quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Marcio Fonseca entrevista Geraldo Marcolini




Geraldo Marcolini vive e trabalha no Rio de Janeiro e é representado pela Galeria Cosmocopa, RJ e Zipper, SP. Obrigado Geraldo.



Quem é Geraldo Marcolini?

Nasci em Niterói, no dia 14 de junho de 1969, onde vivi até os 20 anos, quando me mudei e morei por quase 5 anos em Nova York, onde trabalhei e estudei (School of Visual Arts). Ao voltar para o Brasil (1997), me instalei no RJ, em Santa Teresa, onde tenho vivido desde então. Pai comerciante aposentado e pintor nas horas vagas, mãe dona-de-casa, uma irmã e um irmão.


Como a arte entrou em sua vida?

Sempre pintei e desenhei, (por influencia paterna) mas só resolvi tentar viver de arte por volta dos 25 anos, após sair da faculdade. Antes, estudei e trabalhei com design gráfico e ilustração. Penso que a formação do artista nunca termina.

Na sua experiência vivida no exterior, que diferença existe entre o ensino de arte no Brasil e nos Estados Unidos?

A diferença entre o ensino de arte que pude perceber (fiz 2 semestres de arquitetura na FAU-UFRJ antes de viajar), é que os EUA são bem melhores equipados e profissionais, apesar de bastante auto-referentes culturalmente, e os brasileiros compensam a falta de recursos com criatividade e talento. Mas creio que minha experiência é um tanto limitada para falar de maneira precisa.


Como você descreve sua obra?

Minha obra é de pintura, e busco utilizar meios variados nessa prática, tanto tradicionais como mais experimentais, já tendo trabalhado com papel, plástico, telas, madeira, metal, emborrachados, lonas, bordados etc. Ultimamente pinto mais sobre lona, com tintas industriais de boa qualidade. Já realizei também vídeos e instalações.Em relação à temática, penso que a variedade de interesses torna difícil condensar algum padrão ou tema central, mas busco dialogar com a tradição incorporando aspectos e assuntos do nosso entorno e de memórias. Uso como referência fotos de jornais velhos, revistas, internet, filmes, TV, graphic novels, enciclopédias, video games, fotos minhas e achadas, embalagens e + todo o aparato visual que multiplica-se à nossa frente incessante e vertiginosamente.


Que artistas ibfluenciam seu pensamento?

Amo diversos artistas de todos os tempos, fica meio difícil encontrar influências específicas. Atualmente gosto muito da obra do pintor inglês Peter Doig, mas tento fugir da sombra desse figurões tanto quanto possível (rs). Gosto muito do trabalho de um pintor amigo meu, Adriano Melhem, aqui do Rio.


É possível viver de arte no Brasil?

Viver de arte no Brasil há 15 anos atrás era bem difícil, mas acho que nos últimos anos, com o surgimento de diversas novas galerias e o crescimento econômico do país, tem sido mais fácil. Mas ainda é necessário muito mais fomento por parte do governo e instituições, pois o comércio não deveria ser a única fonte de recursos para os artistas, e o país tem talentos abundantes. E a mídia especializada ainda é bem fraca, com pouquíssimas publicações de qualidade e jornalismo banal.


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?

Para um artista ser representado por um galerista sua obra tem que despertar o interesse das pessoas, não digo necessariamente ser comercial, mas instigar olhares e reflexões. Mas penso que num mundo melhor os artistas não devessem depender tanto das galerias.


O que você pensa sobre as feiras de arte?

As feiras são um mal necessário, já que hoje, mais do que nunca, obra de arte=mercadoria. Mas evito frequentá-las, pois são geralmente um amontoado tão grande de obras e pessoas fúteis, que me dão um certo enjôo.


Quais são seu planos futuros?

Pretendo continuar pintando e me sustentando assim por longos anos, se tudo der certo(rs). Nunca desejei ficar rico como artista, gostaria apenas de encerrar meus dias fazendo o que gosto, em um espaço confortável e condição econômica tranquila. Penso que isso já é pedir demais.


O que faz nas horas vagas?

Nas horas livres gosto de ler, viajar, visitar museus, galerias, livrarias, restaurantes, ouvir música, ir à praia, cozinhar frutos do mar, amar, jogar bola com amigos, ir ao cinema, etc.



Agradeço o convite,

grande abraço,

Geraldo





Subterrânea, 2012. Acrílica sobre tela. 195x195 cm.






Shadowplay, 2012. Acrílica sobre tela. 90x150 cm.




Exposição Transmission Zipper Galeria, SP.





C M Y K 3, 2011. Acrílica sobre tela. 120x120 cm.





Surveillance, 2010. Acrílica sobre tela. 100x100 cm.






Interior Magenta, 2010. Acrílica sobre tela. 150x200 cm.




Polaroid 4, 2010. Óleo sobre tela. 60x60 cm.




Polaroid 1. 2010. Óleo sobre tela. 60x60 cm.






Babe 2, 2009. Óleo sobre tela. 35x45 cm.





Série Celebridades Marcinho V P, 2002. Lã bordada sobre tela. 60x80 cm.





Série Celebridades Sem título, 2002. Nanquim sobre papel. 40x30 cm.








Pintura de erros




Estar diante das obras de Geraldo Marcolini é perceber as nuances e desvios pelos quais a
pintura sempre se apresentou. Sempre acusada de estar morta, a pintura, aos olhos ingênuos, parece estar fadada senão a um fim (aqui confundido com fracasso), pelo menos a um limite operacional ou formal.


As pinturas de Marcolini fazem parte de uma investigação sobre o próprio estado de
experimentação desse “cadáver”. Seu ponto de partida, ou a imagem com a qual a sua
pintura dialoga, confunde-se entre um arquivo de imagens aleatórias (vindas da internet,
fotos doadas por amigos ou capturadas ao acaso, entre outras diferentes fontes) e memórias.
É o anteparo de uma iconografia que sobrevoa quase que por completo operações, fontes e
paisagens anônimas ou sem um significado especial para o artista ou para quem está diante
delas. Sendo anônimas e comuns, essas imagens se situam em um território ambíguo:
nascem como ideias representativas de uma memória, porém terminam flertando com uma
certa impermanência, isto é, a referida memória iconográfica é perceptível mas ao mesmo
tempo anulada.


Se por um lado nota-se uma ausência de figuras humanas, por outro lado, em um exercício
artesanal e preenchido por invenção, Marcolini adota a luz como personagem de suas obras.
É ela quem preenche e circula por aqueles espaços ausentes. É a presença de um dado
imaterial que compõe o cenário supostamente esvaziado dessas pinturas. Ademais, estas
estão constantemente anunciando uma velocidade surpreendente; são ágeis e dinâmicas,
seja por adotarem temas ou cenas urbanas, ou mesmo tendo simplesmente a luz como
transeunte.


Em sua técnica de usar o plástico-bolha como pincel, há uma aparição da
forma sem a adoção de um volume preenchido de matéria. Nessa operação low-tech
e “chapada”, suas pinturas criam um diálogo fecundo com a gravura. Não é também por
acaso que Marcolini adota o título de CMYK, a sigla para um padrão de impressão que
envolve as cores ciano, magenta, amarelo e preto. Se o início desse método de investigação
– a adoção do plástico como veículo para a formatação da pintura – aparece em
Bubble Wrap (2005-), temos em CMYK a inclusão de uma pincelada, que não se coloca
como mancha ou erro, mas um desvio cromático que duvida da própria condição e aparição
da imagem.


Sua adoção por uma escala, de certa forma, grandiosa, não é mero acaso. É nessa ampliação
da imagem que o caráter cênico e dramático de suas pinturas redimensiona a aparição de
duas qualidades que operam de forma sincrônica: a melancolia e o silêncio. É curioso que
através de um processo que pode durar semanas, Marcolini gera paisagens (e que pode ser
deslocado o fato de como o artista também amplia o conceito de pintura de paisagem), que
são provedoras de distintas qualidades e subjetividades, ao mesmo tempo em que opera
em uma economia de formas. A melancolia e o silêncio não se anunciam apenas pelo fato
da ausência de figuras humanas nem de serem paisagens anônimas e vazias, paisagens


Quaisquer, mas pela potência desse conjunto e por uma certa vagueza que paira em suas
telas. São imagens que ganham notoriedade exatamente pela sua falta de importância. São
pinturas de erros: incorporam falhas desde o momento em que são escolhidas ao acaso.
Em seu método de aparição ao mundo, a impressão do plástico bolha sob a tela acarreta
também em reordenar e “corrigir” uma gama de erros. Nessa sobreposição de formas o
improviso, o imaginado e o “erro” se tornam cúmplices.


Felipe Scovino - Fevereiro / 2011



cv



Niterói / RJ, 1969
Vive e trabalha no Rio de Janeiro.
Lives and works in Rio.


FORMAÇÃO // EDUCATION

1993-1996 School of Visual Arts, Nova York, EUA


EXPOSIÇÕES // EXHIBITIONS


2011

Jogos de Guerra, Caixa Cultural, Rio de Janeiro.

CMYK (individual / solo show), Cosmocopa Arte Contemporânea, Rio de Janeiro. Texto: Felipe Scovino.

Verão da Cultura, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro.

2010

Macrocosmos e microcosmos, Cosmocopa Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

Individual / solo show, Amarelonegro Arte Contemporânea, Rio de Janeiro. Texto: Guilherme Bueno.

SP ARTE, Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, São Paulo.

Jogos de Guerra, Memorial da América Latina, São Paulo. Curadoria Daniela Name.

Coletiva / group show, Amarelonegro Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

2009

SP ARTE, Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, São Paulo.

Investigações Pictóricas, MAC Niterói. Curadoria: Daniela Labra.

Suco de Caju, Galeria de Arte Meninos de Luz, Rio de Janeiro.

Piscinão da Benvinda de Carvalho, Galeria Murilo Castro, Belo Horizonte

Nano Stockholm, Studio 44, Estocolmo.

Coletiva, Amarelonegro Arte Contemporânea, Rio de Janeiro

2008

Arquivo Geral, Centro Cultural da Justiça Eleitoral, Rio de Janeiro.

Geraldo Marcolini e Sidney Philocreon, Amarelonegro Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

Estranha: A arte e o outro, Durex Arte Contemporânea, Rio de Janeiro.

Individual / solo show, Centro Cultural Cândido Mendes, Rio de Janeiro. Curadoria: Paulo Sérgio Duarte.

2006

XXVII Bienal de São Paulo, “Expedição Rio-Amazonas”, de Jarbas Lopes, Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, São Paulo.

2005

Abre Alas, A Gentil Carioca, Rio de Janeiro.

NanoExposição, Galeria Murilo Castro, Belo Horizonte.

NanoExposição, ARTBO, Feira Internacional de Arte de Bogotá, Colômbia.

2004

Posição 2004, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro.

Permitido, Alpendre, Fortaleza.

Chega de chupar essa xepa, Neue Dokumente, Berlim, Alemanha.

Enclaves – Intervenções em contextos ideológicos, Hotel Bragança, Belo Horizonte.

2003

Mostra Contra-Fórum (uma resposta ao FSB), Centro Cultural Gato Negro, Belo Horizonte.

Midiática Brasil, versão brasileira do Festival do Holandês Next 5 Minutes 4, SESC Paulista, São Paulo.

Manifestação, Mostra SESC de Artes e Latinidades, SESC Vila Mariana, São Paulo.

Alfândega 0.0, Armazém do Rio, Rio de Janeiro.

2002

Quarentena de Artes Açúcar Invertido, Funarte – Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro.

Atrocidades Maravilhosas, Caminhos do Contemporâneo, Paço Imperial, Rio de Janeiro.

2001

Atrocidades Maravilhosas, Panorama da Arte Contemporânea, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro e São Paulo.

2000-2006

Como integrante do coletivo Atrocidades Maravilhosas criou obras públicas nas ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. With art collective Atrocidades Maravilhosas took part in public actions in São Paulo and Rio.

1997

Student Group Show, SVA Gallery, Nova York, EUA.



PRÊMIOS // GRANTS & AWARDS

2000

“Via Aristotélica”, Prêmio Interferências Urbanas, Santa Teresa, Rio de Janeiro.

1999

“Trancado a Sete Chaves”, Prêmio Interferências Urbanas, do coletivo Atelier 491, Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário