terça-feira, 11 de setembro de 2012

Marcio Fonseca entrevista Fábio Baroli







Quem é Fábio Baroli?
Nasci no interior de Minas Gerais, em Uberaba, no dia 15 de agosto de 1981, na mesma casa em que meus pais ainda vivem. Sou o quarto filho de Seu Basílio e D. Zizinha. Vindo de uma família religiosa de classe média baixa, sempre estudei em escolas públicas com pouco acesso à cultura e arte. Contudo, tive uma infância muito boa. Uma época em que a molecada podia brincar com certa liberade e descobrir a vida entre as ruas do bairro, brejos e roças.


Como a Arte entrou em sua vida?
Gostava de desenhar desde criança, mas os contatos mais direcionados com a pintura retomam ao fim de 1999. Após concluir o ensino médio, montei um ateliê no fundo da casa de meus pais, onde decidi buscar uma vivência nas linguagens do desenho, escultura e pintura, porém, sem muitas referências. Acho que fui motivado mais por uma necessidade de fazer, que pela consciência do motivo. Contudo, foram quatro anos de experiência que me deram bases para decidir os caminhos que seguiria. Naquele momento, percebi a necessidade de sistematizar a pesquisa e focar nos estudos em arte contemporânea, ingressando, então, no curso de Bacharelado em Artes Plásticas da Universidade de Brasíla em 2004.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Fui muito influenciado por pintores como Jenny Saville e Eric Fischl, mais pelas técnicas utilizadas que pelos assuntos discutidos. No entanto, sobre o assunto, o erotismo tem sido o mais presente em meus trabalhos desde 2006, quando tive acesso à algumas idéias do filósofo e literato francês Georges Bataille, autor dos ensaios O erotismo e A história do olho, dentre outros, livros que se tornaram grandes referências para mim, exercendo fortes influências sobre os trabalhos realizados a partir de então. Atualmente, prefiro admitir as influências das pessoas que estão mais próximas, com quem troco experiências diretas, como Daniel Lannes, Daniel Murgel, Fábio Magalhães, Márcio Mota e Thiago Martins de Melo.


Como você descreve sua obra?
Percebo meu trabalho em uma situação triangular: a pintura como linguagem, a apropriação como método e o erotismo como tema. Porém, que em cada um desses pontos há desdobramentos que fazem com que o processo aconteça de formas variadas. Como costumo desenvolver trabalhos em séries, em cada série procuro adotar meios que estabeleçam diálogos coerentes entre a técnica utilizada e o assunto discutido e vice versa.


Alguém disse ser você o Lucien Freud brasileiro, o que você responde?
Muito boa essa! Sorri quando li a pergunta. Quem comentou isso, de maneira indireta, foi Renato Alarcão numa publicação feita em seu Twitter - ocasião em que falava sobre a morte de Lucien Freud - que dizia: E por falar em Freud, esse Fabio Baroli não é nada mal”, concluindo que “um cara como Lucien Freud no Brasil não ia conseguir nada. Ia morrer no ostracismo”. Entendo isso como uma ironia que critica a supervalorização da obra de arte no mercado estrangeiro. Não acho que a comparação tenha uma relação direta. Que Freud foi um grande artista não há dúvidas. Emboara não tenha me influenciado muito, reconheço a qualidade e a impotância de seu trabalho e à sua obra presto meu respeito e minha admiração.


Você participou de vários Salões de Arte, qual a sua opinião sobre eles e alguma sugestão para aprimorá-los?
Acho que o salão é um importante meio de inserção, porém, acho que a idéia de competição em arte não se aplica. No geral, os salões parecem incitar a competitividade. Os prêmios deveriam ser nivelados e aquela visão do podium excluída. Alguns salões vem trabalhando de forma mais consciente sobre isso, a exemplo do 1º Salão de Arte Contemporânea do Centro-Oeste que proporcionou ajuda de custo a todos os participantes incluindo quatro prêmios e quatro homenagens de mesmo valor. Acho uma forma interessante de se pensar o salão, porque o artista homenageado geralmente tem uma carreira consolidada e tanto os premiados como os demais selecionados geralmente tem carreiras que se iniciam. Definitivamente, não pode haver competição nessa história.


Qual foi a importância de sua participação no Rumos Itau Cultural?
O Rumos é um programa bem visado e com propostas de itinerâncias, o que é muito positivo, pois a exposição percorre lugares distintos e não se restringe apenas ao circuito Rio/São Paulo. Por ser bem visado, muitos olhos se voltam para ele e naturalmente isso gera desdobramentos positivos. Mas, acredito que o melhor da edição 2012 foram os seminários em que os artistas apresentaram seus trabalhos e falaram sobre suas pesquisas. Isso possibilitou uma importante troca de experiências, sobretudo, entre os participantes.


O que você espera do Prêmio Pipa, 2012?
Não sei o que esperar do Pipa. Sabemos que é um prêmio que também tem boa visibilidade. Embora tenha minhas ressalvas sobre a idéia do termo “investidor”, nele só entra indicados e para mim já é um grande prêmio.


Que comentário você poderia fazer sobre sua última exposição no Rio de Janeiro, Galeria Laura Marsiaj?
Foi minha primeira individual no Rio, uma ótima experiência. Deu bastante gente na abertura, a exposição foi bem visitada e recebi boas críticas. Foi muito bom trabalhar em parceria com Laura Marsiaj e Marcelo Campos, que fez uma excelente curadoria (texto em anexo).


É possível viver de arte no Brasil?
É uma pergunta difícil. Particularmente, tenho conseguido. Mas, tudo isso é meio instável e oscila bastante. A arte brasileira está em um bom momento, conquistando espaço e credibilidade no mercado. Porém, crises sempre são previstas e eu não consigo dizer até quando esse bom momento pode durar.


Viver e trabalhar em Uberaba, fora dos grandes centros, traz alguma vantagem?
Bem, não sei se é uma questão de vantagem ou desvantagem. Morando no interior fico um pouco afastado de alguns acontecimentos dos grandes centros. Pode ser uma desvantagem, mas não é um problema, pois constantemente visito esses lugares e mantenho meus contatos. Percebo que o que se tem no interior é um custo de vida mais acessível, mais humano, com maiores possibilidades de afeto e menos massificação. Não sei se isso é uma vantagem. Acho que depende do que cada um entende sobre qualidade de vida. Eu gosto do interior, mas, minha decisão de retornar à Uberaba, foi devido ao trabalho, à pesquisa que iniciei sobre a infância interiorana. A partir do momento em que o imaginário infantil, interiorano, se tornou o assunto que eu queria discutir, decidi retornar à cidade em que vivi quando criança. Assim, considero esse retorno uma experiência, um momento de busca em função de uma construção poética que não tem prazo para terminar. Pode ser que amanhã tudo se reconfigure.


Quais são seus planos e sonhos para o futuro?
Olha, Marcio, costumo dizer que não tenho muita pretenção, mas tenho muita predisposição. Acredito em construção. Que as coisas acontecem da forma que procuramos as construir. Assim, pretendo continuar fazendo o que faço, construindo um caminho e nele seguir caminhando, devagar, mas sem saber muito onde pode me levar o que escolhi fazer.






Sem título (vendeta) Óleo sobre tela. 160x140 cm.





Sem título (Vendeta). Óleo sore tela. 160x140 cm.





Sem título (Vendeta). Óleo sobre tela. 160x140 cm.





Sem título (Vendeta). Óleo sobre tela. 160x140 cm.





Sem título (Vendeta) Óleo sobre tela. 160x140 cm.





Sem título (Vendeta) Óleo sobre tela 160x140 cm.






Sem título (Vendeta) Óleo sobre tela. 160x140 cm.






Sem título (Vendeta) Óleo sobre tela. 160x140 cm.




Domingo – Fábio Baroli

“(...) só posso suportar a ficção por um tempo: exijo a realidade, me volto louco” Georges Bataille

A galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro, apresenta no mês de abril de 2012, a primeira individual do pintor Fábio Baroli. Domingo, título da exposição, parte de imagens furtivas que se referendam em situações e lugares corriqueiros, num cotidiano raptado, interiorano, brasileiro. Porém, tais narrativas são atravessadas por signos eróticos, poses, trejeitos, atitudes que misturam personagens enovelados pela curiosidade, sexual desde sempre. Nas pinturas de Baroli percebemos a junção, a colagem, a edição como maneiras de usar imagens advindas de referências de tempo e lugares variados: fotos de família, revistas, internet. O uso de tais apontamentos nos faz refletir sobre a pletora de informações midiáticas. Nas pinturas recentes, o artista criara uma contranarrativa, já que o ambiente que serviria de fundo traz elementos rurais, interioranos, opostos, em certa medida, ao progresso das mídias e a aniquilação dos preconceitos. O que transfigura e une tradição e informação é o desejo, o erotismo. Podemos observar que são possíveis as metáforas do domingo, dia potencialmente surrealista, aglutinando o fervor religioso ao tédio dos programas de TV. Misturam-se, então, personagens em dissonância: crianças vestidas de domingo, prostitutas, travestis, símbolos das paixões futebolísticas, atrizes depravadas diante do tio homofóbico, mantenedor da hipócrita tradição, que a tudo assiste do sofá de casa, lugar do narrador sedentário, desejoso e voyeur.

Fábio Baroli se cerca da poesia do quintal com intenção de traí-la ou revelá-la com mais intensidade. Quintal, uma parte de cinco, divisão do terreno, terreiro, lugar de plantação e criação de bichos domésticos. Nas pinturas, vemos a atualização desta parte da casa, o lugar do lazer e da brincadeira intramuros, com piscinas de plástico, banhos de mangueira, lavanderia, alimentação coletiva. Ao buscarmos outras traduções pretéritas, a palavra “quintal” também se destinava à punição, a técnicas judiciais de amostragem, onde se tirava um culpado a cada cinco suspeitos de um delito coletivo, sem autoria reconhecida. Nos quintais de Baroli todos são suspeitos e os delitos erotizados, cometidos por familiares de várias gerações. Ainda que cerceada, a parte maldita da casa estimulara a mais infame interdição. A família se desfaz, a religiosidade é questionada, a infância é perversa, parafraseando um belo título de Marcus Lontra.

Dali parte-se para as brincadeiras de domingo, para as roupas domingueiras, sinônimo do melhor vestir. Domingo, descanso, missa, tédio, praça, prazer. As personagens são vestidas para se fotografar. Experimenta-se o vazio da poesia dos dias de trabalho, pois domingo é negação do mundo capitalista, dia de comércio fechado, ao mesmo tempo em que se exibem os supérfluos deste mesmo mundo, os excedentes. O pai, arrimo, perde a cabeça em cambalhotas, nu. A casa como circo. Excede-se a divisão familiar, encenam-se os papéis do parentesco, mas nada escapa ao desejo que a tudo pode reconfigurar, transformando relações fraternais em incestos criminosos.

A criança de Baroli manipula brinquedos, armas, estilingues e exercita o corpo em acrobacias. Desligadas ou atentas, as personagens ativam o olho da curiosidade, o segredo, o que no corpo do outro é diferença. A cena fomenta exibições por todo o tempo. Brincar é agregar a primeira felicidade ao terror, esclarecerá Walter Benjamin. E toda experiência mais profunda deseja a repetição, o retorno, o hábito. Repetir é gozar duplamente da felicidade. O olho, para Georges Bataille, pode se transfigurar em diferentes objetos e sua presença, ainda que potencial, faz do desejo a pulsão ativa do escondido. As pinturas de Baroli funcionam como o olho para Bataille. Ainda que os delitos não sejam revelados, estão intuídos e insinuados. Com técnicas associativas, as imagens substituem o “isto foi”, documental para a fotografia, pelo “isto pode acontecer”, próprio da literatura, das ações de entrelinhas, das metáforas da poesia.

Cansada da ficção, a “realidade”, entre aspas, de Fábio Baroli, torna-se resíduo de imagens que deflagram o vir-a-ser dos interditos. E o homem, rural ou urbano, camponês ou navegante permanece, no embate entre natureza e cultura, arcaico.

“A lucidez da consciência significa o enfrentamento da paixão”.

Marcelo Campos

Vendeta - Fabio Baroli


Sobre “o duelo, a vendeta e a guerra”, Georges Bataille, em Erotismo, discute o ímpeto de matar e indica que em todo homem existe um possível matador, que esse constructo se localiza na instância do proibido e que isso alimenta o desejo de transgredir a regra e o mandamento de “não matar”. Estabelece um paralelo entre o sexo, a morte, e o desejo latente apontando que o ato de matar é admissível no duelo, na vendeta e na guerra, violam assim sua condição originalmente proibitiva. E acerca da vendeta sentencia: “A vendeta, como o duelo, tem suas regras. É, em suma, uma guerra cujos campos não são determinados pelo habitat em um território, mas por se pertencer a um clã.

No entanto, na poética de Fábio Baroli, Vendeta rege uma coreografia, a do duelo que se estabelece entre territórios conflituosos, num jogo sequencial de ações que encena um confronto armado, uma batalha conduzida por crianças, numa avassaladora ironia que confronta pureza e crueldade, bélico e lúdico, ingênuo e perverso. Desse exercício visual que nos coloca diante de planos narrativos surge a instância ficcional.

Ao discutir a ficção em “A partilha do sensível”, Jacques Rancière aponta que “o real precisa ser ficcionado para ser pensado”, porém afirma que nem tudo é ficção, que na era da estética alguns modelos tornam bastante indefinidos os limites “entre razão dos fatos e razão da ficção”. Fabricar história está ligado a um determinado modelo comum daqueles que “fazem história”, vivemos numa época na qual cooperamos com essa escrita, a construímos, interferimos. Nesse contexto, Rancière afirma: “A politica e a arte, tanto quanto os saberes, constroem ficções, isto é, rearranjos materiais dos signos e das imagens, das relações entre o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer.”

Em Vendeta o embate entre a interpretação do real e o poético faz emergir a ficção, numa batalha regida pela infância, que carrega consigo um insinuante flerte com o cruel, o trágico, o perigoso, o proibido – atenuados, porém pelo doce, o lúdico, o singelo e o puro. Dessa paisagem de signos Baroli constrói uma narrativa no qual esses universos se incorporam, numa ordenação que configuram um lugar, uma ação, uma vendeta. Essa ficção é composta por vetores que se opõem (infância x violência), e em cuja interseção habita a potência da significação, produzindo assim novos discursos que se ativam e se reinventam através daquele que observa ou acessa essas imagens.

Vendeta também pode exercer um sentido mais cotidiano, menos literal, principalmente quando incorporado em um jogo comandado por crianças. Nesse duelo com regras e punições estabelecidas, uma batalha se instaura entre a caça e o caçador, entre a seta e o alvo, entre o inofensivo e a simbologia da morte. As imagens nos conduzem ao cruel exercício de associar a morte numa instância fundamental da vida, a infância, e nos colocam no vertiginoso papel do alvo, da caça, nesse território conflituoso entre imagens que se sobrepõem e signos que saltam e se ressignificam. A série de pinturas que compõem Vendeta subvertem simbologias de guerra; ali as armas são de brinquedo e são carregadas por crianças, reconfiguram ações expansionistas, territórios. Os soldados dessa batalha lúdica, que se estabelece no ambiente familiar, encenam uma agressividade, que saltam aos nossos olhos como comentários pontuais acerca do nosso tempo, práticas e posturas.

Na pintura de Baroli revela-se um preciso olhar investigativo, apropriador do mundo, do seu entorno, cotidiano, vida que flui em “imagens/frames”, que recortam uma ambiência, um tempo, um desejo. Dessa manipulação que se instaura entre a poética do comum - do diário, do que é absorvido pela cultura ou mídia - se condensa a um forte fluxo de subjetividade, que resulta em potentes imagens que orbitam no campo do fetiche, do perverso, da inocência.

Na série Vendeta, um fundo com pinceladas ligeiras e precisas serve de base para evidenciar os personagens que compõem o bailado do conflito infantil, imagens protagonistas que se insinuam e carregam a organicidade dos gestos, do desafio. Cores tranquilas que se opõem à gestualidade da imagem, que afronta, aquece e captura

Bitu Cassundé

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