou acionar quem pode me ajudar, os amigos músicos. A grande vantagem de estar nesse tempo agora é que a gente pode qualquer coisa, a não-especialização técnica é um prazer, penso inclusive que não se deve acreditar em especialização alguma.
E nessa sopa onde tudo é válido o tema acaba se expandindo também e se tornando cada vez menos literal. Permanecem propostas onde há um deslocamento interno à elas, algo que se desenrola ao longo do tempo, entre dois estados, o ponto inicial e um outro, como se existisse um diferencial entre dois momentos, que podem ser físicos ou fantásticos. Justaposições que podem ser de espaço-tempo, alinhamento de corpos, do passado ao presente; alinhar cultura e natureza, ciência e arte, amor e geometria.

Você participou do Rumos Itaú Cultural, como foi a experiência?
É de sentir saudade. O projeto teve um ano de duração e a obra viajou, isso foi muito bom, enquanto o trabalho circulava eu me sentia ocupada. A relação com os outros artistas e com os curadores foi demais, é muita gente, gente diferente, de muitos lugares do Brasil, todo mundo afim de trabalhar muito, cheio de idéias, projetos, e sinto que ficou uma solidariedade entre os que participaram, um união, isso é sensacional. E com certeza muita coisa aconteceu depois disso, desdobramentos, questões, novas oportunidades. Eu já to curiosa pra saber como vai ser a próxima edição, desejo vida longa ao programa!





Como você descreve o mercado de arte em Minas Gerais?
Pergunta difícil. Sinceramente não sou a melhor entendida do assunto. Acho que não entendo muito porque não é um mercado muito aparente; não vejo muita movimentação então não sei o que dizer. O que estou vendo acontecer é que o pessoal está se organizando e promevendo seus próprios eventos, não só com intuito de venda. É ainda um começo mas penso que a tendência é crescer. A falta faz surgir formas mais criativas e essa adaptação é interessante e inteligente, os eventos se tornam pontos de encontro na cidade, de referência. Posso citar a Casa Camelo, o leilão Piolho Nababo e Romano Stochiero 54, iniciativas totalmente colaborativas onde há um interesse maior em circulação de ideias e obras, e que podem também vir a incentivar um público consumidor.



Você irá para a Croácia numa Residência Artística, qual o significado para sua carreira. O que você espera realizar lá?
Estou um pouco atrasada com a entrevista, então eu já fui e voltei. Vou contar da experiência que foi muito boa. Fomos eu e Vicente Pessôa e lá a gente trabalhou como dupla. Esse era o princípio da residência: fundir nossos pontos de vista, experiências e meios. Ele é designer gráfico por formação, e trabalha também com performance e poesia. Tivemos dois momentos, em duas cidades diferentes, Rijeka, uma cidade portuária e na capital Zagreb. No primeiro focamos em obras site specific, tivemos uma galeria inteira para ocupar e fizemos a exposição “Where the houses live”;no segundo lançamos um livro, NEVEN. Começamos a produzir algumas imagens aqui no final do ano passado e terminamos lá. O livro é composto só de imagens, a maioria foto-performances. A idéia central é a construção de um possível amor geométrico a partir de metáforas visuais e abstrações. Nós queríamos contar uma história, a de um casal que vive de imagens, e que essa história pudesse se desdobrar. Conseguimos apoio do Ministério da Cultura para Intercâmbio, o que possibilitou imprimir o livro lá e pagar as passagens, uma ajuda fundamental. Lá tínhamos apoio da Temporada 2013 Queer Zagreb, Drugo More e Kamov. E a experiência foi excelente, quarenta e cinco dias intensos e de muito trabalho. Conhecemos muitas pessoas diferentes e aprendemos muito sobre as culturas dos Bálcãns, o contexto da guerra da Bósnia, a independência de Kosovo, que até hoje não está estabilizada de fato, o impacto da UE sobre os países do leste e ex-comunistas; enfim, aula de geografia todo dia e a todo momento. Isso pra mim é o aprendizado mais válido de uma viagem, um outro ponto de referência, a imersão na cultura de um lugar diferente, para além do resultado dos trabalhos práticos. É claro que uma coisa leva à outra, então posso dizer que fomos duplamente felizes, porque pudemos realizar muita coisa e temos muitas ideias novas anotadas. Penso que com isso se aprende também um novo tipo de jogo de cintura, uma qualidade de adaptação.


