terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Vinicius Guimarães.




Vinicius Guimarães




Vinicius Guimarães jovem artista vive e trabalha em Vitória, Espiríto Santo. Foi indicado para Rumos Itaú Cultural, um indicador significativo da qualidade de sua obra. Parabéns e obrigado Vinicius.



Vinicius, fale algo sobre sua vida pessoal
Sou de 1984, nascido em Vitória/ES, neto de cearenses por parte de pai e baianos por parte de mãe. Em ambas as famílias tenho referências de parentes ligados a arte. Da minha família paterna meu avô dentista/farmacêutico gostava muito de desenhar e pintar, meu tio apelidado de Zé Papel, foi ilustrador por um bom tempo, mas hoje trabalha com comércio. Da minha família materna, meu tio João Carlos Guimarães (J.Carlos) trabalha como ilustrador no telejornalismo da globo, outro tio Dudu Guimarães é formado em artes plásticas mas sempre trabalhou como ator, está inserido na cena teatral de Belo Horizonte. Além deles, meu irmão gêmeo é arquiteto, sempre desenhou junto comigo. Posso contar também outros 3 ou 4 primos que também desenham. Por esse histórico familiar, minha mãe contadora e meu pai comerciante, viam este interesse pelas artes em mim e em meu irmão com muito respeito e admiração, e por isso nunca deixaram de nos incentivar.
Tenho tido vivências bem contrastantes ao logo da vida, e isso vem desde minhas origens familiares. Meu pai vem de uma família letrada que viveram basicamente em condições confortáveis, já a minha família materna vem de uma condição retirante, emigraram do sertão da Bahia com intenção de chegar a São Paulo, mas se instalaram no interior do estado do Espírito Santo.
Quando criança, morei nos EUA, dos 5 aos 10 anos. Visitávamos muitos museus temáticos em passeios escolares, fui muito em parques de diversão, cinemas, tínhamos uma vivência lotada de entretenimento. De volta ao Brasil, sofri um pouco para reaprender o português formal, e também com o ensino público brasileiro. Fiz cursinho pré-vestibular comunitário, quase prestei vestibular para matemática, nunca havia pensado em estudar artes, mas fui salvo pelo Design. Graduei em Desenho Industrial na Ufes, tive contato com o ensino da arte apenas na Universidade, e foi só ai que me dei conta do que realmente gosto. Desde então tenho me dedicado às artes, entretanto não abandonei o design que tem sido minha principal fonte de renda. Me dedico principalmente em projetos de design para ações socioculturais, exposições e livros de arte. Não faço trabalhos relacionados a publicidade, ou para o mercado de varejo.

Como foi sua formação artística?
Quando estudei desenho industrial na Ufes, tive contato com alguns professores do curso de artes que foram fundamentais para minha formação artística.
Valdelino dos Santos (Didico), ministrava a disciplina de desenho 1, foi quem falou que meu desenho era uma merda (desse jeito mesmo), mas na maior honestidade, ele quis incitar em mim mais verdade no desenho. O que ficou foi uma pergunta que martelou minha cabeça por muito tempo: qual é o meu desenho?
Um segundo professor, Luciano Cardoso ministrou desenho 2. E a aula era muito estranha, na verdade não tinha aula, ninguém fazia nada, o professor também não passava nada, mas se alguém estivesse disposto a desenvolver algo ele dava todo apoio. Lembro até que tinha um trabalho artístico no pátio que tinha duas travinhas de futebol e uma bola, lembro que eu e alguns amigos descíamos pra jogar futebol durante a aula, alegávamos ao professor que era tudo “futebol arte”. Talvez boa parte da turma não entendesse nada, mas acho que entendi, muito tempo depois que fui me dar conta do quanto a metodologia do professor era extraordinária. Ele nos proporcionava o embate com a liberdade e com o ócio. Se você for livre para fazer o que quiser sem cobranças e sem restrições, o que vai fazer? O embate da vida artística numa disciplina. Aprendo com isso até hoje.
Meu terceiro grande professor é Júlio Tigre. No início de 2009 me juntei a dois amigos também artistas, Alex Vieira e Raphael Genuíno Araújo para formarmos um coletivo, nossa intenção era de futuramente concorrermos ao edital de atêlie ocupação em pintura da Secult-ES (semelhante a um residência artística), nas especificações do edital era solicitado um orientador. Convidamos o Júlio Tigre, ele topou, mas deixou claro uma coisa, que ele ia ocupar o ateliê conosco todos os dias, e nossa proposta era de todos lidarmos com os antagonismos de nossas produções, numa situação propícia para discutirmos nossas poéticas abertamente e produzindo juntos no mesmo espaço, certos de contaminarmos uns ao outro. Desta experiência batizamos de EMBIRA, nome do nosso coletivo e de nossa primeira exposição na galeria Homero Massena em Vitória/ES 2010. Foi daí minha experiência mais profunda com a pintura, foram 8 meses de conversas e produção. Júlio é um grande professor, quem me ensinou tudo de que eu entendo como pintura.
Também participei de dois cursos curtos de formação em arte contemporânea realizado pelo instituto Tomie Ohtake em parceria com a Ufes, com José Spaniol (2010) e Bruno Dunley (2011).


