quinta-feira, 12 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Marcel Martins Diogo


Marcel Martins Diogo




Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em Belo Horizonte no ano de 1983, durante certo período da minha infância meu pai foi um imigrante latino americano em Nova York e a minha mãe dona de casa. Estudei em escolas públicas e privadas, atualmente vivo com a minha família em uma casa situada na fronteira entre duas grandes cidades que compõem a região metropolitana de Belo Horizonte, a respeito disso, certa vez escrevi a seguinte nota:


Vivo em uma zona de fronteira entre duas grandes cidades, os limites são, ao mesmo tempo, os dois territórios e a "terra de ninguém"... mas talvez a fronteira seja mais a "terra de ninguém" que qualquer outra coisa. Ignorados pelas suas respectivas cidades, esses confins mergulham no esquecimento. Apenas a ausência de políticas públicas torna visível a fronteira. A linha divisória é imaginária, invenção humana. Na "terra de ninguém" os limites são invisíveis.
O dicionário classifica cidadão como sendo aquele que vive em uma cidade e goza de direitos civis em um território livre. Estamos em época de eleições para presidente de nossa república, as propagandas televisionadas dizem todo o tempo que votar é um ato de cidadania... ainda não encontrei o candidato político que represente a fronteira... talvez ninguém irá cuidar da famigerada "terra de ninguém".





Como foi sua formação artística?
Sempre desenhei desde criança, na adolescência fiz durante certo tempo um curso de pintura a óleo sobre tela, experiência essa que me motivou a ingressar-me na Escola de Belas Artes da UFMG. Em 2006, me formei em pintura e mais tarde concluí uma continuidade de estudos para Licenciatura. Acredito que a formação artística é contínua, a cada dia, a cada experiência absorvemos novos conhecimentos que influenciam em nosso aprendizado.



Que artistas influenciam seu pensamento?
Refletindo sobre um conceito ampliado da ideia de pensamento, posso dizer que não somente artistas influenciam o meu imaginário. Filósofos, sociólogos, historiadores também são fontes de inspiração para a construção dos meus trabalhos. Entre os pintores tenho certa predileção por Caravaggio, a luz e a sombra barrocas me fascinam. Rembrandt, Vermeer, Velásquez também são pintores importantes dentro dessa ótica. Influenciam-me também Delacroix, Eric Fischl, Neo Rauch, Gerard Richter, David Hockney, Lucian Freud, Arcimboldo, Edward Hopper, Almeida Júnior, Cándido López, Odilon Redon, Gustav Klimt, John Everett Millais, Goya, Chardin, Courbet, John Willian Waterhouse, Matisse, Cézanne, Van Gogh, Tolouse Lautrec, Jean Luc Godard, John Baldessari, Akira Kurosawa, Frans Snyders, Masaki Kobayashi, Hokusai, entre outros...
A literatura também é uma fonte importante de referências para a construção dos meus trabalhos. Kafka, Dostoiévski, Machado de Assis, Homero, Lima Barreto, são alguns exemplos de autores que permeiam meus pensamentos. Entre os filósofos, os membros da “Escola de Frankfurt”,principalmente Adorno e Horkheimer, exercem considerável influência sobre minhas ideias.
Dentro da sociologia, leio Jean Baudrillard, Milton Santos, Josué de Castro, Roberto Da Matta entre outros escritores que tratam das relações sociais. Guy Debord e José Antonio Maravall são também exemplos de escritores que também me influenciam.



Como você descreve sua obra?Considero os meus trabalhos intimamente ligados à história da arte e concomitantemente à história do homem. Sendo assim, almejo construir imagens que se relacionam com o hodierno, além de estabelecer conexões com tempos antigos. Opto por uma imagética figurativa, a pintura, a cor e as relações humanas são estruturas importantes dentro dos meus trabalhos. Contudo, considero-me incapaz de descrever em palavras as imagens que construo, mesmo porque, é exatamente a necessidade de conceber meus pensamentos transfigurados em imagens o que me motiva a construí-las. Desenvolvo trabalhos em vários meios, cada ideia demanda uma mídia específica, portanto, construo os trabalhos tendo em vista a melhor forma, em minha opinião, para concebê-los.



Que exposição sua, você considera a mais importante?
Considero todas as exposições importantes. Tendo em vista a multiplicidade de imagens com as quais convivemos, acredito ser extremamente importante para o artista, enquanto um construtor de imagens, o momento de exibição das mesmas. Porém, para destacar uma mostra específica, rememoro a minha primeira exposição individual, onde apresentei pela primeira vez as pinturas da primeira série de naturezas mortas, um vídeo relacionado à pintura outonal de Giuseppe Arcimboldo e um grupo de fotografias.



Como você descreve o mercado de arte em Belo Horizonte?
Se pensarmos que Belo Horizonte talvez seja a terceira capital mais rica do país, logo concluímos que o atual mercado de arte não condiz com tal realidade. Os investimentos em arte contemporânea na cidade são irrisórios. Ultimamente as coisas estão melhores, mas, o mercado ainda é muito aquém da qualidade dos artistas da cidade e infelizmente é comum observar jovens artistas que não produzem por falta de incentivos ou condições financeiras para desenvolverem suas obras. Porém, também podemos pensar, segundo uma ótica otimista, que a ausência de um mercado de arte mais incisivo, permite uma maior liberdade de experimentação para os artistas mineiros, uma vez que estes não possuirão imposições mercadológicas.



O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Podemos pensar que um bom trabalho é suficiente para que um jovem artista seja representado por uma galeria, porém, uma coisa é a produção artística de determinado local e outra é a representação que as galerias fazem. Um artista em início de carreira indubitavelmente é desinteressante em se tratando do mercado de galerias de arte, pois, além de nenhum prestígio entre os colecionadores tal pessoa também terá um valor de mercado baixo, fatos que conspiram para o desdém das galerias. Essa situação existe porque as galerias visam o lucro, afinal, representam antes de qualquer outra coisa um negócio, sendo assim, entre negociar uma obra de um artista consagrado que demanda uma maior procura e apresenta maior valor de mercado e a obra de um artista iniciante com valores baixos, logicamente a galeria preferirá a primeira opção. Portanto, os jovens artistas apenas serão representados por galerias que visam investir geralmente em projetos experimentais, em pesquisas alternativas que não visam um lucro imediato. Sinalizo que não pretendo demonizar as galerias através dessa reflexão, apenas esclarecer que em determinadas instituições um jovem artista não será representado porque é economicamente desinteressante. Dentro dessa esfera, os artistas também são corresponsáveis, é necessário ética e comprometimento por parte de todos os envolvidos nesse trabalho de representação e divulgação de um artista.



Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
O próprio cotidiano é fonte de estímulos para a construção dos meus trabalhos. Como mencionei anteriormente, a história e as relações humanas alimentam o meu imaginário. Geralmente, assuntos externos ao universo da arte são fontes ricas para a construção de novas ideias. A partir de uma simples conversa com um amigo, talvez surja uma reflexão que, relacionada ao campo da arte, pode me gerar um trabalho ou uma pesquisa nova, por exemplo. Há mais de quatro anos estou fazendo um vídeo cuja ideia surgiu a partir de uma conversa com o meu professor de francês na época, tal docente falava sobre o seu país de origem, o Senegal, um lugar especificamente me chamou atenção e a partir dessa conversa estou construindo um vídeo.



Você tem uma rotina de trabalho?
Não tenho especificamente uma rotina de trabalho. Posso dizer que trabalho todos os dias, alguns mais, outros menos, mas, sempre estou trabalhando ou planejando algo.


O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Os salões de arte são importantes estímulos, principalmente para os jovens artistas. Premiações e grandes exposições diversificadas contribuem para uma maior diversificação e profissionalização das artes visuais no país.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte? Alguma sugestão para melhorá-los?
As Bienais e Feiras de Arte não possuem mais o caráter de grandes eventos que ocorrem para mostrar trabalhos inéditos vindos de outros lugares desconhecidos pela maioria, atualmente a internet se encarrega pela divulgação das novidades, porém, tais eventos são importantes porque reúnem grande número de trabalhos em diversas técnicas e formatos. A “overdose”artística que as Bienais e as Feiras de Arte são capazes de proporcionar é importante porque constitui um momento atípico. Enfim, para os artistas, os galeristas, colecionadores de arte, estudantes, etc. esse contato aproximado com uma miríade de trabalhos artísticos em diversas mídias constitui um momento de suspensão em meio ao cotidiano habitualmente ordinário. Creio que o favorecimento de trabalhos mais experimentais traria beneficies para estes eventos, uma vez que seriam oportunidades de contatos com obras que em outros espaços seriam praticamente impossíveis. Uma maior representação de jovem artistas e retrospectivas de artistas antigos também seriam feitos que na minha opinião contribuiriam para a qualidade desses eventos.



