sexta-feira, 31 de maio de 2013

Marcio Fonseca entrevista Renato Valle








Quem é Renato Valle?
Nasci e cresci no Recife onde vivo até hoje. Estudei em muitas escolas, das mais conservadoras as mais abertas e aos 17 anos abandonei os estudos na metade do 3º ano do segundo grau para me dedicar ao desenho, pois naquela época (final dos anos 70) havia uma pressão de familiares e amigos para que eu fizesse vestibular para arquitetura. Ser artista era para a maioria dos pais uma ideia apavorante!


Como a Arte entrou em sua vida?
Comecei a desenhar aos 16 anos com uma pena e nanquim que uma vizinha levou para passarmos o tempo durante as férias. Gostei da experiência e não parei mais, depois, incentivado por uma pintora amiga da família (a tia afim Creusa Pinto) segui desenhando bastante e participei da primeira coletiva, em 1978, com 19 desenhos.




Como foi sua formação artística?


Fiz alguns cursos de desenho, pintura e gravura ao longo dos anos - em geral eram cursos rápidos - e desenhei muito a partir da observação. Sempre gostei de dominar os meios que utilizo para me expressar, de criar intimidade com os procedimentos que emprego em um trabalho. Hoje, quando quero desenvolver um trabalho numa técnica nova para mim, faço um projeto e busco meios de viabilizá-lo. Um exemplo disso é a série Cristos e Anticristos - Residência na UFPE - com a orientação de um professor e a participação de alunos estagiários. Também participei de cursos de história da arte, como os que a Fundação Joaquim Nabuco promoveu.
Nos primeiros anos a maior parte dos meus exercícios era feita de forma bastante solitária e o que aprendia nesses cursos serviam de guia ou referência para esses estudos. Mostrar e discutir o trabalho com alguns amigos artistas tem sido uma prática freqüente. Às vezes faço isso durante o próprio processo, creio que a experiência em muitas residências artísticas alimentou essa prática, principalmente a que resultou na série DIÁLOGOS, pois o público e os funcionários das instituições intervieram em muitas das obras. Isso tudo quer dizer que não me considero formado, que minha formação continua nessas experiências.


Como você descreve sua obra?
Sou alguém que gosta de se expressar através da imagem, seja com desenho, gravura, pintura, escultura ou fotografia. Não me preocupo com estilos e vou trabalhando com assuntos que me interessam, utilizando os meios que acredito mais adequados para isso. A religiosidade e a política são temas recorrentes em meu trabalho, não a instituição religiosa nem a político-partidária. Às vezes me sinto um monge sem igreja, outras vezes um político sem partido, isso por opção e não por falta de opção, sobretudo em um país com cardápios tão extensos nas duas áreas. Mas não é nenhuma regra, apenas são coisas muito presentes e inquietantes na minha vida, por isso surgem com certa freqüência em meu trabalho.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Desde que comecei a me interessar por arte que acompanho o que se faz aqui, assim, artistas locais como Vicente do Rego Monteiro, Montez Magno, Gil Vicente me influenciaram (influenciam) esteticamente. Mas, em relação às orientações sobre como conduzir os estudos e, principalmente, que postura deveria ter diante desse deficiente circuito das artes, a influência de Zuleno Pessoa foi decisiva. Zuleno era amigo da minha tia Creusa (que me incentivou a desenhar) Minha amizade com Zuleno começou quando ele escreveu um texto para a primeira exposição que participei em 1978. Parte do meu pensamento sobre arte, o comportamento diante dos estudos, a minha postura diante do trabalho e a coragem para desenvolvê-lo devo a Zuleno. Posso citar alguns exemplos que ficaram das nossas conversas: Com 17 anos meu pai com receio da minha provável vida de artista, me emancipou e, de certa forma, me empurrou para uma sociedade com um irmão e um amigo, e ainda cursava a terceira série do segundo grau. Fui visitar Zuleno e falei pra ele dessa sociedade; ele teve uma crise de riso! Riu tanto que fiquei constrangido. Ainda bem que só falei perto de ir embora, pois peguei uma carona pra voltar pra casa e até na hora que entrei no carro ele não parou de rir. Acompanhei a reforma da casa (novo trabalho), abandonei os estudos, poucos meses depois saí da sociedade e voltei a desenhar. Nunca parei de visitar Zuleno e sua esposa, Dona Julieta e seis meses depois, numa dessas visitas eu falei para ele que tinha deixado o trabalho e ele me disse simplesmente “você tem talento, se ama o que faz profissionalize-se na arte”; o máximo que pode acontecer é morrer de fome! Não tem nada de mais isso, muita gente morre de fome. Mas não vai morrer não, sempre quando nos dedicamos a algo assim recebemos o que precisamos pra seguir em frente! Eu segui. Embora não tenha me influenciado por sua pintura, sua visão a respeito de questões importantes como essas, sua espiritualidade e ética sempre foram referências para mim.
Também poderia citar grandes mestres da história da arte, o que seria uma lista muito extensa, por isso vou citar um que contribuiu muito com a minha formação que foi Leonardo da Vinci. Estudei o Tratado de Pintura de Leonardo da Vinci – creio que era uma edição argentina que Zuleno me emprestou– e como era encantado com a sua obra em desenho (seus estudos são fantásticos), pintura, etc., me embriaguei com tudo isso!


