sábado, 21 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Rebeca Rasel.

Rebeca Rasel


O que você contaria sobre sua vida pessoal?
Sou carioca, nasci em 1980. Cursei na UERJ a graduação em Educação Artística e o mestrado em Artes. E, nessa época de graduação, minha família já havia migrado para Niterói, onde ainda moramos. E coisa curiosa foi ter crescido no bairro do Maracanã. Como também desistir de um vestibular (Comunicação/UFRJ) para estudar inglês fora. Um tipo de coisa própria aos 17: fazer as malas e ir. E fui. Passei 6 meses em Boston, não vi tanta neve e voltei para o Rio com a vontade de estudar tudo o que nos museus sempre me intrigou. E a UERJ foi parte dessa escolha afetiva. Assim como os autores qu’eu deveria saber de cor e não sei (Danto, Greenberg...) por ter afetivamente ao invés escolhido Barthes, Kosuth, Henry Miller. E outros tantos, fora das ementas, conhecidos em conversas e grupos de estudos com o Basbaum, meu orientador.
Comecei a estudar no Parque Lage após o mestrado, em 2008, com o Franz Manata. Depois disso, participei do Programa Aprofundamento, também no Parque Lage, em 2010. E no momento não penso em um doutorado em Artes; está cedo. (“Um bocado de disciplina, deixar escoar as palavras sem abaná-las com uma pluma ou mexê-las com uma colher de prata. Aprender a esperar, esperar pacientemente, qual ave de rapina, embora as moscas mordam, malucas, e os pássaros gorjeiem insensatamente. (...) O homem jamais careceu de palavras. A dificuldade surgiu somente quando o homem forçou as palavras sob o seu comando”. Henry Miller)







Qual foi sua formação artística?
Ao começar meus estudos
(Walt Whitman)

Ao começar meus estudos,

me agradou tanto o passo inicial,

a simples conscientização dos fatos,

as formas, o poder de movimento,

o mais pequeno inseto ou animal,

os sentidos, o dom de ver, o amor

- o passo inicial, torno a dizer,

me assustou tanto,

e me agradou tanto,

que não foi fácil para mim passar

e não foi fácil seguir adiante,

pois eu teria querido ficar ali

flanando o tempo todo,

cantando aquilo

em cânticos extasiados.


Que artistas influenciam em seu pensamento?
Kiefer, Beuys e Kosuth. Sophie Calle. Rauschenberg, Wesley Duke Lee. Waltercio, especialmente os livros. Antonio Dias (a produção dos anos 70). Rufino. Rennó. Abramovic. Richard Long. Smithson.

Como você descreve seu trabalho?
Processos de inscrição e(m) superfícies de escrita.

Você trabalha como fotógrafa e performance. Como há interação entre os dois meios?
Fotografia e performance fazem parte do meu trabalho. Assim como a colagem, a instalação, a literatura. Pois que um trabalho é uma possibilidade de mundo; de dizer um mundo. E uma de minhas principais falas tem sido a da impermanência. Das coisas, lugares, do desejo, do próprio texto.
Gosto de dizer que meu primeiro trabalho foram 2 performances apresentadas no Parque Lage, no final de 2007. Uma delas, a primeira, chamada Repartição, constituiu-se de um diálogo entre dois performers, em trajes de escritório, cada qual sentado frente a uma máquina de escrever. E foi nesta repartição pública que partilhamos um cansaço, uma rotina, a rotina de um trabalho, de uma incessante escrita em máquinas de escrever. E a ficção da Repartição não foi apenas a de uma ‘rotina têxtil’ sob a superfície de uma bobina contínua de uma Remington. Mas a de que uma performance - por partilhar o labor e o distanciamento; a necessidade de um trabalho e a vontade de partir - pode ser tão ambígua quanto uma escrita. E foi nesse momento que entendi o meu trabalho como escrita. Pois que tanto (re)parte como coagula; e que partilha, tal qual inventário, como igualmente se despede. A impermanência, em meu trabalho, é como uma partida novamente: é uma intensidade sempre em jogo. E também uma despedida.


De que maneira você é remunerada pelas performances?
Acho que só uma artista como a Abramovic, no momento de vida/carreira em que está, é que poderia nos responder sobre a possibilidade de um performer ser realmente remunerado hoje em dia, risos.


Qual a importância dos salões de arte?
Penso os salões não apenas como estratégia de circulação e inserção para o artista, mas como um exercício de organização e edição de nosso trabalho. Pois que se a cada momento precisamos encontrar recortes que correspondam às demandas e perfis de cada instituição/curadoria, temos o salão como uma possibilidade de perceber as políticas de cada sistema e mecanismo de arte, e talvez assim entendê-los como possíveis (ou não) ‘aliados’ em nossas próprias políticas.


Que dificuldades você vê para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Das maiores dificuldades, talvez, seja a de encontrarmos nossos pares, parceiros; nossos leitores certos.


É possível viver de arte no Brasil?
Viver é possível. E isso, além de clichê e “em si”, já é bastante coisa.

A mulher tem o mesmo tratamento do que o homem no mercado de arte?
Bom seria que o trabalho sobressaísse ao gênero, à geografia, aos ismos...

Você tem uma rotina de trabalho?
Madrugada e finais de semana. Hm, não, finais de semana não. Nestes eu geralmente durmo, risos.

Que museu no exterior você gostaria de fazer uma exposição?
Alemanha e França são dois territórios que me atraem grandemente.

De que maneira poderia ser aumentada a divulgação da arte em nosso meio?
Ainda acho um tanto impossível chegarmos uma divulgação-estratégia (jornal? arte-educação? redes sociais? performance?) que provoque um interesse aprofundado sobre qualquer evento. E mesmo que algum meio instigue toda uma cidade a visitar a retrospectiva de um artista, por exemplo, é certo que uma motivação além-informação não se dá de uma hora para outra. É como diz Muntadas: Perception Requires Involvement, e isso realmente tem a ver com tempo, intensidade e conflito.


Quais são seus planos para o futuro?
Continuar a produzir e investir naquilo que me é sincero.


Participar de Bienais está nos seus planos?
Está em meus planos conduzir uma pesquisa coerente, para que daqui a alguns anos eu consiga apontar e entender a validade de cada experiência - seja a do Parque Lage, a do salão de interior ou a de um pavilhão de Bienal.


O que você faz nas horas livres?
Gosto de colocar o sono em dia, risos.






Written-blank Desenho com 90 metrosde papel e máquina de escrever (2008).

Meridiano Instalação apresentada na exposição entrevista, EAV do Parque Lage.



Inverno-durante. Acrílica sobre página de livro (2009).
Repartição

Temporal. Fotografia (2008)

Obrigado Rebeca. Parabéns pelas obras e o belo e poético depoimento.

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