sábado, 21 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista José Maria Dias da Cruz



Conheci o artista e professor José Maria Dias da Cruz como seu aluno na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Impressionou-me seu conhecimento sobre arte e, especialmente cores, assunto estudado por ele durante anos. Ao mesmo tempo, era professor interessado em transferir para o aluno todo seu saber. Sua educação esmerada, sua permanente disponibilidade e sua sólida cultura causaram em todos nós uma impressão muito significativa. Saí de lá com a sensação que cada aluno acabava um amigo e admiridor do grande mestre. Fico feliz em oferecer aos leitores do blog seu depoimento. O vídeo é de sua exposição no Paço Imperial.


Como a arte entrou em sua vida?
Perde-se no passado a entrada da pintura em minha vida. Talvez possa dar uma explicação psicanalítica. Sou filho de um grande escritor, Marques Rebelo (Nomes como Graciliano Ramos, Antônio Houaiss, João Cabral de Melo Neto, Millôr Fernandes e outros o consideravam melhor que Machado de Assis. Infelizmente um advogado psicopata e muito poderoso se apropriou do inventário de meu pai, do formal de partilha e outros bens da família impedindo-a, assim, de reeditá-lo, e hoje está um pouco esquecido). O fato é que, inconscientemente, não quis enfrentá-lo e escolhi a pintura como escape, esta que para meu pai, depois da literatura, era a arte que mais o fascinava, muito embora fosse incapaz de desenhar ou pintar qualquer coisa. Na condição de filho de escritor e apaixonado por pintura a arte, fui tomado por estas paixões, mas diferente dele escolhi as artes plásticas.



Qual foi sua formação artística?
Como disse acima, meu pai como escritor tinha uma boa biblioteca, e muitos livros de arte. Encantava-me com estes. Com 11 anos já pintava meus primeiros quadros a óleo. Como recebíamos muitas visitas de artistas (Pancetti, Milton Dacosta Di Cavalcanti, Tarsila, quando esta vinha ao Rio, e alguns outros) sempre mostrava meus quadros e, assim, acabava sendo muito bem orientado.
Quando completei meus12 anos comecei a estudar sistematicamente com Santa Rosa, Aldary Toledo, Flávio de Aquino e Jean Zach. Quando terminei o segundo grau meu pai conseguiu uma bolsa de estudos do Itamaraty e do Governo Francês e fui estudar em Paris durante dois anos sob a orientação de Emílio Pettoruti. Lá frequentei também Académie de la Grande Chaumière.
Lembro-me como fiquei deslumbrado com a minha primeira visita ao Louvre. Foi uma emoção indescritível. Uma reprodução, por melhor que seja, jamais irá substituir um quadro ao vivo.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Muitos, mas principalmente Poussin, Chardin, Delacroix, Braque e mais que todos, Cézanne.
Além de estudar os quadros desses mestres ao vivo, sempre gostei de ler o que os artistas escreviam. O Tratado da Pintura do Leonardo, por exemplo, até hoje o estudo. O mesmo com os pensamentos de Braque. Assim como Cézanne, acredito que Braque deve ser mais estudado.

Como você descreve sua obra?
Já tenho mais de 60 anos de carreira. Quando voltei de Paris estava muito dividido entre ser figurativo ou abstrato. Eram tantas as dúvidas que parei de pintar em 1962. Em 1967 voltei a pintar e surgiu o primeiro formulário, e com ele defini meu projeto plástico. A cor já estava presente nos meus objetivos. Infelizmente não consegui espaço para expô-los, o que me fez abandonar a pintura por uma segunda vez. Em 1973 retornei à pintura. Dos formulários passei para as naturezas mortas, mas na medida em que meus estudos da cores se aprofundaram, o abstracionismo se afirmava, muito embora hoje já não vejo essa classificação (abstrato x figurativo) como pertinente.



Como exemplo de como se formou meu projeto plástico, segue um dos primeiros formulários.




Nessa ocasião trabalhava em uma empresa subsidiária da Rede Ferroviária Federal, AGEF- Armazéns Gerais Ferroviários. Trabalhava como programador visual e era incumbido, além de outras tarefas, de projetar os formulários da empresa. Criei umas normas para tal, mas na verdade estava criando as bases de meu projeto plástico.


Atualmente me interessa uma geometria das cores como o quadro acima talvez possa ilustrar. Esse Azul

Você foi professor da EAV do Parque Lage por um longo período, como foi a experiência?
Fui professor do Parque Lage e também do MAM-Rio durante 30 anos. Creio que aprendi mais do que ensinei, tal riqueza e profundidade das trocas de ideias. E tanto numa como noutra instituição conversava muito com outros professores. Felizmente sempre tive bons alunos.

Como você vê a pintura no século XXI?
Vejo a pintura como uma manifestação, não obstante tantos meios técnicos à disposição dos artistas atualmente, com muitas questões que podem ser exploradas por ela somente. No meu caso, por exemplo, vejo a cor, que sempre foi recalcada em nossa cultura, desde os filósofos gregos, passando por Kant, que consideravam-na supérflua, como uma campo enorme para ser explorado. E tem muitas outras questões bem específicas da pintura. Infelizmente vemos muita pouca pintura nas Bienais ou exposições oficiais. Pintores coloristas, então, quase nada. Não foi à toa que Sêneca afirmou que em cada 10 pintores um apenas é colorista. Há ainda o fato ocorrido nas décadas de 60 e 70. Artistas importantes, como o Hélio Oiticica, por exemplo, embora tivesse dito que havia uma questão importante para ser resolvida na pintura, a cor, disse também que a era do quadro de cavalete estava definitivamente inaugurada.


Que sugestões você daria a um jovem artista para conduzir sua carreira?
Repetiria o que me disseram meus orientadores. Do arquiteto Aladary Toledo: “Aprende-se mais pintura lendo-se poesia.” Do Pancetti: “O importante é a obra circular. Se não conseguimos vendê-la, é melhor doá-las” (É curioso acrescentar-se que a coleção do Gilberto Chateuabrinad foi iniciada com um quadro presenteado por Pancetti.) Do Goeldi: “Não existe artista mau caráter.” É bom sempre lembrar que a arte não é somente uma questão estética, mas também ética.

O Cromatismo Cezaneanno foi seu último livro, que mensagem podemos retirar dele?
Escrevi dois livros; A Cor e o Cinza e O Cromatismo Cezanneano, e ambos considero inconclusos.
Estou tentando mostrar que podemos pensar não considerando as coisas com valores absolutos. E mais, como nosso pensamento pode ser simultaneamente sincrético e analítico ou quantitativo e qualitativo. Estudando a obra de Cézanne compreendi porque ele disse que a luz não existe para o pintor, tem que ser substituída por uma outra coisa, a cor. Percebi, então, que um círculo cromático que classifica as cores em primárias e secundárias é limitante. Por ele as cores têm um valor absoluto. Compreendi também o que Cézanne estava pensando quando afirmou que somente um cinza dificílimo de se alcançar reina na natureza. Denominei esse cinza de sempiterno e percebi que ele é, simultaneamente, a causa e efeito dos coloridos. Compreendi, também, uma frase de Leonardo que está no Tratado da Pintura na qual ele diz que devemos observar com muito cuidado os limites de qualquer corpo e o modo como serpenteiam para julgar se suas voltas participam de curvaturas circulares ou concavidades angulares. Isso me fez ver que devemos observar com muito cuidado as questões teóricas levantadas pelos “homens de letras”, como assim se referia Gauguin ao afirmar que esses teóricos acabam criando dogmas que desorientam não somente os artistas, mas o público em geral. Lemos em quase todas as histórias das artes que Leonardo introduziu o esfumato na pintura. Esfumato é um procedimento e não uma questão teórica e no Tratado da Pintura nada sobre essa questão é dito. Leonardo faz uma referência teórica sobre o serpenteamento bem complexa quando escreve sobre os limites dos corpos.
Tento abordar as questões acima, entre outras, no livro sobre o cromatismo cezanneano. Acredito que os leitores possam se interessar em explorar mais profundamente essas questões.

Quais são seus planos para o futuro?
Como disse acima já publiquei dois livros os quais considero ambos inconclusos. Portanto, planejo ir em frente com meus estudos.
Cézanne é um pintor muito complexo. Se ele disse que devemos ver a natureza como ninguém a viu antes, creio que hoje podemos dizer que devemos ver Cézanne como ninguém o viu antes.



O número de novas galerias inauguradas recentemente no Rio e São Paulo é impressionante, você sente o mercado aquecido?
Sem dúvida o mercado, aqui no Brasil, sobretudo, está bastante aquecido, mas devemos considerar esse fato com muitas reservas. Hoje vivemos um momento crítico onde predomina um neoliberalismo selvagem no qual o poder do dinheiro praticamente tudo domina. Nesse sentido concordo com Sérgio Milliet que afirma no livro Marginalidade da Arte Moderna, editado na década de 40 que, em momentos de crises profundas, o artista é um marginal.

José Maria Dias da Cruz
Maio 2011

O Cromatismo Cezanneano. Livro do artista.

José Maria Dias da Cruz



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