segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Eduardo Lopes Pontes.

Daniel Senise The Last Supper (2003) Óxido de ferro sobre cretone.

Nelson Leirner Ponte (2008). Técnica mista. 98x26x17 cm.
Angelo Venosa Sem ttulo (2003). Lâminas de vidro 57x20x12cm.



Daniel Senise
Série Ela que Não Está (1994) Verniz poliuretônico, pó de ferro e lacra sobre cretone. 193x305 cm.


Daniel Senise Portrait the Artist's Mother (1992). Acrílica e óxido de ferro sobre cretone. 202x200cm.



Eduardo Lopes Pontes nasceu no Rio de Janeiro, filho do renomado médico e professor catedrático da Faculdade de Medicina da UFRJ e de Da Ruth. Estudou no Colégio São Bento. Em 1975, formou-se em Medicina. Trabalhou como médico no INSS. Em 1978, foi contratado como auxiliar de ensino pela Faculdade de Medicina, UFRJ. Em setembro do mesmo ano, foi cursar o Doutorado na Universidade de Oxford, ligada ao Linacre College, onde defendeu sua tese. Ao retornar ao Rio de Janeiro, reassumiu seu cargo na UFRJ e iniciou suas atividades em clínica privada. Eduardo é Professor da Faculdade de Medicina, UFRJ, professor da Universidade Gama Filho e da Fundação Souza Marques. É Chefe da 9a Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia, Membro da Academia Nacional de Medicina, da Sociedade Britânica de Gastroenterologia e do American College of Gastroenterology. Nas poucas horas vagas dedica-se ao tenis e à arte contemporânea. É casado com Marcia e tem duas filhas.
Eduardo quantas obras você tem em sua coleção?
Exatamente não sei, mas estimo estar acima de 200.
Como foi o início?
Eu herdei de meu pai o gosto pelo desenho e, sempre fui um interessado em arte. Tive aulas de desenho contemporâneo com Ricardo Basbaum, mas a Medcina fica com o tempo todo. Por essas coisas da vida, o Daniel Senise é meu cliente e amigo. Foi por meio dele, conversando sobre arte e visitando seu ateliê, que eu comprei a primeira obra The Last Supper. E aí continuei.

