quarta-feira, 5 de junho de 2013

Marcio Fonseca entrevista Lourdes Barreto





Quem é Lourdes Barreto?
Sou uma pintora e professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nasci em Salvador onde vivi até a adolescência. Com meus pais e irmãos fomos para São Paulo nos anos setenta e lá residimos durante algum tempo, logo depois, chegamos ao Rio onde conclui o segundo grau e prestei vestibular ingressando como estudante de pintura na EBA/ UFRJ. Desde então, o Rio tem sido a minha cidade.

Como a Arte entrou em sua vida?
Ainda morava em Salvador quando fui transferida para uma Escola Pública que tinha uma proposta de ensino mais moderna. Lá tive aulas de Artes Plásticas e me apresentaram o pastel seco, tinta a óleo, telas, pincéis, solventes, cavaletes e a criação livre. Comecei a pintar uma tela por semana e enchi as paredes de nosso apartamento com pinturas horrendas que todos em casa e na escola achavam ”incríveis” e me davam muita força. Desde essa época descobri um prazer infinito em construir imagens. Prazer que continua cada vez mais forte.

Como foi sua formação Artística?
Fiz o curso de Pintura na EBA e em paralelo o de Gravura, como ouvinte, onde conheci Adir Botelho e Marcos Varela. O expressionismo desses dois gravadores foi um encontro feliz com o que eu produzia na época, que já possuía, também, um viés expressionista e dramático decorrente da atmosfera das Igrejas Barrocas que freqüentei até a adolescência, em Salvador. Participei de cursos livres, como estudante, no Museu de Arte Moderna do Rio, no Museu do Ingá e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde trabalhei com Litografia orientada por Antônio Grosso. Creio que essa minha relação carinhosa com a Gravura (xilogravura e litografia) foi fundamental em minha pintura que se mantém extremamente gráfica apesar da presença fundamental da cor.

Como você descreve sua obra?
Penso a obra como um conjunto, uma soma de todas as experiências que tive e estou tendo, mas, sempre na expectativa de algo novo que está por vir. Os trabalhos atuais são pinturas tridimensionais. Eles fazem parte de uma série que denomino “Objetos do Jardim máquina” e são elaborados com elementos mecânicos e orgânicos numa pintura marcada pela cor e grafismos que criam ritmos, movimentos em vários planos e, principalmente, ocupam o espaço. Trabalho em grandes dimensões e em espaços mais intimistas como nas aquarelas e cadernos de estudos. Atualmente, quero que o predomínio de uma delicadeza com um pouco de absurdo os torne mais divertidos como os “brinquedos”e as brincadeiras.

Que artistas influenciaram seu pensamento?
Cada momento de meu trabalho as referências de outros artistas são importantes. Isto cria uma grande conversa onde várias questões e possibilidades são colocadas, sempre enriquecendo o que procuro. Atualmente, a obra de Yayoi Kusama tem me interessado muito, bem como, a obra de Louise Bourgeois, os objetos surreais de Dorothea Tanning, os ”moles” de Claes Oldenburg e os “l’hourloupe” de Dubuffet. Estou sempre pesquisando artistas contemporâneos que tenham expandido sua pintura ocupando espaços com objetos construídos em volumes e cores. O que procuro na obra de outros artistas são as resoluções das questões plásticas e a visualidade, independente das discussões conceituais que abordam. Então, interessa-me Frank Stella, Nike de Saint Phalle, Anish Kapoor, Matthew Barney, Henrique Oliveira e muitos outros.

Qual foi sua exposição mais importante?
Espero que seja a próxima! Mas, acho que foi a exposição INFERNO, na Galeria IBEU. Foi algo intenso, ocupei a galeria de Copacabana e a de Madureira. Em paralelo, escrevia minha dissertação de Mestrado sobre “As visões do inferno”, foi um mergulho profundo. Depois desse “inferno” tive necessidade de me virar pelo avesso e tentar dar um basta a tudo que até então havia realizado, buscar outros caminhos e isso não foi e nem é fácil. Queria e ainda quero um Paraíso ou algo mais feliz. E há dez anos venho construindo o “jardim máquina”, o paraíso na terra onde as máquinas criaram promessas de felicidade (ilusória). Quero que a próxima exposição seja muito intensa, mas, feliz e divertida.

