domingo, 1 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Jairo Valdati





Jairo é um intelectual e cientista, cursou o doutorado e tornou-se pesquisador da Universidade de Módena, Itália. Com esse perfil, ele procura uma integração entre arte e ciência. Obrigado Jairo.


Jairo, fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em uma pequena cidade no Sul do Estado de Santa Catarina, Jacinto Machado. Desde pequeno sempre tive contato direto com a natureza: plantas, animais, rios, montanhas... fui a Florianópolis onde me graduei em Geografia física, depois cursei Mestrado também em Geografia Física sobre o tema dos desastres naturais. Ali comecei a perceber o quanto somos efêmeros diante dos processos da natureza.



Como você concilia sua vida profissional com a de artista?
Não vejo muita diferença, os conceitos são sempre os mesmos.



Como a Arte entrou em sua vida?
Desde pequeno sempre tive uma predisposição às atividades artísticas, mas nunca fiz estudos, cursos sobre arte ou técnicas artísticas. Iniciei a expor quando vim para a Itália quando, casualmente, um curador notou meu trabalho.


Como foi sua formação artística?
Foi lendo, conversando com artistas, estudando muito. Arte é muito trabalho, daqueles duros. Se realmente houver o desejo de expor um conceito, uma ideia, por traz tem que haver muito trabalho, principalmente na arte contemporânea onde existe espaço para muitos tipos de expressões artísticas.


Além do estudo sobre Arte o que ajuda em seus trabalhos?
O que me ajuda muito é a minha formação acadêmica científica, pois uso os mesmos conceitos que estudei, principalmente a relação homem/ambiente ou natureza.



Que artistas influenciam seu pensamento?
Sempre gostei dos trabalhos de Burle Marx, como também dos trabalhos dos naturalistas do período que vai de 1700 a início de 1900, dentre eles Von Martius.
De Burle Marx admiro o percurso que ele fez. Tenho ele como referência principal. Porém mais que influenciarem meu pensamento, eles me deram coragem de enfrentar o mundo das artes usando técnicas não convencionais. Atualmente o trabalho (filme) de Terrence Malick “The tree of life” me ajudou a compreender melhor a questão temporal e confirmar a efemeridade do ser humano e a não reconciliação entre tempo histórico e aquele geológico da natureza.



Como você descreve sua obra?
É sempre difícil descrever algo que você realiza sem usar a escrita. Como mencionei anteriormente, tento colocar em evidência a efemeridade do ser humano diante da grandiosidade da natureza.
Como técnica, uso somente sementes, principalmente grãos de plantas leguminosas (feijões).
Nos meus últimos trabalhos, “Serie Botânica”, inicio com expedições de campo, identificando as espécies, catalogando, anotando na caderneta e fotografando-as. O passo seguinte é representá-las sobre uma tela. Antes disso, a tela é preparada com diversas demãos de base branca e acrílico. Após a secagem, inicio, sem nenhum desenho preparatório, a colar as sementes. Nesta passagem, tenho em mente todas as características da árvore principalmente o seu porte. Terminada, o que eu chamo de tábua (ilustração) botânica, começo a colocar os pequenos homenzinhos.
Gosto muito do texto que foi escrito sobre a minha pesquisa artistica e que foi apresentado na Bienal de Veneza. Ele descreve muito bem o meu trabalho:


“A primeira razão da poesia de Wordsworth é aquela, celebre, das emoções lembradas em tranquilidade «emotions recollected in tranquillity »: emoções procuradas, desejadas por uma necessidade íntima. As sensações são recebidas através de uma aventura do espírito, isto é, o contato sem mediações, ímpar e impetuoso com a natureza e seus elementos, em seguida, as emoções recolhidas são desdobradas em uma perfeita solidão, descontraídas com paixão, decodificadas e colocadas em ordem, tanto quanto possa ser possível a um clima romântico.

A criação é dividida em dois momentos: o primeiro é expor-se ao ataque, ao poder da natureza e as suas misteriosas simetrias, o segundo é retirar-se; há a passagem do limite e existe uma vontade de lembrá-la, traduzindo-a em um significado de amizade, reconfortante. Um: a busca do sublime; dois: proteção do sublime. O segundo movimento é a tentativa de trazer essas mesmas emoções para nós, deste lado do inefável, longe da experiência liminar. Em uma madura conjunção incomum de experiências, a poética de Jairo Valdati harmoniza este tipo de idealismo, com sua histórica oposição naturalista. Ao fundir os opostos, a instabilidade romântica encontra finalmente realização em um terceiro movimento: aquele da observação participante, através do qual a sugestão se torna sistema enquanto a cientificidade naturalística torna-se emoção participativa e se projeta a partir de uma caderneta de campo como uma estrutura de sinais falantes. Sinais que falam de simplicidade e emoção, ou seja, de tudo que é vida e somente o que é a vida, nada mais. Precisamente a razão que levou Thoreau a ir para a floresta (para viver em sabedoria e profundidade, para derrotar tudo o que não era a vida) é a mesma razão que nos detém a pensar nos jardins de Jairo Valdati.”

