domingo, 15 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Ulisses Lociks



Ulisses Lociks


Ulisses vive e trabalha em Maceió, Alagoas. Inicialmente influenciado pelo ilustrador Gustav Doré, partiu para uma linguagem própria utilizando desenho, escultura, intervenções urbanas e instalações. Foi selecionado e participa da exposição Abre Alas da Gentil Carioca no Rio de Janeiro. Obrigado Ulisses.
Ulisses, fale sobre sua vida pessoa
Nasci no ano de 1984, em Maceió, Alagoas, como o filho caçula de um professor universitário e de uma futura médica. Da infância até a adolescência cheguei a morar em três cidades diferentes e fui crescendo entre Campinas, Maceió e Brasília. No meu tempo de escola acho que nunca fui um aluno exemplar. Não era o atento menino da primeira fila, nem tão pouco um integrante da “turma do fundão. Fui o garoto tímido que sempre se sentava no meio, aquele que todos conheciam como: “o menino que sabe desenhar”. Já na adolescência, optei pelo curso de Artes Plásticas na Universidade de Brasília-UnB, pois acreditava que era opção mais coerente com as minhas vocações. Pouco tempo após ingressar no curso, comecei a trabalhar como mediador em exposições de arte e desempenhei essa função por cerca de quatro anos. Também cheguei a trabalhar como vendedor de livros, mas por um curto período de tempo. Depois que me formei decidi voltar a minha terra natal e foi onde casei e atualmente vivo e desenvolvo meus trabalhos.

Como foi sua formação artística?
Desenho desde muito novo, provavelmente porque durante certo período da minha infância meus pais enfrentaram algumas dificuldades financeiras, conseqüentemente, na época, eu não possuía muitos brinquedos, mas nunca me faltaram pilhas de papel e montes de lápis. Gradativamente fui me aperfeiçoando e o reconhecimento das pessoas ao meu redor com certeza me estimulou a continuar. Só comecei a realmente me interessar por “Arte” quando estava no segundo grau. Até então, meu consumo se resumia basicamente a animações e gibis, em especial os de cartunista brasileiros como Angeli e Laerte. Já na universidade me identifiquei muito com o caráter introspectivo e maneiroso da gravura em madeira e cheguei a passar alguns anos me dedicando exclusivamente a essa técnica. Posteriormente - altamente influenciado pela arte oriental e pelas gravuras ocidentais do Século XIX – comecei a me dedicar novamente ao desenho, só que agora com um viés mais abstrato e menos preocupado com a idéia de uma narrativa. Com o tempo fui experimentando novos meios e formas de produzir. Desenvolvi trabalhos em escultura, instalação e intervenção urbana. Fora a universidade, meu período como mediador em exposições foi fundamental para minha formação artística. Acredito que as várias horas em contato direto com as obras na galeria e a necessidade de incitar o público a conhecer e fruir as obras, foram muito construtivas para mim.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Acho que o primeiro artista a me arrebatar foi Gustav Doré, autor das ilustrações de um dos primeiros livros que ganhei na infância, chamado Contos de Perrault. Aquelas imagens me encantavam me fazendo passar horas e horas contemplando cada mínimo detalhe daquelas lindas imagens. Muitos anos depois entrei em contato com as gravuras de Rubem Grilo. Fiquei simplesmente fascinado com a maneira como seus trabalhos eram tematicamente tão fortes e sarcásticos e ao mesmo tempo tecnicamente tão delicados. Também fui muito influenciado por escultores modernistas como Victor Brecheret e Henry Moore, com suas linhas limpas e suas formas estóicas. Fora da produção ocidental, obras como as pinturas de Chao Shao-Ang e as gravuras de grandes nomes da arte japonesa, como Utamaro, Hiroshige e Hokusai, também tiveram um grande impacto em mim. Hoje tenho cada vez mais observado artistas contemporâneos com Banksy, Arne Quinze, Blue entre outros

Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Fora a observação da produção de artistas contemporâneos ou não, acredito que quase tudo pode de alguma maneira servir como contribuição na elaboração dos trabalhos. As fontes de inspiração podem ser múltiplas e muitas vezes inusitadas. Desde uma imagem em uma revista ou na televisão, uma cena na rua, uma idéia ou passagem de um livro, a capa de um álbum de música, até mesmo uma postagem no facebook,rs,,etc,etc. Muitas vezes as obras são um reflexo das impressões e interpretações que fazemos do mundo ao nosso redor, conseqüentemente, tudo aquilo que nos afeta ou nos impressiona de alguma maneira pode vir a contribuir com a concepção da obra.
Como você descreve o mercado da arte contemporânea em Alagoas?
Bem, não sei se posso responder direito essa pergunta, pois estou de volta ao estado de maneira mais definitiva, há relativamente pouco tempo. No entanto, a impressão que tenho até o momento não é muito boa. Não conheço nenhuma galeria comercial de arte na cidade que possua de fato um bom grupo de artistas sendo representados. Os poucos locais que ostentam o nome de galeria, geralmente possuem uma combinação arte e “artesanato” de escala industrial de gosto duvidoso e com um problemático foco no turismo. Acredito que o consumo de arte contemporânea no estado é pequeno, obrigando muitos artistas a procurarem oportunidades em outros lugares.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Gosto de pensar que não preciso me enquadrar em nenhuma categoria bem definida. Acho importante para mim enquanto artista poder transitar entre várias formas e maneiras de produzir arte. Especialmente quando posso conciliar diferentes meios, explorando os recursos contemporâneos sem abandonar completamente noções e conquistas do passado.

Você participará de uma exposição na Gentil Carioca, qual o significado para sua carreira?Definitivamente é uma oportunidade importante para mim. Expor em uma respeitada galeria, localizada em um dos maiores pólos culturais do país, é uma ótima chance de ampliar a visibilidade do meu trabalho. Uma boa prova disso seria essa entrevista que agora estou lhe dando, e que provavelmente esta ligada ao fato de eu ser um dos artistas selecionados. Outro ponto muito interessante e construtivo de participar de um evento como esse é a possibilidade de conhecer e ser conhecido por outros artistas, que podem inclusive vir a contribuir com parcerias e como fontes de inspiração.
Você escreve sobre seu trabalho?Geralmente só quando sou obrigado. Minha tendência natural é escrever sobre o trabalho de maneira muito objetiva, quase como um diário técnico de ateliê. Prefiro falar sobre coisas mais concretas como os problemas, intenções e soluções de execução, evitando dessa maneira abordagens mais conceituais, apesar de que na maioria das vezes é exatamente por esse viés que as pessoas esperam que eu siga.
Você tem rotina de trabalho?
Eu procuro ter, mas geralmente não tenho muito sucesso. Às vezes passo por períodos muito produtivos e posso ficar meses me dedicando arduamente a um ou mais trabalhos, porém, também tenho momentos em que paro completamente de produzir para somente me “alimentar” de influências e idéias. Tenho um sério problema com a idéia de obrigação e procuro sempre evitar a associá-la com a minha produção. Prefiro deixar um trabalho incompleto a terminá-lo por dever, apesar de que poucas vezes passo por esse tipo de problema.
É possível viver de arte no Brasil?
Infelizmente são pouquíssimos os felizardos que conseguem isso. Geralmente os artistas precisam procurar outras maneiras de manter sua produção, de modo que muitas vezes ela se torna paralela a outras atividades e não necessariamente prioritária. Apesar de tudo tenho a intenção de um dia viver das minhas obras e somente para minhas obras.
O que pensa sobre os salões de Arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Acho que são fundamentais para divulgação das novas produções e oferecem um bom espaço para o intercâmbio de experiências entre artistas de diferentes locais. Seria interessante se mais salões oferecessem algum tipo de auxílio financeiro aos artistas, pois na maioria não só não se ganha nada como se gasta para poder participar. Outra coisa que acredito que seria interessante e que felizmente tenho visto cada vez com mais freqüência, são as inscrições pela internet que facilitam muito o processo para o candidato a expositor.
Quais são seus planos para o futuro?
Não sou muito adepto de planejamentos, até mesmo porque sempre fui um tipo um tanto quanto hedonista. Só espero poder continuar desenvolvendo meus trabalhos e em um futuro não muito distante arrumar um lugar mais apropriado para produzir minhas obras.
O que faz nas horas vagas?
Geralmente reservo as primeiras horas do dia para ler um pouco e fazer lentas e longas caminhas na areia da praia. Gosto também de garimpar um pouco na internet, coisas diversas, imagens, músicas, textos, etc. Sou um pouco boêmio, admito, e sempre que posso marco presença com minha esposa nos botecos da cidade para encontrar os amigos queridos e conversar amenidades.

Ulisses vive e trabalha em Maceió, Alagoas, influenciado pelo grande Gustav Doré desenvolveu um trabalho de muita qualidade, tendo sido selecionado para a exposição da Galeria Gentil Carioca no Rio de Janeiro, onde será possível conferir seus excelentes trabalhos. Obrigado Ulisses.












Turbilhões (2008) Nanquim sobre madeira.170x75 cm.



















Trama desenho a nanquim sobre papel.



Ulisses trabalhando.




Ulisses Lociks foi selecionado e participa da exposição Abre Alas da Gentil Carioca.

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