segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Pedro Urano





Estrada Real da Cachaça





HU







HU


















Ensolarado.











Super Barroco.














Nós gostariamos de comhecer um pouco de sua história pessoal
Nasci no Rio de Janeiro em setembro de 1979. Pai cearense, mãe mineira, ambos economistas, família espalhada pelo Brasil. Estudei no CAp da UFRJ, fiz graduação em jornalismo na UFRJ e em cinema na UFF.


Você é cineasta ou fotógrafo?

Sou cineasta e fotógrafo. Faço filmes e fotos, e em muitos filmes faço a foto. Sou diretor de fotografia. E realizador. Trabalho com imagens em movimento.
Quando você percebeu ser artista? Qual foi a reação familiar?

Não me lembro de um momento desses, dessa 'revelação'. Acredito no potencial criador de todo ser. Somos filhos do tempo, as idéias são como pássaros, trata-se de seduzí-las, de apanhá-las. O trabalho é entrar em synch (pra usar um termo do cinema), sintonizar com o agora. A criatividade é a grande verdade do universo. Já a reação familiar, essa importa pouco. Minha família vai continuar minha família seja eu artista, engenheiro, político ou soldado de uma milícia na zona oeste. Fui criado em liberdade.
Qual sua formação artística?Não tive educação formal, acadêmica. Bom, teve o curso de cinema da UFF e uma série de cursos por aí que fica difícil lembrar e citar cada um deles. Mas quando penso em formação lembro que aprendi mesmo foi fazendo e convivendo com os cineastas, fotógrafos e artistas. E lendo.
Quem influenciou seu pensamento?
Ilya Prigogine, Robert Smithson, Tunga, Turner, Nancy Holt, Ana Mendieta, Eisenstein, Vertov, Paradjanov, Tarkovski, Paulo Cesar Pereio, John Cage, Rogério Sganzerla, Matta-Clark, Piero Manzoni, Man Ray e Andrea Tonacci.
O que é importante na formação de um cineasta?
Além de escutar o solo, saber cozinhar e manter um diálogo com seu ambiente cultural, que, de resto é importante para qualquer artista, acredito fundamental pro cineasta ver os filmes e exercitar cotidianamente sua construção, do jeito que der, com os recursos que tiver a mão. E conversar pra descobrir o que se fez. A gente filma pra ver como é que fica. E só dá pra ver como é que fica, quando se vê junto. A gente filma pra ver como é que fica refletido na cara do espectador.


Você pode descrever seu trabalho e citar suas principais obras?
Meu trabalho cotidiano é a direção de fotografia, sou mais conhecido por ela. Fiz curtas importantes da minha geração, filmes que circularam e circulam nos mais importantes festivais do mundo como Cannes, Berlim, Locarno. São filmes que se destacam também por sua 'pegada' experimental, por uma sofisticação plástica, um trabalho na imagem. Fiz muitos trabalhos com artistas também. Hoje há uma saudável confusão entre os campos do cinema e das artes visuais. Tá tudo junto e misturado! Tanto é que alguns desses filmes foram comprados por instituições como o PS1, do MoMA (um video realizado por Thiago Rocha Pitta) e o Pompidou (o curta 'Quimera', do Tunga e Eryk Rocha). Hoje, estou começando a fotografar filmes mais longos. Compreendo-me nessa fronteira entre as artes visuais, o cinema, a ciência. Como diretor, interessa-me a investigação da origem das coisas, dos materiais, como chegaram a ser o que são. E o diálogo do planeta, da terra, da Terra, com o céu. É algo que se materializa no meu nome, é engraçado. Pedro-pedra, Urano-céu. E não é um nome artístico.


Pedro você fez um trabalho chamado HU com a artista plástica Joana Traub Csekö, como foi a experiência da parceria?

O seguinte foi esse: depois do primeiro longa que dirigi (Estrada Real da Cachaça), deu vontade de trabalhar mais em parceria. Ainda que o cinema seja uma experiência coletiva também na realização, de trabalharmos sempre em equipe, a posição do diretor é um lugar extremamente solitário. Não há muito com quem dividir tuas questões, tuas dúvidas. Aí foi isso, estava com essa vontade de fazer filmes em parceria. O 'HU' é a primeira delas a vir a público, mas há outras, com outros parceiros. E a coisa toda funcionou muito bem. O filme seria outro se o tivesse feito sozinho. Senti também que dá pra ir mais longe quando em boa companhia. A parceria neutralizava o medo e arriscávamos mais do que talvez o faríamos individualmente. Há os atritos também, as disputas, é natural. Mas, como já disse, cinema sempre foi experiência coletiva (na produção, na recepção, etc.): estou acostumado a essa tensão de forças que resultam num filme.

