domingo, 15 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Saulo Marzochi



Saulo Marzochi Foto: Pedro Victor Brandão.





O denso depoimento do jovem artista Saulo Marzochi forjado na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Obrigado Saulo, muito sucesso.



Nasci em dezembro/82, no Rio de Janeiro. Sou o caçula, com duas irmãs, filho de uma paraense com um paulista, ambos médicos pesquisadores, me deram todo o espaço e recursos, além do que dispunham. Pelo meu interesse em animais, pensei em fazer veterinária, mas nunca tive muito estômago para a área médica, e me tornei designer gráfico, depois de ter passado por várias escolas. Minha mãe é judia e meu pai é católico. Nossa religião sempre foi o “pseudo sincretismo”, onde cada um acredita que acredita em tudo. Não sei porque comecei falando de religião, mas é um assunto que transita pela poética de meus trabalhos.

Curiosamente, minhas experiências sensoriais com os livros nos momentos mais remotos da infância contribuíram para que hoje me dedicasse à imagem. O livro mais marcante, no inicio, era uma edição da bíblia ilustrada com pinturas renascentistas. Antes de aprender a ler, concebia a história a partir da narrativa visual, como a maioria das crianças, mas foi este esforço de leitura que condicionou a construção do olhar. Está presente até na maneira de memorizar as coisas. Costumava associar as cores aos dias da semana. Quando menino, a professora mandava colorir as páginas da agenda com lápis de cor. Outra atitude artística que remonta à infância é a intensa tendência à abstração, a associação de formas e significados nas nuvens, nas superfícies de granito, no desenho da madeira.

Meus primeiros contatos com a arte foram muito remotos. Quando menino, minha irmã Samira, que fazia aula de pintura, segurou minha mão com um lápis e desenhou um cavalo primitivo. Aos seis anos fiz oficina infantil de Carli Portela no Parque Lage e quando passo por lá, memórias brotam daquele bosque. Um dia entrei numa outra sala e vi uma mulher totalmente nua, certamente na aula de modelo-vivo. Mais do que os pelos pubianos, os olhares de repressão dos alunos me afrontaram contra o mal de minha infância, esta que quanto mais distante se revela cada vez mais presente.

O Parque Lage é o centro de congregação de artistas mais importante em minha modesta formação. Também não poderia deixar de citar a PUC-Rio, universidade em que me formei em Desenho Industrial em 2007, onde fui aluno de Thereza Miranda, Amador Perez e Cristina Salgado.

Frequentei o ateliê do escultor Marcelo Lago em Petrópolis, que me forneceu materiais, ferramentas, além de me colocar em contato com outros artistas. Através dele conheci Rosa Paranhos, que me selecionou para uma exposição individual de pintura no SESC Petrópolis.

Já no Parque Lage, à partir de 2006, tive professores que foram cruciais na formação de meu pensamento em arte, entre eles, David Cury, que ajudou a aguçar minha percepção promovendo leitura dos trabalhos produzidos pelos colegas artistas de forma individual e obsessiva, permeando tanto a semiótica quanto os fenômenos da percepção.

João Magalhães me ajudou a combater meus pré-conceitos, na base de questionamentos. Comentava todos os trabalhos do coletivo no mesmo dia, sugerindo diálogo entre os colegas. Demorei para entender que pintávamos para nossos pares e não para aqueles que não nos entendiam. João também é discípulo de Luiz Aquila, que exerceu certa influencia, subtraindo minhas exigências conceituais prematuras, a partir de ideias como: “A pintura às vezes é apenas uma pintura, mas que num dado instante aprende a falar”.

Suzana Queiroga também foi uma importante motivadora. Foi a partir de suas aulas que vislumbrei a condição de um artista minimamente disciplinado, através de práticas de comprometimento, registrando em um caderno todas as ideias, das fixações pungentes aos pensamentos fugidios, para que nada escapasse. Em 2009 selecionou um de meus trabalhos para participação da exposição coletiva “Só você e os outros passam”, em que era curadora. A exposição principal ocorreu no Largo das Artes, em paralelo com a exposição de pequenos formatos, no Parque Lage, com texto crítico de Ivair Reinaldim.

Nos anos seguintes passei a produzir muito lentamente, com dificuldade em conciliar arte e subsistência. Frustrado, por um momento achei que o sistema da arte era como um circo de pulgas, cujas obras seriam meras alegorias de bom relacionamento. É claro que ficamos chateados se pegamos um ônibus para ir ao centro ver exposições que tentam ludibriar a intelligentsia carioca, contudo ninguém é incentivado a produzir. Nada é realizado sem uma dose mínima de ingenuidade, até entre os mais cultos e experientes, mesmo assim é necessária uma inquietação que só se exaure com a execução de trabalhos que nascem sem demanda e muitas vezes sem propósito. Quanto a estes anseios, criei minha própria válvula de escape, uma personagem de história em quadrinhos chamada Maria Contemporâneo. (http://migre.me/8dT2e)

Nos últimos dois anos trabalhei semanalmente como assistente da artista plástica Monica Barki. Tive a oportunidade de acompanhar o projeto de seu livro recentemente lançado junto com a exposição, ocorrida há pouco no Museu de Belas Artes. A assistência a um artista experiente é muito enriquecedora para aprender a postura de seriedade e zelo com que cuidam de suas obras, e a sacralidade envolvida no processo de concepção.

Curiosamente sempre flertei com o modernismo. Em se tratando de pintura, identifico-me com De Kooning, Gerhard Richter, Francis Bacon, Munch, Dubuffet, Odilon Redon, Bruegel, Magritte, Cindy Sherman, Chris Berens, com os brasileiros Daniel Lannes e Eduardo Berliner, entre tantos.

Livros que ressoam diretamente em meu trabalhos são “As máscaras de Deus” de Josseph Campbell e “O livro dos sonhos” de Jung. Também sou fascinado pela obra de Woody Allen, não pela qualidade de cineasta apenas, mas talvez como resposta a meus próprios anseios psicanalíticos.

Procuro evitar chamar minhas criações artísticas de obras. Costumo chamar de trabalhos. Acredito que o caráter de obra de arte necessite não só da produção, como também da exibição e do debate. Também não me considero e nem almejo me tornar essencialmente um pintor. Acho que nós artistas contemporâneos estamos livres da obrigatoriedade de atuar em apenas um suporte, além de um relativo descompromisso com o virtuosismo.

O ponto de partida para o pensamento sobre meu próprio trabalho veio a partir deste poema que intitulei de “Manifesto Ancestral”, 2008, inspirado em meu interesse crescente pelo atavismo.



“Nas cavernas, o frio

Lembrança efêmera de bicho

O corpo humano, corpo-história

desafia o tempo, presente a presente

Veio do magma incandescente,

das pedras líquidas,

o grito de uma extinta besta

Uma consciência reside no planeta desde os tempos míticos,

fruto do rato, do lobo, do macaco,

na imaginação do povo que antecedeu

A verdade de um dado instante

veio do aconteceu

Nesse agora ancestral, todos os tempos convergem

Tudo o que existe, consequência do incansável,

à tona a cada gesto

Nos espaços o ser antigo se oculta:

O bizão, inabalável, faz do contemporâneo uma nova arqueologia.”

Estudando ainda superficialmente sobre a psicologia evolutiva, percebi que os primeiros anos da vida são tão importantes e longos pelo fato de toda criança considerar-se pré-existente, e é esta preexistência que procuro escavar em meus trabalhos. Temos o vício de olhar para os mais novos imbuídos da ideia de tábula rasa. Como se o mundo exterior fosse totalmente responsável por todas as nossas características, em vez aceitar a analogia do cérebro humano com o canivete suíço, cheio de ferramentas que podem ou não ser puxadas para fora, mas que em todo caso estão alí, latentes. Interesso-me sobre estes impulsos ancestrais que se manifestam sobre nosso comportamento, mais especificamente sobre determinadas imagens e objetos produzidos pela humanidade. Mesmo que haja uma enorme diferença de contexto cultural e de objetivos, entre as imagens produzidas pelos pintores e as marcas deixadas pelos antigos primitivos, parece existir uma enevoada e embaraçosa gama de conexões entre ambos, sugerindo a instigante investigação. Fiz uma série de experiências, às vezes com os olhos fechados, procurando métodos para o que chamaria de uma arqueologia do presente. Buscando um traço que levasse em conta a naturalidade da geometria do corpo, a fim de antropometrizar o desenho. Os resultados dos trabalhos surgiam como artefatos, sugerindo uma hieroglifografia urbana, ao encarar a pintura como uma escavação e as formas como vestígios.

