terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Thiago Martins de Melo




Thiago Martins de Melo

Thiago jovem artista de São Luis do Maranhão. Apesar de viver no estado do Brasil com o menor IDH do Brasil consequente a cinquenta anos de dominação da família Sarney, ele conseguiu fazer sua obra ultrapassar os limites do seu estado. É representado por uma galeria de São Paulo e acaba de ser incluído no Rumos Itaú Cultural. É com alegria que trago seu impressionate trabalho para os leitores. Muito sucesso.

Thiago, fale algo sobre sua vida pessoal.
Eu nasci em São Luís. Sou filho de uma psicóloga e um pintor e tive como padrasto um militar. Cursei educação artística na universidade (UFMA), mas logo abandonei para estudar Psicologia. Fui roteirista da TV Brasil, fiz mestrado em Psicologia: teoria e pesquisa do comportamento na UFPA. Faço doutorado hoje na mesma área de concentração. Sobrevivo dando aulas em uma faculdade particular local.

Como foi sua formação artística?
Apesar de ter estudado 3 anos em uma faculdade de arte muito fraca (UFMA), considero minha formação como autodidata. O óleo sempre esteve em minha vida desde que me lembro, tanto o cheiro quanto as massas de tinta nas paletas descartadas ou no chão do atelier do meu pai. Cresci em um casarão colonial, tendo a sorte de possuir uma biblioteca em casa com muitos livros de arte, e ainda muito jovem, era assombrado por aquelas imagens barrocas. Além disso, desenhava precocemente. Desde muito cedo, era viciado em graphic novels, quadrinhos e cinema, o que leva a uma correlação com meu interesse em narrativas visuais. Pinto desde sempre e passei a expor em coletivas nacionais aos 16 anos. Abandonei a pintura por um período, após a constatação da exclusão da pintura figurativa como critério silencioso pelos júris de seleção na década de 2000. Mas não consegui ficar muito tempo longe e retornei a ela em 2008, após uma crise pessoal.

Que artistas influenciaram seu pensamento?
Muito difícil responder isso sem me frustrar pela incapacidade de citar todos e pela pluralidade de linguagens (arte, cinema, graphic novels, música, literatura, etc.). Vou citar alguns, que tenho visitado muito neste ano: Rubens, Ticiano, Iberê Camargo, Gustave Moreau, Delacroix, Géricault, De Kooning, Frank Auerbach, Hans Holbein, Louise Bourgeois, Arnold Bocklin, Anselm Kiefer, Paul McCarthy, Alan Moore, Beuys, James Ensor, Marina Abramovich, Henry Fuseli, Mike Mignola, Bill Sienkiewics, David Lynch, Michael Haneke, Emir Kusturica, Werner Herzog, Pasolini, Glauber Rocha, Tunga, Slayer, Augusto dos Anjos, Henry Miller, Hilda Hilst, Pedro Juan Gutierrez, Miguel Rio Branco, Homero, Nikos Kazantzakis, Salman Rushdie, Rimbaud, etc. Tem muito mais gente pra citar...


Além do estudo de arte, o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
O meu entorno, as contingências da minha vida, Filosofia, literatura, História, Economia, Alquimia, Voduns, Psicofísica, PES (Percepção extra-sensorial), Antropologia, Psicologia etc. Minhas referências se contradizem entre si. Eu vivo em uma cultura sincrética, daí na arte não me interessar por coerências ou cartesianismo, já tenho sobriedade demais na Psicologia. Posso citar vários caras fora da arte, ou acidentando-se ocasionalmente nela, que me acompanham, alguns a mais tempo outros mais recentes: Darcy Ribeiro, Pierre Clastres ( sociedade contra o estado), William James, Nietzsche, Daniel Dennett, Robert Hughes( Goya), Bataille, Jung, Reich, Steven Pinker, Lévi Strauss, entre muitos outros caras (acaba sendo cansativo citar). Só pinto sobre aquilo que conheço e que quero entender.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Difícil questão. Vou comentar um pouco sobre o processo, mas não tenho como responder essa pergunta. Se o meu trabalho é o que eu sou, como já cheguei a pensar, tenho medo de mim mesmo. As questões do outro também são as minhas e isso não me torna especial. O que faço é não escondê-las do meu campo de visão.
Toda a minha produção diz respeito às coisas pelas quais estou vivendo no momento de produção. A pintura é uma arena na qual posso me aprofundar em questões impostas a mim pelo mundo, me utilizando do canal aberto pelo signo. O mergulho no signo, ao mesmo tempo que pode ser revelador por acessar recônditos de sua memória – estabelecendo relações epistemológicas para a construção de um entendimento do mundo, dando condições de abandonar valores caducos, construídos artificialmente, e vivendo uma experiência liberadora –, pode também te levar para o fundo do poço. Nesse processo, muita gente, artistas, por exemplo, se perdem em algum limiar de consciência, migrando entre fronteiras de desejo e razão e experienciam seus próprios demônios em vida, acarretando em uma existência miserável. Eu tenho consciência (até mesmo por formação) desses riscos pra minha saúde mental, mas não existe outro caminho na arte que não este. Ficar na superfície é covardia e não é opção para o artista. Eu tenho uma concepção psicofisológica de homem que, ao invés de me limitar, permite-me compreender aquilo que chamamos de imaterial ou invisível como experiências colaterais de processos neurológicos selecionados evolutivamente. A espiritualidade, a epifania, alucinações, o êxtase são experiências mentais incríveis, de base fisiológica, que nos permitem um patamar de compreensão de nós mesmos e do cosmos, e que podem ser acessadas de maneira limitada através do signo e através da arte. Acredito que esse processo natural, selecionado evolutivamente, tem nos mantido longe do suicídio precoce. A arte tem nos mantido vivos! Mas o fato de eu não necessitar de um Deus não me impede de me considerar um indivíduo espiritualizado e de conversar com supostas entidades espirituais e tirar bom proveito desses diálogos através do signo. A mecânica quântica, por exemplo, por mais especulativa que nos possa parecer, abre questões muito estranhas para que tenhamos certeza de qualquer coisa em termos de Física.
Eu posso entrecruzar mitos gregos e iorubás sem tabu algum, quando forem pertinentes as similaridades, e fazendo das diferenças ampliações para meu entendimento sobre alguma questão. Da mesma forma, como posso sexualizar virgens sagradas, ressuscitando o erotismo (antes indissociável da experiência espiritual, mas atualmente banida da nossa tradição cristã) como catarse e higiene domésticas de modelos morais irracionais que não me servem mais. Fazer do terreiro o centro do mundo é o que quero. De Homero a Anansi, como detentores destes arquétipos e histórias do mundo replicadas cotidianamente no ambiente doméstico. Eu quero falar, expor questões minhas a mim mesmo e a quem tiver estômago pra experienciar. Não vejo sentido em colocar uma imagem no mundo se não for para abrir uma ferida no tecido artificial da cultura.

Você é representado pela galeria Mendes Wood, SP como isso ocorreu?
Marcio Harum me convidou para uma mostra que ele iria realizar na galeria, a essa altura eu havia acabado de expor no CCSP, durante 3 meses. O silêncio e provável incompreensão sobre a minha mostra haviam me deixado pouco estimulado. Incrivelmente, assim que o Marcio apresentou a proposta com meus trabalhos, os meninos da galeria se entusiasmaram, me ligaram e imediatamente fiz parte do staff.
A Mendes Wood tem um perfil muito diferente do que rola por aqui. Eles realmente acreditam no artista que pensa. São intelectuais de formação filosófica com olho crítico, extremamente cultos e cosmopolitas, o que mantém seus horizontes sem limites e longe da vulgaridade oportunista. Eles se preocupam em auxiliar diretamente na construção sólida da trajetória do artista, sem muros geográficos ou de moral vulgar. Eles foram os únicos que tiveram estômago pra assumir o meu trabalho e acredito que no país não existiria outro lugar para eu estar.

Thiago, você vive e trabalha no Maranhão, quais são as dificuldades enfrentadas para consolidar sua carreira.
Morar tão distante me mantém sóbrio naquilo que me interessa e longe das ilusões da vaidade. Aqui, sou apenas um professor medíocre de faculdade, que não tem tempo de produzir e faz um doutorado com muita dificuldade de tempo. Por aqui, a arte é ignorada como meu ofício por aqueles que me conhecem, o que me protege. A internet tem se mostrado uma ameaça a esse anonimato e hoje acredito que algumas pessoas daqui sabem que sou artista, mas devem ignorar do que de fato se trata.
O Maranhão se tornou terra arrasada pelo paternalismo político torpe e corrupto de uma máfia familiar. É incrível como uma tradição intelectual foi levada a sarjeta pela corrupção política e conseqüente miséria. Pra você ter uma idéia, recentemente tenho me interessado por estudos clássicos, por influência do meu irmão Ricardo, e as primeiras traduções para a língua portuguesa da “Ilíada”, “Odisséia” e o “De bello gallico”, por exemplo, são de maranhenses (Odorico Mendes e Sotero dos Reis). Isto sem falar nas obras da intelectualidade do passado, que povoam até hoje nosso imaginário sobre o Brasil. Mesmo no hino nacional se encontram apropriações diretas da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Em substituição a exportação de literatos, como no passado, hoje exportamos mão de obra escrava. De pensadores a escravos sob o jugo do grande bigode.

Qual o significado da indicação para o Prêmio Pipa e para Rumos Itaú Cultural?
Não sei bem o que pensar sobre esses projetos. São diferentes em superfície, mas não sei se em substância. Em relação ao PIPA, fiquei surpreso, pois ainda sou um artista pouco conhecido. As estratégias desse prêmio são plurais. Mas fama não significa qualidade, bem longe disso. Como dizia Bukowski, se você é medíocre tem grande chance de fazer sucesso. Mesmo na arte brasileira acho que essa lógica se mantém, a julgar pela intelligentzia que forma opiniões por aqui. De qualquer forma, o fato de manterem uma página dos artistas como memória, ajudou a divulgar um pouco meu trabalho. Com relação ao Itaú cultural, não sei bem o que esperar, sou neófito. Terei uma melhor resposta após o projeto.

Qual sua opinião sobre os salões de arte? Algumas sugestões para aperfeiçoá-los?
Apesar de concordar que o modelo é bem limitador, em minha experiência pessoal, era talvez a única via de inserção e visibilidade para o iniciante. Foi a via que eu explorei e que, apesar de ser demasiadamente recusado em minhas tentativas, consegui alguma atenção, o que permitiu a mim alguma visibilidade e feedback. Também por experiência própria, cheguei a pensar que artistas que não se encaixam em modelos do tipo “ fáceis de escrever sobre” eram sumariamente excluídos, o que estimula a falta de originalidade e premia o pensamento colonizado. De qualquer forma, acho que seriam mais interessantes os modelos que ajudassem a viabilizar a produção, a análise e discussão sobre a obra do emergente, além de um olhar mais tolerante para os artistas não agenciados e aqueles artistas cujos trabalhos não se moldam à estereotipada caixa angloeurocêntrica de pensamento, e cuja maioria produz fora do eixo. É de fora do eixo que as coisas mais interessantes irão surgir daqui pra frente.

Você escreve sobre seu trabalho?
Sim, mas não me sinto seguro a ponto de tornar o conteúdo público. Além do receio de limitar a análise da minha obra. Entrar na cabeça de alguém segurando a mão do mesmo leva a incompreensão.

É possível viver de arte no Brasil?
Não sou o mais adequado para responder essa pergunta. O mundo da arte, muitas vezes parece prescindir da mesma, o que me causa insegurança. Não sou uma pessoa de atalhos e não acredito em carreirismo, isto torna o meu olhar bem seco pra essa questão. Porém, ainda é um sonho que espero ser possível em um futuro próximo.

O Brasil já tem condições de concorrer no mercado internacional de arte?
Novamente não sou o mais apropriado para responder essa questão. Não é o tipo de coisa que me inquieta. O mercado cria seus engodos, e transforma qualquer coisa banal em produto valorizado. Por exemplo, a opinião do mercado sobre minha obra, seja ela qual for, é algo que não levo em conta. Quando as finanças entram a arte sai de cena.
O sucesso do mercado parece ter um efeito colateral indesejado para os jovens. A situação é tão louca, que se você não estiver em uma galeria, você é sumariamente silenciado, mesmo em editais para emergentes. Acho lamentável quando vejo jovens artistas ainda em desenvolvimento, que vivem geograficamente no eixo dominante da arte, se preocuparem mais com o mercado e pautarem suas agendas em torno disso, tendo como único e exclusivo objetivo uma “carreira”, dando pouca importância ao que deveria ser mais importante: a obra. Não há como não enxergar uma correlação com o bom momento do mercado. Pra esses “posers”, mais importante é a coluna social, a mídia e a máscara hype. Sem querer moralizar a questão, mas é inevitável para mim comparar essas motivações citadas com as minhas e de artistas que admiro e ter um julgamento pessoal sobre elas.

Quais são seus planos para o futuro?
Quero continuar trilhando o meu caminho, quebrando minhas couraças através da obra, e adquirindo o mundo a partir desse processo. Em termos materiais, pretendo no futuro atingir o patamar de felicidade de poder produzir sem preocupações financeiras e poder me dedicar exclusivamente a minha obra.

O que faz nas horas vagas
Tenho tido pouquíssimas horas vagas ultimamente e durmo muito pouco. Fins de semana e dias vagos são dias para estudo, experiências, produção e análise. Mas, quando estou fora da minha rotina ou viajando, por exemplo, costumo ler, ver filmes, visitar e receber amigos. O tempo é muito precioso pra mim, não consigo manter-me ocioso sem me sentir mal por isso.



Dona Erondina sobre Viviane Impede o Triunfo da Morte Repetindo a Vitória de Durga sobre o Demônio Mahisha (2010)


A Iris Fodida (2010) Óleo sobre tela 260x180 cm.


A Sodomia da Brancura na Capelinha do Coronel Oleoso Butela (2011) `´Oleo sobre tela 200x140 cm.


Artemisia Gentileschi Violentada ou Ogum Toma o Poder das Mulheres (2010) 200x180 cm.


Rébis (2010) Óleo sobre tela 260x180 cm.


Seção Adâmica (2010) Óleo sobre tela 180x120 cm.


O Teatro Nagô Cartesiano sob o Auxílio de um Baphomet Sincretizado Oleoso Bratela (2010) 200x180 cm.

Triunfo da Morte sobre Curral Cleptocrata (Após Geoffroy Tory) Óleo sobre tela 260x180 cm. Astrup Fearnley Museum.

http://thiagomartinsdemelo.carbonmade.com

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