Que artistas influenciaram seu pensamento?
João Carlos Guimarães, Dudu Guimarães, Didico, Luciano Cardoso, Douglas Domingues, Thaís Apolinário, Júlio Tigre, Raphael Genuíno Araújo, Alex Vieira, Gabriel Borém, Gabriel Sampaio (Gabiru), Ludmila Cayares, Renata Ribeiro, Simone Guimarães, Nelson Felix, Waltécio Caldas, Nelson Leirner, Mira Schendel, Marcel Duchamp, Philip Guston, Basquiat, Andy Goldsworthy, e outros.

Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Acho que diversas experiências de autoconhecimento que tenho tido ao logo da vida.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Tento me ligar a essência. Quanto ao desenho e até a minha pintura me relaciono como uma prática, exercito não ser puramente racional, tento permitir que a intuição guie meu processo.Como resultado, vejo meu trabalho ironizando de certa forma questões racionais que permeiam a arte, como também à sociedade pragmática na qual vivemos.

O que significou para você ser indicado para o Rumos Itaú Cultural?
Não tenho tomado conta da dimensão do que tudo isso possa significar, ainda assim posso dizer que é o maior acontecimento da minha vida artística até o atual momento.

Que comentários você poderia fazer sobre o desenvolvimento da arte contemporânea no Espírito Santo?
Com relação a produção artística, percebo que o estado ao longo de sua história tem tido ações muito felizes que ao meu ver foram ações que acompanharam de certa forma os pensamentos de vanguarda. Um dado interessante, que eu gostaria de compartilhar aqui, vem de uma pesquisa do professor José Cirillo da Ufes. É sobre a criação da primeira escola de arte em Vitória, o Instituto de Bellas Artes, datada de 1909. Desde sua fundação já aceitavam mulheres em seu quadro de professores e alunos, comparando a escola Bauhaus que foi uma das pioneiras a aceitarem mulheres só admitiram-nas nos anos de 1920.Já no contexto da arte contemporânea, o cenário se expande,o acesso a informação aproxima tudo, acredito que é até difícil querer destacar características genuínas que contextualize todos que aqui produzem, acho que vivemos todos num mesmo momento, difícil diferenciar um capixaba de um mineiro ou pernambucano.
Com relação ao fomento da arte contemporânea aqui no estado, atualmente acredito que vitória está inserida no circuito expositivo nacional, temos aqui instituições como o Museu Vale, o MAES (Museu de arte do Espírito Santo) e Palácio Anchieta que têm trazido grandes exposições para cá, o que facilita muito, quando antes tínhamos que ir a São Paulo ou ao Rio para acompanhar a produção nacional e internacional, hoje essas coisas passam por aqui também. Já tivemos aqui, Cildo Meirelles, com a primeira montagem do trabalho Babel no Brasil, além dele, individuais de Nelson Felix, Nelson Leirner, Waltécio Caldas, Andy Warhol, Rodin e Camille Claudel, Modigliane. Isso tudo tem sido ações louváveis, o que sem dúvida tem contribuído para a minha formação também.
Apesar dessas lindas exposições que temos visto por aqui, falta espaço para o artista contemporâneo capixaba no nosso próprio estado. Aqui existe apenas um espaço democrático que permite ao artista contemporâneo expor seu trabalho, que é a galeria Homero Massena (pública, estadual) que abre edital todos os anos, com somente 7 vagas e sem restrições, podendo participar artistas brasileiros e estrangeiros. Sete vagas para centenas de artistas capixabas. Enquanto que a maioriados outros espaços não possuem uma política clara de oportunidades, ou seja, ficamos aguardando sermos convidados enquanto vemos artistas de outros estados se apresentando por aqui frequentemente.
Atualmente, a cena mais produtiva e interessante tem surgido de produções independentes num claro movimento de resistência por falta de absorção das instituições daqui. As mostras paralelas têm sido espaço para a exibição das mais interessantes propostas e discussões. Ocasião em que artistas com carreiras consolidadas e jovens artistas se encontram. Oportunidade riquíssima para nós em início de carreira, por exemplo, expor ao lado de Júlio Tigre, Luciano Cardoso, Lando, Didico, Hilal Sami Hilal, Paulo César Jeveaux e outros. A universidade tem tido muita importância nesse processo como no projeto Quanto Mais Arte Melhor realizado pelo departamento de artes da UFES, uma exposição aberta a todos interessados e de curadoria coletiva que acontecia a cada semestre nos corredores do centro de artes. Mas algumas mostras chegam a ser mais provocadoras, como por exemplo, a exposição Equilíbrio que participei recentemente realizada nos banheiros masculino e feminino do boteco Mãozinha em Vitória.
Como não existe um mercado de arte consolidado aqui, o governo tem tido um papel fundamental. Nos últimos 4 anos, implantaram um edital de bolsa Ateliê realizado pela Secult-ES. No primeiro ano ofereceram duas vagas, no segundo ano apenas 1 vaga e contemplada pelo coletivo EMBIRA, já no terceiro ano foram 5 vagas, e agora no quarto ano mantiveram as 5 vagas. Ainda assim, é pouco, em comparação ao que é ofertado a outras áreas como teatro, cinema, cultura popular e produções circense. Fiz um calculo quando lançaram o edital e constatei que cinema recebia cerca de 25%, teatro 15%, cultural popular 12%, circo 5%, e artes 4%. Isso é um dado expressivo de que as artes poderiam ter um pouco mais de apoio.
De qualquer maneira, estamos vendo algumas ações do governo do estado que devagarzinho tem privilegiado um olhar mais otimista para com o artista capixaba, percebo que num futuro breve teremos um cenário mais favorável. E como não existe um mercado de arte consolidado aqui, ainda bem que o governo tem interferido nesse processo.