O que você pensa sobre os salões de arte?
Os salões tiveram um papel importante no circuito das artes visuais quando comecei; inscrevi-me em vários dos salões locais e alguns em outros estados. Ganhei prêmios, fui cortado, participei. Hoje temos poucos salões e as instituições, em geral tem seus curadores que montam o programa de exposições, residências, etc. algumas abrem editais outras não, mas quase todas aboliram os salões. O circuito merece ser mais bem estudado, debatido, enfim, há um grande número de artistas trabalhando que necessita de oportunidades para inserirem seus trabalhos neste circuito. Creio que os salões poderiam ser revistos, quanto mais oportunidades melhor, o problema é sempre falta de verba, deficiência nos quadros das instituições, falta de continuidade. A maioria dos governos (municipal, estadual ou federal) muda a cada gestão, o que eles chamam de política cultural, isso é um grande problema e não da pra discutir os salões isoladamente ou simplesmente voltar a fazê-los, pois pode ser que não funcione. A discussão tem que ser mais ampla, até mesmo porque não há política cultural neste país o que há são determinadas ações culturais que não chegam a caracterizar uma política consistente. Ação de um governo pode ter sua importância, mas é facilmente descontinuada por outro governo. Uma política que se aprofunde e envolva a sociedade pode ser capaz de sobreviver a isso e, provavelmente, nenhum governo quer substituir suas ações que, associadas ao marketing, podem render votos no futuro por uma política cultural séria e consistente.


O que significa para a carreira de um artista como você ser representado por uma Galeria?
Trabalhei muitos anos com a Galeria Officina e fiz as minhas duas primeiras individuais lá. Era uma galeria importante dos irmãos Dimenstein, que infelizmente faleceram. Hoje trabalho com a Dumaresq Galeria de Arte (desde 1996). Sempre tivemos uma boa relação e já fiz, além das exposições individuais e coletivas, uma das residências do projeto DIÁLOGOS lá. O mercado mudou muito! Nos anos 80 até meados dos anos 90 se vendia muito mais e bastava trabalhar com uma boa galeria pra se viver de arte, pelo menos essa foi a minha experiência. Depois o mercado foi encolhendo, as leis de incentivo começaram a aparecer, as dificuldades para se vender aumentaram ao mesmo tempo em que começaram a aparecer convites para dar cursos, oficinas e participar de projetos. Entre 1995 e 2000 foi muito difícil absorver o que estava acontecendo. Foi uma fase de adaptação às mudanças que estavam ocorrendo; passei a fazer projetos, dar oficinas de desenho e pintura e só com o passar do tempo vi que estava sendo o meu próprio produtor, como um cara que acumula funções: dar aulas, fazer projetos, desenhar, pintar, fotografar, prestar contas - o artista neste caso vira, mesmo sem querer, empreendedor. Entre 2002 e 2012 tive um bom número de projetos aprovados e isso possibilitou desenvolver séries que queria, trabalhar com novos materiais, etc. Creio que a maioria dos artistas se representa! Uma galeria ou produtora pra representar alguém teria que assumir todas essas funções, teria que garantir a sobrevivência digna do artista - produzir, expor e prestar contas do seu trabalho. Não sei se isso existe em algum lugar, pelo menos como regra, creio que não; exceções sempre pode haver.


Que comentários você faz sobre o mercado de arte em Recife?
Mercado de arte é um assunto complexo, difícil de entender até pra nós que vivemos dele. Creio que poderia estar melhor, pois já foi melhor há mais de quinze anos atrás. O que aconteceu? Não sei com precisão. Nos anos 80 e 90 se vendia muito mais. Aqui em Recife tínhamos muito mais galerias privadas que foram fechando, parece que não conseguiram se adaptar aos planos econômicos, que foram muitos. Nos últimos anos melhorou um pouco com o surgimento de algumas poucas galerias. Temos uma boa produção, tradição nas artes visuais, mas as instituições são poucas e não dão conta do que é realizado. Além do mais, só se pode ter interesse por algo que se conhece, nesse sentido o trabalho de arte-educadores é da maior importância, assim como a boa circulação de notícias sobre o que está acontecendo na nossa área. Despertar o interesse das pessoas em visitar ou adquirir obras passa por uma série de questões. O que tenho certeza é que só teremos um bom mercado com boas escolas, bons e satisfeitos professores, bons equipamentos públicos e privados. Um bom mercado passa necessariamente por um bom nível de educação. Poucos artistas vivem do seu trabalho, uns porque vendem bem outros porque permanecem teimosos. Acho que isso é assim em todo o país e não só no Recife, portanto o mercado é bastante deficiente. Para os governantes que entram e saem do poder, em geral, cultura é sinônimo de evento. Se gasta muito com São João, Natal e principalmente com o carnaval, porém o poder público mal garante a continuidade dos seus equipamentos e boa parte tem piorado a cada ano. Ainda estamos com poucos meses de uma nova gestão e confesso que continuo pessimista. Tomara que eu esteja equivocado.


É possível viver de Arte no Brasil?
Difícil viver, mas possível, pelo menos sobreviver! Estou vivo e não tenho ganhos fixos a não ser quando há bolsa ou projeto em andamento. Sempre fui teimoso!


De que maneira você vê as Feiras de Arte no desenvolvimento da arte no Brasil?
As feiras tem tido um importante papel na comercialização e divulgação da arte que está sendo feita. Ver exposições é sempre importante para o desenvolvimento do comércio, para a formação de público e pros artistas que colocam os seus trabalhos em circulação. Não da pra avaliar as conseqüências disso a médio e longo prazo; acredito que elas estão cumprindo o seu papel que é agitar o mercado e vender. Em um mundo cada vez menor, no qual a comunicação e a facilidade para viajar é cada vez maior, as galerias expandem seus mercados, penetram em outros lugares, mas o contato pessoal com as obras é que garante isso, nas feiras esse contato acontece.


Quais são seus planos futuros?
Vou passar um tempo trabalhando em um atelier em São Paulo, de uma amiga e artista que admiro muito, Rosângela Dorazio. No segundo semestre devo fazer uma residência em outro estado do sul, mas ainda não está confirmado. Resumindo, os planos são de continuar trabalhando, aqui ou em outro lugar é o que tenho que fazer. Como já disse sou teimoso e não sei fazer outra coisa. Também acho que sou movido a trabalhar com imagens como uma forma de não enlouquecer, não me imagino fazendo outra coisa e isso é algo para além da profissão. Montez Magno outro dia me falou que não se sentia um profissional e sim um vocacional. talvez eu seja um vocacional também, que tem que se virar pra garantir a sobrevivência e por isso teve a necessidade de se profissionalizar, mas, como disse Zuleno em um comentário citado antes “o máximo que pode acontecer é morrer de fome”, disso não passará e continuo vivendo.

O que faz nas horas livres?
Gosto muito dos outros meios de expressão, sobretudo de música e cinema. Minha vida é muito simples e o que mais gosto é de estar perto das pessoas que gosto: minha filha, meus amigos, jogar conversa fora. Valorizo a presença do outro, gosto de gente e apesar de levar uma vida solitária tenho muitos amigos verdadeiros. Muitas vezes nem converso sobre arte com eles, meu trabalho já trata de muita coisa dramática pra eu ficar com ele o tempo todo na cabeça. Uma praia ou campo, uma bebidinha de vez em quando, tudo isso me faz bem.




Objetos na Parede, 1966. Óleo sobre tela. 130x195 cm. Série: Objetos inúteis.



Fotografia da série Grades de Caminhões, 2002.



Nado Sincronizado II, 2011. Resina de poliéster, 18,5 x 18,5 cm.Série: Cristos e Anticristos.






Diário de Votos e Ex Votos, 2003. Grafite sobre papel. 5x5 cm cada. Galeria Ronaldo White. SESC, Garanhuns.


Diário de Votos e Ex Votos, 2003-2004. Detalhe de 5000 desenhos.



Diálogos, 2009. Exposição Museu do Estado de Pernambuco.



Diálogos, 2009. Exposição no Museu de Arte de Pernambuco.


Bucho e Vassoura, 2011 Fotografia da Série Paisagens por Cortes.


Mealheiro, 2011. Resina de poliéster e dinheiro. 35,5x27,5x15 cm.


O Bicho, 2012.Óleo sobre tela. 96x61 cm. Série Escritos sobre Pinturas Ruins.

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