sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Jose D'Apice

Jose D'Apice

Conversando sobre Arte entrevista o artista brasileiro radicado na Itália Jose D'Apice. Uma bela carreira no exterior tem seu trabalho praticamente desconhecido no Brasil. Sinto-me honrado em poder divulgar para os leitores a obra desse importante artista visual. Agradeço a D'Apice pela extrema gentileza em responder minha solicitação e espero vê-lo em breve no Brasil. Cabe-me agradecer ao nosso amigo José Brito, que com sua generosidade e prestígio possibilitou essa publicação.


D'Apice, conte um pouco de sua vida pessoal.
Nasci em São Paulo, num bairro por mim muito amado: o Bom Retiro. A minha infância, compartilhada com outros meninos da vizinhança nos jogos, nas descobertas, nas disputas, na solidariedade, forneceu-me todo o assombro interior que até hoje guardo aqui dentro como um tesouro raro. Meus pais, gente da média burguesia, eram recheados de amor e compreensão para comigo e minhas duas irmãs. Deixavam-nos soltos para viver e gozar da irresponsabilidade de ser criança. Foi um tempo belíssimo. Minha formação escolar deu-se prevalentemente no Liceu Coração de Jesus, um colégio dirigido por padres salesianos. Era um edifício solene que ocupava um inteiro quarteirão e cada vez que ultrapassava o grande portão de ingresso para assistir as aulas uma sútil vertigem se apoderava de mim. Estava iniciando a confrontar-me com a disciplina escolar e a gramática dos sentimentos.

Como foi seu encontro com a Arte?
Na minha adolescência existiam duas coisas que cultivava com grande transporte e assiduidade: ir ao cinema e comprar livros de pintores famosos. A tela do cinema me permitia sonhar mundos inimagináveis até então: histórias terrívelmente belas de heróis imortais ou de dramáticos conflitos interiores, de dinâmismo e ação. Na placidez da minha casa, ao contrário, o ato de folhear um livro contendo fotos de quadros me mostrava o lado oposto do poder de uma imagem. Era aquele do silêncio, da introspecção, da viagem interior. Com o passar do tempo o simples gesto de ter em mãos um lápis e desenhar "qualquer coisa" foi-se tornando, sem que eu me desse exatamente conta, uma forma quase automática de expelir para fora "aquilo de bom e ruim" que acumulava vivendo.

Como foi sua formação artística?
A minha formação artística, paradoxalmente, inicia no teatro. Fui convidado por Ulysses Cruz para fazer parte do elenco do espetáculo teatral: "Tem banana na banda", já levado ao sucesso anos antes pela nossa inesquecível Leila Diniz. Éramos em torno ao ano de 1975, uma época muito estimulante para quantos de nós tentava pôr em discussão as regras de um establishment que já se tornara, junto à ditadura militar, oprimente e deprimente. Era a primeira vez que subia num palco e isso representou para mim uma abertura violenta. Ser uma outra pessoa eliminava improvisamente a minha atávica timidez. Com esse espetáculo decidimos participar do prestigioso Festival Nacional de Teatro Amador em Ponta Grossa (PR) e qual não foi a surprêsa de todos nós quando lá do palco chamaram meu nome como a Revelação Masculina do festival (!) O prêmio, atribuido-me pelo Governo do Estado de São Paulo, consistia numa Bolsa de Estudos de Teatro. Todavia consegui transformá-lo, após mil peripécias, numa Bolsa de Estudos para a Academia de Belas Artes de Roma.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Não existe um artista em particular que influencia meu pensamento. Considero o pensamento algo fortemente íntimo, subjetivo. Posso, ao invés, afirmar-lhe qual foi o artista que mostrou-me como, usando a linguagem artística, se pudesse instaurar um diálogo profundo com o próprio Eu. Esse artista chamava-se Ingmar Bergman, diretor de cinema sueco. Eu o considero um gigante e assistindo aos seus filmes pude sentir-me menos só com meus medos, minhas inseguranças, meus fantasmas. Logo depois de Ingmar Bergman vem Leonardo da Vinci.

Como você descreve a sua obra?
A primeira coisa que exijo do meu trabalho é que ele entre em diálogo com quem lhe está à frente. Deve emocionar, produzir empatia, penetrar. Não abrindo mão todavia da ironia, do jogo línguistico do Dadaismo, do paradoxo.Nós vivemos numa época profundamente superficial, para usar um oxímoro. A "sociedade líquida" já preconizada pelo grande filósofo polaco Zygmunt Bauman. As imagens que fabrico são elementos que flutuam na superfície desta nossa tempestuosa e histérica modernidade. Perderam a própria identidade. Um sapato é cálice, uma serpente é peruca, o sofá um duende e assim por diante.

Você saiu do Brasil para estudar na Itália e acabou cidadão italiano, você poderia comentar o que ocorreu?
Muito simples: por descendência direta do meu avô, nascido na Itália. Fazendo uma pesquisa há muitos anos atrás descobri essa possibilidade e hoje sou considerado um cidadão bi-nacional, isto é, não já um ítalo-brasileiro mas um brasileiro com passaporte brasileiro e também um italiano com passaporte italiano.

Você é um conceituado artista na Itália e pouco conhecido no Brasil, como você explica?
Fazer arte é uma atividade que requer de mim um empenho total. Uma concentração e uma disciplina que ao longo de todos estes anos acabou por transformar-me numa figura solitária mas não isolado. Até mesmo no panorama da arte contemporânea italiana essa minha constância monástica foi notada.Quando vou ao Brasil não sei bem como enfrentar essa questão, justamente por ser pouco conhecido.

Há alguma possibilidade de você expor no Brasil?
Eu adoraria fazer uma exposição no Brasil. E' a minha terra, a minha gente e gostaria muitíssimo de mostrar o fruto de todos estes anos aqui na Itália. Dizem as boas línguas, caro Marcio, que o teu blog é muito seguido... Quem sabe?

Você acompanha o desenvolvimento da arte no Brasil?
Não muito, infelizmente. Sabe-se citar aqueles tres, quatro nomes que formam o time de frente da arte brasileira mas o que se dá de fato no Brasil, em matéria de novos fermentos, resta-me por enquanto de difícil compreensão. Nem na rede pode-se formar uma idéia do que acontece e da sua evolução. Seria oportuno que eu permanecesse um período no Brasil para poder tocar com mãos a contínua beleza e evolução de um povo que sabe exercitar como nenhum outro um fascínio irresistível no resto do mundo.

Você poderia falar da sua exposição mais importante?
A primeira resposta que me vem na cabeça é aquela, óbvia mas verdadeira, de dizer que todas feitas por mim até hoje foram importantes. Isso porque cada uma delas representou um momento crucial na minha trajetória artística.Recentemente foi inaugurada na Galleria Fabbrica EOS de Milão uma exposição individual dos meus últimos trabalhos. Trabalhos de grandes e médias dimensões utilizando, como sempre faço, todo tipo de suporte e técnica. Desde papel antigo do '700 a folhas de chumbo, do pergaminho ao tecido, etc O título dessa exposição é "Il libro che mi manca" (O livro que me falta) e posso afirmar que é ela, hoje, a minha exposição mais importante. A próxima, quem sabe, poderá ser no Brasil e posso assegurar-lhe desde já que será deveras a minha exposição mais importante. Será a minha primeira exposição brasileira!

Quais são seus planos para o futuro?
Não parar nunca. Nesta minha longa experiência italiana fiz mais de 20 capas de CD's de música, cenografia para a televisão, colaborei nas páginas culturais do jornal "Il Messaggero" por mais de cinco anos, criei as imagens de dois calendários para a Arma dos Carabineiros, primeiro artista estrangeiro a fazer parte dessa prestigiosa publicação. Esse fato gerou uma honraria: foi-me conferido o título de Carabineiro Honorário. Recentemente criei desenhos de tecidos e uma pequena coleção para uma grife italiana. Próximamente publicarei um conto autobiográfico enriquecido com as imagens que o geraram e relativa exposição.Eu sinto muito forte a importância deste nosso momento histórico. O mundo está passando por uma revolução em todas as áreas, urge ser presente, marcar nossa passagem, deixar uma trilha.

O que você faz em suas horas vagas?
Sou uma pessoa muito privilegiada pois posso dispor do meu tempo desenhando-o conforme a ocasião. Como um figurino, eu retalho meus espaços na medida justa dos meus sonhos. A música brasileira antes de tudo. Um crepúsculo em Roma na Piazza Navona. Um sorvete de arroz que me lembra Minas Gerais. Uma pergunta sem resposta, sempre aquela, que me faço há anos...E vou em frente, hora vaga ou não permitindo.












http://www.josedapice.it












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