sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Rafael Pagatini




Rafael Pagatini

Conheci Rafael Pagatini por intermédio do gaúcho Túlio Pinto. Ao ver seus trabalhos fiquei impressionado com a qualidade,então,convidei-o a participar de Conversando sobre Arte. Ao receber as respostas, percebi a profundidade delas e a seriedade, o cuidado e relevância dado por ele a essa participação. Morando em Porto Alegre, longe do eixo Rio/São Paulo, é, ainda desconhecido do grande público. Logo, logo ele estará no mercado nacional e nas grandes exposições. Enriquece a entrevista um texto da crítica e professora da UFRGS Paula Ramos. Rafael, espero abraçá-lo em breve. Muito obrigado.


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em Caxias do Sul, uma cidade industrial na Serra Gaúcha. Sou o filho mais velho e possuo dois irmãos. Meu pai trabalhou muito tempo com marcenaria, talvez isso tenha sido uma grande influência para o meu trabalho, principalmente para o apego que tenho à matéria. Logo após ter concluído o ensino médio, em 2004 vim para Porto Alegre estudar Artes Visuais na UFRGS.

Como foi sua formação artística?
Eu me formei no curso de Bacharelado em Artes Visuais em 2009. Durante o curso sempre me envolvi com bolsas de pesquisa, principalmente as que se relacionavam com arte e tecnologia. Fiquei um bom tempo estudando linguagens de programação e softwares. Iniciei o trabalho com gravura em 2007, e me encantei com as possibilidades que os procedimentos da gravura oferecem, principalmente com os modos de gravar, o espelhamento da imagem e a multiplicação. Em 2008 realizei um intercâmbio de estudos na Universidade do Porto – Portugal. Fiquei impressionado ao observar como os estudantes de lá se dedicavam a linguagens ditas tradicionais, a partir de novas formas de ver e pensar. Quando voltei para o Brasil, decidi tentar mesclar o meu gosto pelo marcar, sulcar da gravura com outras linguagens, como a fotografia e o vídeo.

Que artistas influenciam seu pensamento?
É complicado responder isso, são tantos artistas, mas com certeza o trabalho de Gerhard Richter é uma grande influência para mim, pois ele consegue trabalhar questões muito complexas, como a relação entre memória coletiva e individual. Da mesma forma me encanto com as fotografias do artista japonês Hiroshi Sugimoto, pois a forma como ele pondera sobre o tempo e a história em seus trabalhos é incrível, os cinzas em suas fotografias trazem uma infinidade de relações entre o preto e o branco. Além deles, admiro o trabalho da carioca Brígida Baltar, por seu lirismo e por me levar a pensar sobre a imaterialidade da memória.

Como você descreve sua obra?
Percebo meu trabalho como a tentativa de fixar locais ou situações que estão em transformação. Assim, a partir de procedimentos como a marca e a transposição da imagem, a memória se apresenta como fio condutor da poética. Sempre penso em como a proposição que irei produzir pode, de alguma forma, fazer referência à relação entre mostrar e esconder. A utilização da retícula possibilita a criação de um jogo ótico surgido na relação entre as linhas escuras e o esbranquiçado do papel, as imagens surgem constituídas de uma ampla gama de cinzas. Dessa forma, através da ilusão ótica o referencial fotográfico é colocado, uma fotografia que usa como suporte o imaterial dos cinzas. As imagens que escolho para gravar sobre as fibras da madeira partem de um jogo entre ausência e presença, desejo e lembrança. Seja através de um caráter autobiográfico, em que pessoas que tiveram algum envolvimento afetivo comigo são apresentadas com pequenos borrados, fazendo referência à impossibilidade de fixar lembranças, seja nas paisagens envoltas pela névoa em que ficamos totalmente desnorteados, em que a memória se apresenta como processo constante de perda, transformação e desvio de rumo. Essas imagens fazem referência ao próprio procedimento de constituição da gravura, onde o corte é um processo de destruição e desaparecimento que ao mesmo tempo constrói uma nova forma de ver, um destruir para construir.

Objetos, fotografias e gravuras como se integram?
Penso que o que circunda todos esses meios no meu trabalho é a ação de um cruzamento. Se a minha produção em xilogravura parecesse apenas gravura eu acho que meu trabalho não seria interessante. Penso que a força do trabalho se instaura justamente na descaracterização da própria gravura, através do jogo ótico que ele acaba promovendo. A uma determinada distância vemos a imagem e sua forte referência fotográfica e, quando nos aproximamos, visualizamos os veios da madeira e observamos que se trata de uma xilogravura. A ideia de usar objetos partiu da própria matriz xilográfica, pois um dia me dei conta de que uma mesa circular tinha a mesma forma de um carimbo redondo e resolvi usar a mesa como carimbo. Além disso, desde as primeiras gravuras, sempre penso na história do próprio material, pois utilizei durante muito tempo a madeira de casas típicas que estão sendo demolidas na minha cidade natal. Gravar sobre essa matéria paisagens modificadas pela névoa ou imagens alteradas por um apagamento já é pensar, de alguma forma, no processo de transformação que sofreu esse material.