Qual sua opinião sobre os salões de arte? Alguma sugestões para aperfeiçoá-los?
Não tenho muita experiência com salões. Acho que tentei uns três ou quatro salões, fui aprovado em um, numa cidade do interior do Espírito Santo – Cachoeiro de Itapemirim. Gosto dos salões como oportunidades de exibição para quem tem trabalhos prontos e que as vezes ficam guardados a espera de serem exibidos. Receio um pouco de uma espécie de “academização” do processo seletivo, exige-se do artista uma produção textual nos conformes de uma espécie de modelo artístico. Para mim, texto pode se tornar inclusive um trabalho artístico em si.
Gosto também dos subversivos, como foi Duchamp e Nelson Leirner com seu porco empalhado. Atualmente acho que os subversivos têm tomado às ruas e os espaços alternativos. De um modo geral, acredito e gosto das duas possibilidades, acho que dá para trabalhar de qualquer maneira., depende do modo como nossa produção esteja caminhando.

O que você pensa sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Acho ambos importantes, só tomemos cuidado para não estabelecermos isso com um olhar hegemônico, existem muitas coisas boas do lado de fora também.

É possível viver de arte no Brasil?
Quero crer que sim.

O Brasil já tem condições de concorrer no mercado internacional de arte?
Vamos tomar de assalto!

Quais são seus planos para o futuro?
Quero consolidar minha carreira de artista, e futuramente dar continuidade aos meus estudos concluindo umapós-graduação.

O que faz nas horas vagas?
Gosto de ler várias coisas, filosofia, história antiga do Brasil, estudos relacionados a matemática, disciplinas metafísicas, estudos religiosos, cosmologia. Ando de bicicleta e jogo futebol regularmente. Também ajudo meus pais com alguns negócios da família.


Sem título (2010) Caneta esferográfica e colagem sobre madeira 0,58x0,73 cm.

Sem título (2010) Acrílica e cola sobre madeira.


Sem título. Série Partindo do Zero (2008) Caneta esferográfica sobre papel canson


Sem título. Série Partindo do Zero (2008) Caneta esferográfica sobre papel canson.


Sem título (2010) Colagem, fita adesiva sobre madeira 0,59x0,73 cm.


Cosmocópia impressão, 21 de 53 (2009) 29,7x21 cm.


Entrelinhas (2010) Vidro canelado 0,87x0,97 cm.




Obra em andamento.






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