(Texto de Giulia Gibertoni que traduzi da Língua italiana para a Língua portuguesa. O texto original se encontra no final da entrevista)





Como seus desenhos dialogam com suas instalações?
À primeira vista parecem desenhos, mas não os considero assim. Acho que está mais ligado ao campo da pintura. Mas sinceramente nunca tentei inseri-los em uma categoria específica.
As telas, assim como as instalações, tratam sempre do mesmo tema, uma relação de escala, de desproporção.


O que o fez ir morar na Itália?
Vim para Itália cursar doutorado em geomorfologia, e desde o início comecei a trabalhar nas horas vagas em minhas obras. Mas o que me trouxe aqui foi a pesquisa científica.


É possível viver de arte na Itália?
Sim, é possível, como em qualquer outra parte do mundo, depende das suas exigências. Certo é que neste período de recessão econômica é mais difícil.



Que avaliação você faz da arte contemporânea na Itália?
Morando na Itália você está sempre em contato com a arte de modo geral. A sensação é um superar-se contínuo, muitas escolas nasceram aqui, principalmente após o Renascimento. Falar de arte contemporânea em um país com uma tradição gigantesca nas artes é como jogar um balde d'água no oceano, mas mesmo assim ótimos trabalhos estão sendo desenvolvidos.
Muitos destes trabalhos encontram hoje no meio midiático uma forma de comunicação. Outros mais envolvidos a temas conceituais permanecem nas fundações, museus ou galerias especializadas.


Você tem planos para expor no Brasil?
Gostaria muito, este ano comecei a divulgar meu trabalho no Brasil, mas ainda não tenho planos concretos para expor. No Brasil não tenho galerias que me represente como artista, minha relação aí foi sempre com as universidades, a nível acadêmico.
Este ano começo a trabalhar com galerias nos Estados Unidos. Quem sabe também não Brasil!?



O que é necessário para ser um ícone nas artes plásticas?
Depende, se como ícone se entende o que aparece na mídia,você tem que fazer um percurso bem especifico, se ao invés você vê a arte como uma pesquisa, um trabalho que vai além da estética, ou do meio pelo qual se apresenta, o percurso é outro. Eu prefiro o segundo e trabalho para isso.



Quais são seus planos e sonhos para o futuro?
Estou iniciando um trabalho que considero importante com uma galeria nos Estados Unidos, continuo expondo em algumas galerias aqui na Europa, principalmente em feiras internacionais.
Sonho para o futuro: expor no Brasil, espero em breve :-)










Impronte, 2008, dimensão variável, galeria Magenta52, Milão.








Ragnatela, 2009. 10x8 m. Galeria Lo Squadro dell' Altro, Modena.








Morus sp, 2012. 100x150 cm. Ufobakrik contemporary art gallery, Trento.








Cornepicia Prunefira, 2011. 70x100 cm. Coleção particular.








Detalhe Cornepia Prunefira.









Phylloostachys edulis, 2010. 150x100 cm. Coleção particular.










Platymiscium florimbundum, 2011. 70x100 cm. Coleção particular.











Detalhe Platymiscium florimbundum.










Cordia Trichotoma, 2011. 100x150 cm Coleção particular.










Atelier.




(Texto critico, original em italiano, escrito por Giulia Gibertoni, presente no catalogo da 54° Bienal Internacional de Arte de Veneza)



L'EFFIGIE SUL TACCUINO

MEMORIE DI UN NATURALISTA ROMANTICO



La prima ragione di poesia per Wordsworth è quella celebre delle emozioni ricordate in tranquillità (« emotions recollected in tranquillity »): emozioni cercate, desiderate per necessità intima. Le sensazioni sono recepite tramite un'avventura dello spirito, ossia il contatto non mediato e impari e impetuoso con la natura e i suoi elementi, infine le emozioni raccolte sono dispiegate in ideale solitudine, dipanate con passione, decifrate e messe in ordine, almeno tanto quanto sia possibile a un animo romantico.

La creazione è in due movimenti: il primo è l'esporsi all'attacco, alla forza della natura e delle sue misteriose simmetrie, il secondo è il ritrarsi coerente; c'è il passaggio della soglia e c'è la volontà di ricordarlo, traducendolo in unità di senso amiche, rassicuranti. Uno: ricerca del sublime; due: protezione dal sublime. Il secondo movimento è il tentativo di riportare quelle stesse emozioni a noi, al di qua dell'ineffabile, al riparo dall'esperienza liminale.

In una insolitamente matura congiunzione di esperienze, la poetica di Jairo Valdati armonizza questo tipo di idealismo con la sua storica opposizione naturalistica. Fondendo gli opposti, la suggestiva instabilità romantica trova infine compimento in un terzo movimento: quello dell'osservazione partecipante, grazie alla quale la suggestione si fa sistema mentre la scientificità naturalistica diventa emozione condivisa e aggetta dal taccuino come una struttura di segni parlanti. Che raccontano essenzialità ed emozione, ossia tutto ciò che è vita e solo ciò che è vita e nient'altro. Proprio la ragione che spinse Thoreau ad andare nei boschi (per vivere in saggezza e profondità, per sbaragliare tutto ciò che non era vita) è la stessa ragione che ci trattiene a pensare nei giardini di Jairo Valdati.

Giulia Gibertoni

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