Quais são seus planos para o futuro?
O futuro é sempre incerto. Logicamente construo meus trabalhos hoje pensando em uma maior visibilidade no futuro, porém, sou bastante despreocupado em relação a expectativas futuras. Valorizo enormemente a possibilidade de experiências artísticas, portanto, almejo continuar no futuro construindo meus trabalhos e experimentando os trabalhos dos outros. O encontro com outros artistas e outros lugares também são situações importantes em minha opinião, sendo assim, tenho projetos para um maior contato e aproximação de artistas residentes em locais menos difundidos nos grandes circuitos artísticos, portanto, planejo para o futuro um maior contato com pessoas que trabalham com arte em outros lugares.


O que você faz nas horas vagas?
Gostaria de me dedicar mais a vadiagem. Acredito que um momento vago deve ser um momento vazio, um instante de pausa na rotina, portanto preferiria possuir verdadeiramente horas vagas e não fazer nada. A teoria do ócio criativo me parece algo bastante interessante, pois, considero importantes e salutares os momentos ociosos dentro da mesmice diária. Existe certa obrigatoriedade de ação no contexto social capitalista contemporâneo, devemos deslocar o mais rápido possível, fazer o maior número de coisas que alcançamos, acumular o maior capital possível... somos, portanto, diariamente condicionados a uma rotina acelerada e intermitente, que não nos permite intervalos ociosos. Dentro dessa lógica do capitalismo, encontramo-nos induzidos a mercantilizar o nosso tempo e assim fatidicamente a entender o momento vago como prejuízo, como perda, sendo assim, tenho imensa dificuldade em estar desocupado, poderia até mesmo concluir que não possuo horas vagas, pois todo o tempo estou refletindo, pesquisando ou construindo algo, existe certa auto cobrança.
Enfim, creio que dentro dos meus anseios atuais, a meta é buscar literalmente a hora vaga, para então, não fazer nada.




Algum outro comentário?
Para finalizar, gostaria de acrescentar que sinto a falta de uma crítica de arte contundente e especializada em Belo Horizonte. Penso que para todos os artistas um olhar externo que possa exprimir uma crítica interessante auxilia para melhorar a produção artística. Observo em BH relações de “camaradagem”, onde praticamente ninguém exerce uma opinião crítica a respeito da obra do “amigo”. Aqueles que o fazem, são taxados como “inimigos”, invejosos, ou desdenhosos do feito alheio. Criticar, em minha opinião, vai além de julgar como “bonito” ou “feio”, ou então o simplório “gosto” ou “não gosto”, consiste em analisar a produção em seu contexto, observar a qualidade em diversos aspectos daquilo que é apresentado, estar atento aos modos de exibição, ou seja, uma critica interessante consiste em um estudo aprofundado do trabalho apresentado e permite, a partir de então, uma possibilidade de desenvolvimento daquele que é submetido ao julgamento crítico.











Tomates, pintura - óleo sobre tela, 40 x 50cm, maio de 2012.



Batatas IV, pintura - óleo sobre tela, 40 x 50cm, outubro de 2010.



Ak demie d'art moderne, impressão digital, 21 x 29cm, abril de 2011



Ak demie d'art moderne, impressão digital, 21 x 29cm, abril de 2011.



Natureza morta IX, pintura - óleo sobre tela, 145 x 145cm, 2007



Natureza morta III, pintura - óleo sobre tela, 70 x 100cm, 2005.



O que nos separa é quase [in]visível, impressão digital, 21 x 29cm, julho de 2011.



O que nos separa é quase [in]visível, impressão digital, 21 x 29cm, julho de 2011


http://marceldiogo.blogspot.com

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