Há mercado para jovens cineastas?

Mercado há. É pequeno e frágil. E o Brasil é um país conservador, sempre foi, historicamente. Não premia a inovação, tem medo de se encarar de frente. Aqui, as hierarquias esticam a corda até o limite, não soltam de jeito nenhum. Há que se criar novos mercados, portanto. É cada vez mais interessante estar longe dos grandes centros.

As produções são patrocinadas por incentivos fiscais, o que você pensa sobre o assunto?







O assunto é polêmico e a situação é estranha. As leis de incentivo funcionam assim: filmamos com o dinheiro do contribuinte, mas quem decide qual filme será feito é o departamento de marketing de grandes empresas. Se o dinheiro é do Estado, sou a favor do investimento direto (sem atravessadores!), com a escolha de projetos feita por reconhecidos profissionais da área (cineastas, crítico, artistas), uma nova comissão a cada escolha, como acontece no CNPq. Cinema é área estratégica, deve ter política específica, é assim no mundo inteiro, é uma das formas mais eficientes de propalar idéias pelo mundo. No governo Lula, com Gil no ministério (depois Juca Ferreira), a coisa melhorou muito, com maior incentivo à regionalização da produção e uma distribuição mais democrática dos investimentos diretos, ou seja, mais filmes de menores orçamentos. Na minha opinião, os melhores filmes brasileiros dos últimos tempos são de baixo-orçamento, e muitos deles não foram produzidos nem no Rio, nem em São Paulo. Filmo bastante fora do Rio. Há cinema e arte de alto nível em Pernambuco, Ceará, Minas… Tem uma coisa legal na geração da qual faço parte que é uma certa articulação nacional, nos conhecemos, temos um interesse pelo outro, pelo trabalho do outro. Num primeiro momento, nos encontramos em festivais e mostras, hoje fazemos filmes juntos. O caminho pela frente é longo, mas há beleza e há talento. Acredito no cinema como experiência coletiva: na realização, na distribuição, na exibição.

É possível viver só de cinema?

Eu vivo só de cinema desde 2001. Sempre foi minha única atividade profissional. Portanto, é possível. Não é fácil. E às vezes tenho dúvidas se vale realmente a pena. Às vezes não.

Quais são seus planos para o futuro?

Plano pro futuro é deixar a cidade, construir uma casa, ter filhos. Enquanto não acontece, estou finalizando a versao longa do 'HU'; terminando de filmar um curta-metragem chamado 'Homenagem a Matta-Clark', também em parceria com a Joana; montando outro curta-metragem, 'Touring', em parceria com Marina Fraga; e desenvolvendo o argumento de um longa de ficção. No início do ano que vem, fotografo dois longas, um documentário e outro ficção. E tem o lançamento do 'Estrada Real da Cachaça' (premiado no Festival do Rio e em Mar del Plata) nos cinemas. Deve acontecer no primeiro semestre de 2011.





O que você faz em suas horas livres?Como não tenho patrão, todas as horas são livres. Trabalho, leio, visito a floresta, encontro com amigos, converso, amo e olho pra cima pra encontrar estrelas e nuvens. Sempre que o trabalho é bom, a liberdade acontece. Só sei trabalhar me divertindo.
Após realizada a entrevista, A Veja Rio publicou na capa uma chamada Quero Ser Cineasta e no corpo da revista a reportagem de Sofia Cerqueira A Nossa Wollywood, onde há informações sobre a importância do Rio como polo de produção cinematográfica. A procura de jovens por formação universitária em cinema aparece nas estastíticas dos cursos oferecidos. A PUC Rj em cinco anos passou de 29 alunos para 416. A Estácio de Sá oferece 70 vagas por semestre e a Universidade Federal Fluminense admite 100 alunos a cada ano. Esses dados mostram o interesse na profissão, razão pela qual é importante o depoimento do Pedro Urano um talentoso cineasta, fotógrafo e artista. Pedro foi um prazer conversar com você e agradeço a maneira gentil, educada e cordial com que fui recebido. Estou feliz em dividir com os leitores essa bela experiência.








































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