segunda-feira, 16 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista João Atanásio


João Atanásio.

Gravador com sólida formação e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, João Atanásio fala sobre sua trajetória e obras. Obrigado Atanásio.

Fale algo sobre sua vida
Nasci em Dom Pedro, cidade do interior do Maranhão. Sou o sexto filho de um pai artesão, fabricante de selas e calçados, curtidor de peles para a execução de seus trabalhos. Fui educado nos meus primeiros anos em escolas de Padres Alemães e graduei-me em Biblioteconomia e Documentação, na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro; exerci durante muito tempo a função de Bibliotecário pesquisador na Fundação Oswaldo Cruz, onde participei da organização, conservação e restauração do
acervo de obras raras.

Como foi sua formação artística?
Acho que tive grande influência de meu pai, nasci vendo como ele desenhava e confeccionava suas selas e seus sapatos, era um trabalho muito artesanal e criativo. Isso foi fundamental, pois me lembro bem que quando criança tentava imitá-lo. Já na pré-adolescência fui muito incentivado pelos alemães a participar de atividades artísticas no colégio onde estudava. A descoberta da gravura foi muito interessante na minha vida: na rua onde morava descobri que havia uma pequena gráfica que imprimia na técnica de Xilografia os conhecidos folhetos de literatura de Cordel, comecei a estudar e a aprender a executá-los preparando as matrizes de madeiras das suas capas, e assim descobri a gravura através desta atividade. Na década de 70 cheguei no Rio de Janeiro e descobri o Museu de Arte Moderna, onde fervilhavam acontecimentos artísticos e o atelier de gravura, onde observando os artistas trabalhando, me decidi pelo aprendizado da gravura. Nos anos 80 estudei pintura no Parque Lage e fui
orientado na PUC-RJ pelo gravador Carlos Martins no aprendizado das técnicas da gravura em metal. De 1985 a 1987 residi na Espanha, onde frequentei a Faculdade de Belas Artes San Fernando, em Madri. Neste período, como bolsista, trabalhei nas oficinas do Museu Espanhol de Arte Contemporânea.

A experiência vivida no exterior foi significativa?
Foi muito importante. O ensino das artes nas escolas onde estudei e a oportunidade de aprimorar meus conhecimentos sobre a arte através de visitas à Museus e Centros Culturais, e a obra de vários artistas, me proporcionaram mudança e progresso no meu trabalho.

Que artistas influenciam seu pensamento?
As influências não se restringem só às artes plásticas: o cinema, a música e a literatura também fazem parte do meu universo. Entre os artistas plásticos gosto muito dos populares do Nordeste, principalmente os Xilogravadores, além de Joseph Beuys, Ancelm Kiefer, Goeldi, Luciano Fontana, Antoni Tàpies, Miquel Barcelo, para citar alguns.

Como você descreve seu trabalho como artista?
No meu processo de trabalho o objetivo é lidar com todas as técnicas da gravura, resultando numa mistura que fica muito forte quando coabitam a experimentação e a tradição, resultando em quase uma obra única experimental. O trabalho que venho desenvolvendo pelo seu caráter afirma-se pelo compromisso com o desdobramento das questões gráficas. A incorporação de técnicas tradicionais e materiais alternativos estão visivelmente presentes nesse processo que não se esgota nos limites das técnicas controladas, mas com uma sintaxe rígida e assentada incorporando materiais distintos a fim de facilitar as possibilidades visuais da metamorfose - síntese dos processos de diferenciação e repetição.

Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
A ciência, o cotidiano, a música; sou muito ligado nas minhas experiências antepassadas da minha vida. O artista tem que ter ouvidos e olhos atentos para o que está a sua volta.

Há uma idéia ser a obra em papel como a gravura inadequada para o nosso clima. O que você acha e pensa sobre o assunto?
Quanto ao clima inadequado para a obra sobre papel, acredito que qualquer suporte da obra de arte tem o seu problema de conservação. O valor de obra é muito subjetivo. O que interfere em relação à gravura é a questão de sua reprodutibilidade que barateia enormemente o seu valor.

Você escreve sobre seu trabalho?
Gostaria de escrever algo, mas acho mais interessante que outras pessoas falem sobre o que vêem nesse trabalho que realizo.

É possível viver de arte no Brasil?
Quero acreditar que sim.

Como você descreve seu trabalho como professor de arte?
No meu trabalho na Escola de Arte Visuais do Parque Lage defendo a prática da convivência com pessoas de todo tipo de conhecimento e experiência. O meu desempenho é muito simples, não me considero propriamente um professor, me acho um artista mais experiente que vai guiando os alunos de forma a não bloquear e nem censurar seu trabalho, incentivo a aprender as técnica para despois abandoná-las para que possam descobrir o seu caminho e sua identidade como artista.

Que conselho daria para um jovem artista iniciante?
Ser disciplinado, trabalhar muito, conservar-se firme e constante, sem mudar e sem variar de intento.

Quais seus planos para o futuro?
Não costumo planejar meu futuro, deixo que as coisas aconteçam naturalmente.

O que você faz nas horas vagas?
Viajo, saio bastante com os amigos e familiares.




Água tinta e relevo sobre papel.



Água tinta e relevo sobre papel.



Xilogravura e gravura sobre papel.



Relevo e água forte


Relevo e água tinta.



Caixa de metal e gravura.



Objeto gravado sobre latão.



Objeto gravado sobre cobre.


Objeto gravado sobre cobre.


http://www.joaoatanasio.com

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