terça-feira, 23 de julho de 2013

Marcio Fonseca entrevista Fabio Carvalho

* Fábio Carvalho - artista plástico carioca em atividade desde 1994, com mais de 90 exposições no Brasil e exterior, com obras em diversas coleções públicas e privadas.





Fábio, qual a importância da Residência Artística em sua formação?
O que eu, como artista plástico, acho mais importante numa residência artística, além naturalmente do contato e trocas com os outros artistas na residência, é como ela pode transformar e reorientar teu trabalho. Estar em outro local, outra realidade, onde tudo é novidade, tudo é informação fresquinha, a cada esquina, a cada minuto, pois nada daquilo faz parte do seu território ou da sua zona de conforto, te tira do óbvio, te leva a refletir muito mais do que fazemos no dia a dia. Você precisa se adaptar, criar novas interfaces. Você apreende em pouco tempo muito mais do que apreenderia na sua rotina já bem conhecida de casa.
Por exemplo, quando eu fui para Caldas da Rainha (Portugal) para a residência artística da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, e acabei passando um mês em Portugal além do período da residência, entrei em contato com um universo cultural que me tocou profundamente, acho até que me mudou um pouco como pessoa, talvez por aquilo tudo de alguma forma ser minha "arqueologia cultural ancestral", uma vez que sou descendente de português tanto pelo lado materno quanto paterno. Eu precisei voltar uma vez mais a Portugal, para estudar alguns aspectos daquela cultura mais à fundo, em particular o bordado nortenho, que foi incorporado ao meu trabalho, e no momento é uma das técnicas mais presentes em meu trabalho. Eu antes de ir para Portugal jamais pensei que um dia iria bordar como forma de expressão artística, justo eu que não tinha a menor habilidade ou intimidade com agulhas e linhas.





Obras de Fábio Carvalho, Tonico Lemos e Isabela Capeto, da esquerda para a direita, na exposição Bordallianos do Brasil


Em julho de 2011 eu fui convidado pela Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro, de Caldas da Rainha, Portugal, a integrar um grupo de 12 artistas brasileiros que iria para lá com a missão de reinterpretar a obra em cerâmica de Rafael Bordallo Pinheiro. Cada um de nós deveria durante os 10 dias de uma residência artística criar uma peça original, mas que partisse de uma peça histórica criada por Bordallo Pinheiro ou pelos artistas que o sucederam na fábrica caldense ao longo dos seus quase 130 anos de funcionamento.

Este convite era uma oportunidade sem igual para cada um de nós, mas ao mesmo tempo um desafio imenso, e também uma responsabilidade pesada, pois não apenas estaríamos representando o Brasil em um projeto internacional, como também estaríamos metendo nosso “bedelho” na obra de um dos artistas mais originais da segunda metade do século XIX, com uma obra riquíssima e densa. Bordallo criou uma obra em cerâmica herdeira da tradição naturalística de Caldas da Rainha, que começou com Manuel Mafra, que por sua vez for a muito influenciado pelo francês Bernard Palissy. Porém, Bordallo Pinheiro foi muito além de seus antecessores, levando o estilo a um rebuscamento e exuberância quase barrocos, além de introduzir a prática caricatural à cerâmica, sua principal marca nas artes gráficas.

A medida em que o projeto Bordallianos do Brasil foi progredindo, mais artistas foram sendo acrescentados ao grupo original, chegando ao final a 20: Adriana Barreto, Barrão, Caetano de Almeida, Efrain Almeida, Estela Sokol, Erika Versutti, Fábio Carvalho, Frida Baranek, Isabela Capeto, Laerte Ramos, Marcos Chaves, Maria Lynch, Martha Medeiros, Regina Silveira, Saint Clair Cemin, Sérgio Romagnolo, Tiago Carneiro da Cunha, Tonico Lemos Auad, Tunga e Vik Muniz.

As 20 novas peças, que agora integram a coleção Bordallianos do Brasil, e já fazem parte do acervo permanente do Museu Bordallo Pinheiro, terá uma tiragem de 250 exemplares, metade para o mercado brasileiro, e metade para o mercado português. O Projeto foi finalmente lançado no Brasil no dia 3 de julho passado, em uma grande exposição no Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. A exposição inclui não apenas as 20 obras dos autores brasileiros, como também diversas peças cerâmicas e reproduções de peças gráficas de autoria de Bordallo Pinheiro. A exposição seguirá ainda para o Rio de Janeiro e São Paulo, entre julho e setembro deste ano, encerrando sua itinerância em outubro em Lisboa, Portugal.





Outras obras


 Floreiro Archeiro, 2011-2012. Faiança policromada pintada à mão. 43x24x24 cm.


Pérolas aos poucos No 5, 2012. Tecido montado sobre chassi, bordado à mão, apliques industriais, pérolas falsas.



Se Renda Há No 1, 2012. Reprodução fotográfica montada em chassi, renda, pérolas falsas bordadas à mão.


Monarca No 1, 2012. Guardanapo antigo, bordado feito à mão, soldado de plásticos. 36x36 cm.


Frequently Secrety, 2013. Instalação com vídeo e objetos. Galeria Artur Fidalgo. Foto Claudio Senra.









Em http://conversaartes.blogspot.com.br você poderá ler a entrevista do artista.




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