É possível viver de Arte no Brasil?
Atualmente acho que sim, embora, poucos tenham esse privilégio. Mas, a Indústria Cultural oferece uma gama de possibilidades em seus espaços de consagração da Arte, abrindo frentes de trabalho para profissionais com formação em Artes e áreas afins. Quanto ao fato de “viver de Arte” para um artista, é necessário um compromisso, uma entrega e uma intensidade que independem de mercado.

Você poderia falar sobre sua atuação como professora de Arte na UFRJ?
Aprendo muito e sempre. Cada estudante possui uma proposta e uma visão de mundo que possibilitam discussões, colocações e atitudes que me surpreendem. A sala de aula faz bem à minha produção no atelier e independente dos programas e conteúdos das disciplinas, conseguimos estabelecer trocas que nos enriquecem mutuamente.


A mulher e o homem estão em pé de igualdade no mercado de Arte?
O mundo ainda é muito machista. A mulher ainda não ocupou um lugar de igualdade, tanto que, quando isto acontece, viramos assunto para as mídias e seu grande público. Porém, estamos vivendo uma época de transição, muitas conquistas ocorrem a cada momento. Acredito que no mundo da Arte não seja muito diferente. Mas, a Arte brasileira possui uma forte presença de mulheres artistas desde o Modernismo aos dias atuais. Mulheres que atuaram na vanguarda e outras que atuam hoje, no mercado, em pé de igualdade com homens artistas.

As obras em papel são menos procuradas pelo público?
O papel como suporte é algo muito especial, não existe nada mais instigante que um papel em branco à espera de um gesto, linhas, cores ou matérias. Ele possibilita ao artista um espaço para experimentações sem a formalidade dos tradicionais suportes de arte. Alguns papéis possuem uma qualidade e durabilidade que outros suportes tradicionais não possuem. Quem tem paixão e conhece o papel, não tem esse tipo de problema. Fora isso, vivemos a época do efêmero, de materiais inusitados que escapam das hierarquias tradicionais e favorecem as escolhas dos artistas.

Qual sua opinião sobre material brasileiro?
Quando um material brasileiro é bom, ele custa tão caro quanto o importado. Creio que as matérias prima, ainda são importadas e são caras. Já tivemos tentativas nos anos oitenta de criar bons materiais, com a fabricação em larga escala de tintas nacionais. Mas, estas sumiram do mercado. Por isto mesmo, acho importante que o artista tenha um conhecimento profundo dos materiais, fórmulas, procedimentos na execução de tintas/suportes e que saiba adequar esse conhecimento ao seu trabalho. Isto garante uma qualidade material à sua obra.

É possível fazer uma entrevista com você sem falar no Pedro Varela?
Pedro está no mundo! Isto me deixa muito feliz não só como mãe, mas como sua ex-professora. Ele se inscrevia em todas as minhas disciplinas e se divertia muito produzindo seus trabalhos. Aprendi com Pedro que a Arte não precisa ser algo tão sofrido e subterrâneo. Sim, não dá para fazer uma entrevista sem falar em Pedro Varela. E fico contente em ver que ele e toda uma geração de ex-estudantes da Escola de Belas Artes estão produzindo bons trabalhos e encontrando espaços na Arte e no mundo.

Quais seus planos futuros?
Comprometer-me cada vez mais com minha produção no atelier. E claro, realizar uma individual com os trabalhos atuais.
Série Brinquedos

Acrílica


Acrílica


Acrílica


Acrílica


Aquarela.
Brinquedo Azul.



Objetos do Jardim Máquina.





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