Que exposição sua, você considera a mais importante?
No ano passado realizei, ao mesmo tempo, duas exposições em Porto Alegre: Brumas, que ocorreu no Goethe–Institut, e Interiores no StudioClio. Elas foram especiais para mim por terem sido as minhas primeiras individuais em locais de maior destaque.

Há um comentário vigente sobre a obra em papel ser menos durável e por isso mesmo menos procurada, qual a sua opinião?
Até o momento não senti nenhuma diferenciação pelo meu trabalho ser sobre papel. A obra nesse suporte requer algumas especificidades de armazenamento que, quando não cumpridas, acabam levando à deterioração do material. Contudo, acho que esse processo, quando ocorre, faz parte do trabalho, pois demonstra a passagem do tempo, o que está intimamente relacionado à minha pesquisa artística.

Que comentários você faria sobre o desenvolvimento da arte contemporânea no RGS?
Acho que a arte no RGS está se desenvolvendo, pois nos últimos anos muitos artistas interessantes têm surgido. Porto Alegre ainda é o centro cultural do estado que promove o debate sobre a arte contemporânea, por possuir instituições importantes como, por exemplo, o MARGS, o Santander Cultural e a Fundação Iberê Camargo. A própria Bienal do Mercosul, apesar de algumas críticas que podemos fazer, foi e está sendo importante para o desenvolvimento da arte, principalmente pelo contato com a produção de artistas e curadores de outros locais. Além disso, iniciativas geridas por jovens artistas como o Atelier Subterrânea estão sendo muito importantes por convergir a produção e reflexão sobre arte. Porém, ainda é lamentável que o mercado da arte no RGS seja muito fraco, pois temos pouquíssimas galerias, sem falar que, em sua grande maioria, os espaços de exposição têm sérios problemas de estrutura.

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Não sei dizer, até porque estou tendo a minha primeira experiência agora com a galeria Tato DiLascio de São Paulo. Mas acredito que a participação em eventos, exposições e concursos é fundamental para dar visibilidade ao trabalho.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Leio muita filosofia e sempre converso com amigos de outras áreas para ver como eles pensam determinados assuntos. Coloco minhas ideias em debate para tentar perceber qual a recepção delas em outras áreas. Acho isso interessante, pois é dessa forma que os conceitos realmente ganham corpo.

Você tem uma rotina de trabalho?
Sim, normalmente eu busco informações sobre o tema que estou pesquisando na história da arte. Depois fico planejando como vou resolver o trabalho, faço vários testes no computador, para analisar como a imagem se comporta com a retícula. Posteriormente, desenho e defino quais os procedimentos que vou adotar.

O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Considero que os salões são uma forma muito importante de divulgar o trabalho e legitimá-lo. Além disso, normalmente são oferecidos prêmios em dinheiro, os quais possibilitam um retorno para a produção do artista.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
As bienais são muito importantes para a promoção, conhecimento e reflexão sobre a arte contemporânea. O que me deixa um pouco ressabiado é a necessidade de mega produções que, muitas vezes, acabam tornando a mostra parecida com uma feira de automóveis, reduzindo o potencial reflexivo dos trabalhos.

Quais são seus planos para o futuro?
No final de julho irei participar de uma residência em São Paulo, em um projeto chamado Imagens Construídas, organizado por Tato DiLascio com curadoria de Paulo Trevisan. Eu e os artistas Alex Kaleb Romano (residente em Barcelona), Guilherme Maranhão (São Paulo) e Mauricio Leonard (Belo Horizonte) ficaremos produzindo em um casarão durante 10 dias. O objetivo é refletir sobre essa experiência e promover uma exposição. Além disso, tenho um projeto para uma exposição em Pelotas – RS e outra em Caxias do Sul – RS, e até julho do próximo ano pretendo finalizar o mestrado.

O que você faz nas horas vagas?
Ultimamente tenho tido pouquíssimo tempo livre, mas eu gosto muito de caminhar, isso me ajuda a pensar.





Caminho 45x35 cm. Xilogravura sobre papel Wenzou. Ed. 9/2009.



Amanhecer no Porto Xilogravura sobre papel Wenzou 78x17cm. Ed. 9/2009.

Através 200x70 cm. Xilogravura sobre papel Wenzou Ed. 6/2011.



Neblina 200x70 cm. Xilogravura sobre papel Wenzou. Ed. 6/2011.

Rua Tronca 242x200x70 cm. Xilogravura sobre papel Wenzou 6/2011

Galopis 36x17,5 cm. Xilogravura sobre papel Wenzou. Ed. 6/2011.


Vanessa 36x17,5 cm. Xilografia sobre papel Wenzou. Ed. 6/2011.

Dorota 33x22 cm. Xilografia sobre papel Wenzou Ed. 6/2011.


Dorota 115x58 cm. Xilografia sobre papel Wenzou Ed. 6/2011.


Joaquim 31x27 cm. (cada) Díptico Xilogravura sobre papel Wenzou 6/2011.








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