terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Virginia Paiva


Virginia Paiva

Virginia, obrigado por sua participação. Dividir com os leitores sua rica história pessoal e sua obra só enriquece o blog. Espero vê-la em breve.


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Filha de um funcionário público da antiga ALERJ e de uma dona de casa, nasci no extinto Estado da Guanabara - e ainda moro perto da baía que deu nome a ele. Minha vida, bem como meu currículo, é errática:
Depois de uma péssima experiência naquela aula do Jardim de Infãncia em que a gente desenhava o contorno das mãozinhas, uma coleguinha me mandou fechar os olhos e furou a palma de minha mão com um lápis afiado - o que me afastou por bom tempo da educação formal. Minha mãe me ensinou a ler e entrei no Colégio Notre Dame, então regido por austeras freiras, já letrada. Lá fiz o fundamental e o secundário _ que na época era chamado de clássico. A isso devo uma educação humanística, onde o Português, o Latim, a Filosofia e a História eram privilegiados. Mas num ato de rebelião lerda contra um colégio só para moças , que preparava esposas de diplomatas, só tomei coragem para sair no meio do Clássico: fui para O Rio de Janeiro, misto, crítico e que preparava para o vestibular sem dor. Lá, minhas propostas para a vida ficaram confusas: queria jornalismo, literatura e me insurgia contra os conselhos familiares para escolher Belas Artes. A gente nem sempre é esperto com 18 anos...
Entrei para a P.U.C./RJ, me inscrevendo em Letras e fui seduzida pela Filosofia.Aí fiquei, até final de 1973, quando , por motivos de força maior, me senti na obrigação de sair do país. Fui matriculada na Universidad de Concepción , Chile, até o golpe de estado dos militares contra Allende e em novembro do mesmo ano aceitei asilo no único país que me queria: - a Holanda. Em 1974, já tendo aprendido um pouco de neerlandês, retomei meus estudos numa Universidade de excelência, para minha sorte: então, era conhecida como a Universidade Católica de Nijmegen, nos Países Baixos. Quando veio a anistia, voltei ao Brasil e concluí minha licenciatura e bacharelado na velha P.U.C. , tendo feito depois uma pós graduação lato-senso no I.F.I.C.S
.


Como foi sua formação artística?
C
onstruída, primeiro por uma família letrada e atuante, que me estimulava desde a compra de Gênios da Pintura até a aquirição de material.Comecei trabalhando naquele papel de pão cinzento e depois já tinha ao meu dispor guache Talens , tela e uma caixa de óleo, que ganhei de um primo que desistiu da pintura.
De um namorado, ganhei um livro dos desenhos de van Gogh, que estudava e copiava. Graças a isso, aprendi a desenhar mãos e pés, uma coisa meio que difícil. Frequëntei(desculpe, adoro o trema e odeio a sua abolição) o Parque Lage de então(68?69?) numa aula de desenho livre de uma gentil professora que me aceitou dizendo que eu tinha "macaquinhos no sótão de meu cérebro". Mais tarde, as visitas aos museus da Europa afinaram o meu olhar e me estimularam a estudar a história da arte.
Voltando ao Rio, depois de lecionar Filosofia em Colégios Públicos(escrevo com maiúsculas para afirmar sua importância no sistema educacional) e de, por conta do holandês, trabalhar no Consulado da Holanda, tomei a arriscada decisão de ser definitivamente feliz e retornar 'aquilo que, por birra adolescente, recusara.
Entrei na EAV/Parque Lage onde fiz cursos com Maria do Carmo Secco, Zé Maria Dias da Cruz, Chico Cunha, Pedro França, Bruno Miguel e Luís Ernesto - e João Magalhães, de cujo olhar crítico me beneficio até hoje. Não posso deixar de citar a artísta e professora Katie van Scherpenberg.


Que artistas influenciaram seu pensamento? Sou filha espúria de Bosch (sem o caráter moralista) , do horizonte japonês de Guignard e de Peter Doigt e suas paisagens oníricas.
Como você descreve sua obra? Onírica, estranha, exacerbada, exessiva, sempre com humor ou uma ironia amarga. Se faço um abstrato ou não, a côr é tudo. E o título faz sempre parte do trabalho, querendo ou não!

Como você descreve o mercado de arte no Brasil? Vejo um "aquecimento"(no bom sentido) que ainda não presenciara antes. Me impressiona e comove o número dos "pequenos colecionadores" - gente que deixa de comprar roupa, móvel ou carro zero-km para dedicar seu afeto a obejtos de arte que vão lhe acompanhar, não como investimento ou status, mas como pura fruição e deleite.

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria? As boas galerias investem em qualidade.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho? Memória, notícias de jornal, viagens, a História, cinema.

É possível viver de arte no Brasil? Muitos já vivem. Eu, ainda não!

Você tem uma rotina de trabalho? Cinco ou seis horas diárias de ateliê.Não importa se o dia seja "improdutivo" no fazer. O negócio é olhar, rabiscar, estudar os grandes...
A mulher e o homem estão em pé de igualdade no mercado de arte? Quando entrei para o mercado já não senti a desigualdade criticada por várias mestras. Mas falo do Rio de Janeiro. Sinto que hoje não existe mais uma "apropriação de domicílios" feminino/masculino. Um bom trabalho não tem "sexo", seu preço tampouco, felizmente... Veja só, estou falando das artes plásticas daqui e não outros trabalhos ou países onde a mulher é ultrajada...


O que você pensa sobre os Salões de Arte?
São importantes para a visibilidade e o currículo. Absolutamente contra os salões onde o artista tem que pagar, como que implorando, para exibir seu trabalho. O que me desistimula, muitas vezes, é a exigência etária. Uma Lucia Laguna não precisaria disso, mesmo quando começou. Respeitar a experiência e não somente as vivências. Não apostar em tempo de produção de acordo com a idade. É sempre qualidade...

Quais são seus planos para o futuro? O Futuro sempre foi meu, já que ainda estou! Continuar deixando minha marca das mãos no mundo...sem nunca virar uma "parvennue", no sentido dado por Hannah Arendt


O que você faz nas horas vagas?
Ler, brincar com a minha gatinha Mabel, escrever, ver filmes, inclusive os mais trashs, visitar galerias esymposium
museus, viajar("Sou de lugar nenhum", como a velha música dos Titãs), e o eterno Symposium com os amigos. Amigo não tem preço!!!!!




Tudo Foi Naufrágio.


Pérolas aos Porcos


















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