sexta-feira, 13 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Dione Veiga Vieira



Dione Veiga Vieira Fotografia Fabio del Re.

Dione é mais uma artista gaúcha, o que reforça a qualidade da arte contemporânea do grupo de Porto Alegre. Obrigado Dione.


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Moro em Porto Alegre - cidade em que nasci em 1954. Sou a primogênita de seis irmãos. Minha infância e adolescência foram marcadas por pequenas mudanças, viagens constantes de carro, e principalmente por prazerosas estadias no campo - experiências que instigaram minha imaginação e curiosidade. Meus avós paternos viviam em uma pequena fazenda que se localizava na região do Planalto Médio do estado do Rio Grande do Sul. A beleza e os mistérios desse lugar são marcas indeléveis em minha memória: a amplitude dos campos e céus; os rios e riachos repletos de pedras; as matas de araucárias e as estradas de terra vermelha.
Meu pai graduou-se em Ciências Contábeis, Economia e Administração pela Faculdade de Economia e Administração da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Logo após a sua graduação, nos mudamos para Passo Fundo (RS), sua cidade natal, onde permanecemos por oito anos. Lá completei minha educação primária no Colégio Notre Dame. Nesse período, meu pai foi professor da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas de Passo Fundo. E também, por longos anos gerente administrativo de uma empresa de médio porte, até sua morte prematura, aos 56 anos de idade. Minha mãe pintava e era muito sensível.
Quanto à minha formação superior: completei Bacharelado em Turismo em 1982, Licenciatura em Letras em 1984, e Especialização em Artes Plásticas, em 1986, pela PUCRS.



Como foi sua formação artística?
Começou na infância, influenciada pelo ambiente familiar. Meus pais eram talentosos, e foram os catalisadores de minha formação artística independente. Antes de ser alfabetizada, aos seis anos de idade iniciei estudos de piano em um Conservatório de Música. Aos 17 cheguei a participar de concertos públicos de piano, no auditório da Escola de Música Palestrina de Porto Alegre. Ao mesmo tempo em que estudava música, desenhava de forma autodidata. Na biblioteca familiar havia a maioria dos clássicos da literatura nacional e mundial: escritores que fizeram parte de minhas leituras extracurriculares e que influenciaram a minha formação como um todo.
Em torno dos 15 -16 anos de idade, me apropriei de uma tela já maculada por um esboço de minha mãe. Pintei uma paisagem oceânica sobre um rascunho de palmeiras e céu em tons de vermelho. Ela não se incomodou com esse fato. Talvez, tenha feito isso por um impulso juvenil movido por minha inclinação artística precoce. Até então, nunca havia tido aulas de pintura. Apenas observara minha mãe pintando, e isso já havia me dado subsídios suficientes (concluía assim) para fazer o mesmo. Avalio que foi exatamente nesse momento de extrema impulsividade que me posicionei como artista no âmbito familiar. Logo em seguida, com quase 18 anos, freqüentei aulas de Desenho no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, porém, somente por alguns meses. No início dos anos 80, fiz alguns cursos relâmpagos de Desenho e Pintura com artistas locais. Nessa década também realizei um curso de fotografia com laboratório P&B de câmara escura. Logo após a Licenciatura em Letras, ingressei em um curso de Especialização em Artes Plásticas, na PUCRS.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Pelo meu pensamento perpassam diversos mundos: literatura, filosofia, cinema, psicanálise... São inúmeros os artistas que posso citar, contudo posso incluir alguns filósofos, escritores, poetas, fotógrafos, cineastas, e até mesmo músicos nesse mesmo rol. Entre os artistas: Franz Erhard Walther, Guenther Uecker, Mario Merz, James Lee Byars, Lothar Gaumgarten, Kounellis, Rebeca Horn, Rosemarie Trockel, Eva Hesse,James Lee Gyars, Lothar Gaumgarten, Pistoletto, Piero Manzoni, Kiki Smith, Rachel Whiteread, Ana Mendieta, Haim Steinbach, Victor Grippo, Marcel Duichamp, Wolf Vostel, Yves Klein, Aniish Kapoor, Joseph Beuys, Tapiés, Anselm Kiefer,Lousie Bourgeois. Alguns cineastas: Tarkovski, Kuleshov, Werner Herzog, Krzysztof Kieslowski, Peter Greenaway, Luis Buñuel. Escritores: Clarice Lispector, Gaston Bachelard, Jean-Paul Sartre, Eduardo Galeano, Paul Valéry, Paulo Leminski, Kafka, Gaston Bachelard, entre outros. Teóricos: Roland Barthes, Susan Sontag, Lacan, Jung.


