terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Sergio Allevato


Sergio Allevato

Sergio, muito obrigado por sua participação. Após o Mestrado na conceituada Goldsmiths College de Londres deixou a ilustração botânica trocando-a pela arte contemporânea. É representado pela Artur Fidalgo Galeria. A entrevista é enriquecida pelo texto de Fernando Gerheim.


Conte um pouco da sua história.
Nasci em setembro de 1971, no Rio de janeiro. Sou formado pela PUC RJ em Comunicação Visual e com mestrado na Goldsmiths College de Londres em arte contemporânea.

Como se deu seu interesse pela arte?
Meus cadernos de escola eram todos desenhados. A dificuldade em prestar atenção nas aulas era a mesma de largar o lápis ou o pincel. Meus pais perceberam e me incentivaram desde cedo.

Qual foi sua formação artística?
Minha formação artistica foi clássica talvez por ter ficado muito impressionado com a sala no Louvre de Peter Paul Rubens. Eu devia ter uns 10 anos e aqueles quadros enormes e monumentais tão cheios de vida me levaram a um desejo em me esmerar em conseguir pintar animais e pessoas com veracidade.
De passáros e animais a óleo sobre tela passei a ilustração botânica em aquarela quando em 1998 ganhei a bolsa Margaret Mee de ilustração botanica em Kew Gardens Londres.
Por volta de 2003, comecei a sentir que precisava de novos desafios e larguei uma bem sucedida carreira na arte botânica e naturalista para procurar uma linguagem própria aonde eu pudesse me expressar e liberar minha criatividade.
Após cursar A Escola de Arte Visuais do Parque Lage, submeti meu portfólio para mestrado na Goldsmiths College, Londres, aonde fiz o MFA (Master in Fine Arts) de 2006 a 2008.

Você frequentou uma instituição de ensino no exterior, poderia contar como foi a experiencia?
A experiencia de ficar 2 anos imerso e focado em aprimorar uma linguagem própria dentro de um atelier cercado por outros artistas na mesma situação, recebendo criticos e artistas para falar sobre o meu trabalho e em uma cidade com efervescente circuito de arte contemporânea foi como uma alavanca catapultadora do meu trabalho e da minha mente.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Arcimboldo e Margaret Mee tem influencia direta na minha obra. Alfredo Volpi, Beatriz Milhazes, Jeff Koons, Franz Ackermann, Adriana Varejão são alguns dos artistas que admiro e que de uma maneira ou de outra me influenciam.

Além do estudo da arte, o que serve de inspiração para o seu trabalho?
Muito da inspiração no meu trabalho vem da investigação sobre a dualidade que tenho dentro de mim entre a realidade e a fantasia. Acredito que a maneira como eu olho o mundo é um tanto quanto inocente e isso me intriga. A necessidade de tentar compreender a realidade me faz mergulhar e explorar o mundo da fantasia.

Qual foi a importância dos salões de arte na divulgação da sua obra?
Quando estava cursando o mestrado na Goldsmiths submeti 2 trabalhos ao 14 salão da Bahia no MAM Bahia e estes foram selecionados e ganhei o premio aquisição. Naquele momento em 2007 isto ter acontecido foi de grande importância para mim, poisnão só divulgava a minha obra no meu país, mas também me encorajava ainda mais com o reconhecimento profissional.

Voce é representado pela Galeria Artur Fidalgo. O que isso significa?
Uma boa galeria para um artista é algo fundamental. A dinâmica vai muito além das vendas se estendendo em participar de feiras de arte como a de Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo e no apoio que o galerista dá ao artista como conversas por exemplo sobre o preço das obras e salões de arte. Melhor ainda quando como no meu caso há confiança e entrosamento.

É possível viver de arte no Brasil?
Sim, mas matando um leão por dia. rs

Voce tem uma rotina de trabalho?
Me esforço para trabalhar 6 dias por semana com um mínimo de 8 horas por dia.

Quais são seus projetos e sonhos para o futuro?
No momento estou muito focado no meu processo criativo e com uma nova ideia/projeto que estou concebendo.

O que voce faz nas suas horas vagas?
Adoro ler, viajar, estar com amigos e fazer algo diferente como cozinhar ou simplesmente andar no calçadão da praia.


Flora Francesa 2011, óleo sobre linho 100x80 cm.


Flora da Califórnia 2011, óleo sobre linho, 100x80 cm.


Série Rio de Janeiro. Órgãos Reprodutivos Alcantarea imperiales, 2009, aquarela sobre papel 58x76cm.


Sem título. 2006, aquarela sobre papel, 64x75 cm.


Série Atlas Botânico. Cuscuta californica Flora Americana, 2009, aquarela sobre papel 55x75 cm.


Série Atlas Botânico: Aquilea Nuragica Flora Italiana.



Série Rio de Janeiro: Alcantaera imperialis, 2009.aquarela sobre papel 55x75 cm.




Sergio Allevato
Fernando Gerheim

À primeira vista, as aquarelas de Sergio Allevato parecem retratar a flora, como a tradicional arte botânica de Margaret Mee. Examinando melhor, porém, o observador descobre, mimetizado em partes da anatomia das plantas, personagens da Disney, da Hanna Barbera e outros que povoam o imaginário infantil. As características orelhas do Mickey confundem-se com sementes de Magnólia; o tronco da Dasylirion toma a forma do rosto de perfil do Ligeirinho; o fruto de uma planta endêmica do Japão é a cabeça da Hello Kitty.

Na série "Atlas Botânico", os personagens característicos de um lugar – Mortadelo, Espanha; Mickey, Estados Unidos; Ligeirinho, México etc – aparecem em uma planta endêmica daquele lugar. O jogo proposto pelo artista é assim estendido a uma ampla pesquisa da botânica e da nacionalidade ou afinidade territorial dos personagens de desenhos animados e HQs. Na série "Rio de Janeiro", os pistilos de uma bromélia nativa da região, a Alcantarea imperialis, tornam-se o Zé Carioca, sua namorada Rosinha e os sobrinhos.

Há uma parte da planta de que o personagem de gibi freqüentemente se apossa: o órgão reprodutor. Em um dos trabalhos, o Pinóquio "excitado", é o androceo da Amaryllis. Tanto o desenho que descreve cientificamente a espécie botânica quanto o personagem infantil –, que remetem, respectivamente, ao controle da natureza e à pureza da infância –, são deslocados. Qual o sentido de um personagem infantil da Disney, assexuado, aparecer no órgão sexual de uma planta? Por quê elementos culturais e naturais disputam território? A mistura inesperada de campos díspares deixa o observador desconfiado, como quem está diante de um trabalho malicioso, em que as coisas – a infância, a natureza, a cultura –, não são o que parecem. A imagem tem um sorriso irônico no canto dos lábios.

Esta é a primeira exposição individual de Sergio Allevato em galeria comercial. O artista tem obras nas coleções permanentes do Museu de Arte Moderna RJ – coleção Gilberto Chateubriand, Museu de Arte Moderna da Bahia, colecionadores Hecilda e Sergio Fadel e American Museum of Natural History of New York, entre outras. Obteve o Prêmio Aquisição no 14 Salão de Arte, Museu de Arte Moderna da Bahia (2007). Allevato fez mestrado em Arte Contemporânea na Goldsmiths College, Londres, UK, de 2006 a 2008.


Sergio Allevato
Fernando Gerheim

At first glance Sergio Allevato's watercolor paintings look as if they are illustrating flora, like Margaret Mee's traditional botanical art. However, examining them closer, the observer discovers mimicry in parts of the anatomy of the plants, characters of Disney, Hanna Barbera and others that inhabit the imagination of children. The characteristic ears of Mickey become a part of the Magnolia seeds; the trunk of the Dasylirion take the form of the profile of Speedy Gonzales's face; the fruit of a plant endemic to Japan is Hello Kitty's head.

In the series "Botanic Atlas" the most famous cartoons of each country – Mortadelo, Spain; Mickey, United States; Speedy Gonzales, Mexico; etc. – appear in a plant endemic to that place. The game proposed by the artist thus involves wide research of botany and the nationality and affinity territory of the characters in animated drawings and HQs. In the series "Rio de Janeiro" the pistils of a bromeliad native to that region, the Alcantarea imperialis, become Zé Carioca, his girlfriend Rosinha and his nephews which were created by Disney to represent the cariocas, people who were born in Rio de Janeiro.

There is a part of the plant which the cartoon character often possesses: the reproduction organ. The sexually aroused Pinoquio is the androceu of an Amaryllis. Not only the drawing that scientifically describes the botanical species, but the cartoon as well – which remit respectively, the control of nature and the purity of childhood – are displaced. What is the meaning of an asexual Disney character appearing in the sexual organ of a plant? Why do cultural and natural elements dispute a territory? The unexpected mixture of disparate fields leaves the observer distrustful as if he is in front of something malicious in which things such as infancy, nature and culture are not as they seem. The image has an ironic smile in the corner of the lips.

Sergio Allevato work is included in the permanent collections of MOMA Rio de Janeiro, MOMA Bahia, American Museum of Natural History New York, Smithsonian Museum Washington and others. He received the Acquisition Prize in the 14th Art Exhibition of the Museum of Modern Art of Bahia in 2007. Allevato lives and works in Rio de Janeiro, Brazil, and in 2006-2008 studied a Master in Fine Arts at Goldsmiths College, UK.

Texto produzido para exposição individual do artista na Artur Fidalgo Galeria, 2010.

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