sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Marcelo Mosqueta

Marcelo Moscheta
Quando se aprofunda na análise do currículo do Marcelo Mosqueta, percebe-se como foi solidamente pavimentada sua trajetória. Passou pelo crivo da seleção para vários salões e exposições em instituições culturais. Fez residência em Vila Nova de Cerdeira na Bienal de Portugal, recebeu bolsa da Fundação Iberê Camargo para estágio na École de Beaux-Arts. Prêmio na Bienal de Gravura de Liège, BélgicaVenceu o prêmio Pipa de 2010. É Mestre pela UNICAMP. Participou de inumeras exposições no Brasil e no exterior criando uma convergência de opinão de críticos, curadores, colegas, espectadores e do próprio mercado sobre a qualidade de sua obra. Um jovem de 31 anos, casado e pai de dois filhos trabalhando com desenhos, gravuras, objetos, fotografias, instalações e vídeos coloca-se em direção ao topo da arte contemporânea brasileira. Marcelo é representado pela Galeria Leme, SP. Vamos conhecer o pensamento do Marcelo, a quem agradeço e desejo o merecido sucesso.

Marcelo, fale algo sobre sua infância, família e estudos.
Eu nasci em São José do Rio Preto, (SP) mas logo em seguida fui morar em Maringá (PR) de onde só saí para fazer a faculdade de artes Plásticas na UNICAMP em 1995. Mudamos para Maringá pois meu pai é biólogo e começou a dar aulas na Universidade Estadual de Maringá, então, sempre tive muito contato com os bastidores do mundo "acadêmico"... só que mais nas áreas da ciência e da biologia. Minha mãe é artesã e sempre trabalhou muito manualmente, eu acho que peguei um pouco dos dois quando decidi fazer arte... um lado mais solto que é o da minha mãe e um mais investigativo que é o do meu pai...Sou o mais velho de 3 irmãos.. Murilo, o do meio é psicólogo e o Mateus, o mais novo é ator e diretor teatral.

Como se deu seu encontro com à Arte? Qual foi sua formação artística?
Sempre gostei de desenhar e sempre fui muito incentivado pelos meus pais a fazer meus desenhos e "sujeiras" em casa. Depois não sabia muito bem o que fazer da vida na época do vestibular até que caí no curso de artes plásticas e acabei me encontrando, gostando de tudo aquilo e pude entender que era realmente o que queria fazer da vida. Em Maringá eu vivia muito isolado e sempre quis ir a museus e viajar mas nunca tive a chance... quando entrei na faculdade não conhecia absolutamente nada de arte, entrei porque gostava de desenhar.. à medida que fui conhecendo mais, viajando, visitando museus e galerias vi que aquilo era um mundo fantástico que eu queria fazer parte.







Você trabalha com pintura, gravura, fotografia, instalações e vídeos, como elas se comunicam?
Costumo dizer que a gravura é o ponto de partida de todos os trabalhos.. mais pelo pensamento gráfico que os norteia.. apesar do desenho ser o principal meio de expressão e construção do meu trabalho. as outras mídias são somente uma derivação do desenho. Se uso fotografia, se faço vídeo, é porque já fiz algo antes em desenho mas que ele não deu conta de "finalizar" a obra..

Como você descreve seu trabalho?
Vou te copiar uma outra entrevista, pode ser?? falei isso para o Ricardo Resende quando estava falando sobre o livro...eu acredito que não, não sou romântico... impossível sê-lo com tanto conhecimento sobre o mundo e o universo. uma das características fundamentais do romantismo era a aproximação com a natureza, a grandiosidade, o exótico... mas acho que hoje essas dimensões são de outra ordem. o planeta é muito mais dimensionado e científico (pesquisado) do que era e a percepção que temos hoje da natureza se refere mais à questões como preservação e mudança do clima. O espanto pela criação é movido pela identificação da terra como lugar a ser respeitado assim como nós queremos ser respeitados.. e nessa identificação, eu acredito, é que nos colocamos, como parte de um todo muito maior (o que também era no romantismo) mas esse todo agora tem uma dimensão bem diferente...
então, respondendo a sua pergunta, creio que tenho um espírito romântico, mas os artifícios que uso para entender o mundo são muito diferentes disso... GPS, coordenadas, cálculos... são muito matemáticos, muito frios.. o que tento fazer é encontrar a dimensão poética dentro desse entendimento do lugar.

Quais as fontes utilizadas para construção de sua obra?
A relação do homem com o espaço natural é a principal delas. O respeito, a reverência e o amor são as bases da contrução da minha poética. A natureza como a medida de todas as coisas e o homem, dentro de tudo isso como aquele que busca uma medida exterior para se entender, se conhecer, medir-se a si mesmo olhando para fora. Assim a natureza é sempre a protagonista, os lugares vazios, espaços imensos, inabitados, os esforços do homem para ir a lugares extremos do planeta, as grandes explorações do século XVII e XVIII onde os lugares mais distantes do planeta ainda eram um desafio. Gosto muito da idéia de Petrarca que foi o primeiro a subir uma montanha pelo simples prazer de subir, de contemplar o mundo, inaugurando o gênero paisagem na hsitória da arte. Esse ímpeto romântico, encontrado em Caspar David Friedrich, é algo fascinante para mim. Penso em como construir isso hoje em dia, como ter uma idéia barroca, "Deus Ex Machina" de forma contemporânea..

Que artistas influenciam seu pensamento?
Richard Long, Robert Smithson, Italo Calvino, Gerhard Richter, James Turrel... Gosto muito do Damien Hirst, do Damián Ortega, do Pedro Paiva + João Gusmão também. Tem também uma dupla de fotógafos espanhóis que se chama Bleda y Rosa... são fantásticos e trabalham com questões de memória/território interessantíssimos.

Você recebeu bolsa da Fundação Iberê Camargo para desenvolver um projeto na França, como foi a experiência?
Muito boa, ali começou a minha idéia de ser um viajando que usa a paisagem como matéria prima do trabalho. A idéia do projeto era um deslocamento pela paisagem da Bretanha e lembro de ter ficar extasiado com tudo o que via lá.. parecia que todos os meus poros estavam abertos para todos os sentidos e sensações.. foram dias intensos de aprendizado e criação onde fia um mergulho mesmo na cultura local. Essa idéia é apaixonante e sempre saem trabalhos muito bons, muito sinceros e isso me atrai muito. É dessa forma que tenho trabalho mais nos últimos anos.


O que significou vencer o prêmio Pipa?
Com o prêmio do Pipa pude ver que muito mais gente me conhece do que eu imagino... sinceramente não esperava ganhar.. tinha gente muito boa na lista. Fiquei muito feliz de poder consolidar meu trabalho no cenário nacional. São 10 anos de trabalho aqui em Campinas e esse isolamento às vezes atrapalha e acabo perdendo a referência de como está o circuito. A revista Bravo comentou sobre minha exposição deste ano na Galeria LEME e disse que eu "desfruto de reconhecimento da crítica"... não sei se isso é verdade mesmo, tenho minhas dúvidas, mas com certeza muita gente, inclusive críticos, viram meu trabalho depois do Pipa.

O que é o Ateliê Inventio?
O ateliê inventio mudou de nome, agora é ateliê/8... é simplesmente meu lugar de trabalho. é um espaço coletivo, trabalho com outros 5 artistas: Danilo Perillo, Paula Éster, Gustavo Torrezan, Yuli Marti e Ivan Grilo, que é meu assitente também. Não é um coletivo, só compartilhamos as contas e o espaço, mas cada um tem seu próprio trabalho independente. é claro que existem trocas e é bacana poder fazê-las nesse ambiente de companheirismo e admiração.

O que é preciso para um jovem artista seja respresentado por uma galeria?
Depende...eu diria tempo e trabalho, foi assim comigo. Não fui atrás, mas as galerias vieram quando o trabalho já estava minimamente maduro para ser representado... antes disso preferi ficar trabalhando sem ter nenhum comprometimento comercial, é mais fácil começar assim.. é o que eu acredito... apesar de não ser bem assim que as coisas acontecem hoje em dia.. galerias pegam artistas que ainda estão estudando, que não tem trabalho maduro e tentam "lapidá-lo".. isso eu acho muito ruim para o artista principalmente pois ele já começa a se comprometer com o sistema antes de ter o compromisso com sua poética.

Para alguns, a multiplicação de Bienais e Feiras de Arte fazem as galerias precionar o artista, fazendo-o produzir numa velocidade maior do que ele deseja, qual sua opinião?
É verdade, penso assim também.. é preciso saber dosar a ansiedade e mater-se fiel ao seu próprio trabalho e seu próprio tempo de pesquisa e maturação das obras. não é fácil pois o artista também quer ganhar dinheiro e se dar bem,.. mas nesse sentido é um trabalho como outro qualquer, lei da oferta e procura, quanro mais disponível, mais trabalho vem.. acho normal que aconteça assim pois todo o sistema capitalista funciona desta maneira, .. mas acho que os artistas precisam colocar seu tempo de produção como prioridade aos anseios do mercado.

