domingo, 15 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Guilherme Dable




Guilherme Dable tem o desenho como o suporte preferido para sua obra. É professor. Foi selecionado para o Rumos Itaú Cultural e participou da exposição Novas Aquisições da Coleção Gilberto Chateaubriand. MAM, RJ. Vive e trabalha em Porto Alegre.


Guilherme, fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em Porto Alegre, em 1976, e morei aqui praticamente toda a minha vida. Me graduei em Artes Visuais no Instituto de Artes da UFRGS, onde estou concluindo o mestrado. Antes disso, cursei Comunicação Social, que não cheguei a terminar.

Como a Arte entrou em sua vida?
Apesar da minha família ser da área das exatas (pai engenheiro e mãe bioquímica), lembro de ir a exposições e museus desde pequeno. Li muita HQ na infância, e entrei de cabeça na música pelos 12 anos. Desenhava constantemente durante a infância, até uns 14 anos, quando comecei a tocar contrabaixo e deixei o desenho de lado. Voltei a desenhar em 2004.

Como foi sua formação artística?
No período em que trabalhei com design gráfico e propaganda, sempre frequentei exposições, comprava alguns livros sobre arte e artistas. Em termos de formação acadêmica, ela se deu a partir de 2006, quando entrei no curso de Artes Visuais da UFRGS. Em 2007, estudei com Charles Watson no Rio e Janeiro, e ainda participei de alguns cursos com Jailton Moreira, aqui em Porto Alegre, além de diversos outros cursos complementares.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Muita gente, não apenas da área das artes visuais. Vai de Bill Viola a Bob Dylan, de Manoel de Barros a Bruce Nauman; Beck, John Cage, Rauschenberg, Terry Winters, Sean Scully, Richard Diebenkorn, Robert Smithson, Cildo Meireles, Richard Serra, Saul Bass, Helio Oiticica, Mira Schendel, Jasper Johns. Da mesma forma, as trocas com artistas próximos são muito ricas. Conversas com amigos artistas, como meus colegas de Atelier Subterrânea, Cadu, Rafael Pagatini, Diego Silveira, Luciana Paiva, Lia Menna Barreto, Gil Vicente, Flávio Gonçalves, Marina Camargo, Romy Pocztaruk, Elida Tessler, Manoel Veiga, Amélia Brandelli, Edith Derdyk, Pablo Lobato, Evandro Machado, enfim, dava pra citar muita gente aqui... são alguns dos interlocutores com quem eu sempre troco muita coisa, e essas trocas são sempre muito valiosas. Não sei como é com outros artistas, mas essas conversas acabam sendo altamente influentes no meu pensamento.

Como você descreve sua obra?
Minha prática gira em torno do desenho, como eixo central. E questões relacionadas à memória me são muito caras também. Acho que isso fica mais evidente nos livros de artista com as páginas sublinhadas, que são espelhos de alguns dos livros que li e que, por hábito, os sublinho, sejam eles de teoria da arte, filosofia, literatura, qualquer um. A série Tacet, que foi selecionada para o Rumos Artes Visuais, também se utiliza de questões de memória e tempo, no registrar a ação do fazer desenho enquanto se faz música. Na montagem do trabalho, ambos os campos (música e desenho) se colocam em tensão (anexei um vídeo que registra a montagem do trabalho em 2011, em Porto Alegre). E os desenhos e pinturas partem de desenhos de observação muito rápidos que faço na rua, da paisagem, e que reconfiguro no atelier. Tem vezes que, olhando os trabalhos juntos, eles parecem muito diferentes entre si, mas acho que essas questões de memória tecem um fio condutor.
Sobre desenhar, eu diria que é uma maneira de tentar entender o mundo através da observação. Ou talvez de tentar entender como eu enxergo o mundo. Ou ainda, no final das contas, de tentar me enxergar nesse mundo.


O que é o Ateliê Subterrânea?
O Atelier Subterrânea é um espaço gerido por sete artistas, que se propõe a divulgar e discutir a produção contemporânea através de exposições, conversas entre artistas e público, cursos e outras manifestações, como performances musicais, por exemplo. É comum que esperem de nós uma produção artística como coletivo, mas vejo a existência do Atelier e todas as atividades como essa produção artística coletiva. O que acontece também é de sermos convidados a expor como grupo de artistas. Fica uma curiosa ambiguidade entre exposição individual do Atelier Subterrânea e exposição coletiva dos artistas do grupo. Em 2012 vamos expor na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em abril, e na Galeria LOGO, em São Paulo, no mês de junho.

O que significou para você ser selecionado para Rumos Itaú Cultural?
A oportunidade de ter meu trabalho divulgado para um número muito significativo de pessoas, e o reconhecimento de um amadurecimento de minha pesquisa. Creio que a seleção veio em um bom momento para mim. Tem sido muito intenso e produtivo ultimamente.

Que exposição você considera a mais significativa?
Pelo número de pessoas que está conhecendo meu trabalho, o Rumos Artes Visuais, certamente. Por outro lado, na exposição "Passagens Secretas", no CCSP, em 2007, a primeira performance ao vivo da série Tacet foi um ponto crucial para a minha pesquisa, e é curioso que isso tenha acontecido na frente das pessoas, por nunca ter pensado a performance como parte do trabalho. Por esse ponto, em termos do impacto que o momento teve sobre mim, talvez essa seja a mais significativa, por ter me dado um momento que me apresentou questões que reverberam até hoje.
Na verdade, diria que praticamente todas são muito significativas, cada uma a seu modo. Minha primeira exposição no Rio, "(Des)equilíbrios e (Im)perfeições", na galeria Coleção de Arte, foi outra experiência muito significativa, início de uma relação com a galeria, que já rendeu alguns bons frutos. "Silêncios e Sussurros"(Fundação Vera Chaves Barcellos, 2010) foi outra muito importante, por ver meu trabalho em uma coletiva grande, e acompanhado de alguns artistas que me são referência. O projeto "Espaços Compartilhados", também em 2010, na galeria Gestual, em Porto Alegre, com os artistas Túlio Pinto e Gerson Reichert, também foi uma experiência muito produtiva, pelo rodízio que fizemos durante 3 meses nos 3 espaços da galeria, apresentando diferentes trabalhos. Todas essas foram, a seu modo, muito importantes. Sinalizaram muitas coisas, muitos pontos a refletir sobre o trabalho. Foram momentos muito bons de voltar para o atelier depois.

Você escreve sobre seu trabalho?
Sim. Mantenho cadernos onde faço anotações e reflexões sobre minha produção. Costumo escrever sobre o trabalho quando ele está em exposição. E, claro, o mestrado tem feito com que eu escreva com uma frequência muito maior, nos últimos dois anos, o que tem sido ótimo para o desenvolvimento de minhas pesquisas em arte.

Além de artista você é professor, como descreve essa atividade?
Pra mim é muito gratificante transmitir conhecimento. Tive professores muito generosos e que foram exemplares nesse sentido. Além disso, é uma maneira de estar sempre revendo conceitos, retrabalhando-os e pesquisando constantemente. Tentar orientar sem direcionar apenas para o que me interessa pessoalmente é um exercício e tanto.

Que conselho você daria a um jovem artista para ser representado por uma galeria?
Que mantenha o foco em fazer um trabalho consistente e um portfolio bem organizado. Ou, em outras palavras, que não se preocupe muito com ter uma galeria. Acredito que as coisas vão tomando o seu rumo com o tempo, mas o foco tem que ser no trabalho. E não seja chato, não fique demais no pé das pessoas (acho que isso serve pra muita coisa, na verdade).

O que é necessário para ser um ícone nas artes plásticas?
Não faço a menor ideia! (risos) Uma obra consistente, com certeza. E um grupo responsável pela nomeação, coisa que algum outro braço do sistema das artes vai fazer.

Quais são seus planos e sonhos para o futuro?
Seguir com a possibilidade de produzir e lecionar para pessoas interessantes e interessadas. Ter tempo e a cabeça no lugaro suficiente pra colocar alguns projetos em prática.

Sem título, 2010.






Sem título, 2012. 100x160 cm.





Sem título, 2010.
Sem título, 2011. 150x150 cm.

Sem título, 2009.
Sem título, 2009.





Sem título, 20011. 100x70 cm.





Sem título, 2011. 150x200 cm.





Tacet, 2007.


É possível conhecer mais sobre o artista em http://vimeo/guilhermedable





Prêmios:

2011 - Selecionado pelo Programa Rumos Artes Visuais promovido pelo Itaú Cultura
2010 - Prêmio Aquisição do 19º Salão da Câmara Municipal de Porto Alegre
2007 - Destaque na Bolsa Iberê Camargo

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