segunda-feira, 16 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista David Glat



David Glat


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci no Rio de Janeiro em 29/05/1946, filho de pais judeus, imigrantes da Polônia. O meu pai era comerciante e a minha mãe dona-de-casa. Completei o ensino médio no Rio de Janeiro. Lá viví até os meus 30 anos, quando me mudei para Salvador.
Como foi sua formação artística?
Formação nenhuma, apenas informação, movido por insaciável curiosidade.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Federico Fellini, Duane Michals, Akira Kurosawa, Ansel Adams, Campos de Carvalho, Kafka, Igor Stravinsky, Orson Welles, Wong Kar-Wai, Miles Davis, ...

Você começou com fotografia publicitária, como migrou para a fotografia artística?Comecei fotografando para publicidade ainda no Rio de Janeiro, em 1973. Fiz essa escolha por razões econômicas: na época me pareceu que este era o único segmento, dentro do campo da fotografia, onde eu poderia manter o padrão de vida de classe média no qual eu havia vivido até então. E de fato, eu não estava errado. No período de 30 anos em que atuei neste segmento, desenvolvi muito o meu conhecimento técnico, ganhei dinheiro, morei bem e vivi bem. Também é verdade que sempre me ressenti da pouca liberdade criativa de que desfrutava como "fotógrafo de encomendas": um fotógrafo publicitário tem necessariamente que ser muito versátil e criativo, mas só no sentido de encontrar soluções para problemas que foram criados por outras pessoas. Neste sentido, é muito grande a exigência de jogo de cintura e de criatividade técnica. Por outro lado, as possibilidades de exercitar a criatividade artístíca são muitíssimo limitadas. A nossa contribuição se limita a sugestão de uma luz ou de uma textura. Tudo o mais já está previamente definido e aprovado pela agência de publicidade e pelo cliente da agência. Expressão pessoal então, não existe a menor chance. Por isso, à partir do início da década de 90, paralelamente à atividade publicitária, começei a desenvolver trabalhos na área do design de capas de discos. Era a época de ouro da indústria fonográfica e também do Axé Music. Criei, sozinho ou em parceria com diversos outros artistas gráficos, mais de 50 capas de LPs, CDs e DVDs, ganhei dinheiro e prêmios locais, nacionais e internacionais. Neste segmento as possibilidades de criação eram mais amplas do que na publicidade, apesar das regras e balizamentos exercidos pela indústria do disco. No fim da década de 90, este segmento começou a conhecer a sua decadência. Naquelas alturas centenas de profissionais de outras áreas já haviam migrado para este setor, de modo que os valores pagos começaram a ficar cada vez menos interessantes. Aos poucos, fui saindo e voltando a me dedicar exclusivamente, com muita insatisfação, à fotografia publicitária.
Com a melhoria dos equipamento fotográficos digitais e com propagação do uso de programas de manipulação e tratamento de imagens, o trade publicitário passou a dispor uma enorme quantidade de fotógrafos com pouca experiência e conhecimento técnico, dispostos a trabalhar a baixo custo: ninguém precisava mais de uma
fotografia perfeita - tudo pode ser concertado no photoshop. Neste momento, a minha já antiga insatisfação ganhou um argumento indiscutível: não estava mais valendo a pena. Corria o ano de 2003 e decidi parar com a publicidade. Comecei então a me preparar para exercer aquela que havia sido a minha motivação primeira dentro da fotografia: a fotografia autoral. Naquele mesmo ano, apresentei, dentro do V Mercado Cultural, no Foyer do Teatro Castro Alves, a exposição em grandes dimensões Soterurbanoramas. Em 2006, apresentei no 13º Salão do MAM a foto-instalação Torta Xadrez II, primeira parte do projeto Tortas Panorâmicas, nos anos seguintes reapresentada na Galeria do Conselho de Cultura e na Semana França Brasil da Escola de Belas Arte da UFBA. Em 2009, apresentei no MAM a exposição Pérolas Imperfeitas, que no ano seguinte foi montada em outras 5 capitais. Neste momento, paralelamente a itinerância da minha coleção de brinquedos populares, me dedico a segunda etapa das Tortas Panorâmicas e à retomada de um projeto antigo de fotografias, ainda inédito: Urbanidades.

Como você descreve sua obra?
Antes de mais nada, acho que ainda não tenho e talvez nunca chegue a ter uma "obra", no sentido de uma continuidade constituinte de uma unidade. Tenho apenas trabalhos. Começei há relativamente pouco tempo e me sinto atraído por uma grande diversidade de interesses conceituais e estéticos. Numa única palavra, a minha "obra", por enquanto, só pode ser definida como ... geminiana.

Que exposição sua, você considera a mais importante?
Apesar de gostar de tudo o que expús até hoje, considero mais importante a foto instalação Torta Xadrez II, apresentada em 2006 no 13º Salão do MAM-ba. Lamento que este trabalho nunca tenha sido exibido fora da Bahia. Apesar disto, esta série irá ter continuidade.

Como você descreve o mercado de arte em Salvador?
Pequeno e provinciano.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
A paisagem urbana de Salvador. A leitura das páginas policiais e internacionais dos jornais.

É possível viver de arte no Brasil?
É possível sim, para poucos.

Você tem uma extraordinária coleção de brinquedos populares brasileiros, você poderia contar a história dela?
Tudo começou, lá pelos meus 20 anos de idade, apenas como um gosto pessoal pela arte popular e, dentro dela, especialmente pelo segmento dos brinquedos. Viajava bastante pelo interior para fotografar e aproveitava para pesquisar e conhecer os artistas populares das cidadezinhas. A minha casa era toda decorada com objetos de arte popular, especialmente brinquedos. Um belo dia, me dei ao trabalho de contar e percebi que já eram 300. Então já era uma coleção e eu já era um colecionador. Continuei, nos anos e décadas seguintes, a viajar e a adquirir os brinquedos. Nessas alturas o meu estúdio fotográfico também era decorado de cima a baixo com brinquedos. No início de 2010, recebi em minha casa a visita de Emanoel Araujo. Levei-o ao estudio para conhecer a coleção e ele ficou encantado. Disse que queria expô-la no seu Museu Afro Brasil de São Paulo. Argumentei que a coleção era muito pessoal, que só tinha brinquedos de meu interesse, brinquedos de menino. De fato, não tinha bonecas, nem mobília, nem panelinhas nem todos as outras coisas que fazem parte do universo infantil feminino. Ele então "ordenou" complete a sua coleção. Por coincidência, naquele ano, eu estava itinerando com a minha exposição Pérolas Imperfeitas", por diversos estados nordestino. Aproveitei as viagens para completar, aumentar e melhorar a coleção.

Recentemente você mostrou parte da coleção numa exposição, você poderia nos dizer como foi a experiência?
A experiência ainda está sendo: a exposição permanecerá em cartaz no Museu Afro Brasil até início de abril. Não importa o nível socio-econômico-cultural, o estado ou país de origem e a faixa etária, o brinquedo popular é uma objeto que toca imensamente as pessoas. Seja por reminiscências da infância, seja por valorização da cultura popular, seja pela curiosidade em conhecer manifestações em estado puro da alma popular, seja pela beleza plástica e cromática, seja pela percepção da presença do gênio criativo, o fato é que absolutamente ninguém passa indiferente diante dos brinquedos populares. Para as nossas crianças de hoje então, que só conhecem os jogos eletrônicos, as bonecas-que-fazem-tudo, os controles remotos e os computadores, é uma descoberta e um deslumbramento. Elas ficam simplesmente enlouquecidas. Eu estou imensamente feliz em ver que, o que começou apenas como um gosto pessoal, tem todo este poder de encantamento para as pessoas. Isto em si já seria um retorno mais do que suficiente. Não bastasse isto, tenho recebido telefonemas, cartas e e-mails elogiando e agradecendo a possibilidade de ter visto a exposição, e também convites de instituições de outros estados e até mesmo de outros paises, que gostariam de acolher a coleção.

Os brinquedos são assuntos de sua obra artística?
Não. São um assunto de grande intensidade, porém, paralelo.

Quais são seus planos para o futuro?
Itinerar com a exposição de brinquedos populares por diversas capitais do Brasil e talvez do exterior e, dentro de 3 anos, instalar o Museu do Brinquedo Popular em Salvador; continuar a série "Tortas Panorâmicas", da qual a Torta Xadrez II foi a primeira etapa e dar continuidade a série "Urbanidades", ainda inédita.

O que você faz nas horas vagas?
Viajo, leio, assisto a muitos filmes, bebo vinho.




Altar mór da igreja de São Francisco.



Casa dos Santos da Ordem 3a de São Francisco.



Teto da Ordem 3a de São Domingos.


Urbanidade



Largo do Pelourinho



Torta xadrez Visão parcial interna.



Torta Xadrez Externa




Torta Xadrez vista inferior.



Ladeira da Conceição da Praia.




Mãe Menininha




Coleção de brinquedos populares



Panorama sobre rodas MAFRO



Exposição de brinquedos MAFRO.








Boi de rodinhas.



Noivos voadores Dona Lidalva.



Trem de Madeira



Carro de Pano



Helicóptero de Cabaça Daise e Fred.



Cavalo Marinho João de Alagoas.



Dois bonecos Dona Josefa.



Aeronave Malibu Mestre Cunha.



Barco com girandeiro de brinquedos



Peixeiro


Capas de Cd



Cego final.



Tim Balada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário