sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Julia Debasse



Julia Debase


Julia Debasse consegue se dividir com competência entre a música e as artes plásticas. Trabalha com desenho, pintura e fotografia. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Julia obrigado pelo depoimento.





Conte um pouco de sua vida pessoal
Eu nasci no Rio de Janeiro, onde me criei filha de um músico e uma dona de casa. Minha criação, pelas fortes inclinações artísticas dos meus pais, talvez tenha sido incomum, e imagino que não sejam muitas as mães que lêem "Salomé" do Oscar Wilde para seus filhos como história para dormir. Eu gostava de desenhar quando criança, como muitas outras crianças gostam de desenhar. Na minha casa, no meu ambiente familiar, valorizava-se muito mais a música e a literatura do que as artes visuais, e isso talvez explique muito do meu trabalho como artista visual. Eu gostava de inventar histórias e canções mais do que eu gostava de desenhar. Academicamente posso me considerar uma fracassada. Não cursei faculdade, nem terminei o segundo grau. Me arrependo disso, de não ter terminado o segundo grau. Não gostava da escola, mais por um certo desarranjo social, apesar de gostar muito de algumas matérias, como História. Adoro História e estudei muito por conta própria, paixão herdada dos meus pais e meu avô paterno. Minha família foi a responsável pela minha formação intelectual, e fui ensinada e encorajada a estudar os assuntos que me interessavam por conta própria. Minha primeira paixão sempre foi e sempre será a música, mais especificamente a canção popular. As artes plásticas entraram na minha vida depois, de uma forma sorrateira - não foi algo arrebatador. Foi gradual e, de repente, me vi imersa nesse universo, sendo levada pela mão e tentando entender as coisas conforme elas vinham para mim, sempre um pouco confusa.


Como a arte entrou na sua vida?
Pela música, como já disse. As artes visuais entraram na minha vida, por acaso, pela música também. Tenho uma amiga com quem me encontrava para tocar, pois temos gosto musical parecido, a Maria Rosa. Bebiamos e tocavamos violão e ela, enquanto eu tocava, pintava. Eu fui me interessando por aquilo, via ela pintar e um dia, meio bêbada, resolvi pintar também. Já tinha feito algumas experiências tolas e adolescentes, mas dessa vez foi diferente. Eu pintei pela pintura mesmo. Engraçado que a mídia que nós improvisamos naquele dia (papel quarenta quilos e tinta acrílica) ainda continua presente no meu trabalho de pintura. Com este primeiro trabalho pronto, e toda a cara de pau que Deus me deu, apareci na aula do João Magalhães, levada pela Maria. O João gostou do trabalho, disse que era bom e eu fiquei abismada com quanto a minha tosquice e falta de habilidade poderia ser interpretada positivamente. Como alguém que não tinha nenhum contato com arte contemporânea aquilo veio como um choque. O João me fez estudar (estudei bem menos do que ele gostaria que eu estudasse), anotei nomes, corri atrás. Eu era muito nova, tinha 18 anos. O João me encorajou muito, eu comecei lentamente a acreditar (mas até hoje frequentemente duvido) no que eu estava fazendo. Mas o essencial foi estudar e ver coisas. E acho que é bom duvidar do que se está fazendo às vezes.

Qual foi sua formação artística?
Parque Lage, Parque Lage, Parque Lage. Tive como professores o já citado e sempre presente João Magalhães, mais tarde o Walter Goldfarb, que também me deu muita força. O Walter me arranjou uma entrevista para um programa para Artistas Educadores na Casa Daros. Aí foi um choque cultural bizarro. Eu era a unica pessoa que trabalhava com pintura em um grupo de 30 artistas. Aprendi pra caralho neste curso - reforcei algumas coisas nas quais eu acreditava e aceitei outras coisas que eu negava. Era incrível, fomos levados ao ateliê do Cildo, tivemos a chance de conversar com ele e com diversos artistas latino-americanos fodas. Mas o mais importante eu aprendi com os meus colegas de curso, pessoas da minha idade, todas muito mais sabidas de arte do que eu, formadas ou quase formadas por cursos de Arte, principalmente pela EBA. Eu grudei neles e aprendi muito. Fiz amigos-artistas incríveis, que me ensinaram horrores e estão aí bombando e descobrindo o mundo comigo, pessoas como a Gabi Mureb, Pedro França, Camilla Rocha e muitos outros. Aprendi mais com eles do que com os palestrantes. O grosso dos artistas com quem eu lidava no Parque Lage eram muito mais velhos do que eu - foi importante estabelecer contato com pessoas da minha geração.


Quais artistas influenciam seu pensamento?
Eu sou tão influenciada por músicos e escritores quanto por artistas visuais. No campo das artes visuais eu sempre me identifiquei com a Tracey Emin, o Leonilson, . Existe uma certa dose de "verdade emocional" no trabalho deles que eu acho que também está presente no meu, além de uma clara construção narrativa. Mas eu sempre fui influenciada também por cantores populares, como Bob Dylan e Roberto Carlos. Não consigo estabelecer qualquer diferença entre o que o Roberto Carlos,o que a Tracey Emin faz e o que Bach fez. Eu não vejo "cultura popular" e "cultura erudita" e sei que muitas pessoas enxergam isso como ingenuidade da minha parte. Como lido com pintura estou falando de uma tradição milenar, e tenho frequentemente pintores como referência - e um interesse pelo olhar histórico vinculado a pintura. Os trabalhos do Almeida Júnior me emocionam muito. Giorgione é um outro pintor que me toca. Existe sempre uma força narrativa nos trabalhos e artistas que me atraem - eles contam histórias. Seja esse artista o Mc Marcinho, Homero ou o Peter Doig.

Como você descreve sua obra?
Acho que os elementos constantes são um certo senso de humor sardônico que eu considero essencial para um trabalho tão auto-referente...as minha referências, também, vem mais da literatura e da música do que da história da arte. Eu acredito que o que pode, talvez, fazer o meu trabalho relevante seja justamente isso - criar imagens usando uma matéria que não é da arte. Isso se traduz também na escolha dos materiais - eu faço uso de materiais familiares as pessoas - a pintura que acontece sobre um papel que pode ser encontrado em qualquer papelaria, a caneta bic, a imagem criada a partir de referências culta e da referência pop. Minha maior preocupação, em qualquer coisa que eu faça, é demarcar um universo estético e acho que tenho conseguido fazer isso. Existe no meu trabalho uma frequente alusão a violência da natureza - os lobos, a carne, a atração e o perigo que permeiam a relação entre o homem e os animais. Eu frequentemente aludo ao amor romântico e as coisas que são bonitas e perigosas. Me interessa a crueldade do amor romântico, as coisas que nós deixamos que nos matem...Não é nenhum exagero dizer que, na música, o amor romântico é o principal tema da maior parte dos compositores populares. Acho que por isso eu também tenho isso como tema principal do meu trabalho visual e sempre me intrigou como este assunto é tão pouco popular nas artes plásticas quando comparado a música popular. Existe uma crueldade no meu trabalho, uma violência e uma crueza que podem ser usadas para descrever tudo o que eu faço.

Desenho ou pintura, alguma preferência?
Uma vez ouvi o Cildo dizer que o desenho é a menor distância entre a sua cabeça e a sua mão, ou algo assim. Existe uma ligação imediata no desenho, para mim é uma coisa na qual eu não consigo usar truques ou macetes. Não tenho preferência - são veículos diferentes, se movem de forma diferentes e, consequentemente, me levam para lugares diferentes.

A mulher tem o mesmo espaço do homem na arte brasileira?
Sim, tem o mesmo espaço, mas frequentemente exige-se coisas diferentes para que ele seja conquistado. Já passei maus bocados por ser mulher, já ouvi alguns absurdos de galeristas e críticos, já recebi cantadas e propostas que não tinham porra nenhuma a ver com o trabalho. É uma dessas coisas que acontecem, que me irritam, mas que talvez aconteçam com qualquer pessoa que se expõe através do seu trabalho como eu faço. "It comes with the territory", eu diria. Eu não quero que nada que eu não escolhi ser me defina - eu não escolhi ser mulher, eu não escolhi ser branca, eu não escolhi ser de classe média...então não vou ficar falando dessas coisas porque elas não são, e não devem ser, relevantes.


Qual sua opinião sobre Bienais e Feiras de Arte?
Eu não sei, sinceramente, só frenquentei as feiras de arte e bienais no Brasil - talvez seja pouco para falar sobre algo que é tão internacional...Não tenho opinião, na real, sobre as feiras de arte - são divertidas, bebida liberada, você conhece pessoas, mas são um evento para galerias ou artistas representados por galeria - como eu não sou nenhuma das duas coisas só me resta beber de graça.
Gosto das Bienais pelo desafio de curadoria que elas propõe. Eu não sou curadoria, mas acho o processo interessante...E acho curioso como as matizes políticas dos países de "terceiro mundo" buscam ser representadas de forma esteriotipada em algumas bienais internacionais. Escolhem o trabalho de um artista etíope que fala sobre a fome, escolhem o trabalho de um artista colombiano que fala sobre o narco-tráfico: tudo bem lúdico e "político", cada um no seu quadrado representando a miséria regional. Isso é meio chato, meio tacanho, mas parece dar muito ibope. Vá lá, mas me incomoda.


O que você pensa sobre os salões de arte?
Eu não tenho muita experiência de primeira mão, mas me parece que existe um salão para todo tipo de trabalho, e isso é uma coisa boa.

O que um jovem artista precisa para ser representado por uma galeria?
Não sei - se alguém souber, inclusive, faça o favor de me avisar. Mas acho que ele precisa fazer o que o galerista sabe vender, não?

É possível viver de arte no Brasil?
Sim, é possível, mas é improvável.

Você é música e escritora, como essas atividades interagem com a arte plástica?
Eu escrevo mas eu não sou escritora...não trabalho com isso, não me dedico, então seria muito injusto usar essa palavra...Eu uso a palavra escrita mais como compositora, associada a acordes e melodia. Essas coisas, a arte, a música, as palavras - elas não interagem por que elas são, a meu ver, a mesma coisa. Eu não posso criar uma mistura dessas coisas porque elas são a mesma coisa. A minha necessidade de falar com as pessoas é que motiva todas essas coisas, a minha necessidade de me comunicar....é como se fosse uma espingarda de dois canos - são duas balas, mas um só gatilho.

Quais são seus planos futuros?
Eu quero tentar ganhar dinheiro com essa parada, achar um jeito de continuar fazendo isso sempre e ganhar um dinheirinho honesto...e quero voltar a tocar, sinto muita falta, sou um pouco infeliz por não ter feito shows. Quero emagrecer dois quilos e voltar ao peso anterior a gravidez. Quero fazer trabalhos diferentes, aprender. Eu sempre quero aprender.

O que você faz em sua horas livres?
Assisto televisão, principalmente séries e futebol. Jogo buraco ou poker online, leio romances, recebo os meus amigos, fico com a minha família, namoro. Nada muito emocionante. Eu tenho um filho pequeno agora, já não tenho muitas horas livres...ou vai ver todas elas são livres agora.




Traquinas

Playbck is a Bitch

Doing Something Dangerous

Duo Negro

A Menina e os Lobos.

Retrato da Artista com seu Galerista

Ei-lo

A Queda de Roma Fotografia

Essa não é uma canção pacifista e nem é uma canção pela guerra. É pra pedir justiça. Tudo que eu quero dizer realmente é que "a terra só é sagrada se for de todo mundo." E não é uma canção sobre uma idéia, é uma canção sobre uma sensação - a sensação de impotência que faz um sujeito se explodir em centenas de pedacinhos. Claro que eu não defendo isso (é injustificável, terrível, não pode ser defendido) - eu escrevi isso pensando não só no meu sangue árabe (sou descendente de libaneses), mas tentando entender da onde vem tanto ódio, tanta mágoa e tanto horror.

SANGUE ÁRABE

Os garotos estão no pátio
Ensaiando passagens bíblicas,
Me pediram que eu lambesse
Selos de cartas mal escritas.
Eles aceitam convênios
Com Alah, Jesus ou Buda,
Eles comandam engenhos
Daqui até Singapura

Meu sangue árabe ferve
E a noite se despedaça,
Como uma bomba no Líbano,
O vidro numa passeata

O cacique quer todas as penas
Para seu novo cocar;
A pomba gira sem asas
Jamais sai do lugar.
Deus não se incomoda
Com essas questões terrenas,
Ele não vai assegurar
Suas vitórias pequenas.

Meu sangue árabe ferve
E a noite se despedaça,
Como a bomba em Bagdá
O vidro na passeata.

Na sua poltrona de couro,
Veste sapatos apertados,
Chacoalha olhos em suas mãos
Como se fossem dados.
Tire de quem não tem nada,
Alimente o ódio mútuo,
A terra só é sagrada
Se for de todo mundo.

Meu sangue árabe ferve
E a noite se despedaça
O muro em Jerusalém
O vidro na passeata.






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