Pinturas, instalações, objetos como elas se complementam? Alguma preferência?
Atualmente, tenho trabalhado mais com Fotografia. No entanto, desde 2003, realizo instalações em que aparecem todas essas categorias de arte: pintura, colagem, objeto, escultura e fotografia. Para mim, são como fragmentos que se completam no espaço da exposição para dialogar com o espectador.


Que exposição sua, você considera a mais importante?
Acho difícil avaliar qual exposição foi a mais importante. Estou considerando importante nesse momento, a exposição “Do Mar Purpúreo”, que está acontecendo na Galeria do Instituto Goethe - Porto Alegre. Além dessa, considero algumas outras também: “O Corpo Invisível”, intervenção na antiga capela luterana Pastor Dohms, Porto Alegre, em 2002; “Fragmentos Primordiais, sala especial MACRS, em 2004; “Condensaciones y Volatilidades”, Casa Tres Patios, Medellín, Colômbia, em 2010; “Solutilis” no DConcept, em São Paulo, em 2011.


Você morou no exterior, isso teve alguma influência em seu trabalho?
Por três anos (1989-1992), morei em Colônia, cidade localizada na região da Renânia Norte - Vestefália, estado industrial mais populoso da Alemanha. Ao lado de Düsseldorf e Bonn, essa cidade é considerada um polo de arte contemporânea, com centenas de galerias de arte e um dos museus mais importante da Europa: o Museu Ludwig . Nessa temporada de três anos, tive a oportunidade de viajar por diversos países tais como Itália, Áustria, Bélgica, Suíça, Hungria, Tchecoslováquia (atual República Tcheca), Holanda, França e Grécia, além da Alemanha. Em cada um desses países, conheci inúmeras cidades, e percorri os seus mais importantes museus. Nesses deslocamentos, uma das experiências mais impactantes foi conhecer Berlim Oriental, a antiga DDR (Deutsche Demockratische Republik) antiga zona de ocupação soviética na Alemanha. E, em seguida, presenciar um fato histórico: a queda do muro de Berlim, do lado ocidental. Isso foi emocionante demais. Inclusive, uma lasca do muro de Berlim está na vitrine horizontal que apresento na atual exposição no Instituto Goethe - Porto Alegre – como um vestígio dessas intensas vivências que influenciaram completamente o meu trabalho.
Durante esse tempo, mantive atelier no Stadtkunst E.V. Köln - espaço cultural construído em uma antiga fábrica no bairro Nippes, e mantido pela Prefeitura da cidade de Colônia. Lá convivi com artistas de todas as partes do mundo. Após voltar ao Brasil, abandonei a pintura como até então estava produzindo, e iniciei trabalhos tridimensionais aliados a novas pesquisas de materiais. Também passei a refletir em torno de minha produção, e a construir instalações na década seguinte.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Viagens, livros, cinema, música.


Você tem uma rotina de trabalho?
Minhas atividades não são regradas com horários e pausas. Costumo ficar muito focada no trabalho, e às vezes, acabo ultrapassando os limites do próprio corpo, com poucas horas de sono, por exemplo. Gosto de trabalhar à noite, devido ao silêncio noturno. Também costumo trabalhar nos sábados, domingos e feriados.


Quais são seus planos para o futuro?
Continuar cultivando tudo o que realmente importa na vida: a alegria, a paz, as amizades, a pluralidade e a liberdade de criação. Materialmente, almejo um espaço maior para trabalhar.


O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Não acredito em fórmulas e tampouco, em conselhos. Arrisco dizer que - acima de qualquer coisa - o jovem artista tem que acreditar em si mesmo, trilhar o seu próprio caminho.


O que você faz nas horas vagas?
Gosto de ir ao cinema, ler, ouvir música, caminhar pelas ruas, receber amigos em casa.






1- Dione Veiga. Fragmentos Primordiais, 2004. MACRS. Porto Alegre. Crédito da foto: Fábio Del Rei



Condensaciones Y Volatilidades, 2010. Vista parcial. Casa de Tres Patios, Medelin, Colômbia.




O Corpo Invisível, 2002. Capela Dohms. Porto Alegre. Crédito de Foto: Fábio del Re.








Do mar purpúreo, 2012. Göthe Institute, Porto Alegre. Crédito da foto: Fabio del Re.






Do mar purpúreo, 2012. Göthe Institute, Porto Alegre. Crédito da foto: Fabio del Re.






Do mar purpúreo, 2012. Göthe Institute, Porto Alegre. Crédito da foto: Fabio del Re.





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