Em relação ao próprio Daniel Senise, você tem duas das melhores obras, o Retrato da Mãe e uma gigantesca tela da série sobre Giotto. São peças importantes?
Sem dúvidas, são importantíssimas. O retrato da mãe é uma referência ao trabalho de Whistler, Arrangement in Grey and Black, The Artist Mother. A outra, um trabalho muito grande da série Ela que Não Está baseada na obra de Giotto é extraordinária. Daniel foi muito feliz em produzir algo tão significativo.
Você poderia citar alguns artista de sua coleção?
É complicado. Citarei alguns por ordem alfabética: Adriana Varejão, Amilcar de Castro, Ângelo Venosa, Amtônio Dias, Anna Maria Maiolino, Chelpa Ferro, Daniel Senise, Iberê Camargo, Katie van Scherpenberg, Luiz Ernesto, Luiz Zerbini, Mira Schendel,Nelson Felix, Nelson Leirner, Tunga, Vic Muniz e os estrangeiros Jeff Koons, Tàpies e a fotógrafa argentina Flavia da Rin.
E artistas novos com futuro garantido?
Todos que aqui estão, mas citarei dois Felipe Barbosa e Marcelo Solá.
Você tem por hábito conversar com o artista antes de adquirir uma obra. O que busca com isso?
A forma ideal de se adquirir um objeto de arte passa por um conhecimento mais profundo do artista em questão. O processo de criação e a evolução do trabalho são, em minha opinião, melhor apreendidos se o interessado conversar com o artista. Nem sempre isso é possível, e aí, a leitura de livros, catálogos, artigos sobre o artista e troca de impressões com outros colecionadores podem ajudar na decisão de comprar ou não o trabalho.
Você não tem a preocupação em negociar com arte, mas ficou famosa a venda de um trabalho da Beatriz Milhazes de sua propriedade. O que aconteceu?
Eu recebi uma proposta considerada irrecusável. Pesou muito o argumento de que com o produto da venda eu poderia aumentar a coleção, adquirindo principalmente artistas jovens e outros já conhecidos como Antônio Dias, José Rezende, Nelson Leirner, Emanoel Nassar, Tunga e Iberê Camargo. Assim foi feito.
Existe algum trabalho com significado especial para você?
Todos são importantes, tanto que não compro para arte para revender. Alguns, tenho apego maior como os quadros de Daniel Senise e Iberê Camargo e os trabalhos de Anna Maria Maiolino, Ângelo Venosa, Nelson Leirner e Tunga.
Qual o critério para comprar obra de artista emergente?
O critério que uso é muito intuitivo, difícil de explicar, mas passa pela qualidade do acabamento, o fato de não ser trabalho meramente decorativo, ter um conceito ou algo inovador, esses são os fatores mais importantes.
Há muitos artistas emergentes com credenciais para estar em sua coleção, mas você não os conhece e nem eles conhecem você. Qual a sugestão para aproximar colecionador e artista?
Acho que o papel das galerias e da mídia seria importante nessa divulgação. Não é possível, hoje em dia, conhecer todos os artistas, principalmente aqueles que ainda não explodiram.
Qual sua opinião sobre curadores e críticos?
Acho que são importantes, mas muitas vezes eles usam uma linguagem hermética, inascessível ao grande público, o que não facilita e, pode até mesmo inibir a formação de novos colecionadores.
E as galerias?
Sinto falta de um trabalho educativo por parte das galerias, algo que permita ao comprador em potencial decidir com mais cuidado o que ele vai adquirir. Mesmo que a venda não ocorra de imediato, a galeria estaria formando um futuro cliente. Como a divulgação da arte no Brasil é, ainda, muito deficiente, as galerias poderiam assumir a liderança nesse setor e, poderiam aumentar o volume de vendas em consequência natural desse serviço.
Você poderia avaliar o preço das obras de aristas brasileiros?
Acho haver um desequilíbrio nos preços. Os artistas com cotação internacional custam e mercem ser caros., mas não poem puxar as cotações de outros artistas em função disso. Em relação ao mercado internacional, os preços de nossos artistas são bastantes atraentes. Considero a arte um ótimo investimento, sem contar o prazer proporcionado para quem compra.
Quais seriam suas próximas aquisições?
Nem sempe é fácil realizar os sonhos, mas penso em Waltércio Caldas e José Damasceno.
O que representa para você viver entre essas obras de arte?
Penso ser a coleção quase um auto-retrato Ela traduz o que eu penso e o que eu sou, porque as escolhas que fiz estão impregnadas de tudo que vivi e aprendi ao longo da vida. Além disso, ela contribuiu muito para o aprimoramento cultural de minhas filhas.
Eduardo, aqui tem de tudo desenho, pintura,objeto, instalação, escultura e fotografia, mas não existe video arte. Por que?
Não tenho uma relação confortável com vídeo arte, acho que, ainda, não me interessou o suficiente. No futuro quem sabe.
Você quer deixar alguma mensagem para os leitores?
O interesse pela arte é capaz de mudar a maneira de encarar a vida. O contato com o artista é enriquecedor. Se interessem, vejam muito, estudem, visitem exposições e comprem arte de qualidade. Vale a pena.
Obrigado Eduardo
A entrevista com Eduardo foi realizada durante um almoço em casa de nosso amigo comum o cirurgião e colecionador José Ribamar Sabóia de Azevedo. Ela incluiu seguimentos de conversas realizadas entre dois amigos ao longo de trinta anos. Acompanhei a formação dessa magnífica coleção, instalada num charmoso apartamento no Leblon. Ela serve de cenário para a vida de um respeitado médico, sua elegante e charmosa mulher e as duas belíssimas filhas. Eduardo é homem culto, gentil, competente e de relacionamento muito agradavel. Discreto, custou a aceitar falar, mas cedeu ao argumento de poder dar uma excelente cotribuição na compreensão do que ocorre no meio artístico sob a ótica de um colecionador estudioso. Ao buscar informações sobre seu Doutorado em Oxford, encontrei no Linacre College seu nome entre os onze citados como notable former students.

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