quinta-feira, 21 de março de 2013

Marcio Fonseca entrevista Luciana Paiva






Quem é Luciana Paiva?
Sou artista visual, pesquisadora, professora, e etc. Nasci em Brasília em 1982, cursei bacharelado em artes na Universidade de Brasília e mestrado em Artes na linha de Poéticas Contemporâneas na mesma instituição com o orientador Gê Orthof. Em 2011 fui para o Rio e participei do Programa Aprofundamento de Artes Visuais do Parque Lage com Anna Bella, Fernando Cocchiarale e João Modé. Durante este período também trabalhei como livreira. Retornando a Brasília, voltei a dar aula na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes onde eu já era professora antes de morar no Rio. Participo de exposições e eventos na área desde 2004.

Como foi sua formação artística? Que artistas influenciam seu pensamento?
Minha formação artística começou de fato quando entrei na faculdade aos 18 anos, no curso de Artes Plásticas. Foi aí que conheci amigos e professores que me formaram (porque a academia funciona mesmo nesses encontros). Não sou de uma família que atua ou frequenta o meio artístico e vivi uma infância na década de 80 em Brasília, ou seja, o circuito cultural aqui era praticamente inexistente. Por outro lado, essa infância solitária em uma cidade extremamente nova e ainda pouco habitada é algo impossível hoje e tenho certeza que toda minha geração tem esta característica estranha em comum. Nossas memórias de infância parecem um sonho absurdo, gramados inteiros vazios pra se brincar, ficar debaixo do bloco à tardinha e ver a cidade esvaziar completamente no final de semana sem saber direito o porquê. São sensações que ficaram no nosso passado e no passado da cidade e como todas as sensações infantis, acabam tornando-se nosso vocabulário.

Quanto a influencia, meus amigos artistas sempre foram parceiros que admiro muito e que me possibilitaram as maiores trocas, entre eles posso citar Matias Monteiro, João Angelini e Allan de Lana e os grandes mestres, artistas e teóricos que tive o prazer de conhecer como Gê Orthof, Marília Panitz, Miguel Simão, Elder Rocha, Karina Dias, Renata Azambuja, entre outros. Além disso, interesso-me pela trajetória dos artistas Francis Alÿs, Louise Bourgeois, Jorge Macchi, entre vários outros, pelas Vanguardas Russas e atualmente estou lendo os escritos de Ad Reinhardt.


Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Pequenos detalhes cotidianos me capturam e me direcionam na elaboração de determinados trabalhos (como em“All”, “Quando criança eu fugi” e outros). Um trabalho sempre determina um pouco os demais, pois propõe novas questões. Além disso, o contato com a palavra, seja pela influencia da literatura, seja pela curiosidade a respeito da estrutura da linguagem, são fatores presentes na minha pesquisa e evidentes em vários trabalhos. Recentemente estou interessada no estudo dos ideogramas chineses.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Não consigo restringir minha produção a determinados meios ou categorias. Costumo pensar na melhor forma de apresentar o que desejo, portanto, não me interessa uma pesquisa dentro de uma única linguagem ou material. Trabalho com a noção de síntese no intuito de potencializar minhas escolhas. Por exemplo, se uma embalagem de papel captura minha atenção, passo muito tempo pensando em como dispor esta embalagem no espaço expositivo com o mínimo de recursos possíveis. Muitas vezes um título ou questão surge primeiro e penso em como resolvê-los no espaço. Algumas escolhas são recorrentes dentro destes métodos, como a utilização da palavra e de elementos da escrita, o livro como suporte, a linha que sugere caligrafia e a relação de proximidade com o trabalho.

Você participou do Rumos Itaú Cultural, como foi a experiência?
O que eu mais gostei no Rumos foi poder montar e expor um mesmo trabalho em situações e espaços diferentes e dialogar com várias pessoas sobre este mesmo trabalho. Isso foi o que o programa me ofereceu de mais precioso: tempo e espaço pra pensar sobre um único trabalho. Creio que poucos programas oferecem isso e dificilmente podemos fazer com que a produção circule, pois muitos editais prezam pelo ineditismo. Isso sem falar do contato com artistas de várias cidades do Brasil que também é muito enriquecedor e ouso dizer que as exposições funcionam como um registro breve de todas as trocas e diálogos possíveis entre estes artistas e produções.

Qual a sua expectativa para a exposição Situações Narrativas, Rio de Janeiro?
Tem sido bastante tranquila a relação com a galeria Coleção de Arte no Rio e é um prazer expor naquele espaço, ainda mais com os queridos Guilherme Dable e o Virgílio Neto, que também participam comigo do Rumos. Nossos trabalhos possuem um dialogo interessante o que torna a exposição harmoniosa.

Como você descreve o mercado de arte em Brasília?
Praticamente inexistente. Isso não é necessariamente ruim, pois preserva um pouco a produção de uma pressão comercial. Por outro lado me faz pensar que quem tem dinheiro na cidade prefere investir em imóvel e comprar carros que entopem a cidade. Neste sentido é menos nocivo e mais enriquecedor pra todos que as pessoas consumam arte e seria bom que um mercado mais consistente se formasse já que temos excelentes artistas. Mas talvez seja uma questão de tempo, pois a cidade ainda é muito nova para uma consolidação da produção e de um público consumidor. Talvez as novas gerações consigam uma tranquilidade neste sentido.

Você escreve sobre seu trabalho?
Sim. Tenho anotações, alguns textos e minha dissertação incluiu a reflexão sobre um trabalho de 2009, intitulado "All". Mas também gosto de pensar a produção de outros artistas, recentemente escrevi um texto em parceria com Manoel Friques sobre as pinturas de Bruno Bello. Ambos foram da minha turma no Programa Aprofundamento do Parque Lage. Boa parte desse material está em um blog que funciona pra mim como um arquivo: www.lucianap.blogspot.com. Também realizei entrevistas com artistas da cidade em um blog que criei em parceria Matias Monteiro, entre outras coisas.

É possível viver de arte no Brasil?
Sim, ainda é muito difícil e instável, mas é o que estou fazendo nos últimos anos e o que vários colegas fazem. Principalmente se considerar todas as atividades que realizo na área e não apenas o mercado, até porque faz pouquíssimo tempo que comecei a trabalhar com galeria comercial. Mas acredito também que certo grau de instabilidade e que a escolha por uma variedade de atuações são requisitos necessários na nossa área para que a produção e o pensamento não se cristalizem.

O que pensa sobre os salões de Arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Não participei de muitos salões, mas de modo geral vejo que este formato não prioriza o caráter experimental e de pesquisa das obras, a maioria das premiações em salões consolidam o que já está validado ou o que aponta para uma validação rápida no mercado. Sei que as instituições buscam formar seus acervos a partir disso, mas os salões que deveriam ditar as necessidades do mercado e não o contrário. Falta coragem nesse sentido. Tive sorte em participar do Salão Anapolino de Arte, onde obtive minha primeira premiação com o trabalho “Não Alimente o livrinho” em 2005. Eu havia começado a expor no ano anterior, portanto foi um risco que a seleção do salão correu mas seguramente foi também um grande empurrão que definiu minhas escolhas posteriores. Na época eu havia passado em um concurso público e larguei por conta disso, sou muito grata ao papel que este evento cumpriu para mim. Hoje sinto falta de projetos que visem a itinerância dos trabalhos, a pesquisa e o tempo com a obra. Até porque cada projeto enviado demanda tempo de elaboração, implica em gastos e dedicação, o modelo do salão é um pouco “fast-food”, não te oferece muito tempo de exposição, circulação e troca.

Quais são seus planos para o futuro?
Para um futuro recente pretendo continuar trabalhando e fazer um doutorado.






Pequenas Distâncias, 2008.
Todos os Muros São, 2009.
Topologia dos Vértices da Escrita, 2011.
Passagem Secreta, 2011.
Post Scriptum, 2013.
Com Virgilio Neto e Guilherme Dable na exposição da Galeria Coleção de Arte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário