quarta-feira, 25 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Matheus Carrier



Quem é Matheus Carrier?

Sou um cara que tem se envolvido com as artes visuais desde criança. Nasci em Santa Maria RS em 1980, mas cresci a 40 km dali, na cidade de São Pedro do Sul. Minha mãe é professora e meu pai vende lanches. Minha mãe cursou Belas Artes na UFSM, depois se enveredou para História e foi trabalhar nesta área. Assim, cresci numa casa que tinha obras de arte por todo lado, me recordo dos desenhos, relevos em madeira e trabalhos bidimensionais em couro. Enquanto criança, me recordo de gostar de desenhar e pintar, também mexia com argila que tirava de um aterro feito no terreno da casa, descobri ali uma terra vermelha e argilosa, parecia uma massa de modelar. Com 11 anos juntei todos meus trabalhos de desenho e pintura e guardei, na época eu chamava de “minha memória”, e acertei sem saber.

Com 14 anos estava na Escola Municipal de Artes Eduardo Trevisan em Santa Maria RS, conheci a tinta a óleo e fiz alguns trabalhos de desenho e hibridismos, de tipos de tintas sobre papel. Nesta época entendia sobre equilíbrio visual e cromático, foi um bom momento da minha vida. Os anos dourados em que tudo é recordado como mágico.

Aos 20 anos iniciava na graduação em Artes Visuais na UFSM. Foi muito especial o método de avaliação por produtividade aplicado aos alunos, pois realmente me dediquei na pesquisa de materiais e guardo as melhores lembranças deste período. Me descobri na pintura sobre colagens, que tornou-se de relevos retangulares a relevos de forma irregular, tornando-se cada vez mais tridimensional. O resultado é bem visível nos dias de hoje. Fico feliz por ter conseguido construir uma direção artística que tem um passado bem definido e que é possível observar todas as etapas nos últimos 10 anos. Mas infelizmente muitas obras não foram fotografadas, outras se perderam, e em algum lugar perdido resta uma centena de imagens analógicas.




Como foi sua formação artística?

Minha formação deve muito ao professor Edemur Casanova, pessoa que soube lidar comigo e sempre me influenciou a ir em frente na produção artística. Acredito que a metodologia aplicada nas Artes Visuais da UFSM foi o diferencial, pois minhas obras seguintes tinham sempre as anteriores como referência, foi sempre assim. Nunca tive a influência de outro artista como principio, e até hoje não tenho. Quem sabe um dia o encontro.

Meus estudos práticos se desenvolveram de maneira muito instintiva, sem se principiar na teoria nem no pensamento de algum outro artista. A elucidação sobre o que minha obra diz seria algo a ser descoberto, e não estabelecida antes de existir uma centena de obras. É um tipo de liberdade que imagino poder funcionar para uns e não para outros. Havia uma certa via de duas mãos, alguns estudantes direcionavam seu interesse a priori ao conceito, e outros para a pura prática que denomino como relacional e instintiva.

Tive tantos problemas de conservação de minhas peças que comecei a ler sobre conservação e teoria do restauro. De obras que implodiam por problemas estruturais, ao acumulo de poeira sobre a tinta, segui nestes estudos em um curso de Especialização Artes na UFPEL, cujo meu trabalho foi sobre a conservação preventiva de obras de arte. Área do conhecimento que me foi muito útil na previsão de problemas com minhas próprias peças.

Neste período eu estava tão falido que não tinha como seguir com a produção artística. Iniciei algumas peças mas não concluí nenhuma. Foi difícil visualizar ter conseguido estudar em uma graduação sólida, ter feito especialização em artes, mas precisar fabricar e vender doces para ter dinheiro. Não conseguia pensar em nada que não fosse obter uma vida financeira digna.

Após isso, consegui bolsa de estudos e fui estudar Teoria e História da arte no Mestrado em Artes na UFES.




Que artistas influenciam seu pensamento?

Essa pergunta é muito complicada. Talvez por eu a considerar séria demais. Não consigo perceber nenhum principal que tenha este papel. Já gostei muito desde Gustav Klimt a Robert Rauschemberg e Iberê Camargo, e também de outros 50. Mas isso durou até meados de 2003, depois disso não houve mais nenhum artista que exerça uma forte influência. Quando digo que nenhum artista específico direcionou meu pensamento, é verdade, pois é uma mistura de fontes. Mas claro que alguns aspectos me influenciam, como forma e cor, e nisso as obras para apontar seriam muito variadas, obras e não artistas, havendo inclusive peças de desenho industrial e elementos da natureza. É estranho não é? Todo mundo consegue falar com facilidade sobre algum artista, e recordar adequadamente sobre isso, mas eu não tenho estas respostas, eu não sei. Não consegui resolver este divã sobre o artista que me influencia, não me percebo ligado a nenhum. Quando vejo uma grande exposição não tento apreender tudo para fechar uma ideia; saio destas visitas com as experiências em plena metamorfose. Tem coisas que vi na Bienal do MERCOSUL em 2003 que penso até hoje, sem lembrar do nome dos artistas, mas permanecendo a sensação da experiência. Não me preocupo em fechar a questão sobre influências com uma resposta satisfatória.




Como você descreve sua obra?

Gosto da ideia de estar construindo uma “natureza”, com todas as características que observamos na psicologia humana, aspectos pacíficos associados aos destrutivos. Há o aspecto do fantástico na aparência, da beleza lado a lado com o terrível. Dialogo diretamente com as peças que produzi anteriormente. É sempre um desdobramento daquilo que já concluí. Desde 2002 procuro criar uma realidade sem correspondência na natureza observável. Por meio de materiais, formas, cores e sensações, ensaio a relação entre "natureza", "imaginário" e "sociedade" que observo ao redor. A selva dos eventos e relações. O "espanto" é reelaborado a cada proposta, a cada peça. Devo integrar pouco a pouco meu "eu" atual de cada dia ao "estilo", ou o que isso venha a ser, de um trabalho mais sujo e que já gostei tanto de fazer, de busca dos temas e suas formas no espaço. Estudo o hibridismo entre elementos de bens industrializados com elementos orgânicos, em que percebo o potencial onírico. Nesta transfiguração, transfiro o "fantástico" do onirismo inicial para a forma no espaço. Os elementos reciclados já foram "vivos", com outra existência. De um fator "moribundo" daquilo descartado (lixo), de ex-existir com função, são conduzidos a nova "vida", devolvidos a natureza que agora é social.




É possível viver de arte no Brasil?

Enquanto bacharel que sou, ouvia as pessoas dizerem que devido a dificuldade em se viver de arte no Brasil, uma via seria se manter associado as pessoas que desejam a arte como nós, ou seja, seguir a vida acadêmica ou instituições de cultura. Ao mesmo tempo, o mercado vende qualquer coisa, e eu percebia que minha produção não estava dialogando com esta via. Preferi sempre fazer o que desejo em detrimento se vai agradar ou não. Não me preocupo em agradar ou ser comercializável. Então, para mim, viver de arte está significando dar aulas de arte para aqueles que decidiram dedicar suas vidas as artes visuais. Isso é gratificante. Estou com meus pares. Aprendo muito.




Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?

Acredito que sensações funcionam muito bem comigo, e a música é uma rica fonte de sentimentos. Por vezes tento traduzir o sentimento em forma plástica. Faço muitos desenhos das obras que irei fazer. Dificilmente mantenho dúvidas sobre como proceder na execução das peças, pois já resolvi estas questões com os desenhos que pinto em ensaios cromáticos. Já cheguei a associar minha obra com a música, no seu aspecto lúdico, que não facilita uma possível associação com elementos que observamos no mundo da vida comum de qualquer pessoa. Me influencia perceber uma forma que estimula um sentimento, seja de uma fonte observável ou da audível.




Você tem uma rotina de trabalho?

Não, é um caos. As quase rotinas de produção duram um certo tempo e não persistem. Depois volto, inicio outras peças, algumas ficam anos sem seguimento, e fico pensando nelas, penso se é o caminho para sua conclusão. Mas estou tentando produzir no atelier na universidade.



Você é professor na Universidade Federal do Vale do São Francisco, como é essa experiência e como interfere com seu trabalho.

Cheguei na Universidade Federal do Vale do São Francisco a partir do Mestrado na UFES, pois sair do RS e ir para a Bahia era algo caro demais para minha realidade. Foi incrível perceber uma vaga para professor de “materiais alternativos” e achei que era a minha cara, pois se tratava de algo com o qual eu me relacionava desde os 20 anos. Acreditei ter o perfil da vaga e deu tudo certo.

O trabalho como professor da universidade possibilita que eu ofereça aos alunos tudo o que mais me dediquei a fazer enquanto aluno, pois trabalho justamente com materiais alternativos, o lixo propriamente dito. É claro que a ideia de haver algum material que seja alternativo na arte de hoje é bem problemática, mas segue existindo esta denominação como convenção. O trabalho em sala de aula tem muito a ver com minha pesquisa de materiais. Isso tem tudo a ver com meu trabalho artístico. Como minha arte dialoga com hibridismo de meios, afortunadamente minhas disciplinas como professor são Tridimensional e Multimeios. De uma maneira muito especial a experiência como docente interfere positivamente em minha produção artística.

Tenho algumas peças em processo no atelier de tridimensional da universidade, e as manterei até que venha existir algum aluno com produção similar a minha. Se isso ocorrer eu devo retirar minhas obras para que ele desdobre seu próprio caminho. Não posso ser uma sombra sobre as obras deles. Então, com algumas peças neste atelier, outro dia eu queria sugestões de solução técnica para uma obra minha, e um aluno trouxe uma resina para tentarmos. Não deu certo, mas são tentativas que acrescentam uma ótima experiência a todos os que frequentam esta sala de aula. No segundo semestre de 2011 os alunos me viam todos os dias produzindo algo, serrando, usando alicate, pregando, pintando; espero que funcione como um exemplo positivo.




Quais são seus planos para o futuro?

Meus planos são conseguir concluir as obras que já estão prontas em forma de desenho. Muitas se referem ao meu “eu” de anos atrás. Tenho desenhos de obras pensadas desde 2005. E será interessante realizar este encontro com ideias do passado que preciso (preciso!) reviver. Como me baseio muito em minhas peças anteriores, é uma necessidade real.

Gostaria de conseguir encontrar um grupo de estudantes que tenham interesse em pesquisa de materiais para fazer funcionar um grupo de pesquisa formado por pessoas que se sentem realizadas com este tipo de investigação.



O que você faz nas horas vagas?

Gosto de descobrir novos artistas. Sinto alegria ao encontrar um artista inventivo e desconhecido dos livros sobre arte. E existem muitos, milhares. Ao que parece estão todos se encontrando na internet. Para mim isso é uma diversão. Também gosto de plantas, eu cultivo vasos com flores, legumes e tenho uma compostagem. Faço isso desde criança. Observo o desenvolvimento de plantas desconhecidas que insistem em crescer nos vasos, gosto das formas delas. De um modo geral, não sei o motivo, todas estas coisas dialogam numa relação entre as formas e as cores



























































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