quarta-feira, 27 de março de 2013

Marcio Fonseca entrevista Allan de Lana






Quem é Allan de Lana ?
Allan de Lana Frutuoso é a pessoa, nascido em Brasília, 1980. Pai e mãe mineiros, aposentados como psicólogo e professora, preocuparam-se em transmitir aos filhos seu apreço ao "faça você mesmo", que aprenderam ainda muito novos, trabalhando seja na marcenaria ou na mercearia.
Morávamos na cidade satélite do Cruzeiro Velho, onde os becos, bastante largos, eram cenário de muita brincadeira, às vezes recebiam varais com roupa estendida da vizinhança ou fogueiras com muita gente ao redor!!!!!! Ainda criança, tentei ser vendedor de jornal, mas a timidez era grande para abordar as pessoas e a comissão ficava sempre muito baixa. Foi meu primeiro trabalho infantil (rsrsrs!)
Junto a tudo isso, havia o cenário da abertura política e as crises do país. Lembro, por exemplo, de ter ficado fazendo companhia a meus pais em uma fila durante mais de hora, devido a um racionamento de comodities, onde cada família só poderia comprar até um litro de leite e cinco pães - coisas assim, do arco da velha, que eu achava muito pitorescas.
Depois mudamos para a Asa Sul, onde as ruas eram desertas e o medo da criminalidade era maior… Passei a frequentar shows de rock e a tocar em uma banda punk da escola. Tentei largar tudo para tocar guitarra. Passei por algumas bandas, mas ainda era condescendente demais para uma escolha como essa, que exigia mais radicalismo e dedicação do que eu era capaz. Hoje, o som é uma das matérias mais fortes de que posso lembrar.
Quanto à formação escolar, as crianças da família foram matriculadas em escolas do governo, a meu ver, devido a dois princípios: primeiro, de que nelas nelas haveria inúmeros bons educadores apaixonados pelo ofício e, em segundo lugar, está a idéia de que o sujeito ser bom é mais consequência de sua autodeterminação que de imposições alheias. Uma escolha epicurista que foi mais positiva para minha formação do que terminar o ensino médio ou passar no vestibular. Em minha opinião, em Brasília, esta cidade-utopia, o preparo do sujeito para o mercado não deveria ser o principal norte da educação.
Uma máxima de Epicuro diz que "o maior fruto da autodeterminação é a liberdade", só faltou dizer que a "liberdade" estava sujeita a atentados, acasos e imprevistos e é, em grande parte, alheia ao esforço individual.
Talvez sob influência daquelas escolhas paternas/maternas, hoje, tento viver intensamente o urbanismo de minha cidade… Esta é uma cidade linda, o Plano Piloto é uma obra rara da modernidade que a sociedade contemporânea optou por condenar e virou as costas. O transporte público local é marcado por "concessões" vitalícias e sucateamentos, a ocupação do espaço se tornou impulsiva e selvagem…
Coloco a opção por uma experiência urbana intensa entre as primeiras linhas que contam para que eu seja esta pessoa e este profissional. Certa vez, um redator de texto de uma instituição mais que séria extirpou essa referência em duas linhas de uma curta biografia e esqueceu de deletar os sinais de pontuação, entre os quais ficou o vazio da minha identidade excluída. Quando observei o erro, eles corrigiram a pontuação errada, mas não quiseram nem saber de publicar coisas sem diploma.
Além de trabalhar com arte, sou Técnico Bancário.


Como foi sua formação artística?
Muito boa para mim mesmo, como pessoa! Havia passado dos 20 anos de idade quando percebi a arte como possibilidade. Eu tinha me matriculado em uma turma de pintura da qual minha mãe fazia parte e, com o passar do tempo, isso levou a certas lembranças. Quando criança, o desenho, os trabalhos com papel, o violão e, posteriormente, a guitarra, tinham feito parte inegável de meu desenvolvimento. Configuravam formas de linguagem e acesso a idéias que, na língua corrente e na minha timidez diante de um mundo esquisito, eram interditadas.
Então, parei de ver essas coisas todas como passa-tempo, pois na verdade elas são mesmo é um modo de viver a vida (o que não deixa de ser uma forma de passar o tempo - rsrsrs!) Foi quando comecei a buscar linguagens capazes de driblar determinismos. Passo a gostar de ler, a ter um contato prazeroso com a filosofia e a literatura, etc. pois elas me conduzem pelo mundo histórico e os mundos possíveis. Principalmente, quando não utilizam um léxico, mas o reinventam a cada frase.
Na universidade, pude explorar o entusiasmo de transitar entre diversos contextos de linguagem (sobretudo visuais e verbais). Desenvolvi a capacidade de formalização de um pensamento. Desfrutei muito, também, da possibilidade de não seguir estritamente os ditames do fluxo de disciplinas. Utilizei fartamente a Biblioteca Central (UnB), onde tive contato com correntes de pensamento como o existencialismo, a fenomenologia, a Dialética e a Estética hegelianas, o criticismo kantiano, os estruturalismos… Às vezes, tinha até leitura sobre arte. Isso e as pessoas com quem me relacionei e relaciono empenhadas no mesmo tipo de busca continuam agindo em minha formação.



Que artistas influenciam seu pensamento?
… Certas influências importantes ocorrem de forma pouco clara ou mediadas por um texto de outro autor. Mas os artistas que eu posso citar, mais facilmente são: Werner Herzog; Guimarães Rosa; Cildo Meireles; Hélio Oiticica; Lygia Clark; John Cage; os minimalistas e conceitualistas americanos; Redson (da banda Cólera); Oscar Niemeyer; Laurie Anderson; Joseph Beuys; Fluxus; o pessoal do ambiente, da instalação, Robert Smithson, Alan Kaprow; da arte-processo, Francis Alys, Paulo Bruscky etc. Além dos amigos conterrâneos, contemporâneos e congêneres, que me fervem de questões.


Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Além dos aspectos citados, o que me faz continuar trabalhando é o saber que a arte põe em ação. A cada dia, atualmente, tenho sido mais atraído pela vontade de conhecer, perceber, ver, ouvir, tocar. A busca pela escuta do mundo em que vivo é uma das coisas que me impelem a forçar a vista, o tato, o ouvido, me colocar a caminho à exaustão e elaborar os trabalhos mais recentes. Mais ou menos como Ives Klein quando dizia (algo como) querer tocar "o lado de lá" do azul do céu… Em termos práticos, ainda é bom morar sozinho e poder utilizar o apartamento minúsculo como ateliê e estúdio.


Como você descreve seu trabalho como artista?
Essa é uma tarefa difícil, quando a relação trabalhador-trabalho se inverte facilmente. De modo geral, eu não saberia discernir a linha divisória entre "artista" e "pessoa" sem criar duas caricaturas. Para esse trabalhador, o trabalho nem sempre é o que se leva a público (o produto fabricado), mas inclui o esforço ou laboração e um processo em geral complexo. No meu caso, pode incluir caminhadas, viagens, anotações, fotografias, gravações de áudio, vídeos, desenhos, pequenas pinturas etc. e esses meandros são guardados, de modo que posso consultá-los.
O que pretendo ver e mostrar, no final, quase sempre está relacionado a de que modo o trabalho se dá no lugar em que será apreciado. É importante que a obra seja um nascimento mútuo de tudo o que a constitui e, se está na rua, que proporcione também o aparecimento dessa rua escondida pelo uso. Tem uma influência existencialista nisso, mas também me parece que uma presença do pensamento escultórico - esculpir, ou fazer aparecer - e da relação de coexistência imediata que o desenho cria entre materiais e suportes.
Acho que meu trabalho tem sido uma tentativa de experimentar e propor mudanças de olhar mínimas para que um contexto se desdobre em outro(s). Algumas vezes, inclusive, chego a mais de uma instalação ou intervenção em momentos ou lugares distintos e algumas instalações são, na verdade, momentos de uma investigação posta em obra. Isto é, uma ação ou acontecimento dialético mostrado em diferentes etapas.
Em Achados: diário de uma artista errante, por exemplo, no primeiro momento o diário era facilmente acessado pelas pessoas, sobre a mesa de uma residência - onde foi montado pelos próprios moradores dessa residência. No segundo momento, já levado para uma galeria, foi posto no meio de um grande retângulo de fino véu de poeira marrom sobre o chão de mármore e esse frágil novo elemento (pó coletado no caminho e depois geometricamente soprado no piso) se colocava como convite aos visitantes a acreditarem na representação, pois, de outro modo, caso desacreditassem, poderiam muito facilmente invadir o frágil retângulo e acessar o diário, sob pena de destituírem o caráter de obra instaurado pelo espaço de distanciamento ou representação que ela necessita.
Parece-me que um trabalho de arte nem sempre pode ser confundido, portanto, com a informação extrínseca que ele veicula. Às vezes, ele é isto, ou seja, sua própria transpiração.


Você participou do Rumos Itaú Cultural, como foi a experiência?
Intensa. Fui selecionado para realizar uma intervenção que começou em 2008, no Espaço Piloto da UnB, e ampliara-se em 2010, no CCBB Brasília, quando ganhou inclusive o nome de Setor Faroeste. Uma referência às noções históricas do oeste como lugar do novo e da prosperidade, bem como à divisão do espaço urbanístico de Brasília em setores e à criação do famigerado, polêmico e especulado Setor Noroeste, exemplar para conhecer o crescimento atual de Brasília e de outras cidades.
Trata-se de um trabalho de grandes dimensões, que contém sons captados em matas, áreas rurais (animais) e estúdio (flautas) e instalada em lugares de transição (parede, calçada, estacionamento etc.). Porém, sua visualização e escuta exigem muito do visitante, pois atua em níveis sonoros baixíssimos e os componentes visuais são camuflados ou omitidos. Além disso, no projeto inscrito no Rumos, a obra se estendia em duas partes altamente separadas em termos espaciais, em uma investigação do que constituiria a unidade de uma instalação.
Setor Faroeste 1 é o som de áreas rurais de MG lançado moderadamente no ambiente expositivo e a criação de uma região vazia, sinalizada por uma iluminação magenta. Camadas escondidas desse som podem ser acessadas no contato do ouvido com a parede iluminada. Setor Faroeste 2 é uma composição aleatória de notas de flauta doce emitidas com sopros longos, cuja base são as frequências dos ruídos contínuos da cidade - que têm uma espécie de afinação impressa pela quantidade de rotações dos motores, hélices e sistemas de energia elétrica.
A obra foi executada na íntegra em São Paulo. Para SF 2, conseguimos apoio do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e da Secretaria de Cultura do Estado, para "ocupar" uma área que vai do viaduto da Beneficência Portuguesa (acima e abaixo desse), passando pela entrada da estação Vergueiro e no caminho que vai até o CCSP. Foi uma grande realização com todo o empenho possível da produção e meu. SF 1 ficou no Itaú Cultural.
Nas itinerâncias (MAMAM Recife e Paço Imperial do Rio de Janeiro), a instalação de SF 2 teve problemas relativos à produção: o esforço requerido é vasto e a equipe de montagem poderia correr alguns riscos que foram evitados pelo Itaú Cultural. Por isso, no Rio de Janeiro, surgiu o Setor Faroeste 3, mais condensado, simples e audível que o 2. Tem características mais presentes de uma composição musical, adota elementos relativos ao campo da música ambiente e se apropria das características arquitetônicas do edifício (do Paço Imperial/RJ).
SF 3 inclui pequeninos elementos visuais destinados a colaborar com a sua interpretação e é montado sobre capitéis e pórticos de pedra barrocos, a cerca de 2,9 metros de altura. Todos os elementos da instalação, incluindo fios, pesam 3,6 Kg.
Além disso, conheci alguns contemporâneos cujo trabalho já me admirava. Tive oportunidade de ouvir a fala de todos os participantes e sou muito grato por essa oportunidade, que nem sempre faz parte do programa e foi uma escolha dessa curadoria geral. Vi pesquisas próximas de campos a que tenho me aplicado, como a instalação e a audioarte… Realmente, sou muito grato por estar ali entre os selecionados e poder até contar com alguns gurus que me auxiliaram com o poder de sua mente, como o Paulo Miyada e o Matias Monteiro.


Qual a sua expectativa para a exposição no Paço Imperial, Rio de Janeiro?
De início, assim: "Uau, vamos para o Rio, berço do neoconcretismo!!!" O entusiasmo foi tanto que Setor Faroeste se expandiu, mas minha postura não passava de um preconceito. Na verdade, os movimentos de arte brasileiros deixaram marcas indeléveis na produção contemporânea, mas também legaram um fator a ser historiado. Como é que sambar, nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, continua a ser um ato político abordado pelas instituições do mesmo modo como o foi na época da Apocalipopótese?
Na grande metrópole cultural ainda é possível notar o sentido do que chamamos de "antiarte", uma expressão demasiadamente naturalizada e banalizada hoje em dia, como se fosse o mesmo que "arte". E essa constatação significa que as instituições necessitam de conservação no sentido estrutural. Isto é, que elas repelem ou censuram o que aparentemente não pode ser tratado como anedota ou pura ficção.
Justamente na Cidade Maravilhosa, um gestor cultural me questionou: "por que vocês artistas têm essas idéias? Por que vocês fazem esse tipo de coisa?" Foi um momento de transe para mim. Transe e metempsicose, eu me transformei em uma pedra.
Mas a exposição está montada e tão maravilhosa quanto a cidade. Além disso, sempre admirei a forma como o Paço Imperial conserva a memória de nossa realeza. Um espetáculo!


Como você descreve o mercado de arte em Brasília?
Sou um pouco "out" no mercado (fico mais dedicado mesmo à pesquisa), mas tenho alguma visão dele. Os espaços institucionais de bancos, que promovem uma circulação ampla de arte nacionalmente, são os mais presentes e frequentados. Os empresários menores costumam encontrar dificuldade em concorrer com essas instituições. Mas a tendência, me parece, é que surjam cooperações, já que atualmente os bancos têm interesse em exercer um papel social reconhecido, por questões de imagem. Uma vez, uma dona de um espaço, muito simpática, me disse assim: "ingressos a preços populares é dumping!!! Como é que eu vou conseguir público desse jeito?". Os ateliês coletivos e com iniciativas próprias de produção e difusão tem sido algo interessante - cito, por exemplo, algumas palestras que assisti e uma que apresentei no Espaço Laje, organizadas pelo Virgílio Neto e pelo pessoal da revista Samba, iniciativas totalmente independentes. Há ainda um mercado crescente de galerias particulares e uma quantidade eterna e também crescente de "artistas emergentes" (?). Mas se, de fato for implementada uma escola superior de arte, que está na ordem do dia, certamente esse quadro mudará e até o sistema de cultura do DF poderá passar a um novo patamar dentro de poucas gerações.


Você escreve sobre seu trabalho?
Às vezes faço anotações teóricas, mais para mim mesmo, para me situar melhor na pesquisa e nas escolhas. E às vezes escrevo sobre alguma idéia de trabalho por que sei que não terei como realizá-lo tão cedo…


É possível viver de arte no Brasil?
Eu acredito que sim mas, como é que faz isso, eu já não sei.


O que pensa sobre os salões de Arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Até hoje, só consegui ser selecionado para um único salão, com uma série fotográfica e, quando cheguei à abertura da exposição, tinha até foto misteriosamente dependurada de cabeça para baixo. Historicamente, os salões não-oficiais têm uma relevância grande, pois proporcionaram um entendimento mais verdadeiro sobre a arte desvinculada das narrativas mestras, além de serem um estímulo à pesquisa de artistas que de outro modo teriam mais dificuldade ainda em bancar seu próprio trabalho. Hoje, os salões assumem papéis diversos e, os melhores que conheço, não são distribuidores de prêmios, mas inserem o artista no mercado de galerias. Desse ponto de vista, parece-me que algo como um salão pode ter seu valor, uma vez que organiza recursos de uma coletividade para projetá-la, e não é apenas uma loteria. Muitos salões preservam a moda antiga que o próprio nome sugere e, então, eu não tenho muito interesse nisso. Contudo, me parece interessante essa mentalidade meio de "consórcio".
Quais são seus planos para o futuro?
Estou empenhado em uma individual a ser realizada em São Luís do Maranhão, na galeria do SESC, que está bem próxima. Depois disso, não sei o que acontecerá. Gostaria de lhe agradecer a oportunidade de responder a essas perguntas

5000000 de Vespas Dançando com Valentia no Último Raio do Sol, 2004.


Ding, 2006.

Regiões Audíveis o Picar de Olhos, 2008.
Achados de uma Artista Errante. Galeria MV. Still de vídeo do projeto Moradas do Interior.
Achados na Casa Hospedeira.




Registro Ryu Halls. Móveis Delay, 2012.




Setor Faroeste.



Plano de Inserção. Setor Faroeste, 2012. Centro Cultural São Paulo.


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