segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Silvia Roesler.

Silvia Roesler traz com seu trabalho de publicação de livros uma incalculável contribuição na documentação e divulgação da arte brasileira. Primorosas edições com colaboradores escolhidos de qualidade. Seu trabalho merece conhecido e reconhecido. O blog Art & Arte sente-se honrado em ajudar a divulgar esse trabalho impecável.

Silvia como começou seu interesse pela arte?
Primeiro quero agradecer ao Marcio e ao seu blog que tanto faz para divulgar a arte e seu entorno por esta oportunidade de falar sobre meu trabalho.
O interese por arte veio quase por osmose, nasci e fui criada numa família que sempre esteve dentro do meio das artes através de minha mãe Inge Roesler, artista plástica já falecida. Meu pai leitor obsessivo me conduziu nesse hábito e ao amor pelos livros. Convivi com artistas, leituras, visitas, galerias e museus desde cedo, em casa e viajando. O primeiro grande impacto foi aos 17 anos numa visita ao Museu do Prado vendo Goya e não houve mais volta, ali, emocionada aconteceu uma transformação profunda e a paixão para sempre.
Você teve alguma formação artística?
Estudei na Escola Superior de Desenho Industrial, ESDI, fiz cursos de extensão na Parson School e New School for Social Research em New York. Sempre fiz cursos de artes com excelentes professores no Brasil, cito os do MAM/RJ entre outros.
Em 1997, fiz um estágio integral no MOMA/NY e pude ver como funciona um museu daquele porte percorrendo todos os departamentos da instituição. Estavam preparando a maior retrospectiva de Pollock que aconteceu dois anos depois. Pude acompanhar como armam e planejam seus projetos: dois seminários com críticos do mundo todo para chegar ao consenso até a captação de recursos que tem um departamento com 60 pessoas especializadas. Foi uma experiência direta com o alto profissionalismo na arte (e com as humanas e habituais guerras de ego, lá também) que resultam nas exposições que amamos ver naquele Museu. Esse contato interno com o funcionamento do MOMA foi essencial para refletir sobre onde falhamos mais na formação e divulgação da arte no Brasil.
Quais foram os livros editados por sua empresa?
Comecei com um extenso livro sobre Guignard, convidei para o texto Lélia Coelho Frota, em 1996/97. exatamente pensando que deveriamos ter uma bibliografia mais abrangente sobre nossos artistas para compreender melhor suas obras paralelamente ao desenvolvimeto da história da arte no Brasil, sem documentação sistemática, esparsa em catálogos, artigos etc...
Senti necessidadede dar início a essa série quando coordenava a coleção Roberto Marinho de 1989 a 1997. Não tinha referências para comparar e estudar a obra dos artistas da coleção. Decidi que tentaria produzir essa bibliografia onde ela estava mais frágil e ausente. Essa é a linha de minha editora até hoje, com algumas exceções e sempre com paixão.
Segui editando com a Campos Gerais de Washington Dias Lessas Anos 60/Transformações na arte período que quarenta anos depois não tinha qualquer referência de estudo e convidei Paulo Sergio Duarte para o texto, Volpi com Sonia Salztein, Iberê Camargo com Paulo Venâncio Filho, Goeldi com Ronaldo Brito, Milton da Costa com Vera Beatriz Siqueira, Ivan Serpa com Fabiana Verneck, Helio Oiticia com Luciano Figueredo , Carlos Vergara, fotografias no Carnaval anos 70 entre outros.
O que significa editar um livro de arte no Brasil?
Hoje 14 anos depois, o mercado editorial de livros de arte está bem mais ativo e vivo. A Cosac Naify entra com tudo e brilhando em 1997, Casa da Palavra, Aeroplano, Aprazível, Pinakotheke, as novas Dantes, Réptil, Cobogó e outras estão fazendo um excelente trabalho. Temos sem dúvida mais patrocinadores interessados e conscientes da nossa parca bibliografia de arte e incentivos fiscais importantes como a Lei Rouanet . Infelizmente são poucos, ainda, para a forte e crescente demanda de informações no Brasil e no exterior. É preciso ser persistente e acreditar muito no que fazemos para ir em frente e abrir novos caminhos.
O trabalho começa com a escolha da equipe e autores afinados com o artista. Em seguida, a pesquisa, que no meu caso deve ser extensa para permitir um corte e uma seleção significativamente demonstrativa da obra. Em cada edição, pretendo com um segundo texto de autor(a), além do texto crítico original, que desdobra a obra , cobrir os acontecimentos de forma a permitir uma visada mais ampla do período em que a obra se desenvolve, preenchendo assim um pouco da lacuna histórica da bibliografia de arte.
Isso exige tempo e recursos, além de uma equipe de profissionais de alto nível para ganharmos em qualidade e tempo em todas as etapas do processo de edição: pesquisa, fotografia, design, autores dos textos críticos originais, bibliografia, revisão, versão para o inglês e gráfica. É uma alquimia intensa para tornar o livro uma referência da obra e de todos os aspectos que a envolvem. Temos poucas coleções públicas que possam cobrir essa lacuna, procuro então elaborar bem a extensão de cada livro e aprofundidade das informações, dentro das possibilidades de cada projeto.
O preço do livro de arte é justo em nosso meio?
Penso qu não, se tivessemos maior distribuição, poderiamos como a grande Taschen, fazer tiragens enormes e o preço seria bem menor. Mas temos na distribuição e no número cada vez menor de livrarias (a comparação com o numero de livrarias por pessoa no Brasil e Argentina é vergonhosa) um gargalo apertadíssimo. Custos altos, tiragem, distribuição, livrarias e educação, a base de toda a indiferença e descaso pela preservação da memória das artes e em geral no país.
A entrada de novas tecnologias como o e-book na frente, vão exigir uma nova postura na edição de livros de arte. Penso, que tudo mudará lentamente sim, mas inexoravelmente. Não sei se será melhor ou pior, mas diferente, acessível e com múltiplos recursos, esse, o lado desejado.
Qual a sua opinião sobre o pagamento de direitos autorais à família dos artistas peal utilização das imagens em livros de arte?
Estão elaborando uma lei para rregulamentar isso, espero que para o bem de todos: artistas, herdeiros e público. No exterior, são poucos, raríssimos os casos de arbítrio excessivo no pagamento de direitos. Há uma cultura que honra a preservação e divulgação para as futuras gerações daquele patrimônio do país.
Por que são tão raros no Brasil o catalogue raisonné?
Tempo e custos sempre. Para fazer um sério catalogue raisonée são necessários estudos, pesquisas e equipe constante. Veja os excelentes trabalhos já realizados nos Projetos Portinari e Tarsila do Amaral. E os, ainda, em processo: Helio Oiticica, Volpi, Eliseu Visconti. Quantos anos e patrocínios são necessários? É preciso bater na tecla da formação de nosso imaginário da identificação do país, da importância estratégica, econômica da cultura na construção da cidadania. Insistentemente, para que a pedra "fure" e isso comece a ser uma prática, constante, e não mais exceção no Brasil.
A política da Editora Taschen em publicar grandes edições a custo baixo seria exequível no Brasil?
Com certeza, mas teriamos que investir no tripé: livrarias/bibliotecas públicas, distribuição, articulados como política pública, implantada pelo governo. Inclusão pela educação de qualidade, penso.
Por que a maioria das exposições no Brasil não tem catálogo?
Falta de verba nos orçamentos que privilegiam a exposição em si, já bastante cara. Lamento porque o registro é o que permanece ao longo do tempo e permite a difusão da obra.
Quais são seus artistas preferidos?
São inumeros Marcio, prefiro não nomear para não fazer um listão.
Qual sua avaliação sobre o preço das obras de arte no Brasil?
Acho que ainda são baratas as obras de arte aqui se compararmos com aquelas de artistas de várias gerações nos países desenvolvidos. O mercado está relacionado com a potência econômica do país, quanto mais crescermos maior será a cotação das obras, se na direção certa ou não? Isso só o tempo comprovará.
Como você avalia a atuação dos críticos e curadores?
Ambos são essenciais para desenvolver a arte. O artista é o criador e os outros são os que pensam as obras no tempo e no espaço, estabelecem ligações com outros campos do saber, novos nexos etc...é riquíssimo esse trabalho. Novamente penso que só o recuo histórico poderá colocar no seu devido lugar, sem o jogo de poder contemporâneo que frequentemente desvia e anula potências artísticas em função de correntes dominantes. Conhecendo a história geral da cultura veremos que sempre foi assim. Não há espaço para absolutismo na arte.
A professora de arte Ana Cristina Nadruz sugeriu como uma das alternativas para divulgar e popularizar a arte seria a publicação de livros de boa qualidade destinados às crianças. É possível?
Ela está certíssima , é como devemos começar, pela educação nos 1os e 20s graus, treinando professores, produzindo para os estudantes fazendo campanha para incluir no currículo das escolas.
Quais são seus sonhos na áres de editoração de livros?
Muitos! Fico quieta, em silêncio, enquanto não começo a fazer. Todos os projetos estão nessa linha editorial que adotei e proporciona enorme gratificação ao vê-los prontos no mundo, úteis.

Silvia muito obrigado pela aula sobre edição de livros de arte e parabéns pelo seu magnífico trabalho em preservar a memória artística em nosso país.

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