terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Thales Leite



Thales Leite.

Thales, jovem carioca utilizando a fotografia como meio. Sua inserção no mercado foi recente e rápida. A qualidade e seriedade de seu trabalho o tornam um respeitado artista. Atualmente faz exposição no Centro Cultural São Paulo. Obrigado Thales.

Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci no Rio de Janeiro em 1979 e fui criado na Ilha do Governador. Tenho um irmão e uma irmã mais novos. Meu pai trabalha na Petrobras e minha mãe batalha em uma escola municipal.
Sempre gostei de andar de bicicleta e desde pequeno gostava de perambular pelas ruas, explorando os bairros vizinhos. Devo ter andando por quase todas as ruas de lá. Inclusive pelo aeroporto. Meus amigos não jogavam bola, não soltavam pipa. a gente ou ficava no computador do pai de um deles(coisa rara na época) ou andava de bicicleta e aprontava pela vizinhança. Era muito divertido. Nunca soube jogar bola. Ou soltar pipa.


Como foi sua formação artística
Sou formado em cinema pela UFF mas antes passei por jornalismo e até engenharia. Mas posso dizer que minha formação artística começou cedo. Tenho um tio que trabalhou no CCBB RJ desde a inauguração. Ele me levava pra quase todas as exposições, peças de teatro, mostras de cinema, animamundi... até hoje tenho um carinho especial pelo CCBB.
Em fotografia em si, parece meio história de miss mas, como eu disse antes, sempre fui meio nerd. nas férias, com 16 anos trabalhava de “ajudante” na empresa de informática de um amigo. Íamos constantemente consertar alguma coisa no escritório ao lado “ imagens da terra”, o cara lá era tão gente boa que a gente parou até de cobrar. Até que um dia ele falou “ disso ai eu não entendo nada. Se algum dia vocês quiserem aprender a fotografar, me falem “. No dia seguinte estava lá aprendendo os fundamentos da fotografia. Depois é que eu fui saber que esse cara era ninguém menos que J. R. Ripper. Na época eu só achava ele gente boa e engraçado. Infelizmente As aulas voltaram e tive que parar de visita-lo. Mas não parei de clicar.
Durante a faculdade de cinema, fiz alguns cursos no ateliê da imagem e acabei conhecendo o Marcos bonisson, de quem fui assistente durante um tempo e posso dizer que foi mais ou menos nessa época que resolvi levar a fotografia mais a sério, inclusive profissionalmente, trabalhando em estúdios e como assistente de outros fotógrafos como Alexandre Sant’Anna, Bruno Veiga, Sergio Pagano... trabalhei também um tempo na Galeria da Gávea que foi uma super escola pra entender um pouco mais de mercado.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Até hoje lembro da primeira vez que vi Silent Book , de Miguel Rio Branco. Nunca tinha visto nada parecido. Acho que tinha acabado de ser lançado. Sei que na época eu ainda não trabalhava e o livro custava quase todo o dinheiro que tinha e mesmo assim não consegui sair da livraria sem ele.
Esse trabalho do Miguel me despertou para as potencialidades da fotografia e, a partir dai, passei a fotografar diferente. Isso deve ter sido em 1999 e, em 2009, o meu TCC foi “ o cinema em Silent Book”. Onde eu analisei o livro, as suas imagens e as opções de montagens (sequencias de imagens, respiros, capa, ausência de texto...) sob o viés da linguagem cinematográfica. É um super livro. Uma pena estar esgotado.
Hoje em dia posso citar artistas que me emocionam e, consequentemente, me influenciam como Nadav Kander, Andreas Gursky, Thomas Struth, Alec Soth, para citar alguns que trabalham com fotografia. Ou Win Wenders, David Lynch, Terrence Mallick, Todd Solondz no cinema. Poderia citar alguns artistas plásticos também mas, como sou apenas um “apreciador avançado” dessa área, prefiro citar sobre o que eu realmente estudo. Da mesma forma que não vou citar literatura mas, Assim como o Silent Book, que tá sempre perto aqui na estante, vire e mexe pego O Retrato, de Gogol pra ler de vez em quando.

Como você descreve sua obra?
Até agora, a maioria dos meus projetos fotográficos me encontraram. Então descreveria a minha obra como um olhar atento ao meu arredor e às minhas lembranças.

Além dos estudos sobre arte/fotografia, que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Cinema, literatura, viagens... assuntos diversos como astronomia, economia, história mundial ou coisas simples como perambular pela cidade, feiras de antiguidades, supermercados, ruas movimentadas. Como fotógrafo, geralmente trabalho duas ou três vezes na semana. Posso me dar o luxo de flanar de vez em quando para “colher matéria bruta”. O trabalho maior sempre acaba sendo o desbaste, a seleção, o processo...

Quando você é apenas fotógrafo e quando você é artista?
Não sei se o olhar do artista é algo que dê pra ligar e desligar. Mesmo em trabalhos bastante técnicos, como a reprodução fotográfica de uma pintura, por exemplo, não consigo ver esse distanciamento. Tá certo que não dá pra inventar muito no sentido imagético mas sinto a mesma inquietação de quando estou fazendo os meus trabalhos, por exemplo, quando busco o tom mais próximo possível de um vermelho presente na tela que estou fotografando. Por mais que você não possa criar muito, a obsessão está ali presente.
Em saídas fotográficas comerciais, costumo atender primeiro a solicitação do cliente para depois fugir um pouco da pauta. Não muito raro, ele acaba usando as fotos que eu faço depois.

É possível viver de arte no Brasil?
Bem Marcio, eu vivo de arte e para a arte, trabalho com artistas, para artistas, prestando consultoria, fotografando, tratando imagens, ajudando a editar trabalhos, editando vídeo... apesar de ser representado por uma ótima galeria (h.a.p.) não conto só com a venda dos meus trabalhos para pagar as minhas contas. Acho que dessa forma fico mais livre para pensar nos meus projetos.Mas, de maneira geral, vejo o interesse das pessoas em adquirir, colecionar ou investir em obras de arte cada vez maior.

Você tem uma rotina de trabalho?
Não tenho uma rotina mas estou sempre no escritório, revendo arquivos, editando algum material... isto é, saio de casa todos os dias.
Raramente com a câmera. Costumo registrar os assuntos que me chamam a atenção com o celular, como se fosse o meu bloco de anotação, até mesmo quando estou com a câmera na bolsa.
Prefiro fazer as coisas com calma. Tá certo que às vezes o assunto “me encontra” e eu me viro com o equipamento que está comigo... mas, enfim, nem sempre funciona. Como toda ferramenta, existe uma mais indicada para cada situação.

As máquinas digitais tornaram muitos fotógrafos e artistas, isso é bom ou ruim?
Vejo muitos fotógrafos mais antigos reclamando da concorrência que a revolução digital gerou. Bem, eu não posso reclamar pois eu faço parte da concorrência! rs
Aprendi a fotografar com câmeras analógicas mas confesso que foi só depois do digital que passei a levar a fotografia mais a sério. Um dos motivos é a possibilidade de ter controle de todo o processo, isto é, com a ajuda de um computador e alguns periféricos.
Tá certo que eu acabei trocando mágica por fato. Antes fazia as fotos, entregava o filme no laboratório e ficava tentando visualizar todas as fotos que eu fiz. Nem me dava o trabalho de anotar a setagem da câmera, me deixava ser surpreendido.
Com o digital é tudo muito preciso. Você precisa apertar uns 3 botões na câmera para conseguir fazer uma foto errada! Rs.
Outro dia estava mexendo nos meus arquivos e esbarrei em um dos envelopes que eu ia buscar nos minilabs com a seguinte frase escrita: “revelar todas as fotos”. as maquinas que processam filmes nos minilabs tem uma espécie de configuração automática que ignora todos os fotogramas que estão fora de foco, tremido, velado... e eu sempre tinha que pedir pro atendente desligar isso.
Quanto a fotografia de arte, posso fazer uma analogia: A internet ajudou as pessoas a encontrarem onde colocar seus textos com português correto para as outras pessoas lerem.
Isto é, na internet tá cheio de textos, mas não é sempre que você lê um texto que mexa com você. Acho que com a fotografia acontece a mesma coisa. Pra quem está afim de se dedicar, elaborar questões, realizar projetos, suar a camisa... sempre vai ter espaço.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Bienais deveriam ser espaço de colocação de novos movimentos, tendências etc. Quanto às feiras, um segmento natural do mercado como em qualquer área da sociedade.

Quais são seus planos para o futuro?
Estudar mais, trabalhar mais.
O que você faz nas horas vagas?
Coisas simples como andar de bicicleta, ir a praia, planejar viagens pelo google maps, colocar a leitura em dia... aliás, tenho lido bastante agora que estou “entre projetos” e eu não estou falando de livros sobre fotografia ou artes... falo de romances, ensaios, biografias, ciências...
Conversando com o Pieter Hugo no Paraty em foco deste ano, ele me falou uma coisa que um professor lhe disse que acabou me marcando também: " - se suas fotografias não estão boas o suficiente, não é porque você não estava perto o suficiente, é porque você não está lendo o suficiente.





Um Dia de São Jorge. (2007).



Um Dia de São Jorge (2007)


Véus (2011)



Véus (2011)


Presentes em Contornos Difusos (2008).



Véus (2010)



Outono (2005)











THALES LEITE – “VÉUS”
III Mostra do Programa de Exposições 2011
De 05 de novembro a 29 de janeiro
Local: Centro Cultural São Paulo - CCSP
Endereço: Rua Vergueiro 1000 - Paraíso - São Paulo
Tel.:(11) 3397-4002
Horários: De terça a sexta-feira, das 10h às 20h; sábados, domingos e feriados das 10h às 18h
Entrada Franca

www.thalesleite.com

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