quarta-feira, 25 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Pedro Meyer Barreto









Pedro Meyer Barreto.



Pedro, conte um pouco sobre sua história pessoal.

Nasci em 6 de novembro de 1978, em Niterói, filho de Luiz Antonio Barreto, ator, engenheiro agrônomo, fiscal e sindicalista e Marta Martins Meyer, artista plástica, assistente social, professora e cozinheira de mão cheia. Morei no Rio de os seis anos de idade. Depois fui para Nova Friburgo onde residia entre uma fazenda e um apartamento no centro da cidade, nesse período tive um contato muito próximo com a natureza. Ficava fascinado com a fauna e a flora da Mata Atlântica, passava todos os dias brincando livre, desenhando e andando à cavalo.

Cursei o ensino fundamental em Nova Friburgo, no D. Pedro e no Anchieta, o primeiro um colégio pequeno e intimista, o segundo um grande colégio jesuíta. O ensino médio foi no Rio de Janeiro, no CEAT, um colégio mais alternativo.

Trabalho como artista plástico, principalmente com pintura e desenho, também sou professor assistente e pesquisador, também ilustro, desenvolvo projetos gráficos e atividades ligadas à produção cultural.



Como foi seu encontro com a Arte?

Meus pais sempre desenvolveram trabalhos artísticos. Minhas lembranças mais antigas estão relacionadas a eles. Sempre tive muita liberdade e incentivo, contato com pintura, desenho, teatro, música, dança... A exposição mais significativa na infância foi “Pablo Picasso”, no Paço Imperial, em 1986.

O encontro com a arte ocorreu também através dos livros, filmes, desenhos animados, histórias em quadrinhos, vídeo games...

Percebo que esse encontro foi especialmente marcado por duas viagens: uma temporada de férias na residência do artista Luciano Maurício em Tiradentes, quando conheci o barroco mineiro; e minha primeira viagem à Europa, Egito e Oriente Médio, em 1994, onde tive contato com parte significativa da cultura ocidental conhecendo artistas como Goya, Velásquez e El Greco e tradições antigas no Cairo, no Vale dos Reis, em Jerusalém. Em Madri descobri o Graffiti, que influenciou meu desenho durante um período de pichação adolescente.



Qual foi sua formação artística?

Minha formação inicial foi em casa, no próprio cotidiano familiar. Alguns artistas foram importantes na minha formação. Luciano Maurício foi um exemplo de liberdade, desprendimento e humor. Ele influenciou uma fase infante na qual meus desenhos eram uma espécie de investigação naturalista amadora. Com Gianguido Bonfanti mantive uma relação próxima entre os anos 2000 e 2005 e trabalhei principalmente questões relacionadas ao Modelo Vivo, à gravura e à pintura. Um artista fundamental no meu aprofundamento crítico e experimental foi Carlos Zilio. Conheci o Zilio em seu ateliê em 2004 e na sequencia frequentei livremente suas aulas na EBA (Escola de Belas Artes). Posteriormente ele foi meu orientador no mestrado em Linguagens Visuais, concluído em 2008.

Na Esdi estudei ainda com professores ligados à arte como Amador Perez, que sempre apoiou e trouxe pontuações precisas para minha trajetória; Lauro Cavalcanti, que me apresentou aos circuito e pensamento contemporâneo, e Rafael Cardoso, que trouxe um conjunto vivo de abordagens da historia das imagens. No Parque Laje fiz cursos desde 1996 com vários artistas e críticos, entre eles Anna Bella Geiger, José Maria, Fernando Cochiaralle e Paulo Sérgio Duarte. Em 2010, concluí o curso de Aprofundamento do Parque Laje, com coordenação de Glória Ferreira e participação de Livia Flores e Luiz Ernesto.

Atualmente continuo na Linguagens Visuais, cursando o doutorado com orientação do Paulo Venancio e está sendo ótimo. Questões precisas no tempo certo.

Existem inúmeros artistas e pessoas que contribuíram na minha formação, toda troca é construtiva. Acredito que nunca deixamos de estar em formação.

Que artista influenciam seu pensamento?

Quando encontro, converso e convivo com artistas sou de alguma maneira influenciado por eles. Existem alguns artistas que me interessam mais como conversa de linguagem: Marlene Dumas, Mathias Weischer, Iberê Camargo, Hélio Oiticica, Daniel Richter, entre outros.

Como você descreve sua obra?

Como uma relação entre eu, você, os presentes leitores e as pessoas que são tocadas pelo trabalho. Uma forma de (r)existência no mundo, de tentar significar, duvidar e ir além.

Trabalho principalmente com pintura e desenho, nos quais noto uma predominância da figura. Me interesso por muita coisa e gosto do risco das novas experiências.



Qual foi sua exposição mais importante?

Não sei. Todas marcaram um momento, uma tomada de consciência sobre algum processo de desenvolvimento do trabalho e sua inscrição.

Considero que minha atuação como artista começa na exposição que fiz em Belo Horizonte, na Galeria Cemig, em 2004. Foi meu primeiro prêmio e minha primeira exposição significativa.

A pintura site specific que fiz em Recife em 2007 foi especial por seu resultado e novidade. Na Bienal de Amsterdam aconteceu uma situação parecida.


Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?

Existem muitas Bienais e Feiras de Arte. Talvez as grandes Bienais com forte poder de institucionalização estejam cedendo espaço para outras, menores e com singularidades mais orgânicas.

As Feiras de Arte são ambientes privilegiados para operações de mercado. Nelas são movimentados valores monetários, conceituais e de legitimação. De maneira salutar, as feiras quebram relativamente o distanciamento estratégico do cubo branco, deixam o caráter mercantil da obra mais explícito.





O que você pensa sobre os Salões de Arte? Alguma sugestão para aperfeiçoá-los?

Os salões são oportunidades para o artista mostrar sua produção, iniciar um caminho no circuito, trocar com outras pessoas, experimentar a linguagem, e, às vezes, ser remunerado por isso. Como a arte é socialmente construída, esse reconhecimento coletivo é fundamental.

Sugestão para os salões: remunerar bem os artistas e incentivar o diálogo crítico.


Além de artista você e professor, como você vê o ensino de Arte no Brasil?
Um espaço fundamental para a troca entre artistas, para o desenvolvimento de pesquisas e transformação social. Considero também o ensino no Brasil (de maneira geral) como uma área extremamente carente.

O artista na universidade deve reivindicar as especificidades e a legitimidade das suas linguagens de pesquisa. É comum as normas acadêmicas entrarem em conflito com o caráter experimental e livre da arte.

Acho também que a universidade deve ter uma relação orgânica com o circuito e ao mesmo tempo preservar uma autonomia crítica, menos mediada pelos interesses privados de sucesso pessoal. A universidade é um espaço de construção coletiva.


Que contribuição o Mestrado e o Doutorado deram para sua formação?

É ótimo trocar com outros artistas, especialmente quando vários deles já possuem trabalhos mais amadurecidos. Pode ser também uma oportunidade excelente para pensar o trabalho com mais profundidade, questioná-lo e experimentar. O mestrado e o doutorado ainda são qualificações necessárias à minha atuação como professor.



A quase totalidade dos artistas do Rio matriculados nos cursos acadêmicos, procuram a EAV do Parque Lage, o que você pensa sobre o fato?

Como dizia um amigo baiano: normal... O Parque Laje é uma escola livre, tem uma diversidade de professores e qualquer um pode chegar lá e fazer um curso. O problema é ser pago... Tomara que consigam aumentar o número de alunos bolsistas. Além disso a localização é uma delícia.


Que sugestões você daria para um jovem estudante de Arte?
Mergulhar na arte e na vida. Conhecer e conversar com outros artistas.

O que torna o artista um ícone?
A intensidade de sua transformação do mundo.


Quais são seus planos para o futuro?

Ver minha filha crescer. Ela está com sete meses, linda e sorridente e eu estou completamente apaixonado, babando... Continuar desenvolvendo meu trabalho e prosperar com ele.



Quais são suas atividades nas horas livres?

Todas as horas são livres. A maior parte do meu tempo dedico à pesquisa artística que é a maneira pela qual encontro sentido na vida. Isso inclui momentos de letargia nos quais fico sozinho, sentindo o vazio nostálgico e especulativo do ócio.





Mulata.








Instalação em Recife.








Banheiro Travesti.









Apartamento das Travestis. Instalação Recife.





Mureb.








Herculana na Academia.





O Julgamento de Páris.







Vênus





Sem Título.







Crianças Numeradas.







Torres.

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