Por influencia direta de Franz Manata e Suzana Queiroga passei a adotar a escrita como meio de registro dos impulsos para os possíveis trabalhos. Como se pudesse carregar todo o meu atelier dentro do bolso. Não apenas para trabalhos de arte, quaisquer ideias. É incrível o que ainda perco ao não anotar.

É preciso ficar antenado quanto aos bons salões. Acho que os Editais são uma forma honesta de enriquecer o currículo ganhando mais legitimidade, além de eventualmente conhecer outros artistas e ainda colocar o trabalho, ou a imagem do trabalho, em circulação, considerando os concursos sérios, salvo os que o artista, além de não receber premiações ainda arca com enormes despesas.

Viver de arte, num país em desenvolvimento como o Brasil, onde a ignorância assola até mesmo as classes mais altas, é quase constrangedor, até para quem possui notoriedade. Tudo é complicado até mesmo para armazenar os trabalhos. Às vezes parimos verdadeiros elefantes brancos, sem ter como vendê-los, seja por falta de interesse dos colecionadores, seja por falta de paredes neste nosso mundo.

Recentemente fui convidado para expor no Arte Garagem, indicado novamente por Rosa Paranhos, e na Babilônia Feira Hype, indicado por uma artista colega, Beth Stoliar. Ambos os eventos possuem caráter underground e de certo modo se colocam à margem da arte institucional dos museus e galerias reconhecidos. Não é a primeira vez que participo deste tipo de evento e não é por ser alternativo que se possa afrouxar o conceito da montagem. Para estas exposições pensei em um trabalho em processo que se subdivide. Pintei grandes quadros que depois dividi em quatro pedaços, dando continuidade individualmente a cada parte, investigando e definindo em desenhos formas instigadas por manchas da pintura anterior. Esta quebra no trabalho, seguida de continuidade tem provocado a estranheza que tenho considerado favorável em minhas ultimas pinturas.

Tenho projetos futuros voltados não só para pintura, mas para a vídeo-instalação, para atuar numa zona híbrida entre a arte e o cinema. Escrevi os roteiros e estou formatando projetos para buscar concorrer a editais. Nesse processo tenho desenhado meus próprios storyboards, que é muito bom para treinar o traço, e de certa forma, auxilia na pintura.

Infelizmente não insisti em uma residência artística, pelo menos na época em que era mais descolado, tentei uma vez para a Espanha. O tempo vai passando, a gente vai se comprometendo com empregos, com a própria covardia, com o comodismo e as oportunidades vão diminuindo. Claro que existem artistas que preferem atuar coletivamente, e tiram muito proveito dos intercâmbios, outros são lobos da estepe e precisam de mais individualidade.


Sem título, 2009. Acrílica sobre tela 187x180 cm. Foto: Pedro Victor Brandão.



Sem título, 2009. Acrílica sobre tela. 187x180 cm. Foto: Pedro Victor Brandão.





Sem título, 2009. Acrílica sobre tela. 135x140 cm. Foto: Pedro Victor Brandão.




Sem título, 2009. Acrílica sobre tela.135x140 cm. Foto: Pedro Victor Brandão.




Sem título, 2009. Acrílica sobre tela. 140x175 cm. Foto Pedro Victor Brandão.




Carnaval em Guernica, 2010. Acrílica sobre tela. 250x190 cm. Foto Saulo Marzochi.






Sem título, 2010. Acrílica sobre tela. 160x160 cm. Foto Saulo Marzochi.






Sem título, 2011. Acrílica sobre tela. 160x80 cm Foto: Saulo Marzochi,

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