Na SP Arte foi lançado um livro sobre sua obra, qual foi a sensação em vê-lo pronto?
Muito emocionante, o projeto ficou lindo, os textos fantásticos, a produção muito bem acabada... tudo escelente para mim.. já tenho 2 filhos também.. agora falta plantar a árvore..!!


Você é um dos mais conceituados jovens artistas brasileiros, já é possível viver exclusivamente da arte?
Obrigado pelo elogio.. acho que estou no caminho sim e isso me deixa feliz, pois faço o que gosto e consigo viver disso.. considero um grande privilégio. Muito amigos meus são ótimos artistas mas não conseguem vier exclusivamente do que produzem como artistas mas acredito que são situações muito distintas.. a vida de artista é muito dinâmica e há que se reinventar todo dia, o modo como penso, como faço, como guardo o dinheiro, como administro o tempo e os anseios.. os gastos, enfim.. como disse antes, considero um trabalho como todo outro, há que se ter um mínimo de organização também.. essa coisa de que artista é tudo desorganizado não dá mais.. o mundo é outro e é preciso produzir e administrar a carreira de um jeito diferente também.

A arte brasileira já pode concorrer no mercado internacional?
Já concorre a muito tempo... é muito bem valorizada e caminha para um reconhecimento cada vez maior. Com a estabilidade econômica brasileira e a visibilidade crescente que o país tem no exterior, a arte e a cultura se beneficiam de forma categórica. Temos visto nos últimos anos um detaque cada vez maior para nossos artistas contemporâneos como o Cildo, a Lygia Pape, o Oiticica, o Artur Barrio, sem falar no Vik, na Varejão, na Beatriz..

Quais são seus planos para o futuro? Bienais? Mercado internacional?
Estou finalizando os projetos para a Bienal do Mercosul, 3 séries de obras inéditas sendo uma enorme instalação com mais de 50 desenhos e rochas que coletei no Uruguai em maio, depois de 15 dias de viagens na fronteira. Também finalizo a gravura para o Clube de Colecionadores de Gravura do MAM SP e depois vou para Belém, como convidado do Arte Pará para trabalhar com o acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi.. esse será um trabalho que farei junto com meu pai, numa parceria inédita ainda.. vamos ver no que vai dar.. ! Também tenho um projeto para a exposição Mapas Invisíveis, da Daniela Name aqui em São Paulo agora..Em outubro vou para o Pólo Norte, numa expedição que ficará 20 dias navegando em um veleiro dentro do círculo Polar ártico. Depois em dezembro preparo um projeto solo para a Feira Miami Basel, que farei com a Galeria Leme.

O que você faz nas horas vagas?
Gosto muito de esportes de aventura, de saídas para o mato, escaladas, treking... mas tenho preferido ficar com minha família.. com a chegada do Davi este ano, o tempo ficou bem curto e as "horas vagas" quase não existem.. tenho uma filha, a Elisa que está com 2 anos e as crianças demandam muito tempo.. mas depois que elas dormem (hehe) tento ver um filme... hehehe... o que nem sempre consigo pois acabo dormindo... enfim, vida de pai/artista! muito boa, estou muito feliz! para além do cansaço...

espero que tenha ficado bom!
Forte abraço Marcio!
Instalação RGB (red, green, blue) (2007) Paço das Artes.
Efêmeros (2005) Grafite sobre PVC 50x82, Museu de Arte Moderna da Bahia.

Estudo para o Espaço (2007). Algodão, caixa acrílica 22x22x24 cm.

Le Nouveau Paysage du Paralélle 48 (2008). Aquarela sobre 12 cartões postais antigos 22x30 cm cada.

Carbon Copy-Fragonard (2010) Monotipia Exposição More Sigonitrem. CC Maria Antônia, SP.

Desnível 003 (2007-2010) Foto polaróide e plotagem sobre papel 30x94 cm.


Atlas (2011) Galeria Leme.

Livro de Marcelo Moscheta. Editora BEI, 2011.


MARCELO MOSCHETA

+55 19 8111-1979

ateliê/8
rua antônio cezarino, 332
campinas . são paulo . brasil







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