É possível viver de arte no Brasil?
Eu adoraria. Vejo que algumas pessoas vivem, outras muitas tentam e outras não conseguem. Antes de dizer que não consigo, prefiro dizer que sou dessas que tentam. Talvez a pergunta certa seria: é possível viver no Brasil? Ou ainda, é possível viver? Sinceramente não sei te dizer se estaria mais fácil se eu fosse publicitária, dona de bar ou taxista. Então, como por enquanto é isso que eu sei fazer, gosto de fazer e não fazer me deixa imóvel, eu vou continuar tentando. Por enquanto eu tenho bolsa no mestrado e ajuda da família, ainda mais morando no Rio. Continuar na academia é um plano também. É bem possível que em breve eu esteja de volta à BH, lá ainda consigo ter um custo de vida mais baixo e fica mais fácil investir em novos projetos. Há pouco tempo comecei a trabalhar com uma galeria aqui no Rio, a Athena Contemporânea, vendi meus primeiros trabalhos na SP-Arte, umas fotografias. Deu pra ficar empolgada, mas é tudo muito incerto. A lógica de mercado cai matando sobre os jovens artistas: somos as ações mais baratas, então o colecionador-investidor pode começar apostando em vários jovens artistas a um custo mais baixo, e entre todos com certeza algum vai valer mais e oferecer retorno. Pra quem está começando nesse mercado, e vejo uma classe nova de recém investidores em arte, é mais fácil apostar assim do que por toda as fichas em um único nome. Por isso essa pulverização, por isso esse monte de jovem artista quase eternamente jovens. E o mercado de arte no Brasil está em expansão, em 2012 representou 1% do volume mundial, o que parece pouco, mas foi a primeira vez que o Brasil entrou nessa lista, e isso equivale a meio bilhão de euros: é muito dinheiro. Enfim, também não considero o mercado como a única solução, é preciso exercitar a criatividade nisso também, ativar outros meios de ter um retorno, nada está fácil.



O que pensa sobre os salões de Arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Eu nunca participei de um evento que tivesse Salão no nome, mas já tentei algumas vezes e com certeza participei de outros eventos que seguem a mesma estrutura. Tenho algumas sugestões. Parar de exigir ineditismo é uma delas. É difícil ter trabalho inédito sem dinheiro para produzir e na maioria dos casos o cachê não cobre custos de produção e postagem. Não entendo muito como ainda mantém aquela tabela: pintura, escultura, fotografia, e bla. Será que fazem estatísticas, selecionam por abrangência? Outro problema é enviar projeto por correio, sedex é caro demais, imprimir gasta tempo, papel e dinheiro, além disso são raros os que devolvem o material. Tenho dado preferência aos editais que aceitam inscrição por plataformas online.



Quais são seus planos para o futuro?
Ando sentindo muita falta de ter um ateliê, um espaço de trabalho regular, e esse é, com certeza, o próximo passo.
Agora estou trabalhando para a minha primeira individual, “A Feira da Incoerência”, em outubro, na galeria Athena Contemporânea. Como indica o nome, é um conjunto de trabalhos sobre tudo isso que está aí.


Das Erosões das Máquinas.


Falha de Comunicação

Intervalo Completo.


Quatro Dimensões de Paisagem.




Rack System ou Autorretrato.


Erosões de Luz.


Raco 1
Platão.
L'Amor Che Move.

Amor que Move


Quadrilátero I
Quadrilátero 4.
Série Perto de Onde Posso Morar 4.



Série Perto de Onde Posso Morar 1.


Untitle #1 Untitle2# Raquel Versieux e Vicente Pessoa.


Trilha. Versieux & Pessoa.


A Queda Versieux & Pessoa.

Reino. Versieux & Pessoa.

Muda.






Raquel Versieux

1984 | Belo Horizonte | Minas Gerais | Brasil
Atualmente divide a vida entre as cidades do Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Bolsista do CNPq no Mestrado em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Foi Bacharel em Desenho pela Escola de Belas Artes da UFMG. Estudou Fotografia na École Nationale Supérieure des Arts Visuels - La Cambre, em Bruxelas, na Bélgica (2007-2008) e Ciências Sociais na UFMG (2003-2006).

Artista representada pela galeria Athena Contemporânea

Exposições, Intervenções Artísticas e Atuações na Área

2013; Lançamento do livro de artista NEVEN com Vicente Pessôa | Familija Bistro | Belgrado, Sérvia
Publicação do livro de artista NEVEN com Vicente Pessôa | Temporada Queer 2013 | Kulturno Informativni Centar - KIC | Zagreb, Croácia
Where the houses live com Vicente Pessôa | SIZ Galerija | Rijeka, Croácia
Convite à Viagem - Rumos Artes Visuais | Paço Imperial | Rio de Janeiro-RJ
Selecionada pelo Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural / MinC - Edital 2013/I para Residência Artística na Croácia [Março e Abril de 2013]
Universidade de Verão – Capacete Entretenimentos | 80h/aula. Rio de Janeiro-RJ
2012; À Deriva - Rumos Artes Visuais – 2011-2013 | MAJ | Joinville-SC
DESLOCAMENTO F(R)ICÇÃO GALPÃO CAPANEMA | Funarte | Rio de Janeiro-RJ
Artes e Ofícios 1 - para todos | Galpão do Liceu de Artes e Ofícios | São Paulo-SP
EM COMODO | 44º Festival de Inverno da UFMG | Diamantina-MG
Sad Tropics | Queer Festival - Karas Gallery | Zagreb - Croácia
Perpendicular Fortaleza | Centro Cultural Banco do Nordeste | Fortaleza-CE
Convite à Viagem - Rumos Artes Visuais 2011-2013 | Itaú Cultural | São Paulo-SP
15º Mostra de Cinema de Tiradentes - Mostra Minas | Tiradentes-MG
Conversas - CEIA 10 anos | Centro Cultural da Usiminas | Ipatinga-MG
2011; Território de Caça | Galeria Zipper | São Paulo-SP
CA-BRA | Galeria Vermelho | São Paulo-SP
Curta Cinema - Mostra Experimenta Brasil | Rio de Janeiro-RJ
Formandos 2011.1 EBA | UFMG | Belo Horizonte-MG
Mostra! | Exposição Anual dos Alunos da EBA, UFMG | Belo Horizonte-MG
2010; Bienal Universitária Internacional Zero | Belo Horizonte-MG
Mostra Energias na Arte EDP | Instituto Tomie Ohtake | São Paulo-SP
Hélio Oiticica – Museu é o Mundo | Itaú Cultural | São Paulo-SP
Mostra Olheiro da Arte | CCJE | Rio de Janeiro-RJ
Mostra Foto-celular; fotografia “esperando envelhecer” premiada pelo júri-técnico. CCJE | Rio de Janeiro-RJ
2009; Publicação da série Cadeira, asa | Revista Gudi #2 | São Paulo-SP
MIP2 | Performance Entre com Bárbara Ahouagi | Belo Horizonte-MG
Mostra de vídeo do MIP2 | Belo Horizonte - MG
2008; Disseminação III, Mostra de vídeo e cinema experimentais | Museu Inimá de Paula| Belo Horizonte-MG


;










Nenhum comentário:

Postar um comentário