quinta-feira, 12 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Jonas Aisengart





Quem é Jonas Aisengart?
Nasci no Rio de Janeiro, curiosamente em casa por não ter dado tempo de chegar ao hospital, em 30 de junho de 1987. Meu pai é urbanista, formado em arquitetura na Santa Úrsula na mesma geração do Tunga e do Pedro Paulo Domingues, foi através dele que tive o primeiro contato com o mundo das Artes visitando exposições e também com o fazer artístico já que na minha infância o meu pai passava bastante tempo desenhando.. Minha mãe é geofísica, inteligente, aplicada... Estudei em apenas 3 colégios: Espaço Educação, Bennet e EDEM, esta terceira foi bastante importante na minha escolha definitiva de me dedicar às artes plásticas e abriu minha cabeça pra muita coisa. Depois dali fui fazer pintura na escola de Belas-Artes da UFRJ onde acabei saindo no 7o período sem me formar e sempre desde o colégio e paralelo à faculdade fiz cursos complementares de desenho e pintura... Frequentei a EAV do Parque Lage em diversas fases da minha vida a partir dos 15.
Sou casado há 3 anos e tenho uma filha de 2, fato que mudou completamente o meu modo de agir e pensar sobre tudo.



Qual foi sua formação artística?
Desenho de observação a partir dos 12, Escola de Artes Visuais do Parque Lage a partir dos 15 e Pintura na UFRJ. Além disso, desde muito novo pesquiso artistas, imagens e pinto com uma assiduidade bastante grande (quase diária) desde os meus 13, 14 anos.



Que artistas influenciaram seu pensamento?
São muitos e por diferentes motivos. El Greco, por exemplo, na minha infância eu pirava com as pinturas dele, depois o Escher, apesar de não ter muito a ver com o meu trabalho atual eu sonhava que o cara fosse vivo pra me dar aula quando eu era criança... Hoje, sinceramente, imagino que ele seria um professor meio chato. E por aí vai, Picasso sempre achei genial pelo poder de se reinventar, Gauguin sou apaixonado, Van Gogh é a coisa mais fantástica que eu já vi ao vivo. David Lachapelle, Daniel Rischter, Eduardo Berliner, Munch, Chagall, Frida, Andy Warhol e Basquiat sem dúvida, são artistas que influenciaram muito o meu trabalho e o meu pensamento sobre arte. Alguns desses, eu olhei muito nesse processo da produção recente... E tem também vários amigos artistas que na troca de ideias, nos encontros da vida, acabam influenciando até mais do que esses que citei... Acho essa troca especial e fundamental.


Como você descreve seu trabalho?
O meu trabalho, eu acredito que fica entre proposição e comentário. Eu tenho intenção de propor mudanças, ideias, mas isso se dá de fato quando as pessoas, os outros, mudam seu pensamento e depois suas ações então você proporcionar reflexão através de comentários, críticas, mensagens, é um caminho. A ideia tem sido criar com a pintura um universo fabuloso e alegórico que mostre de uma forma irônica, o meu entendimento do que é a sociedade atual. Isso muitas vezes passa pelo que é a minha vida, a minha história, a minha experiência dentro desse caos que é viver nesse mundo em uma cidade como o Rio. Alguns dos personagens que povoam os trabalhos são faces da minha personalidade, revelam diferentes posturas que se manifestam em diferentes situações. Através das situações, das narrativas, que ocorrem nesse universo da minha pintura busco sugerir críticas ou ao menos um retrato social.



É possível viver só de arte no Brasil?
Espero que sim! Na verdade acredito que sim, mas neste momento, ainda não alcancei isso.


O que você estuda? Como você se atualiza?
Eu frequento muito as exposições, procuro conhecer o que está sendo produzido aqui e fora através de sites, blog... Procuro contato com as pessoas que estão, como eu, correndo atrás de produzir e acho essa troca fundamental... Gosto muito de pesquisar em publicações de arte contemporânea também, mas, no momento estou sentindo falta de frequentar alguma aula ou grupo de estudos... Penso em voltar para o Parque Lage ainda este ano... Vejo que (dentro da realidade do Rio de Janeiro) lá existe essa preocupação em se discutir arte de forma atualizada, pensando no que está sendo feito agora.


Você tem uma rotina de trabalho?
Tenho uma rotina de trabalho e não é a rotina que eu gostaria de ter na verdade.Trabalho em horário comercial com móveis, em uma loja bastante interessante, mas isso me limita muito em matéria de horário e em função disso deixei o ateliê que tinha na lapa e montei um estúdio em casa. Chego lá por volta das 19h e começo a pintar ou estudar 8, 9 horas da noite pra parar 11, meia noite, 1 hora da manhã... É uma rotina cansativa, mas é a forma que tenho de manter uma relação constante com o meu trabalho de arte.



Você escreve sobre seu trabalho?
É um excelente exercício e não acho fácil. Fiz isso recentemente para dar uma direção no press release, mas não é uma coisa que faço constantemente. Quero fazer mais, é enriquecedor e esclarecedor sem dúvida.



Você participa no momento de uma exposição na Galeria Jaime Portas Vilaseca, qual o significado para sua carreira?
Sou um artista jovem. Esse é o momento mais importante da minha carreira até agora, é minha primeira exposição individual. Uma individual é a oportunidade de você sustentar um discurso, apresentar ideias. Com essa exposição eu pude propor algo com o meu trabalho, mostrar um trabalho que ao menos se pretende consistente e que se relaciona com um discurso. A exposição é um trabalho em si, a questão da montagem, da escolha das obras por um motivo, a corelação dá outra dimensão pra uma obra. É uma oportunidade realmente maravilhosa e muito importante que o Jaime me deu através de sua galeria e eu estou muito feliz e bastante satisfeito com esse trabalho que realizei.



O que você pensa sobre os salões de arte, alguma sugestão para aprimorá-los?
Olha, percebo que a linha dos salões varia muito de acordo com as bancas de jurados... Isso é natural, mas me chama atenção porque um mesmo salão pode mudar completamente de um ano pro outro. Acaba que você conhecer um pouco as pessoas que estão atrás daquele edital faz toda diferença. Não estou criticando pois isso é realmente inevitável, é apenas uma constatação, as pessoas fazem as coisas.
Acho muito importante que existam salões de Arte contemporânea, mas talvez tenhamos poucos tendo em vista a enorme população de artistas e o alvoroço que é o mercado de arte no Brasil e do exterior para com o Brasil atualmente.



Quais são seus planos para o futuro próximo e distante?
Emendando com a pergunta anterior, quero focar agora em editais de salões e residências. Nunca fiz uma residência e imagino que seja uma experiência muito especial e importante. E espero também ter a oportunidade de participar de novos projetos como exposições coletivas, mostras... Enfim, dar continuidade ao meu trabalho e buscar novas experiências que possam me enriquecer como artista.
Além dessas questões mais práticas penso que agora que acabo de fazer essa exposição, é um momento para pensar o meu trabalho e experimentar algumas novas possibilidades que façam sentido pra mim.
Em longo prazo, tenho um objetivo que é realmente poder me dedicar integralmente ao meu trabalho como artista plástico. Penso nisso todos os dias.



Como você aproveita o seu tempo livre?
Tenho muito pouco tempo livre porque faço jornada dupla de trabalho (pintando + emprego) 6 dias por semana, mas sempre que posso estou com a minha família... Minha mulher e milha filha principalmente. Encontro também toda semana pelo menos uma vez os meus pais e meus irmãos. Vou muito ao chorinho que tem todo domingo na praça em frente ao meu apartamento e saio de noite... Uma vez por semana, geralmente sábado, de noite saio pra beber e dançar.
Sou do tipo que dá muito crédito às experiências sensíveis, acho que deixar de estudar pra tomar uma cerveja e trocar ideias com pessoas interessadas e interessantes às vezes pode ser muito proveitoso e devemos desfrutar esses momentos sem culpa.









Red, Mister C.B. e a Super Cachorra, 2012
160 x 120 cm
acrílica s/ tela








The Fabulous Sunday Stroll, 2012
acrílica s/ tela
80 x 60 cm










Crazy Bunny e Outras Lendas, 2012

120 x 80 cm

acrílica s/ tela





Quick Chat Friends, 2012 | acrílica s/ tela | 40 x 30 cm










Friends, 2011

acrílica s/ tela

50 x 40 cm








The Dog Society, 2012
acrílica s/ tela
50 x 40 cm








Crazy Bunny and crazy chick, 2012 | acrílica s/ tela | 40 x 30 cm

















EM PLENO JARDIM

A obra de arte, como sugere R. Barthes, é um fragmento amoroso. Ela se constrói

por referências, desejos, inquietudes, frustrações, prazeres e conquista seu lugar

no mundo como instrumento humano de superação dos limites e transformação

do real. Entretanto, para que esse ímpeto inicial da ação artística se concretize é

preciso conectar-se com outros olhares – outros sentimentos – e estabelecer uma

rede de canais de comunicação que amplia e reverbera a ação criativa através da

sua inserção no circuito da cultura. Esse é o seu destino, nascer no imaginário

individual para tentar se perpetuar no espaço do conhecimento coletivo.

Assim, a obra de arte atua como um estranho instrumento da verdade e da dúvida;

ela se revela e se esconde, provoca o espectador e o convida a percorrer suas


histórias, dialogando com outras imagens, identificando-se com personagens e


situações conhecidas ao mesmo tempo em que o surpreende e encanta pela revelação

de um universo novo e pessoal regido pelo mistério e pela beleza.

A pintura de Jonas Aisengart invade a retina do espectador com a criação de um

mundo povoado por seres e mistérios de grande potência visual. Ele recria um

universo lendário, um mundo essencial, um jardim fantástico onde a inocência e o

pecado caminham de mãos dadas, no qual a ternura e a perversão compõem uma

atmosfera humana, demasiado humana. Há, por isso, um diálogo poderoso com

o expressionismo, um olhar provocante sobre a história da arte através de uma

curiosa relação com a arte nórdica e germânica, nem sempre muito presente nessas

terras tropicais. Aqui não há espaço para silêncios, para grandes áreas vazias,


tudo aqui conspira para a criação de um cenário repleto de antíteses, conflitos e


encantos, estruturados por um cromatismo fauve que dialoga com artistas como

Gauguin, Ensor ou Nolde.

Sobre tais referências históricas a juventude do artista incorpora o mundo das

imagens banalizadas, a crueldade e o encantamento contemporâneo, os ursinhos

tarados, o pink bunny autorreferencial, o mundo pop espetacular na sua glória e

sua efemeridade. Jonas não foge ao diálogo com o universo infantil em toda sua

complexidade; ele cria e recria personagens e cenários de forte impacto cromático

e simbólico, e acaba por construir um universo surpreendente, integrando adequadamente

ideia e ação, força expressiva e clareza conceitual. Trata-se de uma evidente

vocação de pintor e seus trabalhos atestam que a pintura ainda pode ser hoje

um poderoso instrumento de provocação e de diálogo com a tradição e o novo.

Essa é a meu ver a principal qualidade de Jonas Aisengart: a sua capacidade de

criar um universo simbólico original e ousado, buscando referências com a história

da arte e se comunicando diretamente com as questões do mundo dos dias atuais.

A sua pintura bruta, urbana, referencia e acentua as conquistas da arte dos anos

80 e estabelece curiosas relações com certos aspectos do design contemporâneo,

como os irmãos Campana, e com ícones do neoexpressionismo alemão. Em sua

primeira exposição individual o artista processa todas essas informações com inteligência

e talento, acentuando a sua evidente capacidade de recriar e transformar

o mundo contemporâneo com os instrumentos tradicionais da práxis pictórica.

Marcus de Lontra Costa

Rio de Janeiro. Abril de 2012.

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