quinta-feira, 4 de abril de 2013

Marcio Fonseca entrevista Rogério Severo




" Os trabalhos de Rogério Severo se abrem e se desdobram pelo espaço como se desenhos fossem..."
Flávio Gonçalves.



Quem é Rogério Severo?
Meu nome é Rogério Francisco Sanchotene Severo, nasci em 1966, em Uruguaiana-RS, cidade banhada pelo rio Uruguai e que faz fronteira com a Argentina. Lá morei até concluir minha formação escolar. Em 1986, vim para São Leopoldo para cursar a faculdade de arquitetura a qual não cheguei a concluir. Fiz o curso de artes visuais na Feevale, em Novo Hamburgo-RS. Atualmente moro em Porto Alegre e me dedico integralmente a atividades relacionadas a minha produção artística. Foto de Hanna Schwarz.
Como foi sua formação artística?
Sempre tive tendência para as artes. Enquanto cursava arquitetura percebi que necessitava de formação mais específica, ou seja, com ênfase em artes visuais. Assim, troquei de curso e me formei em artes.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Estou constantemente sendo influenciado por diversos artistas. É difícil selecionar algum para citar, pois, não os considero por ordem de importância. Sou muito impressionado com o trabalho de Artur Bispo do Rosário e acredito que, de alguma forma, sou influenciado por ele. Outro artista que tenho como referencial é Waltercio Caldas.


Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Gosto de experimentar. Trabalho com diferentes materiais e ideias: madeira, aço (confecciono facas) e resina. Fabrico minhas próprias ferramentas, isto me oferece uma grande intimidade com os materiais.
Frequento ferros velho em busca de peças para acrescentar ao trabalho.
O fato de ter nascido na fronteira, às margens de um rio, me influencia na construção da minha poética. É sobre esta situação ou estado de fronteira, que costumo desenvolver o meu trabalho.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Trabalho de forma experimental utilizando todos os meios de expressão disponíveis: pintura, desenho, instalação, etc... É recorrente no meu trabalho a referência ao ato de desenhar diretamente no espaço, sem o auxílio de lápis ou papel. Desta maneira, falo sobre questões de limite, tensão e instabilidade, construo estruturas que parecem armadilhas, prontas a se desarmarem.

Você participou do Rumos Itaú Cultural, como foi a experiência?
A experiência foi muito gratificante. Conheci e convivi com artistas jovens de todo o Brasil. Isto possibilitou visualizar o meu trabalho sob diferentes ângulos. É a partir desta troca de experiências que agrego ao trabalho vários objetos e ideias que encontro no caminho ( itinerância ).

Qual a importância de sua participação na Bienal do MercoSul?
Tanto a Bienal quanto o Itaú Rumos abrem portas para o reconhecimento do trabalho dos artistas.

Como você descreve o mercado de arte em Porto Alegre?
Acredito que o mercado de arte no Brasil ainda continua restrito ao eixo Rio-São Paulo

Você escreve sobre seu trabalho?
Sim, acho muito importante como método de reflexão e não como explicação do mesmo.

É possível viver de arte no Brasil?
É possível, sim, viver de arte no Brasil mesmo que o mercado ainda seja muito restrito.

O tipo de trabalho feito por você é complicado para o espectador comum?
Acredito que não. As instalações que construo são extremamente democráticas e abrem as portas dos museus para todas as pessoas. O fato de ser um objeto apresentado ao público, ao convívio das pessoas, favorece a uma certa desmitificação do objeto artístico. As minhas pinturas e desenhos descem das paredes e vêm interagir com o público. As pessoas frequentam o desenho.

Qual o significado dos prêmios IEAVI e Açoriano conquistados por você?
Foi com muito entusiasmo e orgulho que recebi estes prêmios. Os vejo como incentivo e reconhecimento do meu trabalho aqui no sul.

Quais são seus planos para o futuro?
Pretendo continuar a caminhada e investir no conhecimento, me aprimorando sempre mais.






Instalação. 1o Prêmio IEAVI. Porto Alegre, 2012



Linha de Espera, 2011. Novo Hamburgo.
Projeto Fundear. Marquise da FUNARTE. Brasília, 2012.



Linha de Espera, 2011. Porto Alegre.




Linhas e Lugares de Espera, 2010. Novo Hamburgo.






Dos lugares que nos conformam
Fernanda Albuquerque


Fios, lâminas, serras, ioiôs, pesos, varetas, grampos e outros objetos comuns e materiais de ferro velho compõem as instalações de Rogério Severo. Sob a forma de redes ou circuitos, elas criam desenhos no ar em resposta ao espaço onde são construídas. É ele que orienta a distribuição das peças, ainda que as composições pareçam se manter em aberto, como se pudessem ter seus vetores e linhas de força reconfigurados a qualquer instante.

A sugestão de movimento é dada pelo jogo entre compressão e distensão, tensão e equilíbrio. E também pelo modo como o artista revela, no próprio trabalho, as operações que o constituem: as amarras, flexões, pesos, contrapesos, trações, fixações, etc. «O que está à mostra não é um projeto acabado, e, sim, possibilidades, fragmentos, intenções», explica Severo.

O improviso, a capacidade de adaptação e a atenção ao que requerem espaço e materiais são aspectos centrais no processo criativo do artista, como também é o caso na instalação desenvolvida para a Casa M. Aqui, o lugar a que o trabalho responde é definido não tanto pelas paredes ao redor, mas pelo retângulo de vidro que desconcerta a fachada e revela o interior da morada a quem transita pela Fernando Machado. A mesma vitrine que no início do século passado seduzia os passantes com uma variedade de chapéus é agora usada para despertar outro tipo de interesse, desejo, curiosidade.

Apesar da simplicidade de procedimentos e materiais, as obras de Rogério Severo não se filiam a uma «estética da gambiarra». Falam, antes, de uma espécie de inteligência dos objetos. Do modo como eles conformam nossos espaços e da possibilidade que guardam de se reinventarem. Ou de reinventarem os lugares que nos conformam.

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