segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Leila Pugnaloni.

 

Série Módulo de Luz Para Gilberto Gil

Curitiba Boogie Woodie II Série Módulo de Luz. Obra exposta no BNDES.



Acrílica


Micro e Macro (1982)






Leila Pugnaloni Nasceu no Rio de Janeiro. Vive e trabalha em Curitiba. Graduou-se na Escola de Belas Artes do Paraná. Estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e na Art Student League, Nova York. Desde 1980, fez mais de 20 exposições individuais e mais de 40 coletivas. Em 1994 e 1995, participou do Salão Nacional de Arte, Rio de Janeiro. Em 1995, foi premiada pelo Salão Paranaense. Atua como orientadora em seu atelier des de 1996. Em 2003, participou da Bienal do MercoSul. Em 2009, lançou o livro Leila Pugnaloni O Passeio do Olhar de autoria de Fernando Bini e o livro Desenhos. Ilustra livros, revistas e jornais. Em 2010, participou da mostra Parede no CC Justiça Federal e de coletiva no BNDES ambos no Rio de Janeiro. Tem obras em importantes coleções e instituições do Paraná e no Rio de Janeiro. Seus trabalhos estão nas galerias Limir Sá, Belo Horizonte e Patrícia Costa, Rio de Janeiro. Textos críticos de Odalice Araujo, Daniel Valença, Enio Marques Ferreira, Fernando Bini, Manoel Cortes Karan, Nilza Procopiak, Paulo Leminski, Paulo Herkenhoff, Paulo Reis, Tadeu Chiarelli e Jaime Lechinski.


Leila, quando você decidiu ser artista?
Minha formação foi direcionada para o magistério. Estudei em colégio religioso (Sion) com o intuito de trabalhar como professora de artes. Mas, na vida, nem sempre as coisas seguem o projeto estabelecido. Assim, foi, que, em 1979, deixei Curitiba e voltei para o Rio (cidade onde nasci), passando a fequentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, ainda objetivando o trabalho com crianças. Frequentando a Oficina Permanente na Escola e trabalhando na galeria Gravura Brasileira, conheci de perto artistas e intelectuais: Darel Valença, Rubens Gerchmann, Anna Letycia, Aloisio Magalhães, Carlos Scliar e outros. Deste convívio e, talvez, porque minha inquietação era maior do que lecionar, decidi, de repente (indo de ônibus da EAV para GB galeria, olhando o céu azul do Rio) que seria artista, apesar das dificuldades, e, ainda, que aprenderia a pintar aquele azul...





Você poderia falar sobre sua formação na EAV do Parque Lage e na Art Students League?
Sobre a Oficina Permanente da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (1979-1980) Desfrutei da orientação de vários artistas ´professores. Fui aluna do Luiz Ernesto, Gastão Manoel Henrique, Ronaldo Rego e Astréa. A liberdade para criar era o ponto forte da orientação, porém havia um clima intenso de dedicação à pesquisa. Ali percebi que se quisesse criar uma linguagem singular, teria de fazer um longo percurso _talvez um tempo de vida. Desencadear um processo criativo requer mais do que habilidade, tanto intelectual como a plástica. É preciso uma base, um desafio, talvez, assim como em qualquer construção. Na EAV escolhi o desenho como desafio, por sua leveza e velocidade. A característica de registro imediato , quase escritura, faz do desenho um exercício de integridade e de reflexão. Desenhando, é difícil dissimular.
Sobre a Art League Students of New York (1982-1883) As aulas de desenho da figura humana com o professor Marshall Glasier enfatizavam a com preensão da forma, a partir da observação direta do modelo. Grandes formatos, inicialmente usando carvão macio, procurando linhas imediatas . Com a prática, os traços passavam a ser feitos com bastões d ebambu embebidos em nanquim diluido (técnica que utilizo ainda hoje em meus desenhos e com meus alunos) . Glaiser orientava os alunos com máximas como esta: "A arte não vem das universidades (que ensinam pessoas a ensinar)" ou então: "Conserve o olhar abrangente...não use borracha- quando traçar linhas erradas com o carvão, passe a mão e corrija...o desenho lhe responde quando as formas estão nos lugares certos " Não se tratava apenas de soltar o traço, mas de saber também como conte-lo. Apesar de proposta de espontaneidade, havia o rigor, a busca pelo traço seguro, capaz de harmonizar o resultado, incluindo nele também os "erros". Frequentando museus e conhecendo artistas, percebi naquele estágio que o importante era a qualidade da obra, independente de dogmas-acadêmicos ou de vanguarda. Eram dados novos para mim, diferentes das aulas que havia recebido quando estudante da Escola de Belas Arts do Paraná e mesmo no Parque Lage, no Rio. Ao mesmo tempo, Roberto Delamonica, meu orientador de gravura em metal na mesma escola, conduzia-me seccionar partes dos desenhos, ampliando os grafismos, fazendo com que surgissem composições abstratas, levadas para a placa de cobre. A figura humana já não era o foco principal da pesquisa e sim a relação macro e micro da pesquisa entre os caligramas. Fazendo na gravura estes exercícios - de ampliação dos grafismos e de outros detalhes - foi que encaminhei meu trabalho para a abstração. Entrei em contato com as obras de Torres Garcia, Miró, Calder, Picaaso, Pollock, Matisse, de Kooning, Jasper Johns e Saul Steinberg. Delamonica mostrava também as possibilidades da cor. Trabalhávamos sobre placa de acrílico usando tinta de impressão fosca ou diluida em verniz transparente. A técnica denominada "monoprint" foi fundamental para as pinturas que, de volta ao Brasil, realizei algum tempo depois - a série seria "batizada" por Paulo Leminski, como ALPHAVELAS (expostas na Casa de Cultura Laura Alvin no Rio e em Coritiba no MAC, em 1989)




Você poderia comentar sua experiência no ensino da arte?
Procuro transmitir minha experiência como artista, indo ao encontro do público atraváes de oficinas e palestras. Utilizo música em minhas aulas de desenho como recurso para o desencadeamento do processo criativo. Outra prática constante é a leitura de textos sobre arte e tambem o estímulo para que os alunos escrevam sobre seus trabalhos. Meu método também inclui a dança, que surge naturalmente a partir de noções de alongamento, postura e aquecimento; está voltado ao gesto gráfico como resultado. Ou seja o desenho como extensão do movimento. O meu trabalho com os alunos está baseado em sons, ritmo, movimento, desenho e reflexão. Pensar o desenho como uma linguagem é a essência desta proposta. A afinidade com o gesto, converte o desenho em extensão do corpo, enquanto sua ligação com o texto, faz o desenho uma forma de reflexão. A imaginação solta nas linhas leva naturalmente a idéias, projetos e emoções. Enfrentar a forma, representar, imaginar e projetar são desafios que o desenho evoca e é neste sentido que oriento meus alunos.
"Assim como o provérbio, o desenho é ao mesmo tempo uma transitoriedade e uma sabedoria, Não representa nenhuma eternidade, mas a verficação de um momento. Desenhos são para a gente folhear, são para serem lidos que nem poesia, são haicas, são rubaes, são quadrinhos e sonetos". Mario de Andrade.
"Se a dança é uma arte intermediária que se realiza por meio do tempo, sendo materialmente uma arte em movimento, o desenho é uma arte intermediária que se realiza por meio de espaço, pois sua matéria é imóvel". Mario de Andrade.




O desenho é o seu principal meio de expressão. Você utiliza outras técnicas? Que comentários faria sobre seu trabalho?
Trabalho também com a cor. Quando voltei do curso em Nova York, penso que dirigi meu olhar para o céu. Interpretava a palavra espaço como espaço sideral e as formas que surgiam como matéria rarefeita vista de baixo para cima. Pontos de luz flutuando na atmosfera. Mas tarde, voltei minha atenção para o desenho das cidades, inicialmente como quem enxerga do alto. De um avião,por exemplo.
Depois, a paisagem como observada de uma janela no edifício. Paisagem urbana, luzes, velocidade. Os aspectos geométricos destas pinturas estavam na paisagem que eu enxergava, simplemente da janela do apartamento em Curitiba. Acompanhava as tendências neo-expressionistas da época. Tomei contato com a obra de Anselm Kiefer, por exemplo, mas quanto mais eu via , mais fazia o caminho contrário: o da construção e da geometria. No lugar de espessas camadas de tinta usadas pelos pintores dos anos 80, usava tinta diluída, translúcida. No lugar de gestos enérgicos, esbanjavam linhas retas feitas com máscaras de fita adesiva que também separavam o campo de cor. Passei parte da infância em Brasília, filha de pai arquiteto, desde pequena estive em contato com obras, construções e projetos. Vi, por exemplo, as fundações da Catedral da Brasília e de outros edifícios de Niemeyer. Em minha memória visual e afetiva estão aqueles elementos construtivos (fachada do Palácio Alvorada , o Itamarati, as avenidas e viadutos, a sensibilidade das colunas).
Talvez por ter nascido e vivido a infância no Rio e, em seguida, residiod em Brasília eu conhecia tantoasos sinais de uma cidade nascendo e, construída dentro de um plano piloto, como uma cidade de paisagens, marinhas , uma cidade solar, cheia de curvas e História que inspirou Niemeyer, Tom Jobim, Vinicius e João Gilberto. Da série AlphaVelas Fixação (1989) 100x120cm, col. Alberto Salles. (ver acima) té aquele momento, a poética do trabalho possuia bases auobiográficas, mas continuava a estudar. Fazendo novas leituras, deparei-me com outras referências que passaram a fazer parte de meu processo.
Depois da série Alphavelas, pensaria o suporte como obra em si, tentando alterá-lo, inicialmente colando pequenas ripas sobre superfície frontal. Estas ripinhas pareciam flutuar sobre a supefície frontal sobre o fundo quase sempre monocromático. Revia minhas leituras, procurava referências na história recente da arte brasileira e em trabalhos anteriores. Os novos projetos traziam mais secções. Era como se traçasse paralelas na superfície da tela recortando-as.
O texto a seguir é de Hélio Oiticica: "...Uma grande ordem não seria forçosamente racional, mas sim que possua tal significado a cor que se poderia dizer que é cósmica ou sublime no seu sentido. . Esse caráter da cor nasce de uma nescessidade existencial que, poe ser existencial, supera ou se eleva acima do cotidiano, para emprestar à vida existencial um climaz, um sopro de Vida. Nada maior se pode desejar da arte, pois é este seu próprio fim. Essa ordem foge ao puramente racional, e, por estranho que pareça pede do artista uma disponibilidade e um desinteresse, quase que um brincar e fazer surgirá uma nova ordem, desconhecida que nem mesmo o artista toma conhecimento dela conhecimento a prior. A cor é uma necessidade religiosa, como quem fizesse preces dialogasse aqui com a cor e se estruturasse. No fazer-se elementar da obra de arte, a cor também se faz e toma essa grande ordem". Aspiro ao Grande Labirinto, pag.30, Ed. Rocco_RJ, 1986 Alphavelas e Quase-relevos foram os fundamentais da série que veio a seguir e que chamei Módulos de luz. O aspecto da arquitetural dos módulos tem origem na própria trajetória de trabalho construída até ali. Embora o raciocínio ao projetá-los venha sendo geométrico, eu não concebo a obra completamente antes de finalizá-la com a cor. A influência de aspectos construtivos no desenho de cada módulo não impede que a pintura apresente características informais. Na cor não há compromisso com precisão; existe uma margem de risco, um espaço para o "erro". Com pintora não acredito na necessidade de precisão entre projeto e resultado . A concepção final somente ocorre quando aplico as camadas de tinta, quase mecanicamente. Quero propagar acor para fora do plano, no espaço; atingir o olhar intensificando a cor. Penso em conceitos tradicionais da pintura como, por exemplo, a aura do objeto na cor-luz de Hélio Oiticica. Trabalho com tintas foscas, intensificando-as com tintas fosforecentes, procurando combinações retiradas das imagens digitalizadas, dos anúncios luminosos, da fiação subterrânea. Penso em corrigir energia ao espectador. Utilizo fosforecência como um diferencial do meu trabalho, desde os anos 90. Na pista de uma linguagem própria, experimento o espaço, saio do campo da representação.
Em 1993, escrevi: "Finalmente não faço mais metáforas da realidade, trabalho com o essencial: cor e luz.




Leila, lamentei muito não encontrá-la nessa rápida visita ao Rio. Quero agradecer a bela entrevista em que você aborda questões fundamentais do desenho e da pintura e mostra um método diferente do ensino da arte.

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