terça-feira, 5 de março de 2013

Marcio Fonseca entrevista Paulo Vega Jr. Brasília.





Quem é Paulo Vega Jr.?
Sou artista visual, gaúcho, vivo em Brasília/DF. Nasci em 10 de Fevereiro de 1987 em Rio Grande/RS, cidade na qual vivi até os meus quase 12, anos de idade. Depois, em 1999, minha família e eu nos mudamos para Caxias do Sul/RS, onde se deu o restante de minha formação inicial e onde morei até 2011.

Como a Arte entrou em sua vida?
Através da Escola Municipal de Belas Artes Heitor de Lemos, em Rio Grande/RS, onde participava dos cursos e oficinas de arte para crianças, devia ter entre quatro e seis anos de idade. Na EBAHL, lembro-me do professor João. Lembro também que brincava de exposição em casa, esticava minha corda de pular verde limão, prendia uma extremidade em uma porta do guarda-roupa e a outra amarrava no beliche, os desenhos eram pendurados com prendedores na corda esticada. Como escolha/opção profissional, a Arte entrou em minha vida em 2002/2003, em decorrência das aulas de Arte tidas no Ensino Médio, no Centro de Ensino Tecnológico Universidade de Caxias do Sul, CETEC/UCS, com as professoras Silvana e Sinara Boone, assim como as atividades extra curriculares em que tomava parte, como dança, música e teatro.

Como foi sua formação artística?
Fiz graduação em Licenciatura Plena em Educação Artística – Habilitação em Artes Plásticas (2004-2008), pela Universidade de Caxias do Sul/UCS. Durante este período, fui bolsista de Iniciação Científica/CNPq e Iniciação Científica/UCS do Grupo de Pesquisa ARTECNO, Laboratório NTAV – Novas Tecnologias nas Artes Visuais, coordenado pela Professora. Dra. Diana Domingues, período no qual aprendi muito. O período no ARTECNO/NTAV foi como uma graduação realizada em paralelo. Além disso, frequentei o curso Conversas Ilustradas, ministrado por Jailton Moreira no NAVI, Núcleo de Artes Visuais de Caxias do Sul e outros cursos complementares. Tentei e fui aprovado, no final de 2010, na seleção de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Arte da Universidade de Brasília, PPG-ARTE/UnB, no qual estou vinculado (2011-2013) à linha de pesquisa Poéticas Contemporâneas, sob orientação da Profa; Dra. Nivalda Assunção.


Como você descreve sua obra?
Descrevo minha “obra” como autobiográfica, ela começou a ser delineada em experimentações poéticas durante a graduação. “Obra”, entre aspas, pois acho que esse termo implica uma carga histórica, uma importância, ainda mais para alguém com uma produção jovem, mesmo podendo ser compreendido como o todo da produção artística. O conjunto do meu trabalho, dentro do viés autobiográfico, aponta para questões relacionadas aos espaços e lugares habitados, à família, identidade, à memória e aos relacionamentos.


Que artistas influenciam seu pensamento?
As influências são muitas! Citando algumas, em ordem alfabética, para não ser injusto: Bruce Nauman, Chris Burden, Dario Robleto, Felix González-Torres, Francis Alÿs, Gilbert & George, Gina Pane, John Cage, Joseph Beuys, Joseph Kosuth, Marcel Duchamp, Marina Abramović,Mary Kelly, On Kawara, Richard Long, Sol LeWitt, Sophie Calle, Vito Acconci, Yoko Ono,...


Como a performance é remunerada?
Através de editais, salões e comercialização de desdobramentos da performance em si (fotografias, livros, vídeos).


Qual foi sua exposição mais importante?
Difícil apontar uma exposição como mais importante. No ponto em que me encontro, todas as exposições foram e continuam tendo a mesma importância para minha trajetória, mas se tivesse de apontar, apontaria duas exposições internacionais: a 5ª Bienal do Mercosul, dentro do vetor Direções no Novo Espaço, com a Profa. Dra. Diana Domingues e como um dos integrantes do Grupo ARTECNO/NTAV, com a obra I’Mito: zapping zone e a 7ªBienal do Mercosul: Grito e Escuta, com cinco performances (Lver vll, OPAQA, Compositions by Conventions I, Sinta o espaço e Desiderium) dentro de Musicircus, uma obra de John Cage.

Você é Mestre pela?
Ainda não sou, mas me tornarei, em 2013, Mestre em Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Arte da Universidade de Brasília.


Que comentários você faz sobre o mercado de arte em Brasília? De que maneira a Universidade de Brasília contribui para sua obra?
Pelo pouco tempo que moro em Brasília, noto que o mercado de arte aqui ainda é escasso se comparado ao porte da cidade. Entretanto, mais ou menos, de um ano para cá tem surgido iniciativas dispostas a mudar esse cenário de estagnação. Como artista, apesar deste ser um processo um tanto quanto demorado, espero que elas frutifiquem e se estabeleçam como ativadoras do mercado de arte como um todo.
Quanto à UnB, estar dentro dela traz contribuições para o meu processo a partir das trocas realizadas com colegas e professores do Programa de Pós-Graduação em Arte/PPG-ARTE e, também, ao forçar a construção de uma ponte entre a produção artística e o meio acadêmico.

Você é pesquisador do CNPq, do que trata essa pesquisa?
Essa pesquisa é oriunda do meu projeto de pesquisa de Mestrado e mantida pela bolsa de Mestrado/GM (2011-2013) que recebo do CNPq. Ela se vincula à minha produção artística e se circunscreve entre o antropônimo, autobiografia, a identidade e a performance, referenciando-se em artistas que trabalharam com conceitos, linguagem, performance e outras vertentes da arte atreladas aos eixos do meu trabalho e pesquisa. A pesquisa ainda está em desenvolvimento, até o presente momento resultou em três performances, três dípticos de desenho e outras experimentações expositivas. Por fim, culminará na dissertação de Mestrado.

É possível viver de Arte no Brasil?
Para alguns, sim. Este, ainda, não é o meu caso.

Quais são seus planos futuros?
Concluir o Mestrado, ingressar no Doutorado, continuar produzindo, dar desenvolvimento à minha carreira artística e acadêmica, pois pretendo atuar tanto como artista quanto como professor.

As imagens abaixo são de performances do artista ligadas a linha de pesquisa do seu Mestrado.













Quanto às certidões e as performances:




Estes trabalhos são permeados por questões autobiográficas de identidade e memória, tais questões remontam um histórico familiar: os caminhos e desvios escolhidos pelos meus antepassados, que culminaram em mim e acabaram por influenciar minha produção artística. Nesse sentido, meu foco de interesse consiste não apenas em uma reconstrução memorialística, mas em uma investida que se utiliza de artifícios ficcionais para o desenvolvimento de poética calcada na reivindicação identitária como uma devolução simbólica dos sobrenomes que me pertencem, obliterados por um engano documental ocorrido no passado. Passei, então, a pensar a minha produção relacionada diretamente a questão dos sobrenomes amputados, a fim de promover uma recuperação emblemática que contivesse um caráter tanto de reivindicação documental quanto de homenagem prestada a uma história familiar. Este processo se circunscreve intrinsecamente na relação arte e vida: em outras palavras, cerne que compõe a minha poética. Dessa forma, as certidões (P.I.C.C.R.V. (certidão I, certidão II e certidão III)) e as performances (P.I.C.C.R.V. (performance I), P.I.C.C.R.V. (performance II) e P.I.C.C.R.V. (performance III) são um amálgama dessas questões.




P.I.C.C.R.V. (certidão I, certidão II e certidão III) revela, em si mesmo, em cada certidão, o processo de reivindicação e retificação dos sobrenomes. Cada uma das certidões é um estágio, um passo a passo, do meu nome como ele é (certidão I), como ele ficaria com o acréscimo dos sobrenomes amputados (certidão II) e como deveria ficar com o acréscimo dos sobrenomes e os ajustes necessários (certidão III), de “Paulo Ivan Rodrigues Vega Júnior” à“Paulo Ivan Ceglinski Cardoso Rodrigues Vega”.




P.I.C.C.R.V. (performance I) acontece com a participação de um, até seis, participantes/voluntários que aceitam ficar escrevendo “Paulo Ivan Ceglinski Cardoso Rodrigues Vega” durante 30 minutos. Estes devem sentar nas laterais da mesa, enquanto eu estou em uma cabeceira e na outra, está um texto com as instruções de realização da performance. Esta é cronometrada com um timer e os sobrenomes obliterados são evocados através da escrita obrigatória e repetitiva, a partir do momento em que os participantes/voluntários aceitam sua condição na execução da performance. A legitimação acontece pelo outro, no jogo sádico proposto, na repetição da escrita por 30 minutos como um castigo escolar antigo, um nome como ele deveria ser e que não deverá ser esquecido como forma de evitar mais desvios e obliterações.




P.I.C.C.R.V. (performance II), se dá através da fala monocórdica, quase robótica, que se faz reivindicatória pela criação de um padrão sonoro repetitivo (“Paulo Ivan Ceglinski Cardoso Rodrigues Vega”) e pela postura que assumo durante sua execução (a utilização de elevações para falar (banco, marquise, mirante e suporte)). O caráter reivindicatório se faz presente também pelo empunhar do megafone, pela propagação da voz do artista/performer e pela duração da ação (30 minutos cronometrados com timer). Simultaneamente, a legitimação do nome e sobrenome do artista como ele deveria ser se dá no alcance e propagação do som no espaço, no momento em que o mesmo atinge o público e na permanência deste na esfera de alcance do som.




P.I.C.C.R.V. (performance III) evoca os sobrenomes obliterados e o nome do artista como ele deveria ser através do uso e presença do crachá, um distintivo, como uma forma de apresentação e identificação perante terceiros. A performance se estende para além do espaço e tempo na galeria, penetrando na vida do artista: sua primeira fase/momento dura 30 minutos e acontece na galeria, fico sentado em um cubo branco, usando o crachá e com um texto com as instruções da performance no chão. Já sua segunda fase inicia-se após os 30 minutos e compreende o curso da vida do artista até o retorno à galeria para a repetição da primeira fase/momento e encerramento (ou não) da performance. Simultaneamente, a legitimação da identidade por terceiros dá-se de maneira sutil e prolongada, o público, como indivíduo, se defronta com a possibilidade de leitura e reconhecimento da informação impressa no crachá. Assim, a reivindicação se processa como uma imposição sublimada: a informação no crachá encontra-se disponível para que o espectador promova a leitura, porém, o artista já não controla essa ação de forma incisiva, mantendo-se agora mais como portador da identidade que apresenta do que propagador da mesma.


Certidões.















Performance II





Performance III














Performance 1













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Dados pessoais
Nome

Paulo Ivan Rodrigues Vega Júnior



Nascimento
10/02/1987 - Rio Grande/RS - Brasil



Endereço eletrônico
e-mail alternativo : paulovegajr@hotmail.com

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