terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Patricia Osses




Patricia Osses



Patrícia Osses chilena de nascimento e artista brasileira. Sólida formação acadêmica, foi selecionada para o Prêmio Pipa, 2011.Vive e trabalha em São Paulo. É representada pela Galeria Leme, SP. Além de artista, Patícia é exímia celista. Obrigado Patrícia. Que bela obra!


Patricia, conte algo de sua história pessoal.
Nasci em Santiago do Chile, em 1971. Em 1973 minha família mudou-se ao Brasil, por motivos de trabalho, durante o que deveria ter sido uma estadia de dois anos. Logo depois que nos mudamos ocorreu o golpe de estado, e na espera que o governo militar deixasse o poder, passaram-se 17 anos.... Aí já "estávamos" brasileiros... apesar da nossa casa sempre ter se mantido muito chilena nesse tempo todo: conservamos a língua, costumes e comidas, a conexão com as pessoas e acontecimentos de lá.

Como começou seu interesse pela arte?
Foi muito gradativo. Sempre me interessei por coisas muito diversas e, depois de me formar em arquitetura, percebi que havia chegado a um bom ponto para fazer outra graduação. Pensei que no curso de Artes Plásticas poderia reunir tudo o que me interessava, e que nesse campo os sentidos e significados se ampliavam, se abriam. A própria visão de mundo, de vida se ampliava também, e essa possibilidade me encantou. Resolvi seguir por aí.

Qual foi sua formação?
Tenho formação em arquitetura e em artes plásticas, e estudos em música erudita (violoncello). Agora desenvolvo doutorado em Poéticas Visuais na ECA/USP, com orientação de Carlos Fajardo.

Além de artista você é arquiteta. As duas atividades tem algo em comum?
Vejo as duas atividades tão indistintamente, que me parece natural ter enveredado pelas artes plásticas após o curso de arquitetura. Afinal, meu campo de pesquisa continua sendo o espaço tridimensional, abrindo-se a idéias de lugar, memória, historicidade, literatura. Penso afinal que a Arquitetura que faço se discute no campo de Artes Plásticas, se realiza nesse campo.

Que artistas influenciam seu pensamento?
No Brasil, é muito importante para minha formação (constante) o Carlos Fajardo, com certeza. E pelo trabalho, além do próprio Fajardo, sempre são referências recorrentes Nelson Félix, Waltercio Caldas, Cildo Meirelles, Tunga, Iran do Espirito Santo.
Dos estrangeiros, são muitos, desde Wilhelm Hamershoi (pintor dinamarques, sec XIX) e os holandeses (Rembrandt, Vermeer e Van Eick) a Mark Rothko, Gordon Matta Clark, Francesca Woodman, Richard Serra e Bruce Nauman, para ficar em alguns...
Além dos visuais, escritores estão cada vez mais ocupando um espaço importante no meu pensamento, a ponto de definir os lugares de próximos projetos. Especialmente o Jorge Luis Borges e a Marguerite Duras. E no cinema, o mesmo com Andrei Tarkovski e Alexander Sokurov.

O que a inspira?
Lugar, livro, som, luz, densidade, cor. O encontro com essas coisas.

Como você descreve sua obra?
Acho sempre que a obra é que se descreve, gosto muito de uma frase do Waltercio Caldas : "Transparências quando descritas resultam opacas". Mas posso dizer as mesmas palavras da pergunta anterior para falar da obra: lugar, livro, som, luz, densidade, cor.

Você tem uma sólida formação acadêmica, no momento cursa o Doutorado, como isso influencia seu trabalho?
A escolha por continuar na academia após a graduação vem da conclusão de que a pesquisa é, até o atual momento, inerente ao processo de criação de meus trabalhos. A academia acaba por regular e ordenar essa pesquisa, o que me instrumentaliza e me ajuda bastante, mas essa pesquisa sempre foi necessária.
Além disso, sinto a academia com um espaço de interlocução verdadeiramente sério e extremamente valoroso para o trabalho. O artista visual é um sujeito criativo bastante solitário, e na universidade posso expor tanto meu processo como minha produção ( já que em Poéticas visuasi se discute o trabalho prático como tema principal) a pensadores incríveis, que vão se debruçar séria e profundamente sobre meu trabalho. Penso que muitas vezes, no meio crítico e curatorial essa profundidade é difícil de ser encontrada.
O trabalho ganha muito com esse debruçar, essa discussão é muito bem-vinda, abre e multiplica os sentidos dos trabalhos a muitas direções.

Qual foi sua experiência com os salões de arte? Você faz alguma sugestão para aprimorá-los?
Os salões de arte foram espaços muito importantes para o começo da minha trajetória, tanto financeiramente como em termos de abrir um espaço possível para expor, acessível por meios que, ainda que muitas vezes se possa discutir isso, são democráticos. Acho um bom meio para os museus públicos aumentarem sua coleção, e a jovens artistas de ter uma possibilidade de acesso a elas, e construir uma trajetória, mostrar seu trabalho.
Minha sugestão é que é essencial o suporte de um pró-labore para expor em instituições públicas, e uma troca justa com o artista, que muitas vezes não têm condições de produzir um trabalho se não for nessas condições, nem de patrocinar do seu próprio bolso uma instituição cultural. O pró-labore, mais que o prêmio principal, é o verdadeiro estímulo à produção de novos trabalhos visuais no Brasil.

Qual a importância da residência artística?
Considero a residência de uma importância tão relativa ao trabalho do artista quanto o uso de aço, fotografia ou tinta acrílica... ou seja, o trabalho deve pedir a residência e não o contrário. As residências tornaram-se um mecanismo muito popular e disseminado de produção, e muitas vezes o artista não tem necessariamente que se deslocar para produzir um determinado trabalho. Então a residência vai ter uma importância uma vez que o lugar, e Esse Lugar, seja essencial ao processo desse artista, ao trabalho dele. O resto é consequência.

O que significa o prêmio Pipa?
Uma ótima maneira do trabalho chegar a mais pessoas, pelo catálogo ou pelo site, e um certo reconhecimento da trajetória, sem dúvida. As artistas premiadas nas duas edições, a Renata e a Tatiana, têm um trabalho consistente e sério, gosto muito, o que fala bem do prêmio...

É possível viver de arte?
No Brasil, sempre difícil. Para a grande maioria exige desdobramentos na busca de financiamentos e muito jogo de cintura, múltiplas atividades para pagar as contas... A consequência é que a verba para a produção dos trabalhos é dividida com gastos da vida... e o tempo exclusivo para a criação se faz pouco.

A mulher já tem no mercado o mesmo espaço do homem?
Nunca me detive a pensar em questões de gênero, talvez porque pessoalmente nunca senti que o fato de ser mulher tenha algum peso maior ou menos nas obras do que qualquer outra questão.

Você é representada por alguma galeria? O que é necessário para isso?
Sou representada pela Galeria Leme, em São Paulo. Acho que é necessária uma identificação do galerista com seu trabalho, pelo menos numa relação ideal. Que ele acredite realmente no seu trabalho, para poder representá-lo. E igualmente do artista em relação à linha de trabalho e ao espaço da galeria.

Quais são seu planos e sonhos futuros?
Acabo de me instalar definitivamente em minha casa-atelier, finalmente com um espaço físico que vai me dar a tranquilidade e o lugar para produzir, pesquisar, adequar as obras. Imagino que isso terá alguma influência sobre a maneira de trabalhar...
E apesar disso, pretendo em breve me deslocar novamente, para pesquisar e trabalhar sobre um outro lugar literário...

O que você faz nas horas vagas?
Horas vagas? O que seria isso? (rsrsrs) Voltei a me dedicar a grupos de música e a retomar o violoncello, parado alguns anos pelas temporadas de viagens e trabalhos fora... Estou feliz tocando novamente em uma camerata e um quarteto de cordas. Além disso...procurar alimento para alma, sempre, ver coisas boas.


Clarabóia Colorprint, 40. 40x60 cm.


Bibliotheque. (2011) Colorprint sobre algodão.



Mirror. (2008) Colorprint 30x45 cm.



Pátio de Luz 4. Colorprint 90x60 cm.



Corredor. Vídeo 6 min.


Purple Green. (2008) Colorprint 100x70 cm.


Ojala (2010-2011) Colorprint 100x70 cm.



http://www.patriciaosses.com No site estão os textos e outros trabalhos da artista.


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