domingo, 15 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Edney Antunes




Edney Antunes
O artista vive etrabalha em Goiânia. Seu tema central é o ser humano. Textos de Divino Sobral e Carlos Sena enriquecem a entrevista. Obrigado Edney


Edney , conte um pouco de sua história
Eu nasci em Goiânia , no dia 21 de março de 1966, Onde vivo até hoje , Venho de uma família simples , porém , o meu pai (Já falecido ) , José Antunes), Era escritor e chegou a publicar dois importantes livros da literatura goiana: “Gravatás” é “capoeirão” : acredito que vem daí a minha aptdão para as artes plásticas. Eu me lembro bem de meu pai escrevendo à mão as idéias iniciais de seus livros e contos . E, mesmo ainda não estando totalmente alfabetizado , eu folheava aqueles cadernos e me chamava a atenção , além da bela caligrafia de meu pai , eram os pequenos desenhos que ele acrescentava nas bordas das páginas. Bem mais tarde eu perguntei a ele o que eram aqueles desenhos e com um sorriso ele me disse que sempre quis ser desenhista e aquelas ,Pequenas figuras eram os personagens de seus contos que ele tentava transformar em desenhos. Às duras penas , terminei os estudos fundamentais, pois eu não conseguia me “concentrar”em nada;(hoje eu seria diagnosticado como hiperativo). A minha infância foi muito tumultuada, porém eu era extremamente feliz. Como toda criança imaginativa é, mais foi na infância que comecei a sentir as “dores do mundo “ eu me lembro bem na TV uma cena de tanque de guerra em um campo todo destruído e uma mãe segurando uma criança e gritando . Naquela época as TVs eram preto e branco e eu penso que aquelas imagens eram da guerra no vietnan , pois todos dias apareciam imagens assim na TV,-e , pelo visto , até hoje!

No seu currículo aparece ser autodidata, mas como você construiu seu pensamento ?
Na minha geração , assim como a anterior os artistas , são em sua maioria autodidatas , pois Goiânia é uma cidade ainda jovem com seus 79 anos a minha formação se deu direto com o convívio com outros artistas em ateliers e bares , com conversas até acaloradas em algumas ocasiões , mas depois tudo ficava bem , eu tive o privilégio de conhecer artistas pioneiros em Goiás , Alguns já falecidos como Dj.Oliveira , Cléber Gouveia e o ainda atuante Roos -(um dos que mais admiro) e também tem o Siron, o Poteiro (também já falecido ). A arte em Goiás sempre teve uma grande vocação pictórica a pintura aqui é a linguagem mais usada pelos artistas , e eu também me inicie nesta linguagem .já nos anos 80 , eu me encontrava insastifeito com os limites desse suporte e não enxergava na cena local nenhuma renovação de linguagem , foi então que me chegou às mãos um catálogo sobre a obra de Marcel Duchamp, Em 1987 , Aquilo virou a minha cabeça “ Fui falar com outro artistas de “minha descoberta “ e me “bateram com a porta na cara “ também vieram as dificuldades financeiras , pois eu não queria fazer a mesma pintura para o mesmo mercado . Acabei perdendo o meu atelier e tive que arrumar emprego como (arte – finalista )em uma confecção e como o dinheiro era pouco para comprar material para os meus trabalhos, comecei a recolher objetos nas ruas e recontextualizá-los , em uma tentaviva de “Ready-made “ ,sozinho fui fazendo as minhas pesquisas direcionando o meu pensamento para a arte contemporânea .

Quais artistas influenciam na construção do seu trabalho?
Quando eu vou realizar algum trabalho , o que me inquieta não é a história da arte , ou outros artistas , é sempre algo pessoal ou o meu próprio cotidiano , eu penso o meu trabalho como tentativas de enteder o mundo , é algo intimo , um diálogo silencioso que preciso travar , entre eu mesmo e a existência transitória , mas eu sempre saio com a sensação de ter sido derrotado . E isso me impulsiona a tentar realizar outros trabalhos. Os artistas que mais admiro são aqueles que constroem sensações visuais com pensamentos que tenham a condição humana como eixo de transformações , ex: On Kawara , Marcel Broodthaers e Krzystof wodzko .

Como você descreve a sua obra ?
As questões políticas são sempre observadas por especialistas em minha obra , mas eu falo em meu trabalho deste mundo , tendo o ser humano como assunto , muitas vezes aponto o olhar para próprio mundo das artes como as ações que o mercado toma , levando com isso as mudanças da própria historia da arte . Me vejo como um artista naturalista que retrata a paisagem de seu tempo .

Você tem rotina de trabalho ?
Não,fazer arte para mim é algo extremamente pertubador. Algo de que sempre tento fugir. Mas, por varias implicações , eu acabo sucumbindo e realizando.

Você escreve sobre o seu trabalho ?
Já escrevi mais sobre trabalhos de outros artistas que sobre o meu próprio ,por um lado é um exercício válido escrever sobre a própria obra , mas , por outro , a linguagem escrita pode sobrepujar a própria obra e o artista de enamorar por ela . Eu prefiro “falar “ com objetos em minha obra , esse diálogo é algo importante pra mim ; Eu Sempre formalizo o meu trabalho pelo espaço que os objetos ocuparão.

Além dos estudos sobre artes o que serve de inspiração ?
Até supermercado me inspira , já resolvi algumas questões em minha obra olhando as gôndolas desses espaços .

Você poderia nos dar uma panorama de arte contemporânea em Goiânia e Brasília.
Mesmo estando próximas , o panorma da arte contemporânea em Goiânia e Brasília vive realidades bastante diferentes . até mesmo porque Brasília tem artistas residentes oriundos de diferentes estados brasileiros e até de outros países , enquanto que a maioria dos artistas de Goiás e da região do estado . isso faz com que haja alguns aspectos peculiares na produção local.

Qual a sua opinião sobre os salões de artes?
Eu vejo com bons olhos os salões de arte. Até porque a minha trajetória artística e firmada por passagens e algumas premiações nestes eventos , acredito que , para , o artista iniciante , e uma forma mais democrática de construir uma trajetória , já que as comissões julgadoras São formadas por especialistas de irrefutável méritos, além dos eventos fornecerem publicações (catálogos ) que autenticam as produções , dos artistas.

É possível viver de arte no Brasil?
Hoje se pode dizer que existe um mercado de arte no Brasil., mas, como qualquer mercado, há grandes oscilações de alta e baixa ,neste momento me parece que está em alta , com crescimento de feiras de arte de abertura de novas galerias diariamente , principalmente onde se concentra o mercado entre rio/são Paulo. Agora, isso não livra a maioria dos artistas das dificuldades de sempre, pois há um grande contigente de artistas almejando os mesmo espaços . E, como sabemos , no cimo da montanha cabem poucos.

Quais são os seus planos para o futuro?
Depois de 30 anos de trabalho expondo em espaços institucionais , eu estou focado em me situar melhor no mercado , em recente encontro para analise de portifólios com o curador e critico de ate , Paulo Henkerhoff depois de olhar os meus trabalhos , ele me disse: ”Você construiu uma obra". Os meus trabalhos já figuram em algumas coleções de museus. Quero alcançar o colecionador particular , ou o simples comprador , que são um importante fator na necessidade de se resguardar a memória artística nacional .

Que você faz nas horas vagas?
Gosto de ficar em meu atelier , cuidando do meu pequeno jardim ou lendo os meus livros sobre arte.



De Zero a..., 2000 Instalação. 5000 balinhas sobre parede. Dimensões variáveis



De Zero a .... detalhe.



My Reality Museum, 2004



Reverolhar, 2004. Museu de Arte de Goiânia.




Memória Zen.


Frontier line, 2007.




Oh Boys, 2008. Alumínio. Dimensões variáveis.




Q-Oração, 2005. Instalação




Os novos desaparecidos, 2006. Carimbos, impressão fotográfica e madeira.



Sequestro da História, 1999. Fotografia e plotagem. Dimensões variáveis.



Te esperando, 2006. Instalação, pratos, plotter e talheres. Dimensões variáveis.






O conjunto de instalações que Edney Antunes desenvolveu nos últimos anos exibe um alinhavo conceitual que coloca sua obra dentro de um campo de relações entre arte, política e mídia, tensionando em diferentes níveis questões relacionadas aos problemas debatidos tanto pelo circuito artístico quanto pela sociedade.
Surge, com freqüência, em sua produção um enunciado crítico sobre a distribuição de poder e de visibilidade dentro da própria instituição da arte, sobre o discurso estético manipulado politicamente pela História da Arte e pelo museu como depositário de coleção pública; em certo momento ele coloca em xeque o jogo entre a autoridade do curador e a liberdade do artista.
A apropriação é uma operação bastante recorrente – arrolam-se imagens de revistas e jornais, de celebridades e de acontecimentos, fotografias de autores e fotografias impessoais de crianças desaparecidas, depoimentos de pedintes e logomarcas de produtos agrícolas – e geralmente a reprodução do elemento apropriado no contexto da obra acontece com a aplicação de técnicas e veículos de natureza publicitária, como back-light, plotter e out-door.
Edney estrutura instalações cujos conteúdos são abordados com retórica descritiva ou narrativa, e faz isso como estratégia de aproximação com o público, preocupado com o envolvimento do espectador e em suas implicações. Muitas vezes ele propõe trabalhos interativos que operam com a participação direta do espectador no corpo da obra, convidado a chupar uma bala, a carimbar a mão, a apagar uma tarja sobre os olhos, ou simplesmente a olhar-se no espelho e ver-se refletido dentro da obra, e assim o sentido da visão do espectador passa, também, a ser explorado pelo artista.
Algumas instalações de Edney dão voz aos excluídos e marginalizados para promover a reflexão sobre a realidade social do Brasil; aí entram as imagens de crianças desaparecidas, os retratos dos mendigos, as falas dos pedintes, o prato do faminto. São ícones dos conflitos instalados na realidade de um país repleto de grandes contrastes e de descaso com a população pobre.
O título das obras, escritos em português ou em inglês, é elemento importante que instaura um campo de interpretação onde muitas vezes a ironia se faz presente. Nas obras de Edney o espectador é solicitado tanto a ver imagens e objetos quanto a ler mensagens e textos que funcionam como instruções e chamadas, como depoimentos de conteúdo impactante e como legendas que re-significam as imagens.

Divino Sobral









No início dos anos de 1980, Edney Antunes precocemente apresentou-se ao meio artístico. Autodidata, buscou uma formação solitária, direcionada ao acompanhamento das questões tratadas pela arte brasileira. Antunes passou por muitas fases até chegar a desenvolver trabalhos de consistência – o que ocorreu mais para o final da década. Cabe salientar que o artista desde essa época desenvolveu sua carreira através de participações em Salões e mostras coletivas, e não por meio de exibições individuais. Seu trabalho incorporou repertórios divulgados pelas estéticas do Grafite e do Neo- expressionismo que eram algumas das vogas de então. O artista juntamente com Nonato (artista que integrava o “Atelier Inhumas”) fundou o Grupo Pincel Atômico que respondeu por intervenções de grafite de arte em muitos locais de Goiânia. A experiência com grafite foi concomitante com desenrolar de pinturas em que a figuração humorada e meio pop articulava elementos extraídos do cotidiano, como carros ou comida, revestidos com a citação de uma pele animal executada com cores ácidas, e também com o desenrolar de trabalhos com suportes recortados com figurações que remetiam aos ícones da cultura pop. No final da década, explorou questões relacionadas com representação e gestualidade, abstração e materialidade, e obteve sucessivas premiações nos Salões goianos. As pesquisas matéricas perduraram nos primeiros anos da década de 1990, configuradas nos “Totens” que vergavam o plano à dimensão tridimensional.










Apesar de ter investido no início dos anos 90 na pintura, Edney Antunes logo se concentrou na elaboração de instalações baseadas em diversas apropriações e que enveredavam por reflexões de ordem política, pelo cruzamento de cultura popular com cultura de massas, pelo interesse em tratar temas relacionados com a marginalização cultural e a exclusão social. Depoimentos de pedintes e excluídos foram estampados em camisetas, a imagem de seu auto-retrato como seqüestrador cercada de imagens roubadas da História da Arte, fotos de crianças com tarja nos olhos figuradas como estampas em papéis de balinhas, retratos de adolescentes negros, fotografias de Michael Jackson e da ovelha Dolly com espelhos que refletiam a imagem do público no interior da obra, ou ainda, carimbos para o público carimbar uma imagem em seu corpo, eram manobras que solicitavam uma atitude mais ativa e responsável para com os problemas do mundo real.









Texto de Carlos Sena - Arte Contemporânea de Goiás, de 1970 à atualidade.


http://edneyantunes.blogspot.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário