sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Mônica Mansur

 

<>
Monica Mansur


Monica Mansur Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Quando se emerge no mundo artístico de Monica, percebe-se o seu preparo acadêmico (como pode ser percebido no texto da própria artista ao fim da publicação), a sua impressionante capacidade de trabalho e a profundidade conceitual de sua obra. Ainda jovem, ela é, também, uma veterana com mais de vinte anos de carreira com grande número de exposições. Com alegria o blog oferece aos leitores a oportunidade de conhecer o pensamento e a trajetória de Monica Mansur.

Nós gostaríamos de saber algo sobre você.
Bem, eu nasci aqui mesmo, no Rio de Janeiro, e morei toda a minha infância e adolescência em frente à praia de Copacabana. Meu pai é engenheiro civil – e meu único irmão também, assim como meu avô – o que influenciou minha entrada na faculdade de arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, provavelmente. Minha mãe fez Letras na PUC, mas só foi trabalhar mais velha, quando resolveu que não queria mais ser madame, aí virou empresária: abriu a primeira fábrica e loja de alimentos prontos congelados do Rio.Eu me casei muito cedo, com dezenove anos, ainda no início da faculdade. Ainda estou casada, minhas duas filhas tem 32 e 27 anos. E ninguém trabalha com arte, ou mesmo arquitetura!!!

Como foi a decisão de tornar-se artista? Qual foi a posição da família?
Mesmo fazendo Arquitetura, no Fundão, as duas faculdades, a FAU e a Belas Artes, funcionavam no mesmo prédio (ainda estão juntas), então eu freqüentava oficinas e assistia aulas como ouvinte na EBA, porque, como quase todo mundo, gostava de desenhar e pintar quando criança. Mas era sem pretensões, fazia porque gostava. Até que, casada, com uma filha (ela nasceu antes de me formar) e trabalhando em escritório de arquitetura, não deu mais tempo.
Quando me formei, abriu uma brecha de tempo, fui fazer umas aulas na EAV/Parque Lage, isto em 1981, e nunca mais larguei. Ainda trabalhando com Arquitetura, fiz um monte de cursos, freqüentei ateliers de pintores, entrei nos cursos de gravura – que vieram a ser a minha media predileta – estudei muito e comecei a produzir. O pulo aconteceu em 1989, quando meu marido, que é médico, disse pra mim que eu não precisava mais trabalhar com arquitetura se não quisesse. Se o que eu queria fazer da minha vida era arte, então que eu largasse tudo e mergulhasse fundo. E foi isto que eu fiz...

Qual foi sua formação em Arte?
Como mencionei, freqüentei a EAV do Parque Lage durante alguns anos, oficinas e cursos teóricos e comecei gravura lá, com o José Lima. Com ele, aprendi tudo que sei sobre gravura em metal, porque fui trabalhar no atelier dele, no morro da saúde, e fiquei lá até ele morrer, de 1987 até 1992. Depois disto, quando já tinha algum currículo, salões e coletivas, entrei no curso de pós Graduação lato sensu em História da Arte e Arquitetura da PUC. Tomei mais gosto ainda pelos estudos teóricos e leitura de autores e críticos de arte mais recentes, e isto me fez entrar para o Programa de Pós Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obtive título de Mestre em 2000. Inclusive, minha tese de mestrado virou um livro, que publiquei em 2008.

Que artistas influenciaram sua formação?
Posso dizer que os gravadores brasileiros (cariocas, principalmente), influenciaram muito a minha formação. Claro que José Lima, um gravador importante porém esquecido e quase desconhecido, Tereza Miranda, Anna Letycia e quase todos desta geração que freqüentaram a oficina que John Friedlander ministrou no MAM em 1959; Anna Bella Geiger, Geraldo de Barros e, lógico, Oswaldo Goeldi, entre muitos outros. Acho que nós, artistas, estamos sempre em formação, a cada momento descobrimos algo novo, como tesouros secretos e nossos trabalhos estão sempre recebendo injeções, fazer arte é quase uma troca...

Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho é um percurso cheio de curvas, mas o que me fascina é a capacidade de uma imagem ser uma realidade em si. Por mais conhecida, repetida, estranha, descolada, natural ou não. No exato momento em que ela é colocada no mundo e vislumbrada pela primeira vez, ela é real, única e autônoma. Mas ao mesmo tempo é sonho e pensamento, e esta dicotomia é uma fonte inesgotável de material para se trabalhar.

Você tem cerca de 20 anos de carreira, quais foram os momentos mais importantes?
Nossa, momentos mais importantes são sempre aqueles que ainda vão acontecer, não é mesmo? Os que já aconteceram, foram todos importantes, pois o trabalho é um somatório, ou melhor, um acúmulo de tudo pelo qual passamos. Mas para ser mais prática, posso dizer que, quando eu entrei na seleção de 1989 dos Novíssimos do IBEU, me senti o máximo!!!

Os trabalhos com imagens de exames médicos são uma série ou uma linha de pesquisa permanente?
Esta é uma linha de pesquisa permanente, e segue o mesmo conceito da linha de pesquisa que desenvolvo já há um tempo com as fotografias pinhole. Pois ambas as linhas se revelaram na busca pela imagem em si, descolada do “real verdadeiro ou natural”, produzida pela máquina e não pela “mão original do artista”.

Como surgiu a idéia?
A idéia foi descoberta quando comecei a ver trabalhos que desenvolvi muito antes de saber que eles representavam uma idéia para uma linha de pesquisa. Olhando para eles, descobri de verdade que pra mim, hoje, arte está no mundo, na vida, não pode ser separada do que nós artistas vivemos. E a minha vida, meu olhar, meu cérebro estavam entremeados com aquelas imagens desde sempre. Ora, meu marido, com o qual convivo desde os 18 anos, é médico, quando nos casamos ele nem formado em medicina era!!! Acompanhei uma vida inteira de medicina trabalhando com diagnóstico por imagem. Até acredito que posso receitar, até diagnosticar uma doença, melhor do que muito médico por aí(rsrsrsrsrs)!!!! Brincadeirinha!!!

Você tem uma rotina de trabalho?
Tenho, e acho super importante! Eu vou para o atelier todos os dias, de manhã. E fico o dia inteiro, é de lá que saio quando tenho que ir a alguma reunião ou fazer um pagamento ou comprar alguma coisa. Posso não produzir todos os dias, mas leio, olho para trabalhos em andamento, trabalho no computador, tudo lá.

Além de artista, você é sócia de uma editora, como as duas atividades se adequam?
Bem, a editora foi criada para publicar meus projetos pessoais e os projetos desenvolvidos com a minha sócia, a Claudia Tavares. Foi um modo que encontramos de realizar nossos projetos e fazer nossa arte circular e dialogar com a produção de outros artistas sem depender muito de agentes externos.

Porque é tão difícil e caro publicar livro de arte em nosso meio?

Porque toda a produção é muito cara, culminando na impressão. São necessários muitos detalhes caros para que uma publicação seja de alta qualidade. Parece simples, principalmente na era digital, mas isto é um mito. As facilidades cibernéticas simplificaram os percursos, diminuíram o tempo, mas incluíram alguns procedimentos essenciais para garantir a qualidade do produto. E que, de uma certa forma, somaram-se aos que continuaram existindo. Outro ponto é que, por mais que o mercado editorial tenha crescido no país quando falamos de literatura, o público consumidor do livro de arte ainda é pequeno. Então, não se ganha dinheiro vendendo livro de arte, só se gasta, pois ele é caro demais. É claro que este cenário é o brasileiro. Quando viajamos percebemos como, nos EUA e na Europa, livro de arte é muito barato, comparativamente.

A mulher já tem o mesmo tratamento do homem no mercado de arte?
Gostaria de pensar que sim, mas percebo que, apesar de notar muito mais mulheres produzindo arte do que homens (aliás, tem mais mulheres fazendo de tudo...), também noto que os homens aparecem mais. Sei lá, posso estar enganada...

O que você pensa sobre os salões de arte?
Acho que eles são necessários para quem está começando. Talvez o formato convencional deva ser revisto, mas é uma forma do artista novo apresentar uma amostra da sua pesquisa – já que ninguém consegue ver um percurso olhando para três obras...O mais importante é que acho que artista já estabelecido não deveria mandar obras para salão por causa de prêmio, por mais que seja difícil ganhar a vida e se manter com arte. Ao mesmo tempo, artistas que estão no meio de suas trajetórias, como eu por exemplo – tenho 20 anos de trabalho – estamos num limbo: nem somos mais novidade a ser descoberta, nem somos ícones da história da arte brasileira. Tudo que podemos fazer é persistir, encontrar uma galeria, ficar trabalhando com ela e produzir os próprios projetos.

O que significa para o artista participar de uma Bienal?
Eu ainda sou de uma geração que acha a Bienal um prêmio para o trabalho duro. E hoje, sei lá, estes formatos viraram lobby e uma corrida na contra-mão. O artista é que corre atrás da inserção, de conhecer o curador, de circular e não o contrário.

Em que museu do mundo você gostaria de mostrar seu trabalho?
Eu gostaria de mostrar meu trabalho em qualquer museu de arte de Viena, no Museumsquartier ou no Albertina. É uma cidade genial, a arte é realmente apreciada e estudada, não é só showbiz.

Quais são seus planos para o futuro?

Continuar produzindo o meu trabalho, lançar os dois livros que estão agendados para este ano pela Binóculo e continuar a “catar sarna pra me coçar”! rsrsrs


Como você utiliza seu tempo livre?

Que tempo??!!!??




Traço Contemporâneo Paisagens Cristais.

Cubos de Cristais
Obsessão
Stigmata
Stigmata Exposição
Tomos
Paisagem Cristal

Paisagens Cristais (2007)



MONICA MANSUR
Paisagens Cristais
Refotografias


O conceito:
Trabalhar com a imagem construída através mediação da máquina, um “pseudo-real”. O resultado, uma “refotografia”, trata de uma paisagem invisível. Mas apresenta também uma imagem que é real em si.

Tal imagem é um real único, já que ela só existe como imagem, é impossível a olho nu. A colangeografia, a colonoscopia, a endoscopia, a tomografia, a ressonância magnética, a densitometria, todos exames médicos diagnósticos, resultam imagens inventadas do corpo humano, traduções imagéticas para uma paisagem invertida.

Meu trabalho lida com as possibilidades de real nas imagens mediadas: estas visões médicas são um real em si, e somente existem porque foram “imaginadas” por uma máquina – seja ela uma câmera de vídeo com fibra ótica, um túnel com ondas magnéticas ou raios laser que laminam cortes transversais de órgãos e ossos. A máquina não capta nem reflete, não revela nem imprime uma imagem, ela faz presente (presentifica) cada real.

A “paisagem” determinada mas não expressa pela imagem visível (o que no caso de uma fotografia seria o referente) é invisível na sua origem, porém tão concreta quanto a imagem e, neste campo ambíguo, a arte contemporânea ainda discute a natureza e com pertinência. A instância artística, a situação de arte produzida coloca no mundo uma questão para o observador, que se equivale àquele retratado numa pintura de paisagem de Caspar Friedrich – ao mesmo tempo em que está na paisagem (e no caso das imagens médicas, o homem/corpo é a paisagem), também está afastado dela, pois aqui ela é invisível em essência, não é real, somente concreta.

Sua suposta visibilidade existe apenas pela mediação da máquina. Ao mesmo tempo, a imagem se faz pelo ato de refotografar e depois imprimir a imagem, presentificando tal resultado numa situação de arte única. Ela só é a partir deste momento, só existe neste momento, não representa, se apresenta.

A arte é, para mim, um caminho para a discussão da contemporaneidade, do mundo e de suas necessidades, ela faz parte deste mundo e pode apresentá-lo ao pensamento. Passa a ser muito interessante, como artista visual, detonar um pensamento sobre a ampliação do se fazer real com um trabalho de arte que se utiliza de imagens “inventadas”, imagens não-referentes e desindividualizadas, existentes em si, inexistentes como representação e descoladas de um suposto real “verdadeiro”, pois este não pode ser reconhecido. É nesta particularidade que esta minha linha de trabalho se diferencia da anterior (quando trabalhava com fotografias do século XIX): diferente da fotografia que, segundo Barthes, está colada a uma realidade, o referente adere e evoca. A foto é um passado-presente/presente-passado. As imagens pseudofotográficas (é impressa e na maior parte das vezes produzida como tal) que traduzem os exames médicos aos quais me submeti não estão coladas a nada, nem ao meu próprio corpo – é impossível identificá-lo através das imagens – e nem a uma visualidade reconhecível de uma natureza vivenciada. Enquanto as fotografias antigas possuem um referente idealizado na reminiscência, na memória ou na imaginação, estas imagens não representam, elas são a própria realidade.

Seja na discussão das possibilidades humanas ou mesmo da condição humana como ela é normalmente colocada pelo mundo, o meu trabalho tenta apresentar uma questão universal através da visualidade: o ser humano é aquilo que experimenta, e as possibilidades de experiências são infinitas, como são infinitas as realidades possíveis.

Ao mesmo tempo, o significado aparente da paisagem desindividualizada do corpo humano pode também discutir a efemeridade e a uniformidade do ser, qualquer ser. Ao observar-se um trabalho de arte constituído destas imagens descontextualizadas, o “admirável mundo novo” já não é tão novo assim, ele é corriqueiro mesmo que não se tenha a consciência disto.

Quem é (ou foi) aquele corpo (ou parte de um corpo) imaginado e apresentado daquela forma bidimensional, multiplicada, repetida e re-elaborada numa situação de arte?

Nas imagens mediadas somos todos iguais, sem identidade, sem gênero, sem personalidade, sem presente, passado ou futuro, talvez sem vida...

Tais imagens não são ninguém, elas somente são elas mesmas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário