sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Karla Gravina


Karla Gravina

Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em outubro de 1983 em Niterói. Vivo nesta cidade até hoje. Meu pai e minha mãe são arquitetos, pessoas muito criativas que desde que eu era criança me levavam a museus, espaços culturais, etc. Lembro de ter conhecido Clarice Lispector desde nova por causa do livro “Coração Selvagem”, presente dado por minha mãe. Meus pais sempre me estimularam a ler e a olhar para o mundo com curiosidade e de forma ampla. Venho de uma família de imigrantes italianos pelo lado materno e o lado paterno da família é de origem portuguesa. Minhas avós tiveram papel fundamental em minha formação enquanto pessoa e profissional. Ambas me educaram com valores preciosos. Fui cercada pela ludicidade das brincadeiras, das histórias contadas, dos momentos de aprendizagem, das vivências compartilhadas, das horas a fio em que desenhava e confeccionava brinquedos com minhas avós. São memórias afetivas muito fortes. Estudei nas escolas de minha avó materna, no Centro Educacional de Niterói e me graduei pela UFRJ.

Como foi sua formação artística?
Sou Bacharel em Gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Busco me atualizar, já fiz cursos no Museu do Ingá e na EAV – Parque Lage, fora seminários e palestras que costumo assistir. Atualmente estou cursando “O Processo Criativo” com Charles Watson.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Tunga, Farnese de Andrade, Cildo Meireles, Ivens Machado, Hilal Sami Hilal, Nelson Leirner, José Rufino, Duchamp, Louise Bourgeois, Marcia X, Joseph Beuys, Anna Bella Geiger. Também incluo pensadores e escritores como Clarice Lispector, Bachelard, Deleuze, Leibniz, Darwin, Leonardo Boff, Drummond, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Ponty, Foucault, Nietzche, Marcelo Gleiser, Jung, Bauman, Edgar Morin, Nise da Silveira e por aí vai.

Como você descreve sua obra?
Não gosto muito de descrever o que produzo, acho que é preciso deixar margem para o devaneio, um espaço para que a obra possa intrigar o espectador, criar certo desconforto próprio do que é desconhecido. Mas ao mesmo tempo a reflexão sobre o trabalho é importante. Acredito que a minha pesquisa plástica vai me apontando o caminho, a cada dia que passa aprendo mais um pouco, me aproximo de alguns conceitos e às vezes me surpreendo com outras questões que surgem, antes impensadas. Existe algo de taxonômico no que faço, e isso devo a Pierre Crapez e seu belíssimo texto “Taxonomia de Dois Infinitos”. Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer também a Moema Branquinho que em diversos momentos conversou comigo sobre minhas obras, ela apontou muitos caminhos e me ajudou a perceber que eu estava trabalhando com diversas séries, filos, espécies nos meus desenhos. Contudo o que posso dizer é que sou inspirada pelos seres, organismos, e pela origem da vida, por essa biodiversidade complexa.

Especificamente sobre a série feita com formas sobre folhas de um antigo dicionário, algum artista foi inspirador?
Os estudos que denomino Memórias Documentadas surgiram a partir de um estágio que fiz no Centro de Conservação e Encadernação da Biblioteca Nacional. Durante seis meses tive contato com livros antigos, como, por exemplo, “Relíquias de Casa Velha” de Machado de Assis. O contato com esses documentos fez surgir, em 2007, uma série de gravuras em metal que tiveram suas folhas envelhecidas com borra de café. Depois passei a desenhar sobre as folhas de um dicionário de 1920 que era do bisavô de meu marido. As “Cartas de Areia”, “Plasmatio” e “Memento Mori” de Rufino muito me inspiram e influenciam, bem como a obra “Viemos do Mar” de Farnese de Andrade, entre outras.

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Não existe uma fórmula a ser seguida, mas acredito que é fundamental levar o que se faz a sério, levar seu objeto de estudo / pesquisa plástica a uma investigação incansável e profunda e, acima de tudo, verdadeira. O resto é consequencia do trabalho. Atualmente sou representada pelas galerias FaceArte e Caza Arte Contemporânea.

Eu vejo uma grande dificuldade na divulgação do trabalho dos novos artistas. como seria possível melhorar?
Acho que é um problema semelhante ao do primeiro emprego, não dão crédito a quem não tem um nome construído, mas como se constrói um nome sem uma primeira oportunidade de mostrar um trabalho? O mundo está cheio demais de tudo, de informação e formação, agora não basta mais ser graduado, tem que ser mestre e doutor, daqui a pouco teremos que ser PhD para termos chance de nos empregarmos? O mercado de trabalho está inflado, cada vez mais competitivo e na arte acho que não é diferente. Seria bom se todos tivessem as mesmas oportunidades de estudo, moradia, saúde, mas a realidade não é bem assim. Vejo esta questão como algo bem mais amplo e não sei mesmo dizer como ela poderia ser resolvida, acho que teríamos que viver em um mundo diferente, com princípios mais humanos e democráticos como já foram inúmeras vezes levantados por Boff. De qualquer forma acredito que iniciativas independentes, como a de seu blog sobre arte, contribuem para divulgação de novos artistas.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Gosto bastante de música, a clássica especialmente me inspira. As obras de Clarice Lispector. O balé é muito interessante também, tanto o clássico quanto o contemporâneo. Sinto falta da dança em minha vida. Já fiz balé clássico e penso que o movimento, a concentração, equilíbrio e liberdade de expressão corporal contribuem para o desenvolvimento artístico, principalmente se pensarmos em ações performáticas. A arte educação é um grande estímulo. Atualmente coordeno o Educativo do Museu Carmen Miranda e é engrandecedor ver a potência de uma obra de arte pelo olhar atento do público que ressignifica e recria o objeto apreciado. O olhar e os depoimentos do público me fazem rever e revisitar grandes obras de arte. Vejo na Carmen Miranda não apenas uma cantora, mas uma figura performática, um barroco carregado de cores, alegorias e antropofagismos. Vejo os “Parangolés” do Hélio, a “Cabeça Coletiva” de Lygia Clark e até mesmo referências conceituais de Duchamp e Beuys.

Você tem uma rotina de trabalho?
Eu tenho muitas metas que tracei e pretendo cumprir este ano. Dedico alguns momentos do meu dia para ler bibliografias que tem relação com conceitos do meu trabalho e para produzir. Ainda não alcancei o meu ideal que é trabalhar nas minhas pesquisas plásticas pelo menos três ou quatro horas por dia. Estou tentando conciliar tudo, museu, minha produção e minha vida pessoal.

O que você pensa sobre os Salões de Arte?
São válidos e importantes, pois através deles, os artistas tem oportunidade de mostrar sua produção.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
É um bom momento para ver o que é produzido no panorama contemporâneo, pena que muita coisa boa fique fora devido ao processo seletivo.

Que museus no exterior você gostaria de mostrar seu trabalho?
Adoraria expor no MOMA, Guggenheim, Tate Modern e Pompidou.

Quais são seus planos para o futuro?
Desenvolver os projetos pessoais que ainda estão engavetados, fazer mestrado, cuidar da minha casa, viajar bastante pelo Brasil e pelo mundo afora, curtir bastante meu marido, minha família e meus amigos.

O que você faz nas horas vagas?
Saio para jantar, visito os amigos, vou ao cinema, recebo amigos e família em casa, vejo filmes, seriados, vou a exposições e caminho na praia.

Karla Gravina da nova geração de artistas do Rio de Janeiro é representada pela FaceArte e Kasa Arte Contemporânea. Pela entrevista é possível identificar a seriedade e a vontade em construir uma consistente sempre em busca de novos caminhos e desafios. Boa sorte Karla e muito obrigado por sua participação.

Série Memórias Documentadas













TAXONOMIA DE DOIS INFINITOS

Obsessivamente, Karla continua perseguindo seu inventário-classificação das formas complexas que brotam espontaneamente de seu imaginário. São formas orgânicas, estranhas, que surgem de um imaginário em expansão, como em um movimento espiralado encontrado no eixo das conchas, tantas vezes desenhadas por Ernst Haeckel.
Pois, como não aproximar tais desenhos meticulosos dos estúdios morfológicos desse biólogo do século XIX, discípulo de Darwin, misturando em suas observações espanto e precisão diante da biodiversidade, uma biodiversidade que em sua arquitetura íntima mostra-se recheada de infinitos.
Também podemos identificar nos desenhos de Karla padrões estruturais básicos encontrados nas formas orgânicas de Haeckel: explosão, ramificação, espiral, meandros. Mas Karla acrescenta ao inventário das formas naturais um repertório próprio transmutado pela sua imaginação. Em seus devaneios, ela assim adivinha um devir das formas da natureza pela natureza das formas e se enxerta deste modo nesta morfogênese universal que dá à vida seus vários aspectos.
Seu inventário não deixa escapar nada dessa vitalidade das profundezas coletada em sua secreta natureza, e que parece florescer em cada página. Assim, tal qual um taxonomista aventuroso observando meticulosamente as variações das espécies, entramos com seus desenhos, em Terras longínquas e incógnitas. Pois a imagem cósmica não é fruto de uma percepção banal, ela nasce de um desejo de ver além, numa outra visão. Bachelard já dizia: “Todo devaneio cósmico é um além da Percepção, nele rompe-se a distância entre o sonhador e o mundo. Numa contemplação plena, o sonhador e o seu mundo estão em comunhão, quase se tocando.”
Nesses desenhos, onde o espaço é aprisionado num novelo de traços, o fruidor aninha-se em um Universo singular; torna-se um sonhador de mundos. Um mundo agora objetivado por desenhos de “quase observação”. Tocamos assim, pelos olhos, os vestígios de um Mundo. “O devaneio cósmico nos faz habitar um mundo, pela cosmicidade da imagem nós recebemos uma experiência de mundo”, nos diz Bachelard.

São entrâncias, saliências, topologias complexas num emaranhado de linhas conduzindo a vários infinitos se entrelaçando como em uma “Fita de Mobius”. Só a imaginação adentra tais entranhas do espaço. “Aqui duas profundezas se conjugam, se repercutem em ecos, que vão da profundeza do ser do mundo à profundeza do ser do sonhador” (Bachelard).
Afinal, esse trabalho é a Taxonomia de dois infinitos se conectando. Mas tais desenhos miniaturas, moradas de múltiplos infinitos, revelam no fundo uma potência do ser. “Eu me sinto vasto, quando eu sonho com o infinitamente grande e com o infinitamente pequeno”, nos diz Yves Klein.
Não é só pela espacialidade desses desenhos que somos convocados para uma experiência de mundo, mas também por uma temporalidade outra, pois essas formas lembram formas de vidas elementares, primitivas, são formas de uma gênese da criação. Somos conduzidos em um mundo em gestação. Um tempo cósmico ancestral as habitam e através dele a artista nos conduz em um tempo de origem. Karla traduz em seus desenhos uma cosmogênese do olhar, uma cosmogênese em seu processo evolutivo e que figuram em páginas de enciclopédias antigas, preservadas do esquecimento. Esse é o Resgate de uma cosmologia do olhar, do espanto primeiro nascido da conexão misteriosa entre a Mão e o infinito em nós.

Pierre Crapez
Curador /crítico de arte

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