domingo, 22 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Ophelia Patricio Arrabal

Ophelia Patricio Arrabal é uma intelectual, sua sólida formação acadêmica fazem dela uma das grandes pensadoras da arte brasileira. Suas publicações nos fazem refletir e entender melhor as relações da própria Arte com outras áreas. Agradecemos seu depoimento e colocamos o blog para divulgação do seu pensamento.

Ophelia conte um pouco de sua vida.
Nasci na província de Medellín, Colômbia, em 15 de janeiro de 1980, meu pai é espanhol de Valencia e diplomata e minha mãe é parisiense e médica missionária da Cruz Vermelha, eles se conheceram na década de 70 durante a guerra do Congo Francês. Em 1978, meus pais se mudaram para Medellín numa missão especial do meu pai e nasci numa linda fazenda colonial na região cafeeira. Em 1994, nos mudamos para Madri onde vivi minha maravilhosa adolescência e me apaixonei por arte.


Como começou seu interesse por Arte?
Morávamos perto de uma bliblioteca incrível e me tornei uma aficcionada por história. Estudava em escola particular e tinha dificuldades de me entrosar com os outros alunos, então passava o tempo lendo muito e frequentando primeiro as exposições permanentes dos museus e aos poucos fui começando a conhecer também a arte contemporânea. Em 1999, fui pela primeira vez ao Rio de Janeiro, Brasil acompanhando meu pai, que estava na cidade para a primeira Cimeira. Foi então que conheci arte contemporânea brasileira.

Qual foi sua formação artística?
Fiz minha graduação em filosofia na Universidade de Salamanca e emendei no mestrado em estética posestruturalista em Paris IV. O doutorado concluí em Saint Martins, Londres, em história da arte latinoamericana.

Quais são suas atividades relacionadas à Arte?
Sempre fui muito engajada em ativismo digital, desde a época do grêmio em Salamanca, publico textos em blogs e sites especializados e tenho textos publicados em catálogos e exposições por todo o mundo. Meus últimos textos publicados foram o catálogo do projeto "SEU", de Porto Alegre, na revista Revispa 2010, e no catálogo exposição "entre-vistas", na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Fui cocuradora da Bienal Especial de Guadalajara 2009; em 2008, fui curadora-assistente do projeto "cartografias da carne - art in america, latinitudes", financiado pelo "Fondo Nacional de las Artes de Colombia". Trabalhei também como tradutora de Caetano Veloso nos filmes do diretor espanhol Almodóvar, com quem tenho uma relação de amizade antiga desde os tempos de Madrid. Pensar a autonomia criativa hoje é um desafio de que me ocupo constantemente, refletindo sobre processos criativos coletivos e borrados,que tornam ficção em realidade.

Que artistas influenciam seu pensamento?
REBAR; Fiambrera Obrera; SUPER FLEX; Combination; KRAX; OPAVIVARÁ!; GIA... El Greco; Goya; Miró,; El Bosco; Ligia Clark; Marta Minujim; Minerva Cuevas... Frida Kahlo; Peggy Guggenheim; Pina Bausch, Buñuel, Maria Martins; Liv Ulman... Souzouesareta Geijutsuka; Kiki de Montparnase; Lord Byron; Ligia Pape; Nadia Comaneci...Susan Sontag; Diane Arbus; Guerrila Girls;

Para conhecer melhor o pensamento da Ophelia Patricio Arrabal transcrevo o texto publicado no site do Opipavará.

Conectude. Um Painel descontrole, por Ophelia Patricio Arrabal

terça-feira, 14 de setembro de 2010
publicado na ReviSPA 2010 #6
+ info @ http://spa2010.artesvisuaisrecife.org/?page_id=2

VAI PRA PONTE QUE PARTIU!



contra o controle remoto, pontes de contato.


http://tiny.cc/conectude
O Brasil é um país que prefere pontes a margens, a ponte conecta, a arte conecta. Recife cidade dos rios, pontes e overdrives - impressionantes esculturas de lama. Quando a ponte une duas margens o seu corpo de serpente de concreto, madeira, metal ou pensamento se torna terreno de troca, confluência, mixórdia de fronteiras. A ativação deste fluxo confronta dois lados que se encontram em suas semelhanças e diferenças, a ponte é espaço de hibridismo, de assimilação. O Brasil prefere o que é semelhante para chegar ao outro. A circulação horizontal dos transportes coletivos que conectam todo o corpo da cidade é ponte que une múltiplas margens. O uso camuflado do transporte coletivo como intervenção urbana reconecta o contemporâneo ao nosso ancestral atávico e ressignifica os espaços da cidade. Transporte-ponte. Hiperconexão pavimentada, a ponte é ao mesmo tempo o meio entre as coisas e o devir......o devir deve ir!



Sexo é ponte

beijo é ponte

abraço é ponte

aperto de mão é ponte

Salada mista de pontes!


O corpo humano é nossa ponte para o mundo e para outros corpos.
A ponte traz em sua conformação a idéia de viagem, a ponte é o inter-ser-sideral, a passagem, o caminho, o meio do caminho.
O “cavalo” é a ponte entre as entidades xamânicas espirituais e nós.

Pontes e viagens no tempo e no espaço ∞



http://tiny.cc/collider

No dia 10 de setembro de 2008 foi ativado o maior acelerador de partículas do mundo (se você está lendo isso no futuro distante ele não deve ser mais tão grande). O LHC (Large Hadron Collider – Grande Colisor de Hádrons) foi projetado para atirar partículas de prótons umas contra as outras quase à velocidade da luz.
O equipamento está a 100 metros debaixo da terra na fronteira da França com a Suíça, onde os prótons serão acelerados no anel de colisão que tem cerca de 27 km de circunferência e 8.6 km de diâmetro. O equipamento é o maior e mais complexo instrumento científico já construído, e também o mais caro – com um custo estimado em US$ 8 bilhões. Os cientistas esperam que a liberação maciça de energia causada pelo choque das partículas seja capaz de recriar as condições que existiam no universo imediatamente após o Big Bang.



28 de fevereiro de 1643, foi o dia da inauguração da ponte Recife, atualmente chamada Maurício de Nassau. O Conde Nassau queria chamar muita gente para prestigiar a sua obra, então espalhou a notícia de que faria um boi voar sobre a ponte. O Conde utilizou um couro de boi em formato de balão inflável, amarrado em cordas finas sobre roldanas controlado por marinheiros, o que fazia com que o boi desse cambalhotas no ar. A ponte teve sua construção iniciada em 1640 por ordem do conde Maurício de Nassau, feita em madeira, sendo considerada a primeira ponte de grande porte do Brasil e a mais antiga da América Latina.



Arte-ponte → propontes



http://tiny.cc/ponteparaonada

A reflexão sobre as pontes em nosso mundo é atravessada pelas questões entre real e virtual; telecomunicação e comunicação presencial; conectude e embotamento anestésico meio-massa. Vivemos submersos numa verdadeira trama hiperespacial de conexões. Mas para que e para quem servem estas pontes? O que elas conectam e que tipo de transporte se dá através delas?
O crescimento multiexorbitado e a descartabilidade da indústria da comunicação promovem construções que levam o nada ao lugar nenhum. Arte ocupa pedaços de pontes para criar situações tanto no nada, quanto no lugar nenhum.
http://tiny.cc/pontes

Internet é a ponte do mundo contemporâneo por excelência. Mas qual é a qualidade das relações que essa rede estabelece? E se por um lado podemos nos conectar com pessoas de outros continentes, onde estão nossos vizinhos locais? O mundo se transformou em uma imensa vizinhança? Ipanema está mais perto de Saint-Germain-des-Prés do que de Boa Viagem? As individualidades indivisíveis, irredutíveis, inabarcáveis, se resumem agora a um perfil no Orkut, Twitter ou Facebook?
O que a internet oferece às angústias contemporâneas são uma infinidade ofertas de relações seguras, sem riscos, assépticas. Entretanto este tipo de relação pode promover um imenso tédio existencial, uma masturbação infinita sem nunca alcançar o gozo prometido por estas ofertas. Porque o gozo está diretamente ligado ao risco. Everything is sweetened by risk. Todo o contato tem seu risco. Viver é ir entre o que vive e viver é muito perigoso. As pontes são uma ótima imagem para essa conexão entre risco e gozo, por sua forma tubular e/ou fálica, que sempre avança sobre um vazio para atingir outra extremidade, e que sempre temos que penetrar para chegar do outro lado. O problema das pontes ciberdélicas do universo virtual é que nós podemos apenas ver e ouvir o outro lado, e poucas vezes chegamos até ele. Nessa dinâmica, nosso estar no mundo tende à reduzir-se à uma experiência audiovisual. Aliás, o termo audiovisual, muito em voga, é também de suma importância para as análises da arte hoje. E por tudo isso é inevitável voltarmos ao problema das janelas que se sobrepõem como no desktop, criando muros, uma sobreposição eternamente atualizada de janelas.
É claro que não podemos cair de forma tão simplificada na questão da internet, como se a web fosse um universo paralelo ao Planeta Terra; não podemos enveredar pelo já mais que desgastado e demodê cultura X natureza. É claro que o mundo concreto está totalmente conectado, envolvido e amarrado ao mundo virtual. Existem muitos mundos, supermundos, hipermundos, submundos, desmundos, imundos e vagabundos. Existem pontes para todos os lados, e nossas relações telecomunicáveis sempre podem se desdobrar em relações presenciais e corporais que se fortalecem mutuamente e se reinventam a cada dia.


Não cabe cair em um discurso profético corrupto de meia esquerda festiva naturebista contra a tecnologia, a Internet, etc. Minha crítica à hegemonia das relações telecomunicativas não se constrói como um julgamento moral ou de valor, mas quer chamar a atenção para um outro território que por seu relativo abandono, evasão ou entropia, se mostra disponível a novas ocupações e novas proposições. O espaço relacional, sensorial, corporal, envolvente. O espaço coletivo, o espaço público. E mais uma vez as pontes nos levam para a rua. Estamos chegando.



Ophelia Patricio Arrabal, 2010



Postado por OPAVIVARÁ! às 17:53 0 moitaradas
rede conectivo, conectude, em tornar-se, fissão, opavivará, ophelia patricio arrabal, pontes, re-sensibilização crítica, reconexão, spa das artes 2010












Postado por OPAVIVARÁ! às 17:41 0 moitaradas



rede coin, de ambulatório, moitará, ponte, recife, spa das artes 2010, trade, troca simbólica
Atalho contemporâneo na avenida moderna ou a crítica da razão ruasexta-feira, 13 de agosto de 2010

Aclimatação: Utopia, Distopia.
Seu é a sua, nosso. A praça é nossa. A rua é nossa. A pátria é nossa. A pátria é a nossa mátria. A cidade é nossa. Praça de alimentação. O urbano como espaço. O indivíduo é formado pelo coletivo, o coletivo pelo indivíduo. O urbano é coletivo, transporte coletivo, atalho para a rua, as máquinas são formas de vida, a intervenção artística como um deslocamento do olhar, da relação dos indivíduos com o coletivo e o espaço urbano, um desvio, um atalho para outros modos de ocupação da cidade, para outros modos de relação com o espaço público. A aura é nossa. A praça com grades é patrimônio x MATRIMÔNIO, botar o bloco na rua. A modernidade criou cidades duras, pensou cidades-máquina, quis cidades concretas imortais, mas as margens do rio, degradadas, desmatadas, desbarrancadas, desgarradas invadem o próprio rio assoreando o leito sufocando a correnteza:

o rio é rua
o tempo é um rio,
cidade inundada
enchente de gente

O determinismo cartesiano e militar da engenharia e do urbanismo moderno passou suas máquinas esplainadoras sobre a natureza irregular e irrigada do terreno carioca. Criando assim grades de asfalto e concreto sobre rios, canais, lagoas, mangues, charcos, enseadas. Mas a água vai se infiltrando sob a cidade invadindo os esgotos, devorando as ruas. Brasília é a cidade inexistida que precisou ser inventada.
"Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É, sobretudo para eles, que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã".
Juscelino Kubitschek - Discurso na inauguração de Brasília

São as favelosts. Apelido dado ao maior fenômeno urbano de todos os tempos, grandes aglomerações de habitação e ocupação confusa entre as megacidades (superguetos de capitalismo exacerbado na cidade terra). (...) Favelost. Não é uma favela de periferia standard, nada disso, muito além disso. (...) Em favelost não tem rua, nem avenida. É tudo alameda medieval, estreita conexão de quarteirões. Não tem carro em favelost. Só motocicleta e o metrô de popa. Metrô improvisado com barcos vindos da região dos lagos adaptados aos trilhos com um motor que senta a popa quinze pessoas em cada embarcação.(...) Serra pelada. Caixa de pandora. Arca de Noé. Faroeste barroco, favelost. Super quintal de próteses. A nova franquia social da cidade Terra. A tal, terceira bola girando em volta do forno solar.



Fausto Fawcett - Favelost







<!--[if !vml]--><!--[endif]-->E a cidade se apresenta

Centro das ambições

Para mendigos ou ricos

E outras armações

Coletivos, automóveis,

Motos e metrôs

Trabalhadores, patrões,

Policiais, camelôs



<!--[if !vml]--><!--[endif]-->A cidade não pára

A cidade só cresce

O de cima sobe

E o de baixo desce

A cidade não pára

A cidade só cresce

O de cima sobe

E o de baixo desce



Chico Science - A Cidade



tô com deus sou herói,

sem carteira assinada profissão motoboy,

tudo de ruim já sumiu da minha lista,

chamo no grau detono na pista,

também sou artista,

versão brasileira do motoboy paulista.

(...)

Eu levo sua pizza,entrego sua mensagem,

percorro em um segundo os quatro cantos da cidade,

observe com atenção que você vai perceber

sou cenário da cidade que não para de crescer

Marcelo Veronez - A poesia dos motoboys








fissão do moderno X contemporâneo



<!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]-->A contemporaneidade é o corta-caminho existencial que o ser humano pós-humano, pós super homem, pós-subhumano arranjou para fugir da encruzilhada da modernidade e seu pessimismo suicida. Uma encruzilhada sem saída como 4 becos sem saída, como uma cruz com toda a carga do pensamento cristão.






<!--[endif]-->
<!--[if !vml]--><!--[endif]-->

A contemporaneidade é um motoboy cortando rápido a avenida por entre os carros parados no engarrafamento da agonia moderna do apocalipse tecnológico do aquecimento global do terrorismo ecofacista.
Quem faz o trânsito não é nóis, nóis custura!!!
A cidade é um organismo vivo. É uma ferida incrustada na crosta terrestre, mano!!!
A crítica à modernidade perpassa por um debate sobre o retorno do teológico-político, embora o político tenha surgido justamente da separação do fazer crítico de qualquer religação divina-mágica-transcendente absoluta. A descredibilização do papel político por campanhas midiáticas, do rádio ao facebook, leva a um estado de crença. Acredita-se ou não em determinado político, assina-se ou não um abaixo-assinado com o pensamento escorado pelo gosto. Estética-estática. Cola-se um adesivo na janela do carro e ok. É a crítica à falta de embate crítico. O que é único da contemporaneidade é a possibilidade de re-significação de lógicas dialéticas ancestrais no que chamaríamos de mobilidade de sistemas. O pensamento contemporâneo tem a dinâmica de um corpo em estado físico indefinido, que ora se solidifica e em seguida se liquefaz novamente. Como uma massa de tapioca. Um biólogo ou um cientista social se parecem muito mais com um artista que se parece muito mais ainda com um confeiteiro ou um publicitário que também se parece muito com um astrólogo.










<!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]-->


A contemporaneidade lida com a história como Ouroboros, uma serpente que come a própria cauda, é o atropelamento engavetamento de todas as eras da humanidade juntas e misturadas. Cooperação quântica alquímica. No caldo do hoje, o primitivo, o gótico ou o barroco estão tão presentes quanto o moderno, o tempo foi liberto das amarras da linearidade e pulverizado em forma de galáxia. Talvez, para nós, indivíduos comportados de uma classe letrada, formados por uma persistência das ferramentas do pensamento moderno, que não arredam o pé das academias, talvez para nós a contemporaneidade ainda se pareça com algo que pode ser chamado de pós-moderno. Mas, se nos desviarmos um pouco do nosso confortável metiê pós-graduado, perceberemos que nas ruas, para a maioria das pessoas, o universo mágico religioso de culturas orais arcaicas tribais está tão presente em seu cotidiano quanto qualquer teoria da Escola de Frankfurt.
O desejo moderno de onipotência sobre toda a cultura e toda a história foi a máquina que mais destruiu templos, valores e imagens do passado, para criar o templo hegemônico global que tem como deus o trabalho, como grande poder criador o dinheiro, e como prática religiosa a ciência e tecnologia.
Então, se por um lado, a maioria dos seres humanos nunca teve um contato direto com os conceitos determinantes da modernidade, por outro lado sabemos que através de uma absorção diluída e pulverizada desses, quase todos se curvaram à santíssima trindade moderna do trabalho pai, tecnologia filho e dinheiro espírito santo. Mas a grande carta na manga da humanidade, que permitiu a virada do jogo e a fuga da encruzilhada moderna, foi que o trabalho, a tecnologia e o dinheiro começaram a dar sinais de falência antes de se completar a catequese total da humanidade. Ou seja, a vida ainda cresce, se multiplica e se diversifica mais rápido que a capacidade de captura e adestramento do aparelho moderno capitalista. E então, quando em meados do século XX, a modernidade começa a perceber que vazamentos, glitches e bugs são muito maiores que sua capacidade de orquestração e controle, ela deixa de ditar as regras e começa a correr atrás da humanidade, tic tac, tic tac, tic tac, construindo um discurso baseado na idéia de que um matrix ciborg teria capacidade infinita de assimilar tudo que é externo a ele, de reverter todas as forças contrárias a seu favor. Mas isso cria uma espécie de doença auto-imune no sistema, uma obesidade mórbida que acaba por inchá-lo de tal forma que se torna insustentável. E do meio desse tumor começam a brotar linhas e novos espaços salutares, por onde saltam os motoboys da selvageria pós-sub-humana!



O moderno teve a pretenção de ser pra sempre. Mas como já disse o poeta o pra sempre sempre acaba. Ou como diz a Mamãe Coruja, pra sempre é muito muito tempo e o tempo tem seu jeito de mudar as coisas.
Com o distanciamento que vamos tomando do século XX, percebemos que a contemporaneidade é um caldeirão de multitudes onde o moderno com todo seu elenco é apenas mais um ingrediente da sopa e não o caldo que costura tudo. Ele já passou, mas reluta-se nos círculos dialético-sofismais, quando na verdade estamos falando de sistemas autopoiéticos. Se o moderno teve como meta a destruição e a desconstrução do passado, o contemporâneo tem como prática a reciclagem, a reapropriação, a reocupação de todo o passado, presente e futuro. É comum ver o duelo "indivíduo x coletivo" em arenas intelectivas, embora a real oposição da multitude ou das multiplicidades seja o povo massificado.


Da situação artística urbana – um ensaio geral
A arte da contemporaneidade deve habitar a urbe de forma camuflada, ser ambígua no espaço da correria, corredor. O outdoor, artístico ou publicitário, está num lugar de contemplação que não captura mais, é como a extensão de um museu de antiguidades das últimas novidades, não desloca o olhar, é o esperado, a atualização constante tal qual o outdoor deva propor. A intervenção artística deve estar em outro lugar. Deve surpreender, pegar o público de calça arriada, envolver.
O outdoor e toda a cultura do espetáculo com grandes esculturas coloridas, luminosas, etc, se coloca do lado de fora, em um campo virtual, pois não divide nem compartilha o espaço urbano com o coletivo público de passantes que a observam. Na verdade o espetáculo acaba por excluir qualquer possibilidade de observação, contato, reflexão: recreação e introspecção; promove nos espectadores uma rápida, indolor, ascética e superficial conexão que pretende injetar uma informação simples e imperativa no inconsciente coletivo, como a picada de um veneno homeopático que aos poucos vai impregnando todo o organismo e todo o imaginário humano. Em geral essa informação se resume a:



- COMPRE!

- TER É PODER!

Por este distanciamento redirecionador, o espetáculo se caracteriza pela cultura da telecomunicação, que está sempre além dos indivíduos que a consomem, intocável como fetiche máximo baseado na promessa de um gozo infinito. Esta é a imagem fundamental de toda a publicidade, pessoas sempre felizes, limpas, saudáveis, sorridentes e retocadas com clone stampo ou healing brush da última versão do editor de imagens-luxo; uma vida perfeita proporcionada pelo poder de posse de objetos de consumo. Desta forma o espetáculo serve a economia megaindustrial como um promotor de dispositivos telecomunicativos que afastam os indivíduos uns dos outros e do espaço comum, embrulhando cada ser humano em uma bolha de segurança, em uma cabine telefônica, com várias opções de cores e motivos, com direito à crítica especializada.
O ideal ascético e o aparelho mega industrial esterilizaram e mecanizaram, programando dentro de um sistema complexo de códigos disciplinares, todas as relações entre os indivíduos. O resultado é uma vida social que tende à total intermediação de aparelhos telecomunicativos. O sistema econômico quer que toda a relação entre um indivíduo e outro se dê através de um aparelho telecomunicativo. Na transversal da telecomunicação a intervenção artística propõe o espaço envolvente, oferecendo ao indivíduo o toque e o acolhimento, e se possível a sensação festiva de estar entre amigos. O espaço envolvente deve ser um espaço experimental e lúdico, e deve necessariamente, mesmo que por um curto período de tempo, transportar as pessoas para um outro contexto, algo como a descoberta das Américas e seus povos bárbaros.
Podemos pensar também no espaço envolvente como um primeiro ato, um caminho para esta viagem, este deslocamento. Um portal quadridimensional. Pode ser como uma armadilha sem dor, uma arapuca atraente o bastante para capturar os seres humanos e se transformar numa nave e levá-los a lugares insólitos, livres, quem sabe, das redes de marionetes eletromagnéticas.
O atalho possível proposto pelas manifestações atuais de arte em espaços públicos é o da re-sensibilização, de re-socialização desses espaços e dos indivíduos e coletivos que habitam e transitam por esses espaços. As práticas de mercado transformam o espaço urbano em espaço de comércio cada vez mais loteado, cercado, murado, patrimonializado, estratificado, standartizado. Se queremos enxergar auras na contemporaneidade não precisaremos medir o número de retweets ou views do YouTube, tampouco o volume da tiragem, muito menos ver e atualizar clippings de mídia. Ela, se existe, é presentificada na afetabilidade que experiências relacionais promovem a quem quiser cooperar e inserir-se em dinâmicas sociais atípicas num espaço escolhido, sitespecificado ou não, onde há a dimensão poética destas trocas.
A multitude requer um pacto e, assim, a aura da praça é nossa.




<!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]--><!--[if !vml]--><!--[endif]-->


<!--[if !supportLineBreakNewLine]-->

<!--[endif]-->






A intervenção artística no espaço urbano deve promover uma re-significação desse espaço como espaço público, do público e para o público, deve funcionar como uma força descompartimentadora de espaços, uma ação que busque a horizontalidade social desses espaços. Dessa forma, as experiências mais contundentes e com potencial de transformação e deslocamento de pontos de vista, tanto no plano individual como na esfera social, são aquelas que promovem o contato direto, corporal, interativo, integrativo com o outro que pode ser tanto um indivíduo como um coletivo. Por isso é fundamental distinguirmos a escultura monumental da intervenção artística, pois enquanto a primeira se dirige as massas, com um discurso concluído, que só emite, não absorve nem reflete, geralmente baseado em conceitos de beleza e impacto visual na paisagem; a segunda se dirige ao seu semelhante no intuito de construir, junto com o outro que a vivencia, um diálogo que deve necessariamente se manter aberto. O receptor está no mesmo nível do emissor e por isso essas posições se tornam intercambiáveis. A intervenção deve ser aberta a interação, é permeável e por isso se constrói no processo de contato e contágio com o público, não começa nem conclui, se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser. A intervenção artística em espaços públicos funciona como um mapa 1:1 desses espaços. Um mapa aberto, conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente; pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Sua relação com o território é construída no momento do ato, a partir dos nossos desejos. Um mapa que possa separar o conceito de espaço dos mecanismos de controle, que invente para nós uma cartografia da autonomia.

Ophelia Patrício Arrabal – oparrabal@gmail.com

<!--[if !supportLineBreakNewLine]-->

<!--[endif]-->

Postado por OPAVIVARÁ! às 21:47 1 moitaradas
rede 2010, autopoiesis, multitude, opavivará, ophelia patricio arrabal, pensamento sistêmico, plurimulti, teoria crítica







Postado por OPAVIVARÁ! às 02:00 0 moitaradas


performance GALERIA CAMELÔ

Artistas Convidados: Alexandre Vogler, Bob N, Ducha, Ernesto Neto, Giordani Maia, Guga Ferraz, Guilherme Zarvos, Heleno Bernardi, Hora do Brasil, Luiz Fernando Sampaio, Marssares, Mauricio Ruiz, Opavivará, Ronald Duarte, Roosivelt Pinheiro, Rosana Palazyan, Suely Farhi e Xico Chaves.
Dia 23 de abril

das 19:00 às 22:30 horas

Espaço Cultural Sérgio Porto, galeria do segundo piso

Rua Humaitá, 163. Rio de Janeiro

tel.: (21) 2266-0896‎





Postado por OPAVIVARÁ! às 01:58 0 moitaradas
rede aimberê cesar, camelô, eu ♥ camelô, opaivará, photochoque, rio na rua


EU ♥ CAMELÔ @ COQUEIRÃO 10/01/10
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


Postado por OPAVIVARÁ! às 11:49 0 moitaradas rede cadeirão, caldeirão, coqueirão, eu ♥ camelô, opavivará, verá, verão

EU ♥ CAMELÔ, por Ophélia Patrício Arrabal


EU ♥ CAMELÔ
Ambulante, aquele que anda, que não permanece no mesmo lugar; que vai de terra em terra, ou de rua em rua; ambulativo, errante, erradio. Camelô, mercador que vende suas mercadorias nas ruas, geralmente nas calçadas ou nas praças, ou em cidades como o Rio de Janeiro, nas areias da praia. Ambulantes ou camelôs trafegam a pé pela paisagem da cidade, deambulam com seus multi-múltiplos, com seus gritos e suas gingas, criando uma teia de comércio e comunicação informal nos espaços públicos da cidade. João do Rio dizia que o flaneur tem sempre um milhão de coisas imprescindíveis a fazer que podem ser eternamente adiadas. O camelô não. O camelô é errante porque seu destino é onipresente. Eles estão onde quer que exista quem os queira. Os ambulantes são os flaneurs da objetividade. Gritos, promoções, parábolas, repentes, digressões, rimas e cantos impulsionam seus produtos para mais longe, para onde os pés não podem alcançar. A informalidade e o improviso fazem a liga destas relações fugazes que se estabelecem com estes lojistas, que como caracóis, carregam suas lojas nas costas.
Nestes tempos de choque de ordem, de cerceamento da liberdade ambulante e criminalização do comércio informal, o OPAVIVARÁ! Lança a campanha EU ♥ CAMELÔ e bota lenha na fogueira da discussão, exaltando este devir-camelô que se esgueira no asfalto ou nas areias escaldantes, fugindo e apanhando da lei enquanto refresca a sede do PM, do gringo e do playboy. Este devir-camelô é a cidade pulsando sua vontade de contato, sua fome existencial que deságua no consumo. Ser camelô é uma atividade democrática e solidária. Em uma sociedade submersa na cultura do consumo, o comerciante informal tem o seu lugar como agente pulverizador da cultura, impulsionando, diversificando e ampliando a veiculação de produtos, objetos e informações; levando as novidades da última moda para um público muito mais extenso e horizontal.
Na atual discussão em torno das proibições sobre o comércio ambulante, o camelô incorpora uma das figuras centrais de nossa eterna luta de classes que, no Rio de Janeiro com suas especificidades históricas e geográficas, acabou por moldar uma cidade que se constrói e se destrói ao mesmo tempo sob a dialética do morro e do asfalto. É a geografia natural, orgânica e generosa das montanhas, praias e lagoas que resiste ao urbanismo cartesiano, moderno e disciplinar das avenidas, aterros e esplanadas. É a memória do Morro do Castelo a ecoar na Avenida Central, são os fantasmas da Praia do Pinto assombrando os apartamentos da Selva de Pedra. É a favela se infiltrando por entre as grades do condomínio. É o improviso e a gambiarra de um comércio corporal e humano que atravessa os cartéis dos conglomerados industriais.
Marc Ferrez fotografou vendedores ambulantes do Rio de Janeiro durante os últimos anos do século XIX, pouco antes das reformas modernizadoras, a la mode de Paris, do governo Pereira Passos. Ferrez documentou todas as transformações da paisagem carioca com um olhar tão atento ao passado que era demolido como para o futuro que se construía. Os ambulantes retratados por ele também ajudam a compor esta paisagem que se perdeu no tempo. Hoje, um Rio de Janeiro pré-olímpico, se vê novamente obcecado por uma faxina modernizadora, que busca soluções rápidas e alegóricas para se eliminar ruídos na paisagem. No início do século XX, um dos principais argumentos para a derrubada dos morros do centro da cidade, era de caráter higienista, diziam que os morros impediam a circulação de ar na cidade ajudando na proliferação de doenças como a tuberculose. Hoje, os higienistas vão às praias para dizer que os produtos e métodos de venda empregados pelos ambulantes representam riscos à saúde dos cidadãos. E assim, as políticas públicas, movidas por este espírito ascético, vão abrindo caminho para indústrias multinacionais, roubando o espaço de expressões populares, autênticas e tradicionais de nossa cultura. Nesse jogo de forças, o camelô se impõe como uma intervenção anárquica na cidade ordenada que o estado pretende, como personagem central da resistência, orgânica, rizomática, corporal e sensível da cultura popular carioca.
É pensando a exposição como uma intervenção no Shopping da Gávea que o OPAVIVARÁ! transforma a galeria em um satélite da praia e um QG de campanha. Os produtos ofertados, surgidos da intensa relação com o espaço democrático da praia, misturam design industrial com gambiarra artesanal e não são objetos distantes do público. Como na banca de um camelô, aqui tudo pode ser tocado, experimentado, sentido e, claro, comprado. As cadeiras de praia coletivas e o galão de mate com múltiplas bicas, mantêm ativos os caminhos de ambientes relacionais do grupo. A ambientação sonora funciona como dispositivo atmosférico que transforma a galeria em camelódromo auditivo, e se materializa também em CDs piratas, ou simplesmente caseiros, para se ouvir aonde quiser. Os retratos de vendedores ambulantes da praia de Ipanema, aqui não são apenas registro histórico-antropológico, são cartões postais de uma cidade que vive no limite da ilegalidade e na fragilidade de sua imagem. Tudo está a venda, em oferta, “na promoção”, com obras de arte a 1 real para não serem reféns do universo restrito do mercado de arte. Obras de arte para circular, como devem circular livremente as mercadorias de um camelô.

Ophélia Patrício Arrabal









Postado por OPAVIVARÁ! às 11:38 0 moitaradas
rede ambulantes, arte contemporânea, choque, eu ♥ camelô, marc ferrez, mercador, opavivará, verá, verão
FAIXA DE AREIA
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Faixa de Areia - OPAVIVARÁ! - EU ♥ CAMELÔ by OPAVIVARÁ!
Postado por OPAVIVARÁ! às 17:37 0 moitaradas
rede arte sonora, barracas, cadeiras, comércio popular, eu ♥ camelô, faixa de areia, opavivará, paisagem sonora, praia, soundscape
EU ♥ CAMELÔ
OPAVIVARÁ @ Galeria Toulouse
15/12/2009



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
O coletivo de arte Opavivará! contamina a assepsia do Shopping da Gávea com a organicidade do camelô. A galeria Toulouse recebe a proposta do grupo abrindo as portas para o lançamento da campanha EU ♥ CAMELÔ.
Nela, o OPAVIVARÁ! mostra todo o seu carinho pela relação da praia com os vendedores ambulantes. Postais que têm os próprios camelôs como retrato da cidade, cadeiras de praia coletivas e um galão de mate com múltiplas torneiras ocupam o espaço da galeria. Além disso, o grupo lança também o projeto sonoro Faixa de Areia, onde os sons praia são transpostos para o espaço do shopping, gerando um conflito entre o negócio legalizado das lojas em ambientes fechados e a circulação livre, a céu aberto, porém marginalizada, dos camelôs.
Em tempos do photochoque de ordem da prefeitura, EU ♥ CAMELÔ é uma campanha por um Rio de Janeiro mais ambulante e orgânico. Por isso a exposição também sai da galeria e invade a praia em ações que se realização durante o período da exposição nas areias do posto 9.
Contamos com a presença de todos!!!
Postado por OPAVIVARÁ! às 14:10 1 moitaradas

rede eu ♥ camelô, galeria toulouse, opavivará





























































































gozashisa @ Novembro Arte Contemporânea

Coletiva de performances

Curadoria André Sheik & Chico Fernandes

28.04.2009



Postado por OPAVIVARÁ! às 16:10 0 moitaradas



rede ação, gozashisha, novembro, opavivará, performance





Postagens mais antigas _no correio

opavivara@gmail.com

_no vídeo









powered by







_no arquivo

► 08 (15)

► Jan (10)

NA MOITA

PROJETO NA MOITA

PESQUISA MOITA

NA MOITA NO RIO DE JANEIRO

NA MOITA EM SÃO PAULO

DENTRO DA MOITA

AINDA NA MOITA

SALADA MISTA @ ESTÚDIO 260

COZINHA COLETIVA
ASSOCIADOS
ESPAÇO ORLÂNDIA

GOZASHISHA @ INTERMEDIÆ @ MATADERO MADRID

► Fev (2)

¡LÁIVE QUESTE LINQUES!

REUNIÃO DE COLETIVOS DO QG DO GIA - PROCEDIMENTOS ...

► Mai (1)

AEROPOIESIS

► Jul (1)

Moitará >> GrupoUM + Opavivará!

► Out (1)

CEP DE MAIOR! 18 ANOS

► 09 (7)

► Mar (1)

Gozashisha @ II Bienal Anual de Búzios

► Mai (1)

desempenho_acontecimento_ação

► Jun (1)

PULANDO A CERCA!

► Ago (2)

PULACERCA @ Viradão Cultural RJ

Celebração 1 ano Moitará @ Barracão Maravilha

► Nov (1)

Jogos de Escuta/ Encontro 2: Enunciação e Escuta

► Dez (1)

EU ♥ CAMELÔ
OPAVIVARÁ @ Galeria Toulouse
15/12...

▼ 10 (15)

► Jan (4)

FAIXA DE AREIA

EU ♥ CAMELÔ, por Ophélia Patrício Arrabal

EU ♥ CAMELÔ @ COQUEIRÃO 10/01/10

COLORBAR @ SESC ARTE 24H

► Mar (2)

Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem no...

Com Afeto, Rio

► Abr (2)

RIO NA RUA

Transporte: Coletivo @ Viradão Carioca 2010

► Ago (1)

Atalho contemporâneo na avenida moderna ou a críti...

► Set (3)

MOITARÁ DEAMBULANTE @ SPA DAS ARTES

Conectude. Um Painel descontrole, por Ophelia Patr...

ABOTOADOS PELA MANGA

▼ Out (3)

OPAVIVARÁ! no Spa das artes, Recife, Pe.

Gororópera com Letuce e 7 Novos no Espaço Tom Jobi...

OPAVIVARÁ! no Encontros contemporâneos da arte, MA...

Rede





Aclimatação: Utopia, Distopia.

Seu é a sua, nosso. A praça é nossa. A rua é nossa. A pátria é nossa. A pátria é a nossa mátria. A cidade é nossa. Praça de alimentação. O urbano como espaço. O indivíduo é formado pelo coletivo, o coletivo pelo indivíduo. O urbano é coletivo, transporte coletivo, atalho para a rua, as máquinas são formas de vida, a intervenção artística como um deslocamento do olhar, da relação dos indivíduos com o coletivo e o espaço urbano, um desvio, um atalho para outros modos de ocupação da cidade, para outros modos de relação com o espaço público. A aura é nossa. A praça com grades é patrimônio x MATRIMÔNIO, botar o bloco na rua. A modernidade criou cidades duras, pensou cidades-máquina, quis cidades concretas imortais, mas as margens do rio, degradadas, desmatadas, desbarrancadas, desgarradas invadem o próprio rio

assoreando o leito sufocando a correnteza:





o rio é rua



o tempo é um rio,



cidade inundada



enchente de gente





O determinismo cartesiano e militar da engenharia e do urbanismo moderno

passou suas máquinas esplainadoras sobre a natureza irregular e irrigada do terreno carioca. Criando assim grades de asfalto e concreto sobre rios, canais, lagoas, mangues, charcos, enseadas. Mas a água vai se infiltrando sob a cidade invadindo os esgotos, devorando as ruas.



Brasília é a cidade inexistida que precisou ser inventada.





Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai a vossos filhos o que está sendo feito agora. É, sobretudo para eles, que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.



Juscelino Kubitschek - Discurso na inauguração de Brasília





São as favelosts. Apelido dado ao maior fenômeno urbano de todos os tempos, grandes aglomerações de habitação e ocupação confusa entre as megacidades (superguetos de capitalismo exacerbado na cidade terra). (...) Favelost. Não é uma favela de periferia standard, nada disso, muito além disso. (...) Em favelost não tem rua, nem avenida. É tudo alameda medieval, estreita conexão de quarteirões. Não tem carro em favelost. Só motocicleta e o metrô de popa. Metrô improvisado com barcos vindos da região dos lagos adaptados aos trilhos com um motor que senta a popa quinze pessoas em cada embarcação.(...) Serra pelada. Caixa de pandora. Arca de Noé. Faroeste barroco, favelost. Super quintal de próteses. A nova franquia social da cidade Terra. A tal, terceira bola girando em volta do forno solar.



Fausto Fawcett - Favelost



E a cidade se apresenta

Centro das ambições

Para mendigos ou ricos

E outras armações

Coletivos, automóveis,

Motos e metrôs

Trabalhadores, patrões,

Policiais, camelôs



A cidade não pára

A cidade só cresce

O de cima sobe

E o de baixo desce

A cidade não pára

A cidade só cresce

O de cima sobe

E o de baixo desce



Chico Science - A Cidade



tô com deus sou herói,

sem carteira assinada profissão motoboy,

tudo de ruim já sumiu da minha lista,

chamo no grau detono na pista,

também sou artista,

versão brasileira do motoboy paulista.

(...)

Eu levo sua pizza,entrego sua mensagem,

percorro em um segundo os quatro cantos da cidade,

observe com atenção que você vai perceber

sou cenário da cidade que não para de crescer

Marcelo Veronez - A poesia dos motoboys










fissão do moderno X contemporâneo



A contemporaneidade é o corta-caminho existencial que o ser humano pós-humano, pós super homem, pós-subhumano arranjou para fugir da encruzilhada da modernidade e seu pessimismo suicida. Uma encruzilhada sem saída como 4 becos sem saída, como uma cruz com toda a carga do pensamento cristão.













A contemporaneidade é um motoboy cortando rápido a avenida por entre os carros parados no engarrafamento da agonia moderna do apocalipse tecnológico do aquecimento global do terrorismo ecofacista.



- Quem faz o trânsito não é nóis, nóis custura!!!

- A cidade é um organismo vivo. É uma ferida incrustada na crosta terrestre, mano!!!



A crítica à modernidade perpassa por um debate sobre o retorno do teológico-político, embora o político tenha surgido justamente da separação do fazer crítico de qualquer religação divina-mágica-transcendente absoluta. A descredibilização do papel político por campanhas midiáticas, do rádio ao facebook, leva a um estado de crença. Acredita-se ou não em determinado político, assina-se ou não um abaixo-assinado com o pensamento escorado pelo gosto. Estética-estática. Cola-se um adesivo na janela do carro e ok. É a crítica à falta de embate crítico. O que é único da contemporaneidade é a possibilidade de re-significação de lógicas dialéticas ancestrais no que chamaríamos de mobilidade de sistemas. O pensamento contemporâneo tem a dinâmica de um corpo em estado físico indefinido, que ora se solidifica e em seguida se liquefaz novamente. Como uma massa de tapioca. Um biólogo ou um cientista social se parecem muito mais com um artista que se parece muito mais ainda com um confeiteiro ou um publicitário que também se parece muito com um astrólogo.





A contemporaneidade lida com a história como Ouroboros, uma serpente que come a própria cauda, é o atropelamento engavetamento de todas as eras da humanidade juntas e misturadas. Cooperação quântica alquímica. No caldo do hoje, o primitivo, o gótico ou o barroco estão tão presentes quanto o moderno, o tempo foi liberto das amarras da linearidade e pulverizado em forma de galáxia. Talvez, para nós, indivíduos comportados de uma classe letrada, formados por uma persistência das ferramentas do pensamento moderno, que não arredam o pé das academias, talvez para nós a contemporaneidade ainda se pareça com algo que pode ser chamado de pós-moderno. Mas, se nos desviarmos um pouco do nosso confortável metiê pós-graduado, perceberemos que nas ruas, para a maioria das pessoas, o universo mágico religioso de culturas orais arcaicas tribais está tão presente em seu cotidiano quanto qualquer teoria da Escola de Frankfurt.



O desejo moderno de onipotência sobre toda a cultura e toda a história foi a máquina que mais destruiu templos, valores e imagens do passado, para criar o templo hegemônico global que tem como deus o trabalho, como grande poder criador o dinheiro, e como prática religiosa a ciência e tecnologia.



Então, se por um lado, a maioria dos seres humanos nunca teve um contato direto com os conceitos determinantes da modernidade, por outro lado sabemos que através de uma absorção diluída e pulverizada desses, quase todos se curvaram à santíssima trindade moderna do trabalho pai, tecnologia filho e dinheiro espírito santo. Mas a grande carta na manga da humanidade, que permitiu a virada do jogo e a fuga da encruzilhada moderna, foi que o trabalho, a tecnologia e o dinheiro começaram a dar sinais de falência antes de se completar a catequese total da humanidade. Ou seja, a vida ainda cresce, se multiplica e se diversifica mais rápido que a capacidade de captura e adestramento do aparelho moderno capitalista. E então, quando em meados do século XX, a modernidade começa a perceber que vazamentos, glitches e bugs são muito maiores que sua capacidade de orquestração e controle, ela deixa de ditar as regras e começa a correr atrás da humanidade, tic tac, tic tac, tic tac, construindo um discurso baseado na idéia de que um matrix ciborg teria capacidade infinita de assimilar tudo que é externo a ele, de reverter todas as forças contrárias a seu favor. Mas isso cria uma espécie de doença auto-imune no sistema, uma obesidade mórbida que acaba por inchá-lo de tal forma que se torna insustentável. E do meio desse tumor começam a brotar linhas e novos espaços salutares, por onde saltam os motoboys da selvageria pós-sub-humana!



O moderno teve a pretenção de ser pra sempre. Mas como já disse o poeta o pra sempre sempre acaba. Ou como diz a Mamãe Coruja, pra sempre é muito muito tempo e o tempo tem seu jeito de mudar as coisas.



Com o distanciamento que vamos tomando do século XX, percebemos que a contemporaneidade é um caldeirão de multitudes onde o moderno com todo seu elenco é apenas mais um ingrediente da sopa e não o caldo que costura tudo. Ele já passou, mas reluta-se nos círculos dialético-sofismais, quando na verdade estamos falando de sistemas autopoiéticos. Se o moderno teve como meta a destruição e a desconstrução do passado, o contemporâneo tem como prática a reciclagem, a reapropriação, a reocupação de todo o passado, presente e futuro. É comum ver o duelo "indivíduo x coletivo" em arenas intelectivas, embora a real oposição da multitude ou das multiplicidades seja o povo massificado.



Da situação artística urbana – um ensaio geral



A arte da contemporaneidade deve habitar a urbe de forma camuflada, ser ambígua no espaço da correria, corredor. O outdoor, artístico ou publicitário, está num lugar de contemplação que não captura mais, é como a extensão de um museu de antiguidades das últimas novidades, não desloca o olhar, é o esperado, a atualização constante tal qual o outdoor deva propor. A intervenção artística deve estar em outro lugar. Deve surpreender, pegar o público de calça arriada, envolver.



O outdoor e toda a cultura do espetáculo com grandes esculturas coloridas, luminosas, etc, se coloca do lado de fora, em um campo virtual, pois não divide nem compartilha o espaço urbano com o coletivo público de passantes que a observam. Na verdade o espetáculo acaba por excluir qualquer possibilidade de observação, contato, reflexão: recreação e introspecção; promove nos espectadores uma rápida, indolor, ascética e superficial conexão que pretende injetar uma informação simples e imperativa no inconsciente coletivo, como a picada de um veneno homeopático que aos poucos vai impregnando todo o organismo e todo o imaginário humano. Em geral essa informação se resume a:



- COMPRE!



- TER É PODER!



Por este distanciamento redirecionador, o espetáculo se caracteriza pela cultura da telecomunicação, que está sempre além dos indivíduos que a consomem, intocável como fetiche máximo baseado na promessa de um gozo infinito. Esta é a imagem fundamental de toda a publicidade, pessoas sempre felizes, limpas, saudáveis, sorridentes e retocadas com clone stampo ou healing brush da última versão do editor de imagens-luxo; uma vida perfeita proporcionada pelo poder de posse de objetos de consumo. Desta forma o espetáculo serve a economia megaindustrial como um promotor de dispositivos telecomunicativos que afastam os indivíduos uns dos outros e do espaço comum, embrulhando cada ser humano em uma bolha de segurança, em uma cabine telefônica, com várias opções de cores e motivos, com direito à crítica especializada.



O ideal ascético e o aparelho mega industrial esterilizaram e mecanizaram, programando dentro de um sistema complexo de códigos disciplinares, todas as relações entre os indivíduos. O resultado é uma vida social que tende à total intermediação de aparelhos telecomunicativos. O sistema econômico quer que toda a relação entre um indivíduo e outro se dê através de um aparelho telecomunicativo. Na transversal da telecomunicação a intervenção artística propõe o espaço envolvente, oferecendo ao indivíduo o toque e o acolhimento, e se possível a sensação festiva de estar entre amigos. O espaço envolvente deve ser um espaço experimental e lúdico, e deve necessariamente, mesmo que por um curto período de tempo, transportar as pessoas para um outro contexto, algo como a descoberta das Américas e seus povos bárbaros.



Podemos pensar também no espaço envolvente como um primeiro ato, um caminho para esta viagem, este deslocamento. Um portal quadridimensional. Pode ser como uma armadilha sem dor, uma arapuca atraente o bastante para capturar os seres humanos e se transformar numa nave e levá-los a lugares insólitos, livres, quem sabe, das redes de marionetes eletromagnéticas.



O atalho possível proposto pelas manifestações atuais de arte em espaços públicos é o da re-sensibilização, de re-socialização desses espaços e dos indivíduos e coletivos que habitam e transitam por esses espaços. As práticas de mercado transformam o espaço urbano em espaço de comércio cada vez mais loteado, cercado, murado, patrimonializado, estratificado, standartizado. Se queremos enxergar auras na contemporaneidade não precisaremos medir o número de retweets ou views do YouTube, tampouco o volume da tiragem, muito menos ver e atualizar clippings de mídia. Ela, se existe, é presentificada na afetabilidade que experiências relacionais promovem a quem quiser cooperar e inserir-se em dinâmicas sociais atípicas num espaço escolhido, sitespecificado ou não, onde há a dimensão poética destas trocas.



A multitude requer um pacto e, assim, a aura da praça é nossa.







A intervenção artística no espaço urbano deve promover uma re-significação desse espaço como espaço público, do público e para o público, deve funcionar como uma força descompartimentadora de espaços, uma ação que busque a horizontalidade social desses espaços. Dessa forma, as experiências mais contundentes e com potencial de transformação e deslocamento de pontos de vista, tanto no plano individual como na esfera social, são aquelas que promovem o contato direto, corporal, interativo, integrativo com o outro que pode ser tanto um indivíduo como um coletivo. Por isso é fundamental distinguirmos a escultura monumental da intervenção artística, pois enquanto a primeira se dirige as massas, com um discurso concluído, que só emite, não absorve nem reflete, geralmente baseado em conceitos de beleza e impacto visual na paisagem; a segunda se dirige ao seu semelhante no intuito de construir, junto com o outro que a vivencia, um diálogo que deve necessariamente se manter aberto. O receptor está no mesmo nível do emissor e por isso essas posições se tornam intercambiáveis. A intervenção deve ser aberta a interação, é permeável e por isso se constrói no processo de contato e contágio com o público, não começa nem conclui, se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser. A intervenção artística em espaços públicos funciona como um mapa 1:1 desses espaços. Um mapa aberto, conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente; pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Sua relação com o território é construída no momento do ato, a partir dos nossos desejos. Um mapa que possa separar o conceito de espaço dos mecanismos de controle, que invente para nós uma cartografia da autonomia.



Ophelia Patrício Arrabal – oparrabal@gmail.com







Postado por OPAVIVARÁ! às 21:47



rede 2010, autopoiesis, multitude, opavivará, ophelia patricio arrabal, pensamento sistêmico, plurimulti, teoria crítica

Nenhum comentário:

Postar um comentário